TERRAS DO SEM FIM

     JORGE AMADO



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                                 TERRAS DO SEM FIM

                                       JORGE AMADO


                                 "Para Matilde, lembrana do inverno".

             "Homenagem a D. Chostakvitch, compositor e soldado de Leningrado".

"Para Carmen Ghioldi e Teresa Kelman, para Aparecida e Paulo Mendes de Almeida e para Remi
                                        Fonseca".



H dez anos passados escrevi um romance, pequeno e violento; sobre o mesmo tema do cacau,
ao qual volto hoje. Tinha eu ento dezenove anos e iniciava minha vida de romancista. Nesses
dez anos escrevi sete romances, duas biografias, alguns poemas, centenas de artigos, dezenas de
conferncias. Nesses dez anos lutei duramente, viajei, fiz discursos, vivi com meu povo a sua
vida. Constato com imensa alegria que uma linha de unidade jamais quebrada liga no s toda a
minha obra realizada nesses dez anos como a vida que durante eles vivi: a esperana - mais que
esperana, certeza, de que o dia de amanh ser melhor e mais belo. Em funo desse amanh,
cuja madrugada j se levanta sobre a noite da guerra nos campos do este europeu, tenho vivido e
escrito.
                                                                    Montevidu, agosto de 1942.

                    "Eu vou contar uma histria, uma, uma histria de espantar".
                                     (Romanceiro popular)




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                                A terra adubada com sangue
                                            O Navio

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    O apito do navio era como um lamento e cortou o crepsculo que cobria a cidade. O capito
Joo Magalhes encostou-se na amurada e viu o casario de construo antiga, as torres das igrejas.
Os telhados negros, ruas caladas de pedras enormes. Seu olhar abrangia uma variedade de
telhados, porm da rua s via um pequeno trecho onde no passava ningum. Sem saber por que
achou aquelas pedras, com que mos escravas haviam calado a rua, de uma beleza comovente. E
achou belos tambm os telhados negros e os sinos das igrejas que comearam a tocar chamando
a cidade religiosa para a bno. Novamente o navio apitou rasgando o crepsculo que envolvia a
cidade da Bahia. Joo estendeu os braos num adeus. Era como se estivesse se despedindo de
uma bem-amada, de uma mulher cara ao seu corao.
    Dentro do navio homens e mulheres conversavam. Fora, ao p da escada, um senhor de
preto, chapu de feltro na mo, beijava os lbios de uma rapariga plida. Ao lado de Joo um
sujeito gordo, encostado no espaldar de um banco, iniciava uma palestra com um caixeiro-
viajante portugus. Outro consultava o relgio e dizia para quem o quisesse ouvir:
    - Faltam cinco minutos. . .
    Joo pensou que o relgio do viajante estava atrasado, porque o navio apitou uma ltima vez,
os que ficavam saltaram, os que iam se debruaram na amurada.
    O resfolegar das mquinas lhe deu de repente a certeza de que partia e ento se voltou com
uma estranha comoo para a cidade, fitou novamente os velhos telhados, o trecho de rua
calada com pedras colossais. O sino repicava e Joo imaginou que aquele chamado era para ele,
convite para correr novamente as ruas da cidade, para descer as suas ladeiras, tomar mingau nessa
madrugada no Terreiro, beber cachaa com plantas aromticas, jogar ronda nos cantos do
Mercado pela manh, jogar sete-e-meio  tarde na casa de Violeta onde ia uma turma boa, jogar
pquer  noite no cabar com aqueles ricaos que o respeitavam. E pela madrugada sair
novamente pelas ruas, a cabeleira desabada sobre os olhos, dizendo piadas para as mulheres que
passavam de mos cruzadas sobre o peito por causa do frio, procurando encontrar companheiros
para uma farra de violo na cidade baixa. Depois eram os suspiros de Violeta, no quarto da
rapariga a lua entrando pela janela aberta, o vento balanando os dois coqueiros do quintal. Os
suspiros de amor iam com o vento, at a lua, quem sabe?
    Os soluos da moa plida desviaram seus pensamentos. Ela dizia, numa voz de certeza
infalvel:
    - Nunca mais, Robrio, nunca mais. . .
    O homem a beijava numa excitao cheia de dor e respondia com dificuldade:
    - Para o ms eu volto, meu amor, trago os meninos. E voc vai ficar boa. .. O mdico me
disse...
    A voz da moa era dorida, Joo teve pena:
    - Eu sei que morro, Robrio. No vejo mais voc nem os meninos. - Repetiu baixinho: - Nem
os meninos...e rebentou em soluos.
    O homem quis dizer algo, no pde, balanou a cabea, olhou a escada, desviou os olhos para
Joo como quem pedia socorro. A voz da mulher era um soluo: "nunca mais lhe vejo...' O
homem de preto continuava a olhar Joo, estava s com a sua dor. Joo ficou um momento
indeciso, no sabia mesmo como iria acudir o homem de preto, depois quis descer a escada mas
j marinheiros a retiravam, pois o navio iniciava as manobras. O homem s teve tempo de beijar
mais uma vez os lbios da moa, um beijo ardente, prolongado e profundo como se ele tambm
quisesse adquirir a molstia que comia o peito da esposa. Pulou no navio. Mas a sua dor foi mais
alta que seu orgulho e os soluos saltaram do seu peito, encheram o navio que partia, e at o
coronel gordo parou a conversa com o viajante. De fora, algum dizia quase aos gritos:
   - Me escreva. Me escreva...
   Havia outra voz:
   - No v me esquecer...


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   Raros lenos deram adeuses, s de uma face correram lgrimas, face jovem de mulher que
soluava arfando o peito. No existia ainda o novo cais da Bahia e as guas penetravam quase
pela rua. O navio foi se afastando devagar, nas primeiras manobras. A moa que chorava sacudia
o leno mas j no distinguia dentre os que respondiam de bordo aquele a quem dera seu
corao. Logo depois o navio tomou velocidade, os que estavam a v-lo partir, se retiraram. Um
senhor velho pegou no brao da moa e foi com ela, resmungando palavras de consolao e de
esperana. O navio se distanciava.
   Grupos se confundiam nos primeiros minutos da viagem. Mulheres comeavam a se retirar
para os camarotes, homens espiavam as rodas que cortavam o mar, porque naquele tempo os
navios que iam de Bahia para Ilhus tinham rodas como se em vez de irem vencer o grande mar
oceano onde campeia o vento sul tivessem apenas que navegar num rio de guas mansas.
   O vento soprou mais forte e trouxe para a noite da Bahia fragmentos das conversas de bordo,
palavras que foram pronunciadas em tom mais forte: terras, dinheiro, cacau e morte.

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    As casas desapareciam. Joo rodou o anel no dedo, querendo desviar a vista do homem de
preto que limpava os olhos e que dizia, como uma explicao de toda a cena:
    - T tsica, coitadinha. O mdico no deu esperanas. . .
    Joo olhou o mar de um verde-escuro e s ento se lembrou dos motivos por que fugia assim
de cidade. O anel de engenheiro estava perfeito no seu dedo e parecia at feito
propositadamente para ele. Murmurou de si para si:
    - Nem que fosse de encomenda..
    Riu, se recordando do engenheiro. Um pato. Nunca
vira pato to grande. Aquele, de pquer no entendia nada, deixara mesmo tudo que tinha, at o
anel. tambm naquela noite, fazia uma semana, Joo limpara a mesa, s do coronel Juvncio
levara um conto e quinhentos. Que culpa tinha ele? Estava muito bem do seu, estirado seminu na
cama da Violeta, que cantava com sua voz delicada e enfiava os dedos nos seus cabelos, quando o
menino do Tabaris apareceu dizendo que j tinha corrido a cidade toda atrs dele. Rodolfo
sempre lhe arranjava uma banquinha. Quando uma mesa no estava completa, ele perguntava aos
parceiros:
    - Os senhores conhecem o Capito Joo Magalhes? Um capito reformado?
    Sempre havia um que conhecia, que j tinha jogado com ele. Os outros perguntavam:
    - No  rato, no?
    Rodolfo bancava indignao:
    - O Capito joga srio. Joga bem, no se nega a verdade. Mas para um sujeito jogar srio 
preciso que jogue como o Capito.
    Mentia com a cara mais cnica desse mundo e ainda completava:
    - Uma mesa sem o Capito no tem graa...
    Para passar essa cantada, Rodolfo tinha a sua comisso e sabia que mesa onde Joo Magalhes
estava era mesa onde a bebida corria e o barato da casa era pesado. Mandava o menino atrs de
Joo, preparava os baralhos.
    Fora assim naquela noite. Joo estava mole-mole, os dedos de Violeta nos seus cabelos, quase
adormecendo ao som da sua voz, quando o garoto apareceu. S houve mesmo tempo de botar a
roupa e num instante estava aboletado na sala dos fundos do cassino. Do Coronel Juvncio levou
um conto e quinhentos e do engenheiro levou tudo que ele tinha no bolso, levou at o anel de
formatura que o rapaz apostou na hora que se viu com um four de damas na mo, mesmo numa
hora em que Joo Magalhes dera as cartas. Perdeu, porque o four do Capito Joo Magalhes era
de reis. S o outro parceiro, um comerciante da cidade baixa, tivera lucro tambm; duzentos e
poucos mil-ris. Em mesa em que Joo jogasse, outro parceiro ganhava sempre, era da sua
tcnica. E como o Capito tinha um gnio esquisito (diziam os ntimos), escolhia o ganhador pela
cor dos olhos, olhos que mais se aproximassem de uns que haviam ficado no Rio, olhando a
figura do profissional com desprezo e nojo. Era de manh quando todos se levantaram e Rodolfo
avaliou o anel em mais de um conto. O engenheiro jogara por trezentos e vinte no four de
damas. Joo ri no tombadilho do navio. "S gente besta acredita nas damas..."
    Tinha ido para a casa de Violeta bem descansado, pensando na satisfao que a rapariga teria
no dia seguinte quando ele lhe levasse aquele vestido de seda azul que ela vira numa vitrine. Pois
no  que o engenheiro, em vez de perder calado, no outro dia se botou para a policia, contou
uma histria atrapalhada, disse cobras e lagartos de Joo, perguntou de que exrcito era a sua
patente de Capito, e a polcia s no o chamou para uma conversa porque no o encontrou?
Rodolfo o escondera bem escondido, Agripino Doca dissera-lhe maravilhas de Ilhus e do cacau
e agora ele estava naquele navio, depois de ter passado oito meses na Bahia, a caminho de Ilhus,
onde surgira o cacau e com ele fortunas rpidas, o anel de engenheiro no dedo, um baralho num
bolso, um cento de cartes no outro:

                             CAPITO Dr. Joo MAGALHES

                                 ENGENHEIRO MILITAR.

    Aos poucos, a tristeza de abandonar a cidade que tanto amara naqueles oito meses, foi
desaparecendo. Joo comeou a se interessar pela paisagem, rvores vistas ao longe, casas que
ficavam pequeninas. O navio apitou e a gua respingou o chapu de Joo. Ele o tirou, passou o
leno perfumado pela palhinha da copa e o colocou sob o brao.
    Depois alisou o cabelo revolto, propositadamente descuidado, fazendo ondas. E relanceou um
olhar por todo o tombadilho, indo desde o homem de preto que tinha a vista presa ao cais que j
no se via, at o gordo coronel que narrava ao caixeiro-viajante atos de bravura nas terras
semibrbaras de So Jorge dos Ilhus. Joo rodava o anel no dedo, estudava a fisionomia dos
outros viajantes. Ser que encontraria parceiro para uma mesinha?  verdade que levava uma
bolada regular no bolso, mas dinheiro nunca fez mal a ningum. Assobiou devagarinho.
    No navio a conversa comeava a se generalizar. Joo Magalhes sentia que no tardaria a ser
envolvido pela conversa e pensava em como conseguir parceiros a bordo. Tirou um cigarro,
bateu com ele na amurada, riscou um fsforo. Depois se interessou novamente pela paisagem,
porque agora o navio ia bem prximo  terra na sada da barra. Na frente de uma casa triste de
barro, dois garotos nus, de enormes barrigas, gritavam para o navio que passava. Do claro de
outra casa, meio escondida pela janela, uma moa, de rosto bonito, acenou um adeus. Joo
calculou que aquele adeus devia ser ou para o foguista ou para toda a gente que ia no navio. Mas
assim mesmo respondeu, estendendo sua mo magra num gesto cordial.
    O coronel gordo espantava o caixeiro-viajante narrando um barulho que tivera numa penso
de mulheres na Bahia. Uns malandros fizeram-se de besta, tinham querido correr em cima dele
por causa de uma mulatinha. Ele puxou o parablum e bastou gritar:
    - Vem com coragem que eu sou  de Ilhus. . . - para que os malandros recuassem
acovardados.
    O viajante se assombrava com a coragem do coronel.
    - O senhor foi macho pra burro!
   O Capito Joo Magalhes foi se aproximando vagarosamente.

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    Margot saiu de um camarote e atravessou o navio de ponta a ponta rodando a sombrinha de
muito pano, arrastando a cauda do vestido de muito roda, se deixando admirar pelos caixeiros-
viajantes que diziam piadas; pelos fazendeiros, que arregalavam os olhos; at pelo pessoal que ia
na terceira em busca de trabalho nas terras do sul da Bahia. Margot atravessou os grupos,
pedindo licena com sua voz quase sussurrada e em cada grupo se fazia silncio para melhor a
verem e a desejarem. Porm, mal ela passava, as conversas recaam no tema de sempre: cacau. Os
caixeiros-viajantes olhavam Margot passando entre os fazendeiros e riam. Bem sabiam que ela ia
em busca de dinheiro, ganhar facilmente o que muito custara aqueles homens rudes. S no riram
quando Juca Badar saiu da escurido, tomou Margot por um brao e a conduziu para a amurada
de onde viam Itaparica que desaparecia, o casario longnquo da cidade da Bahia, a noite que
chegava rapidamente, a roda do navio levantando gua.
    - Vosmic de onde vem? - Juca Badar corria o corpo da mulher com os olhos midos, se
demorando nas pernas, nos seios. Levou a mo s ndegas de Margot e as beliscou para sentir a
dureza da carne.
    Margot tomou uma atitude de ofensa:
    - No lhe conheo... Que liberdade  essa?
    Juca Badar a segurou por debaixo do queixo, levantou sua cabea de cachos loiros e disse
com voz pausada, os olhos penetrando nos dela:
    - Se nunca ouviu, vosmic vai ouvir falar muito em Juca Badar.. E fique sabendo que 'ta
desde agora por minha conta. Veja como se comporta porque eu no sou homem de duas
conversas.
    Largou bruscamente o queixo de Margot, voltou-lhe as costas e partiu para a popa do navio,
onde os passageiros de terceira se aglomeravam e de onde vinham sons melodiosos de harmnica
e violo.

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   A lua agora comeava a subir para o alto do cu, uma lua enorme e vermelha que deixava na
negrura do mar um rastro sanguinolento. Antnio Vtor encolheu mais as pernas compridas,
descansou o queixo sobre os joelhos. A toada da cano que o sertanejo cantava perto dele se
perdia na imensido do mar, enchia de saudades o corao de Antnio Vtor. Recordava as noites
de lua de sua cidadezinha, noites em que os candeeiros no eram acesos, nas quais ele ia com
tantos outros rapazes, e com tantas moas tambm pescar do alto da ponte banhada de luar.
Eram noites de histrias e risadas, a pescaria era apenas pretexto para aquelas conversas, aqueles
apertos de mo quando a lua se escondia sob uma nuvem. Ivone estava sempre perto dele, era
uma menina de quinze anos mas j estava na fbrica, na fiao. E era o homem da famlia,
sustentando a me doente, os quatro irmos pequenos, desde que o pai abalara uma noite,
ningum sabia para onde. Nunca mais dera notcia, Ivone caiu na fbrica, fazia para todas aquelas
bocas. E as conversas na ponte eram sua nica diverso. Descansava a cabea de cabelos mulatos
no ombro de Antnio e dava-lhe os lbios grossos todas as vezes que a lua se escondia. Ele
plantava uma roa de milho com mais dois irmos nas imediaes da cidade. Mas deixava to
pouco e tantas eram as notcias de farto trabalho e farto pagamento nas terras do sul, onde o
cacau dava um dinheiro, que ele um dia, igual ao pai de Ivone, igual a seu irmo mais velho, igual
a milhares de outros, deixou a pequena cidade sergipana, embarcou em Aracaju, dormiu duas
noites numa penso barata da beira do cais da Bahia e agora estava na terceira classe de um
naviozinho com destino a Ilhus.  um caboclo alto e magro, de msculos salientes e grandes
mos calosas. Tem vinte anos e seu corao est cheio de saudade. Uma sensao que antes ele
no conhecera invade seu peito. Vir da grande lua cor de sangue? Vir da melodia triste que o
sertanejo canta? Os homens e mulheres espalhados no tombadilho conversam sobre as
esperanas dessas terras do sul.
    - Eu me boto para Tabocas... - diz um homem que j no  muito moo, de barba rala e
cabelo encrespado. - Diz que  um lugar de futuro.
    - Mas diz que tambm que  uma brabeza. Que  um tal de matar ?gente que Deus me
perdoe... - falou um pequenininho de voz rouca.
    - J ouvi contar essa conversa... Mas no acredito nem um tiquinho. Se fala muito no mundo...
    - Ser o que Deus quiser. . . - agora era a voz de uma mulher que trazia a cabea coberta com
um xale.
    - Eu vou  pra Ferradas... - anunciou um jovem. - Tenho um irmo por l, t bem. T com o
coronel Horcio, um homem de dinheiro. Vou ficar com ele. J tem lugar pra mim trabalhar.
Depois volto pra buscar a Zilda..
    - Tua noiva? - perguntou a mulher.
    - Minha mulher, t com uma filhinha de dois anos, outro no bucho. Uma lindeza de menina.
    - Tu no volta  nunca... - falou um velho envolto numa capa. - Tu no volta  nunca, que
Ferradas  o cu do mundo. Tu sabe mesmo o que  que tu vai ser nas roas"o coronel Horcio?
Tu vai ser trabalhador ou tu vai ser jaguno. Homem que no mata no tem valia pro coronel. Tu
no volta  nunca.. - e o velho cuspiu com raiva.
    Antnio Vtor ouve? as conversas mas a msica que vem de outro grupo, harmnica e violo,
o arrasta novamente para a ponte de Estncia onde  belo o luar e a vida  tranquila. Ivone
sempre lhe pedia que no viesse. A roa de milho bastaria para eles dois, para que essa nsia de
vir buscar dinheiro num lugar do qual contavam tanta coisa ruim? Nas noites de lua, quando as
estrelas enchiam o cu, tantas e to belas que ofuscavam a vista, os ps dentro da gua do rio, ele
planejava a vinda para estas terras de Ilhus. Homens escreviam, homens que haviam ido antes, e
contavam que o dinheiro era fcil, que era fcil tambm conseguir um pedao grande de terra e
plant-la com uma rvore que se chamava cacaueiro e dava frutos cor de ouro que valiam mais
que o prprio ouro. A terra estava na frente dos que chegavam e no era ainda de ningum. Seria
de todo aquele que tivesse coragem de entrar mata adentro, fazer queimadas, plantar cacau, milho
e mandioca, comer alguns anos farinha e caa, at que o cacau comeasse a frutificar. Ento era a
riqueza tanto dinheiro que um homem no podia gastar, casa na cidade, charutos, botinas
rangedeiras. De quando em vez tambm a notcia de que um morrera de um tiro ou da mordida
de uma cobra, apunhalado no povoado ou baleado na tocaia. Mas que era a vida diante de tanta
fartura? Na cidade de Antnio Vtor a vida era pobre e sem possibilidades. Os homens viajavam
quase todos, raros voltavam. Mas esses que voltavam - e voltavam sempre numa rpida visita -
vinham irreconhecveis aps os anos de ausncia. Porque vinham ricos, de aneles nos dedos,
relgio de ouro, prolas nas gravatas. E jogavam o dinheiro fora, em presentes caros para os
parentes, ddivas para as igrejas e para os santos padroeiros, em apadrinhamento das festas de
fim de ano: "Voltou rico", era s o que se ouvia dizer na cidade. Cada homem daqueles que
chegava e logo partia, porque no mais se acostumava com a pacatez daquela vida, era mais um
convite para Antonio Vtor. S Ivone  que ainda o prendia ali. Os lbios dela, o calor dos seus
seios, os rogos que ela fazia com a voz e com os olhos. Mas um dia rompeu com tudo aquilo e
partiu. Ivone soluara na ponte onde se haviam despedido. ele prometera:
    - Enrico num ano, venho lhe buscar.
    Agora a lua de Estncia est sobre o navio mas no tem aquela cor amarela com a qual cobria
os namorados na ponte. Ela est vermelha, tinta de sangue e um velho diz que ningum volta
destas terras do cacau.
    Antnio Vtor sente uma sensao desconhecida. Ser medo? Ser saudade? Ele mesmo no
sabe o que seja. Aquela lua recorda-lhe Ivone de lbios suplicando que ele no parta, de olhos
cheios de lgrimas na noite da despedida. No havia lua naquela noite, no havia ningum sobre a
ponte, pescando. Estava escuro e o rio murmurava embaixo, ela se encostou nele, seu corpo
quente, seu rosto molhado de lgrimas.
    - Tu vai mesmo?
    Ficou em silencio um longo minuto, triste.
    - Tu vai e no volta mais.
    - Juro que volto.
    Ela fez que no com a cabea, se deitou depois na margem do rio e o chamou. Abriu o corpo
para ele como uma flor se abre para o sol. E deixou que ele a possusse, sem dizer uma palavra,
sem soltar um lamento. Quando ele terminou, os olhos ainda esbugalhados pelo imprevisto da
oferta, ela baixou o vestido de chita onde agora o seu sangue coloria novamente as flores j
desbotadas, cobriu o rosto com a mo e disse com a voz entrecortada:
    - Voc no vai voltar mais, outro ia me pegar um dia qualquer. E melhor ser mesmo com tu.
Assim tu fica sabendo quanto eu gosto de voc.
    - Juro que volto...
    - Tu no volta mais. . .
    E ele veio apesar do gosto do corpo de Ivone o prender ali, de saber que deixara nela um
filho. Dizia para si mesmo que ia fazer dinheiro para ela e para o filho, voltaria com um ano. A
terra era fcil em Ilhus, plantaria uma roa de cacau, colheria os frutos, voltaria por Ivone e pela
criana. O pai dela no voltou, ningum sabia mesmo onde ele estava. Um velho est dizendo
que ningum volta destas terras, nem mesmo os que tem mulher e dois filhos. Por que essa
harmnica no pra de tocar, por que essa msica  to triste? Por que  vermelha como sangue
essa lua sobre o mar?

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   A cano  triste como um pressgio de desgraa. O vento que corre sobre o mar a arrasta
consigo e a espalha em sons musicais que parecem no terminar. Uma tristeza vem com a msica,
envolve os homens da terceira, toma conta da mulher grvida que aperta o brao de Filomeno.
Os sons da harmnica acompanham a melodia que o jovem canta com uma voz forte. Antnio
Vtor se fecha mais em si mesmo, dentro dele as imagens de Estncia quieta, de Ivone se
entregando sem um gemido, se confundem com novas imagens de uma terra ainda
inconquistada, de barulhos com tiros e mortes, dinheiro, maos de notas. Um homem que vai
sozinho e no fala com ningum, atravessa os grupos, vem se debruar na amurada. A lua deixa
um rastro vermelho sobre o mar, a cano rasga coraes.

                                "Meu amor, eu vou-me embora
                                 Nunca mais eu vou voltar."

   Outras terras ficam distantes, vises de outros mares e de outras praias ou de um agreste
serto batido pela seca, outros homens ficaram, muitos dos que vo no pequeno navio deixaram
um amor. Alguns vieram por esse mesmo amor, buscar com que conquistar a bem-amada, buscar
o ouro que compra a felicidade. Esse ouro que nasce nas terras de Ilhus, da rvore do cacau.
Uma cano diz que jamais voltaro, que nessas terras a morte os espera atrs de cada rvore. E a
lua  vermelha como sangue, o navio balana sobre as guas tranquilas.
   O velhote veste capa e traz as pernas nuas, os ps descalos. Tem os olhos duros, pita uma
ponta de cigarro de palha. Algum lhe pede fogo, o velho puxa uma baforada para avivar a brasa
do cigarro.
   - Obrigado, meu tio.
   - No por isso...
   - Parece que vai cair temporal...
   - E tempo de vento sul. . . Tem vez que  uma disgrama, no tem embarcao que arrisista...
   A mulher se envolveu:
   - Temporal tem  no Cear... Parece um fim de mundo. . .
   - J ouvi falar - disse o velho. - Diz que  mesmo.
   Se juntaram a um grupo que conversava em torno de homens que jogam baralho. A mulher
quer saber.
   - Vosmec  de Ilhus?
   - Tou em Tabocas vai fazer cinco anos. Sou do serto...
   - E que veio fazer pra essas bandas com essa idade?
   - No v que primeiro veio meu filho Joaquim... Se deu bem, fez uma rocinha, a velha
morreu, ele mandou me buscar...
   Ficou calado, agora parecia prestar muito ateno  msica que o vento levava para os lados
da cidade escondida na noite. Os outros estavam esperando. Mas s o rumor das conversas na
primeira classe e a toada que o negro cantava quebravam o silencio.

                                  "Nunca mais eu vou voltar.
                                  Nessas terras vou morrer."

    A voz cantava e os homens se encolhiam com frio. O vento passava rpido, vinha do sol e era
violento. O navio jogava sobre as ondas muitos daqueles homens nunca tinham entrado num
navio. Tinham atravessado as speras catingas do serto num trem que arrastava vages e vages
de imigrantes. O velho olhava-os com seus olhos duros.
    - To vendo essa modinha? "Nessas terras vou morrer". T a uma coisa verdadeira... Quem
vai pra essas terras nunca mais volta. . . Tem uma coisa que parece feitio,  feito visgo de jaca.
Segura a gente...
    - Tem dinheiro fcil, no ? - o jovem se atirou para a frente de olhos acesos.
    - Dinheiro. . . T a o que prende a gente. A gente chega, faz algum dinheiro, que dinheiro h
mesmo, Deus seja servido. Mas  dinheiro desgraado, um dinheiro que parece que tem maldio.
No dura na mo de ningum, a gente faz uma roa..
    A msica vinha em surdina, os jogadores haviam parado a "ronda". O velho fitou o jovem
bem dentro dos olhos, depois relanceou a vista pelos demais homens e mulheres que estavam
presos s suas palavras:
    - J ouviram falar em `caxixe"?
    - Diz que  um negcio de doutor que toma a terra do? outros..
    - Vem um advogado com um coronel, faz caxixe, a gente nem sabe onde vai parar os ps de
cacau que a gente plantou. .
    Espiou em volta novamente, mostrou as grandes mos calosas:
    - To vendo? Plantei muito cacaueiro com essas mos que to aqui... Eu e Joaquim enchemos
mata e mata de cacau, plantamos mais que mesmo um bando de jupar que  bicho que planta
cacau... Que adiantou?  perguntava a todos, aos jogadores,  mulher grvida, ao jovem.
    Ficou novamente ouvindo a msica, fitou longamente a lua:
    - Diz que a lua quando t assim cor de sangue que  desgraa na estrada nessa noite. Tava
assim quando mataram Joaquim. No tinham por que, mataram s de malvadez.
    - Por que mataram ele? - perguntou a mulher.
    - O coronel Horcio fez um caxixe mais Dr. Rui, tomaram a roa que ns havia plantado. Que
a terra era dele, que Joaquim no era dono. Veio com os jagunos mais uma certido do cartrio.
Botou a gente pra fora, ficaram at com o cacau que j tava secando, prontinho pra vender.
Joaquim era bom no trabalho, no tinha mesmo medo do pesado. Ficou acabado com a tomada
da roa, deu de beber. E uma vez, j bebido, disse que ia se vingar, ia liquidar com o coronel.
Tava um cabra do coronel por perto, ouviu, foi contar. Mandaram tocaiar Joaquim, mataram ele
na outra noite, quando vinha pra Ferradas. .
    O velho silenciou, os homens no ?perguntaram mais nada. Os jogadores voltaram ao seu
jogo, o que estava com o baralho botou duas cartas no cho, os outros apostaram. A msica
morria aos poucos na noite. O vento aumentava de minuto a minuto. O velho voltou a falar:
   - Joaquim era um homem de paz, ele no ia matar ningum. O coronel Horcio bem sabia, os
cabras tambm sabia. Ele disse aquilo porque tava bbedo, no ia matar ningum. Era um
homem do trabalho, queria era ganhar com que viver... Sentiu que tomassem a roa, isso sentiu.
Mas s falou porque tinha bebido.. No era homem pra matar.. Liquidaram ele pelas costas...
   - Foram presos?
   O velho olhou com raiva:
   - Na mesma noite que mataram ele, tavam bebendo numa venda, contando como o caso tinha
se dado..
   Fez-se silencio no grupo, s um jogador falou: ?
   - Sete...
   Mas o .outro nem recolheu o dinheiro, absorto na figura do velho que agora estava dobrado e
parecia esquecido do mundo, sozinho na sua desgraa. A mulher grvida perguntou baixinho:
   - E vosmec?
   - Me tocaram pra Bahia, que eu no podia ficar mais l... Mas agora tou voltando...
   O velho se alterou de sbito, seus olhos adquiriram novamente aquele brilho duro que haviam
perdido no fim da sua narrao, falou com voz decidida:
   - Agora vou pra no voltar mais. . . ningum agora vai me botar pra fora. . .  o destino que
faz a gente, dona. . . Ningum nasce ruim ou bom, o destino  que entorta a gente..
   - Mas... - e a mulher calou.
   - Pode falar sem susto.
   - Como  que vosmec vai viver?... J no t em idade de pegar no pesado...
   - Quando a gente tem uma teno, dona, a gente sempre se arranja... E eu tenho uma teno...
Meu filho era um homem bom, ele no ia matar o coronel. Eu tambm nunca sujei essas mos -
mostrava as mos calosas do trabalho na terra - com sangue. Mas mataram meu filho...
   - Vosmec? - fez a mulher com espanto.
   O velho virou as costas e saiu devagar.
   - Mata mesmo... - comentou um homem magro.
   A msica cresceu mais uma vez dentro da noite, a lua subia rapidamente para o cu. O que
estava com o baralho balanou a cabea apoiando o comentrio do homem magro, voltou a dar
cartas. A mulher grvida apertou o brao de Filomeno, falou baixinho:
   - Tou com medo. . .
   A harmnica cessou sua msica. O luar se derramava em sangue.

                                                7

    Jos da Ribeira dominava outro grupo. Contava casos da terra do cacau, histrias e mais
histrias. Cuspia a todo momento, estava feliz em poder falar, dizer para aquela gente o que sabia.
Ouviam-no atentamente, como se ouve a uma pessoa que tem o que ensinar.
    - Quase que eu no vinha - diz uma mulher baixa que amamenta uma criana - porque me
contaram que dava uma febre por essas boas das que mata at macaco.
    Jos riu, os outros se voltaram para ele. ele tomou uma voz de conhecedor:
    - No contaram mentira, no, si dona. J vi tanto homem cair com essa febre, homem forte
que nem cavalo. Com trs noites de febre, fora do homem era um dia.
    - No  a tal da bexiga?
    - Bexiga tem muito tambm, mas no  dela que tou falando. Tem bexiga de toda espcie, mas
a que tem mais  a negra que  a pior de todas. Nunca vi macho escapar da bexiga negra. Mas no
 dela que tou falando. Tou falando  da febre, ningum sabe que febre , que nome a desgraada
tem. Vem sem o cujo esperar, liquida ele num fechar de olhos.
    - T'esconjuro... - fez outra mulher.
    Jos cuspiu, relembrou:
 - Apareceu um doutor, tinha tirado diploma de mdico, era mocinho, nem barba possua ainda,
uma lindeza de rapaz. Diz que ia acabar com a febre l em Ferradas. A febre acabou antes com
ele, acabou toda a lindeza; foi o defunto mais feio que eu j vi. Mais feio mesmo que o finado
Garangau que mataram nos Macacos a faca e cortaram todo e arrancaram os olhos, a lngua e a
pele do peito.
    - Pra que fizeram isso com o pobrezinho?  perguntou a mulher que amamentava.
    - Pobrezinho? - Jos da Ribeira riu e sua risada era para dentro, parecia que ele estava se
divertindo enormemente - Pobrezinho? Se j apareceu jaguno ruim pelas bandas do sul foi
Vicente Garangau. Num dia s ele liquidou sete homens de Juparana... Cabra malvado como
Deus no fez dois...
    O grupo estava impressionado mas um cearense troou:
    - Sete  a conta do mentiroso, seu Jos.
    Jos riu de novo, pitou seu cigarro, no se aborreceu:
    - Tu  criana, que  que tu j viu nessa vida? Tu me v aqui, tou com mais de cinquenta no
costado, j andei muita terra, tenho dez anos dentro dessas matas. J fui soldado do exrcito, j vi
muita desgraa. Mas no tem nada no mundo que chegue perto das desgraceiras daqui. Tu j viu
falar em tocaia?
    - J, sim - gritou outro homem. - Diz que um fica esperando o outro atrs de um pau para
atirar no desinfeliz.
    - Pois olhe. Tem homem de alma to danada que se posta na tocaia e aposta dez mil-ris mais
o amigo pra ver de que lado o finado vai cair. E o primeiro que vem na estrada recebe chumbo
que  pra aposta se decidir. Tu j ouviu falar disso?
    O cearense estremece, uma das mulheres no quer acreditar:
    - S pra ganhar uma aposta?
    Jos da Ribeira cospe, explica:
    - Tou aqui, j corri muito mundo, fui soldado, vi coisa de arrepiar. Como por essas bandas
nunca vi nada... terra de homem macho, mas tambm dinheiro  cama de gato. Se o cujo  bom
no gatilho passa vida regalada...
    - E vosmec o que  que faz por l?
    - Fui pra l de sargento da polcia, pus uma rocinha que  bem melhor que as dragonas, tou
vivendo dela. Vim na Bahia agora arejar, comprar umas coisas que tava precisando.
    - E t voltando de terceira, tio? - chasqueou o cearense.
    Ele riu novamente seu riso para dentro, confessou:
    - As brancas comeram o dinheiro todo, meu filho. Dentro daquela mata, ona  que  mulher
da gente... De modo que quando o cujo v um rabo branco, na capital, fica de miolo virado...
Fiquei mais limpo que pedra de rio. . .
    Mas ningum comentou porque agora um homem baixo de rebenque na mo e chapu Chile,
estava parado diante deles. Jos se voltou, cumprimentou humildemente:
    - Como vai vosmec, seu Juca?
    - Como vai, Z da Ribeira? Como vai tua roa?
    - Tou fora, vai fazer trinta dias. . Este ano vou derrubar mais mata, assim Deus me ajude...
    Juca Badar assentiu com a cabea, olhou o grupo:
    - Voc conhece essa gente, Z da Ribeira?
    - Tou conhecendo agora, seu Juca. Por que, se mal lhe pergunto?
    Juca em vez de responder andou mais para o meio dos homens, perguntou a um deles:
    - Voc de onde vem?
    - Do Cear, patro. Do Crato...
    - Era tropeiro?
    - No, sinh. . . Tinha uma plantaozinha. . . - e sem esperar a pergunta: - A seca acabou com
ela.
    - Tem famlia ou  sozinho?
   - Tenho mulher e um filho pra nascer...
   - Quer trabalhar pra mim?
   - Inh, sim.
   E assim Juca Badar foi contratando gente, o jogador que dava cartas, um dos seus parceiros,
o cearense, o jovem Antnio Vtor que olhava o cu de mil estrelas. Muitos homens se
ofereceram e Juca Badar os recusou. Ele tinha uma grande experiencia dos homens e sabia
conhecer facilmente aqueles que serviriam para as suas fazendas, para a conquista da mata, para o
trabalho da terra e pra garantir a terra cultivada.

                                                8

    O Capito Joo Magalhes mandou descer vinho portugus. - O caixeiro-viajante aceitou-O
coronel disse que no, O jogo do navio atacava seu estmago:
    - T um vento brabo. . . Se eu tomar vinho boto os burrinhos n'gua...
    - Cerveja, ento? Um conhaque?
    O coronel no queria nada. Joo Magalhes contava grandezas, sua vida no Rio, capito do
exrcito mas tambm homem de negcios e rico.
    - Sou proprietrio de muitas casas... De aplices tambm...
    Rapidamente estava inventando a histria de uma herana recebida de uma tia milionria e
sem filhos. Falava em polticos eminentes da poca, seus amigos - dizia -, gente que ele tuteava,
com quem bebia e jogava. Deixara o exrcito, se reformara, agora andava viajando o seu pas.
Estava vindo desde o Rio Grande do Sul, pretendia ir at o Amazonas Antes de viajar no
estrangeiro queria conhecer bem o Brasil, no era como essa gente que pega um dinheirinho, vai
logo gastar com as francesas em Paris... O coronel aprovava, achava muito patritico e quis saber
se era verdade que as "tais francesas" que existiam no Rio, se elas faziam mesmo "tudo" ou se
isso era conversa de gente descarada. Porque j tinham dito a ele que no Rio havia uma espcie
de mulheres assim. . Joo Magalhes confirmou e se alongou em detalhes escabrosos, apoiado
pelo caixeiro-viajante que tambm queria mostrar conhecimentos (j estivera no Rio uma vez e
essa viagem era o fato mais importante da sua vida). O coronel se deliciava com os detalhes.
    - O que  que me conta, Capito? Mas isso  uma porcaria. .
    O Capito Joo Magalhes ento carregava nas tintas. Mas no se demorou muito nessas
descries, voltou a falar na sua fortuna, nas suas boas relaes. O coronel no precisava de nada
no Rio. De algum empenho junto a algum poltico importante? Se precisasse era s dizer. Ele
estava ali para servir aos amigos e, se bem tivesse conhecido o coronel fazia pouco, tinha
simpatizado imensamente com ele, seria feliz de servi-lo. O coronel no precisava de nada no Rio
mas ficou muito agradecido e como Maneca Dantas ia passando, pesado e gorducho, a camisa
suada e as mos pegajosas, ele o chamou e fez as apresentaes:
    - Aqui  o coronel Maneca Dantas, fazendeiro forte l da zona... Dinheiro em casa dele 
mesmo que mato...
    Joo Magalhes se levantava, muito gentil:
    - Capito Joo Magalhes, engenheiro militar para o servir. Dobrava o canto de um dos
cartes, entregava ao coronel Maneca. Depois ofereceu uma cadeira, fez que no ouviu o
comentrio do caixeiro-viajante para o coronel Ferreirinha:
    - Moo distinto...
    - De educao...
    O coronel Maneca aceitava vinho. Enjoo no ia com ele:
    - Tou aqui  como se tivesse em minha cama l na Auricdia. Auricdia  o nome l de minha
rocinha, Capito. Se quiser passar uns dias l comendo carne seca...
    Ferreirinha riu escandalosamente:
    - Carne seca... Capito, na Auricdia, almoo  banquete, jantar  festa de batizado. Dona
Auricdia tem umas negras na cozinha que tem mo de anjo... - e o coronel Ferreirinha passava a
lngua nos lbios gulosamente, como se estivesse vendo os pratos. - Fazem um sarapatel que  de
deixar um cristo vendo o paraso...
    Maneca Dantas sorria, inchado, com os elogios  sua cozinha. E explicava:
    -  o que se leva da mundo, Capito. A gente vive numas brenhas danadas, derrubando mata
pra plantar cacau, labutando com cada jaguno desgraado, escapando de mordida de cobra e de
tiro de tocaia, se a gente no comer bem, o que  que vai fazer? L no tem esses luxos da cidade,
teatro, penso de mulher, cabar, nada disso.  trabalho dia e noite, derrubar mata e plantar
roa...
    Ferreirinha apoiava:
    - O trabalho  duro, sim.
    - Mas tambm o dinheiro  de fartura. . . - atalhou o caixeiro-viajante limpando os lbios sujas
de vinho.
    Maneca Dantas sorriu de novo:
    - Que isso  verdade,  mesmo. A terra  boa, Capito, paga a pena. D muito cacau e a
lavoura  boa, deixa bom lucro. Disso a gente no pode se queixar. D sempre para se poder
oferecer um almoo aos amigos...
    - Vou almoar l no dia 16 -- avisou o viajante. Quando eu passar para o Sequeiro Grande vou
pernoitar l.
    - As ordens... - fez Maneca. - E o senhor tambm aparece, Capito?
    Joo Magalhes disse que sim, era bem possvel. Pensava se demorar na zona algum tempo, ia
mesmo ver se valia a pena empregar algum dinheiro em terra, em roas de cacau. Desde o Rio
que vinham lhe falando desta zona, da dinheirama que havia por l. Estava tentado a empregar
uma parte do seu capital em fazendas de cacau.  verdade que ele tambm no podia se queixar,
tinha a maior parte do seu dinheiro em prdios no Rio e davam boa renda. Mas restava-lhe algum
no banco, umas dezenas de contos e muita aplice da dvida pblica. Se valesse a pena...
    Maneca Dantas falou srio, aconselhando:
    - Pois vale, seu Capito. Vale a pena.. . Cacau  uma lavoura nova mas a terra daqui  a melhor
do mundo para cacau. J veio muito doutor por aqui estudar e isso  coisa assentada. No h
terra melhor pro cacau. E a lavoura  o que h de bom, eu no troco por caf nem por cana de
acar. S que a gente ainda  um bocado braba mas isso no h de meter medo a um homem
como o senhor. Seu Capito, eu lhe digo: dentro de vinte anos Ilhus  uma grande cidade, uma
capital e todos esses povoados de hoje vo ser cidades enormes. Cacau  ouro, seu Capito.
    A conversa foi assim se prolongando, falaram da viagem, Joo Magalhes falou de outras
paisagens, viagens de trem, de navios enormes, seu prestgio crescia de momento para momento.
A roda foi aumentando tambm, contavam histrias, o vinho corria. Joo Magalhes foi
conduzindo a conversa subtilmente para o terreno dos jogos, acabaram por fazer uma mesinha
de pquer. O coronel Totonho, dono do Riacho Seco, aderiu, e o caixeiro-viajante desistiu
porque o cacife era muito alto e o "hand" tambm. Ficaram os trs coronis e mais Joo, os
outros peruando. Maneca Dantas tirou o palet:
    - No sei jogar isso. . .
    Ferreirinha estrugiu de novo na sua gargalhada:
    - No v atrs disso, Capito. . . O Maneca  um mestre no pquer... No h parceiro que se
aguente com ele.
    Agora Maneca botava o revlver no bolso de dentro do palet para que no ficasse  vista no
cinto, e Joo Magalhes cogitava se valia a pena perder nesse primeiro jogo, no mostrar de vez
as suas qualidades.
    O rapaz do bar trouxe um baralho, Maneca perguntou:
    - Curingado?
    - Como queiram - respondeu Joo Magalhes.
    - Pquer Curingado no  pquer - falou Totonho e era a primeira vez que ele falava. - No
bote o curinga, por favor.
   - T feita a sua vontade, compadre - e Maneca jogou o curinga no meio das cartas inteis.
   Ferreirinha foi o cacifeiro, cada um comprou quinhentos mil-ris de ficha. Joo Magalhes
estudava Totonho do Riacho Seco que tinha um olho vazado e numa das mos apenas trs
dedos. Era sombrio e calado. Coube a ele dar cartas. Joo tinha resolvido no fazer patota no
jogo, jogar lealmente, at fazer besteira se fosse possvel, perder alguma coisa. Assim ganhava os
parceiros para outras partidas que pudessem render bastante mais.
   Tinha um par de rei na mo, foi ao jogo. Maneca Dantas chamou com mais dezasseis,
Ferreirinha fugiu. Totonho pagou, Joo completou. Ferreirinha deu cartas, Maneca pediu duas.
Totonho pediu uma.
   - Todas as trs... - pediu Joo.
   Totonho deu mesa, Maneca apostou, ningum foi ver. Maneca arrastou a mesa, no se
conteve, mostrou o blefe:
   - Trinca Pirangi. . .
   Estava com um valete, um rei e uma dama, tinha pedido duas cartas para sequncia. Joo
Magalhes riu, bateu palmadinhas nas costas de Maneca:
   - Muito bem, coronel, bem passado esse...
   Totonho olhou com um olhar torvo, no comentou. Joo
   Magalhes perdeu todo o respeito pelos parceiros. Decididamente ia enriquecer nessas terras
do cacau.

                                                9

   O caixeiro-viajante se cansou de peruar o jogo, subiu para o tombadilho. O luar cobria Margot
que cismava debruada na amurada. O mar era de um verde escuro, h muito que as ltimas luzes
da cidade haviam desaparecido. O navio jogava muito, quase todos os passageiros se haviam
recolhido aos camarotes ou estavam estirados em cadeiras de lona, o corpo coberto com grossos
cobertores. Na terceira a harmnica voltara a tocar uma lnguida msica e a lua, agora, estava no
meio do cu. Um frio cortante vinha do mar, trazido pelo vento sul que fazia voar as cabelos
longos de Margot. Ela arrancara os grampos e a loira cabeleira ao vento flutuava no ar. O
caixeiro-viajante assobiou baixinho quando a viu s e foi se aproximando de manso. No levava
nenhum plano traado, uma vaga esperana no corao apenas:
   - Boa noite...
   Margot se voltou, segurou os cabelos com a mo:
   - Boa noite...
   - Tomando fresco?
   - ...
   Novamente olhava o mar onde as estrelas se refletiam. Cobriu a cabea com um leno,
amarrando os cabelos, afastou o corpo para que o viajante pudesse se encostar tambm na
amurada. Ficaram em silencio um longo minuto. Margot parecia no v-lo, distante na
contemplao do mistrio do mar e do mistrio do cu. Foi ele quem falou por fim:
   - Vai para Ilhus?
   - Vou, sim.
   - Vai para ficar?
   - Sei l... Se me der bem. ..
   - Tu estavas na penso de Lsia, no estavas?
   - Hum... Hum.. - e balanou a cabea.
   - Eu te vi l, no sbado. Por sinal que estavas com o doutor. . .
   - J sei... - atalhou ela e voltou a espiar o mar como se no quisesse continuar a conversa.
   - Ilhus  terra de muito dinheiro... Uma bichinha assim to linda como voc  capaz de botar
roa por l... No h de faltar coronel que entre com as massas.
   Ela desviou os olhos do mar, fitou o viajante. Parecia pensar, como se estivesse em dvidas se
devia falar ou no. Mas voltou a olhar o mar sem dizer nada. O viajante continuou:
    - Juca Badar te segurou indagora... Toma cuidado...
    - Quem  ele?
    - E um dos homens ricos da terra... E valente tambm... Falam por l que os trabalhadores
dele tem pintado o diabo. Invadem terra dos outros, matam, fazem e acontecem.  o dono do
Sequeiro Grande.
    Margot estava interessada, ele completou:
    - Dizem que toda a famlia  valente, homens e mulheres. Que at as mulheres tem mortes
feitas. Quer um conselho? No se meta com ele.
    Margot estirou o beio num gesto de desprezo:
    - E quem lhe disse que eu tenho interesse nele? Ele  que t me cercando que nem galo velho
com franga nova. . . No quero nada com ele, no vou atrs de dinheiro...
    O caixeiro-viajante sorriu como quem no acreditava, ela deu de ombros como se pouco lhe
importasse a opinio dele.
    - Contam por l que a mulher de Juca j mandou raspar a cabea de uma rapariga que estava
amigada com ele...
    - Mas quem meteu na sua cabea que eu estou com interesse nele? Ele pode ter as mulheres
que quiser, no tem essa aqui. . . - batia a mo no peito.
    Mais uma vez ficou como que duvidando de falar ou no, se resolveu:
    - Tu no me viu no sbado danando com Virglio? Pois ele est em Ilhus, eu vou ver  ele.
    -  verdade... Estava me esquecendo... Ele est por l, sim. Advogando... Rapaz de futuro,
hein? Dizem que foi o coronel Horcio quem mandou buscar para ele dirigir o partido. . . -
balanou a cabea, convencido. - Se  assim no digo nada. S que aconselho: cuidado com Juca
Badar...
    Se afastou, no valia a pena a conversa, rapariga apaixonada  pior que moa donzela. Como
Juca Badar iria se arranjar? Margot desamarrava o leno, deixava que o vento fizesse voar os
seus cabelos.

                                                10

    Uma sombra desliza pela escada, antes de por o p na primeira classe espia se no h
movimento. Ajeita o cabelo, o leno amarrado no pescoo. As mos ainda esto inchadas dos
bolos que tomou da polcia. No dedo ainda no entra o anelo falso. O subdelegado disse que
nem que tivesse de quebrar aquelas mos, elas no voltariam a se meter nos bolsos alheios.
Fernando escala o ltimo degrau, toma o lado contrrio daquele onde Margot se encontra. Como
vem um marinheiro, se encosta na amurada, parece um passageiro de primeira vendo a noite. Sai
devagar, deita-se junto  cadeira de lona onde o homem ronca. Suas mos sutis deslizam sob o
cobertor, sob o palet, tocam no revlver de ao frio, tiram do bolso da cala a carteira recheada.
O homem nem se moveu.
    Retorna para a terceira. Atira a carteira ao mar, guarda o dinheiro no bolso. Agora anda de
ccoras entre os grupos da terceira que dormem, procura algum. Num canto, deitado de bruos
como se dormisse sobre a terra ressona o velho que volta para vingar a morte do filho. Fernando
tira de entre as notas umas quantas, coloca-as, com toda a sutileza de que so capazes as suas
mos, no bolso do velho. Depois esconde as notas que lhe restaram no forro do palet, suspende
a gola e vai se deitar no canto mais distante, onde Antnio Vtor se imagina em Estncia tendo
junto a si o calor de Ivone.

                                                11

   A madrugada  fria, os passageiros se encolhem sob os cobertores. Margot ouve a conversa
que vem de longe:
   - Se o cacau der quatorze mil-ris esse ano levo a famlia ao Rio...
   - Tou com vontade de fazer uma casa em Ilhus...
   Os homens se aproximavam conversando:
   - Foi um caso feio. Mandaram matar Zequinha pelas costas...
   - Mas, dessa vez vai haver processo, eu lhe garanto.
   - V esperando. . .
 Pararam diante de Margot, ficaram a espi-la sem a menor cerimnia. O baixinho sorria sob um
bigode enorme que alisava a cada momento:
   - Assim voc se resfria, menina...
   Margot no respondeu. O outro perguntou:
   - Onde  que voc vai pousar em Ilhus? Em casa de Machado?
   - Que lhe importa?
   - No seja orgulhosa, menina. No  da gente mesmo que voc vai viver? Olha aqui, o
compadre Moura bem que pode te montar uma casa.
   O baixo riu repuxando os bigodes:
   - E monto mesmo, belezinha.  s dizer sim...
   Juca Badar veio chegando:
   - Com licena. .
   Os dois se afastaram ligeiramente.
   - Boa noite, Juca.
   Juca cumprimentou com a cabea, se dirigiu a Margot:
   - T na hora de ir dormir, dona.  melhor dormir que estar aqui dando prosa a todo mundo...
   Olhou acintosamente para os dois, eles foram se afastando. Margot ficou s com ele:
   - Quem lhe deu direito a se meter na minha vida?
   - Espie, dona. Eu vou descer, vou ver se minha mulher t bem no camarote. Mas volto j e se
encontrar vosmec ainda aqui vai haver barulho. Mulher minha me obedece... - e saiu.
   Margot repetiu com asco: "mulher minha" e foi andando devagar para o camarote. Ainda
ouviu o baixinho, de bigodes, dizer quando ela passava:
   - Esse Juca Badar est merecendo uma lio bem dada.
   Ento se sentiu como se fosse mulher de Juca e perguntou:
   - E por que voc no d?

                                               12

    Sobre o navio que corta a noite do mar se estende um silncio cala vez maior. J no soavam
as harmnicas e os violes na terceira classe. Nenhuma voz cantava j tristezas de amor, lamentos
de saudade. Margot se havia recolhido, ningum mais cismava na amurada do navio. As palavras
dos jogadores de pquer no chegavam at o mar. Banhado pela luz vermelha de uma lua de
pressgios, o navio cortava as guas, coberto agora pelo silencio. Um sono povoado de sonhos de
esperanas enchia a noite de bordo.
    O comandante desceu da sua torre do comando, vinha com o imediato. Atravessaram toda a
primeira classe, os grupos que dormiam nas espreguiadeiras, cobertos com cobertores de l. Por
vezes algum murmurava uma palavra no sonho e estava sonhando com as roas de cacau
carregadas de frutos. O comandante e o imediato desceram pela estreita escada e atravessaram
por entre os homens e mulheres que dormiam na terceira, uns sobre os outros, apertados pelo
frio. O comandante ia calado, o imediato assobiava uma msica popular. Antnio Vtor dormia
com um sorriso nos lbios, sonhava talvez com uma fortuna conquistada sem esforo nas terras
de Ilhus, com sua volta a Estncia, em busca de Ivone. Sorria feliz.
    O comandante parou, olhou o mulato que sonhava. Virou-se para o imediato:
    - T rindo, v? Vai rir menos quando estiver na mata. . .
    Empurrou com o p a cabea de Antnio Vtor, murmurou:
   - Me do pena...
   Chegaram junto  amurada, na popa do navio. As ondas subiam revoltas, o luar era vermelho
de sangue. Ficaram calados, o imediato acendendo seu cachimbo. Por fim o comandante falou:
   - Por vezes me sinto como o comandante de um daqueles navios negreiros do tempo da
escravido...
   Como o imediato no respondesse, ele explicou:
   - Daqueles que em vez de mercadorias traziam negros pra serem escravos..
   Apontou os homens dormidos na terceira. Antnio Vtor que ainda sorria:
   - Que diferena h?
   O imediato levantou os ombros, puxou uma baforada do cachimbo, no respondeu. Olhava o
mar, a noite imensa. o cu de estrelas.

                                           A Mata

                                              1

    A mata dormia o seu sono jamais interrompido. Sobre ela passavam os dias e as noites,
brilhava o sol do vero, caam as chuvas do inverno. Os troncos eram centenrios, um eterno
verde se sucedia pelo monte afora, invadindo a plancie, se perdendo no infinito. Era como um
mar nunca explorado, cerrado no seu mistrio. A mata era como uma virgem cuja carne nunca
tivesse sentido a chama do desejo. E como uma virgem era linda, radiosa e moa apesar das
rvores centenrias. Misteriosa como a carne de mulher ainda no possuda. E agora era desejada
tambm.
    Da mata vinham trinados de pssaros nas madrugadas de sol. Voavam sobre as rvores as
andorinhas de vero. E os bandos de macacos corriam numa doida corrida de galho em galho,
morro abaixo, morro acima. Piavam os corujes para a lua amarela nas noites calmas. E seus
gritos no eram ainda anunciadores de desgraas j que os homens ainda no haviam chegado 
mata. Cobras de inmeras espcies deslizavam entre as folhas secas, sem fazer rudo, onas
miavam seu espantoso miado nas noites de cio.
    A mata dormia. As grandes rvores seculares, os cips que se emaranhavam, a lama e os
espinhos defendiam o seu sono.
    Da mata, do seu mistrio, vinha o medo para o corao dos homens. Quando eles chegaram,
numa tarde, atravs dos atoleiros e dos rios, abrindo picadas, e se defrontaram com a floresta
virgem, ficaram paralisados pelo medo. A noite vinha chegando e trazia nuvens negras com ela,
chuvas pesadas de junho. Pela primeira vez o grito dos corujes foi, nesta noite, um grito
agoureiro de desgraa. Ressoou com voz estranha pela mata, acordou os animais, silvaram as
cobras, miaram as onas nos seus ninhos escondidos, morreram andorinhas nos galhos, os
macacos fugiram. E, com a tempestade que desabou, as assombraes despertaram na mata. Em
verdade teriam elas chegado com os homens, na rabada da sua comitiva, junto com os machadas
e as foices, ou j estariam elas habitando na mata desde o incio dos tempos? Naquela noite
despertaram e eram o lobisomem e a caipora, a mula-de-padre e o boitat.
    Os homens se encolheram com medo, a mata lhes infundia um respeito religioso. No havia
nenhuma picada, ali habitavam somente os animais e as assombraes. Os homens pararam, o
medo no corao.
    A tempestade caiu, raios que cortavam o cu, troves que ressoavam como o rilhar dos dentes
dos deuses da floresta ameaada. Os raios iluminavam por um minuto a mata, mas os homens
no viam nada mais que o verde-escuro das rvores, os sentidos todos presos aos ouvidos que
ouviam, juntamente com o silvo das cobras em fuga e com o miado das onas aterrorizadas, as
vozes terrveis das assombraes soltas na mata. Aquele fogo que corria sobre os mais altos
galhos saa sem dvida das narinas do boitat. E o tropel amedrontador que era seno a corrida
atravs da floresta da mula-de-padre, antes linda donzela que se entregou, numa nsia de amor,
aos braos sacrlegos de um sacerdote? No ouviam mais o miado das onas. Agora era o grito
desgraado do lobisomem, meio homem, meio lobo, de unhas imensas, desvairado pela maldio
da me. Sinistro bailado da caipora na sua nica perna, com o seu nico brao, rindo com sua
face pela metade. O medo no corao dos homens,
   E a chuva caa pesada como se fora o comeo de outro dilvio. Ali tudo lembrava o princpio
do mundo. Impenetrvel e misteriosa, antiga como o tempo e jovem como a primavera, a mata
aparecia diante dos homens como a mais temvel das assombraes. Lar e refgio dos lobisomens
e das caiporas. Imensa diante dos homens. Ficavam pequenos aos ps da mata, pequenos animais
amedrontados. Do fundo da selva vinham as vozes estranhas. E mais terrvel era o espetculo, j
que a tempestade irrompia com fria, do cu negro, onde nem a luz de uma estrela brilhava para
os homens recm-chegados.
   Vinham de outras terras, de outros mares, de prximo de outras matas. Mas de matas j
conquistadas, rasgadas por estradas, diminudas pelas queimadas. Matas de onde j haviam
desaparecido as onas e onde comeavam a rarear as cobras. E agora se defrontavam com a mata
virgem, jamais pisada por ps de homens, sem caminhos no cho, sem estrelas no cu de
tempestade. Nas suas terras distantes, nas noites de luar, as velhas narravam ttricas histrias de
assombraes. Em alguma parte do mundo, em algum lugar que ningum sabia onde estava, nem
mesmo os andarilhos mais viajados, aqueles que cortam os caminhos dos sertes recitando
profecias, nesse distante lugar tem a sua morada as assombraes. Assim diziam as velhas que
possuam a experincia do mundo.
   E, de sbito, na noite de temporal, diante da mata, os homens descobriam esse recanto trgico
do universo, onde habitavam as assombraes. Ali, na mata, em meio da floresta, sobre os cips,
em companhia das cobras venenosas, das onas ferozes, dos agoirentos corujes, estavam
pagando pelos crimes cometidos aqueles que as maldies haviam transformado em animais
fantsticos. Era dali que nas noites sem lua partiam para as estradas a esperar os viandantes que
buscavam seus lares. Dali partiam para amedrontar o mundo. Agora, em meio do rudo do
temporal, os homens parados, pequeninos, ouvem, vindo da mata, o rumor das assombraes
despertadas. E vem, quando cessam os raios, o fogo que elas lanam pela boca, e vem, por
vezes, o vulto inimaginvel da caipora bailando seu bailado espantoso. A mata! no  um
mistrio, no  um perigo nem uma ameaa.  um deus
   No h vento frio que venha do mar. Distante est o mar de verdes ondas. No h vento frio,
nessa noite de chuva e relmpagos. Mas, ainda assim, os homens esto arrepiados e tremem, se
apertam os seus coraes. A mata-deus na sua frente. O medo dentro deles.
   Deixaram cair os machados, os serrotes e as foices. Esto de mos inertes diante do
espetculo terrvel da mata. Seus olhos abertos, desmesuradamente abertos, vem o deus em fria
ante eles. Ali esto os animais inimigos do homem, os animais agoureiros, ali esto as
assombraes. No  possvel prosseguir, nenhuma mo de homem pode se levantar contra o
deus. Recuam devagar, o medo nos coraes. Explodem os raios sobre a mata, a chuva cai. Miam
as onas, silvam as cobras, e, sobre todo o temporal, as lamentaes dos lobisomens, das caiporas
e das mulas-de-padre, defendem o mistrio e a virgindade da mata. Diante dos homens est a
mata  o passado do mundo, o princpio do mundo. Largam os faces, os machados, as foices, os
serrotes, so h um caminho,  o caminho da volta.

                                                2

    Os homens vo recuando. Levaram horas, dias e. noites, para chegar at ali. Atravessaram
rios, picadas quase intransitveis, fizeram caminhos, calaram atoleiros, um foi mordido de cobra
e ficou enterrado ao lado da estrada recm-aberta. Uma cruz tosca, o barro mais alto, era tudo
que lembrava o cearense que havia cado. No puseram o seu nome, no havia com que escrever.
Naquele caminho da terra do cacau aquela foi a primeira cruz das muitas que depois iriam ladear
as estradas, lembrando homens cados na conquista da terra. Outro se arrastou com febre,
mordido por aquela febre que matava at macacos. Se arrastando chegou e agora ele tambm
recua, a febre f-lo ver vises alucinantes. Grita para os demais:
    -  o lobisomem...
    Vo recuando. A princpio devagar. Passo a passo at alcanar o caminho mais largo, onde so
menos numerosos os espinhos e os atoleiros. A chuva de junho cai sobre eles, encharcando as
roupas, fazendo-os tremer. Diante deles a mata, a tempestade, os fantasmas. Recuam.
    Agora chegam  picada,  uma corrida s, atingiro as margens do rio onde uma canoa os
espera. Quase respiram aliviados. O que vai com febre j no sente a febre. O medo d-lhe uma
nova fora ao corpo alquebrado.
    Mas diante deles, parablum na mo, o rosto contrado de raiva, est Juca Badar. Tambm
ele estava ante a mata, tambm ele viu os raios e ouviu os troves, escutou o miado das onas e o
silvo das cobras. Tambm seu corao se apertou com o grito agourento do corujo. Tambm ele
sabia que ali moravam as assombraes. Mas Juca Badar no via na sua frente a mata, o
princpio do mundo. Seus olhos estavam cheios de outra viso. Via aquela terra negra, a melhor
terra do mundo para o plantio do cacau. via na sua frente no mais a mata iluminada pelos raios,
cheia de estranhas vozes, enredada de cips, fechada nas rvores centenrias, habitada de animais
ferozes e assombraes. Via o campo cultivado de cacaueiros, as rvores dos frutos de ouro
regularmente plantadas, os cocos maduros, amarelos. Via as roas de cacau se estendendo na
terra onde antes fora mata. Era belo. Nada mais belo no mundo que os roas de cacau. Juca
Badar, diante da mata misteriosa, sorria. Em breve ali seriam os cacaueiros, carregados de frutos,
uma doce sombra sobre o solo. Nem via os homens com medo, recuando.
    Quando os viu, s teve tempo de correr na sua frente, se postar na entrada do caminho de
parablum na mo, uma deciso no olhar:
    - Meto bala no primeiro que der um passo...
    Os homens pararam. Ficaram um instante assim, sem saber o que fazer. Atrs estava a
floresta, na frente Juca Badar disposto a atirar. Mas o que tinha febre gritou:
    -  o lobisomem... - e avanou num pulo.
    Juca Badar atirou, novo raio atravessou a noite. A mata repetiu num eco o som do tiro. Os
outros homens ficaram em torno do que cara, as cabeas baixas. Juca Badar se aproximou
vagarosamente, o parablum ainda na mo. Antnio Vtor tina se abaixado, segurava a cabea do
ferido. A bala atravessara o ombro. Juca Badar falou com a voz muito calma:
    - No atire para matar, s para mostrar que vocs tem que obedecer... - Apontou para um: -
V buscar gua para lavar a ferida.
    Assistiu a todo o tratamento, ele mesmo amarrou um pedao de pano no ombro do homem
ferido e ajudou a lev-lo para o acampamento junto da mata. Os homens iam tremendo, mas iam.
Deitaram o ferido que delirava. Na mata as assombraes estavam soltas.
    - Adiante - disse Juca Badar.
    Os homens se espiavam uns aos outros. Juca suspendeu o parablum:
    - Adiante. . .
    Os machados e os faces comearam a cair num rudo montono sobre a mata, perturbando
seu sono. Juca Badar olhou na sua frente. Via novamente toda aquela terra negra plantada de
cacau, roas e roas carregadas de frutos amarelos. A chuva de junho rolava sobre os homens, o
ferido pedia gua numa voz entrecortada. Juca Badar guardou o parablum.

                                                3

   A manh de sol dourava os cocos ainda verdes dos cacaueiros. O coronel Horcio ia andando
devagar entre as rvores plantadas dentro das medidas estabelecidas. Aquela roa dava seus
primeiros frutos, cacaueiros jovens de cinco anos. Antes ali tambm fora a mata, igualmente
misteriosa e amedrontadora. Ele a varara com seus homens e com o fogo, com os faces, os
machados e as foices, derrubou as grandes rvores, jogou para longe as onas e as assombraes.
Depois fora o plantio das roas, cuidadosamente feito, para que maiores fossem as colheitas. E,
aps cinco anos, os cacaueiros enfloraram e nessa manh pequenos cocos pendiam dos troncos e
dos galhos. Os primeiros frutos. O sol os doirava, o coronel Horcio passeava entre eles. Tinha
cerca de cinquenta anos e seu rosto, picado de bexiga, era fechado e soturno. As grandes mos
calosas seguravam o fumo de corda e o canivete com que faziam o cigarro de palha. Aquelas
mos, que muito tempo manejaram o chicote quando o coronel era apenas um tropeiro de
burros, empregado de uma roa no Rio-do-Brao, aquelas mos manejaram depois a repetio
quando o coronel se fez conquistador da terra. Corriam lendas sobre ele, nem mesmo o coronel
Horcio sabia de tudo que em Ilhus e em Tabocas, em Palestina, e em Ferradas, em gua-Preta,
se contava sobre ele e sua vida. As velhas beatas que rezavam a 'So Jorge na igreja de Ilhus
costumavam dizer que o coronel Horcio, de Ferradas, tinha debaixo da sua cama, o diabo preso
numa garrafa. Como o prendera era uma histria longa, que envolvia a venda da alma do coronel
num dia de temporal E o diabo, feito servo obediente, atendia a todos os desejos de Horcio,
aumentava-lhe a fortuna, ajudava-o contra os seus amigos. Mas um dia - e as velhas persignavam
ao dize-lo - Horcio morreria sem confisso e n diabo saindo da garrafa levaria a sua alma para as
profundas dos infernos. Dessa histria o coronel Horcio sabia e ria dela, uma daquelas suas
risadas curtas e secas, que amedrontavam mais que mesmo os seus gritos nas manhs de raiva.
    Outras histrias se contavam e essas estavam mais prximas da realidade. O Dr. Rui, quando
bebia demasiado, gostava de lembrar a defesa que certa vez fizera do coronel num processo de h
muitos anos passados. Acusavam Horcio de trs martes e de trs mortes brbaras. Dizia o
processo que no contente de ter matado um dos homens, cortara-lhe as orelhas, a lngua, o
nariz, e os ovos. O promotor estava comprado, estava ali para impronunciar o coronel. Ainda
assim o Dr. Rui pudera brilhar, escrevera uma defesa linda, onde falara em "clamorosa injustia",
em "calnias forjadas por inimigos annimos sem honra e sem dignidade". Um triunfo, uma
daquelas defesas que o consagraram como um grande advogado. Fizera o elogio do coronel, um
dos fazendeiros mais prsperos da zona, homem que fizera levantar no s a capela de Ferradas,
como ainda agora comeava a levantar a igreja de Tabocas, respeitador das leis, por duas vezes j
vereador em Ilhus, gro-mestre de maonaria. Um homem destes poderia por acaso praticar to
hediondo crime?
    Todos sabiam que ele o havia praticado. Fora uma questo de contrato de cacau. Nuns
terrenos de Horcio o preto Altino. mais seu cunhado Orlando e um compadre chamado
Zacarias, haviam botado uma roa, em contrato com o coronel. Derrubaram a mata, queimaram-
na, plantaram cacau e, entre o cacau, a mandioca, o milho de que iam viver os trs anos de espera
at que os cacaueiros crescessem. Passaram-se os trs anos, eles foram ao coronel para entregar a
roa e receber o dinheiro. Quinhentos ris por p plantado e vingado de cacau. Com aquele
dinheiro poderiam adquirir um terreno, um pedao de mata qualquer e desbrav-la e plantar
ento uma roa para eles mesmos. Iam alegres e cantavam pela estrada. Oito dias antes tinha
vindo Zacarias trazer milho e farinha de mandioca e levar carne seca, cachaa e feijo, do
armazm da fazenda. Encontrara ento o coronel e tinham ficado os dois conversando, ele dando
conta do estado dos cacaueiros, o coronel lembrando que faltava pouco tempo para findar os trs
anos. Depois Horcio lhe oferecera uma pinga na varanda da casa-grande e lhe perguntara o que
pensavam fazer depois. Zacarias lhe contara do projecto de comprar um pedao de mata,
derrub-la e plantar uma roa. O coronel no s o aprovou como, amavelmente, se disps a
ajud-los. No v que ele tinha timas matas em terrenos excelentes para o plantio de cacau? Em
toda a zona de Ferradas, aquela imensa zona que lhe pertencia, eles podiam escolher um pedao
de mata. Assim era melhor para ele tambm, j que no teria de puxar do dinheiro. Zacarias
voltou radiante para o rancho.
    Foram ao coronel quando o prazo findou. Fizeram as contas dos ps de cacau que haviam
vingado, j antes tinham escolhido o pedao de mata que queriam comprar. Chegaram a um
acordo com o coronel, beberam umas cachaas, Horcio disse:
    - Vocs podem se botar pra mata que um dia desses quando eu descer a Ilhus mando avisar a
vocs pra ir um tambm e a gente botar o preto no branco no cartrio...
    Assim diziam de passar a escritura. O coronel mandou que eles fossem em paz, com um ms
mais ou menos iriam a Ilhus. Os trs foram, depois de cumprimentos e reverencias ao coronel.
No outro dia partiram para a mata, comearam a derrub-la, armando um rancho. Passou-se o
tempo, o coronel foi a Ilhus duas e trs vezes, eles j haviam iniciado a plantao e nada de
escritura. Um dia Altino tomou coragem e falou ao coronel:
    - Vosmec me adisculpe, seu coronel, mas ns queria saber, quando  que a gente passa a
escritura da terra?
    Horcio primeiro se indignou com a falta de confiana. Mas diante das desculpas de Altino
explicou que j dera ordens ao Dr. Rui, seu advogado, para tratar do assunto. No ia demorar,
um dia destes eles seriam chamados para darem um pulo a Ilhus, e liquidarem o assunto. Mais
tempo se passou, da terra plantada comearam a surgir as mudas de cacau, ainda simples gravetos
que em breve seriam rvores. Altino, Orlando e Zacarias olhavam as plantas com amor. Eram
cacaueiros deles, plantados com as suas mos, em terras que eles haviam desbravado. Cresceriam
e dariam frutos amarelos como ouro, dinheiro. Nem se recordavam da escritura. S o negro
Altino, por vezes parava pensando. H muito que conhecia o coronel Horcio e desconfiava.
Ainda assim ficaram surpresos no dia que souberam que a fazenda Beija-Flor fora vendida ao
coronel Ramiro e que a roa deles estava compreendida na venda. Foram falar ao coronel
Horcio. Orlando ficou, foram os outros dois. No encontraram o coronel, estava em Tabocas.
Voltaram no outro dia, o coronel estava em Ferradas. Ento Orlando resolveu ir ele mesmo. Para
ele aquela terra era tudo, no a perderia. Disseram-lhe que o coronel estava em Ilhus. Ele fez
que sim mas entrou pela casa-grande adentro e encontrou o coronel na sala de jantar, comendo.
Horcio olhou o lavrador, falou com sua voz seca:
    - Quer comer, Orlando? Se quer se abanque..
    - No sinh, obrigado.
    - Que lhe traz por aqui? Alguma novidade?
    - Uma novidade bem feia, sinh, sim. O coronel Ramiro apareceu l pela roa, diz que a roa
 dele, diz que comprou ao sinh, coronel.
    - Se o coronel Ramiro  que diz deve ser verdade. Ele no  homem pra mentira...
    Orlando ficou mirando o coronel Horcio que voltava a comer. Olhava as grandes mos
calosas do coronel, a sua face fechada. Por fim, falou:
    - Vosmec vendeu?
    - Isso  negcio meu...
    - Mas vosmec no se arrecorda que nos vendeu esse pedao de mata? Pelo dinheiro do
contrato de cacau?
    - Vocs tem a escritura? - e Horcio voltou a comer. Orlando rodou na mo o chapu enorme
de palha. Tinha conscincia de toda a desgraa que lhes havia acontecido, a ele e aos dois
companheiros. Sabia tambm que legalmente no havia como lutar contra o coronel. Sabia que
no tinham mais terra, nem roa plantada, no tinham mais nada. Um vu de sangue turvou-lhe o
olhar, no media mais suas palavras:
    - Desgraa pouca  bobagem, coronel. Vosmec fique avisado que no dia que o coronel
Ramiro entrar na roa, nesse dia vosmec paga por tudo. . . Pense bem.
    Disse e saiu afastando com o brao a negra Felcia que estava servindo o coronel. Horcio
continuou a comer, como se nada houvesse passado.
    De noite Horcio chegou com seus cabras na roa dos trs amigos. Cercou o rancho, dizem
que ele mesmo liquidou os homens. E que depois, com sua faca de descascar frutas, cortou a
lngua de Orlando, suas orelhas, seu nariz, arrancou-lhe as calas e o capou. Tinha voltado para a
fazenda com seus homens e quando um deles foi pegado, bbado, pela polcia e o denunciou, ele
apenas riu sua risada. Foi impronunciado.
    Seus jagunos diziam que ele era um macho de verdade e que valia a pena trabalhar para um
homem assim. Nunca deixava que jaguno seu parasse na cadeia e certa vez sara especialmente
da fazenda para libertar um que estava na priso de Ferradas. Depois de tir-lo de entre as grades,
rasgara o processo na cara do escrivo.
   Muitas histrias contavam do coronel Horcio. Diziam que, antes de ser chefe do partido
poltico oposicionista, para conquistar esse posto, mandara que seus jagunos esperassem na
tocaia o antigo chefe poltico, um comerciante de Tabocas, e o liquidassem. Depois lanou a
culpa contra os inimigos polticos. Agora o coronel era chefe indiscutido da zona, o maior
fazendeiro dali e imaginava estender suas terras por muito longe. Que importavam as histrias
que contavam sobre ele? Os homens, fazendeiros e trabalhadores, contratistas e lavradores de
pequenas roas, o respeitavam, o nmero dos seus afilhados era incontvel.
   Nessa manh ele ia entre os cacaueiros novos que davam seus primeiros frutos. Acabara de
preparar o cigarro com as grandes mos calosas. Pitava vagarosamente e no pensava em nada,
nem nas histrias que contavam dele, nem mesmo na chegada recente do Dr. Virglio, o novo
advogado que o partido enviara da Bahia para os trabalhos de Tabocas, no pensava nem mesmo
em Ester, sua esposa, to linda e to jovem, educada pelas freiras na Bahia, filha do velho
Salustiano, comerciante de Ilhus que a dera, encantado, de esposa ao coronel. Era a sua segunda
mulher, a primeira morrera quando ele era ainda tropeiro. Era triste e linda, magra e plida, e era
a nica coisa que fazia o coronel Horcio sorrir de uma maneira diferente. Neste momento nem
em ster pensava. No pensava em nada, via apenas os frutas dos cacaueiros, verdes ainda,
pequeninos, as primeiros daquela roa. Com a mo tomou de um deles, doce e voluptuosamente
o acariciou. Doce e voluptuosamente como se acariciasse a carne jovem de Ester. Com amor.
Com infinito amor.

                                                4

    Ester andou para o piano, piano de cauda, num canto da sala enorme. Descansou as mos
sobre as teclas, os dedos iniciaram maquinalmente uma melodia. Velha valsa, farrapo de msica
que lhe lembrava as festas do colgio. Recordou-se de Lcia. Onde andaria ela, Fazia tempo que
no lhe escrevia, que no mandava uma das suas cartas loucas e divertidas. Tambm a culpa era
sua, no respondera s duas ltimas cartas de Lcia. . . Nem agradecera as revistas francesas e os
figurinos que ela mandara.. Ainda estavam em cima do piano, junto com antigas msicas
esquecidas. ster riu tristemente, arrancou outro acorde do piano. Para que figurinos naquele fim
do mundo, naquelas brenhas? Nas festas de So Jos, em Tabocas, nas festas de So Jorge, em
Ilhus, as modas andavam atrasadas de anos e ela no poderia exibir os vestidos que a amiga
vestia em Paris. . . Ah! se Lcia pudesse imaginar sequer o que era a fazenda, a casa perdida entre
as roas de cacau, o silvo das cobras nos charcos onde comiam rs E a mata... Por detrs da casa
ela se estendia trancada nos troncos e nos cips. Ester a temia como a um inimigo. Nunca se
acostumaria, tinha certeza. E se desesperava porque sabia que toda a sua vida seria passada ali, na
fazenda, naquele mundo estranho que a aterrorizava.
    Nascera na Bahia, em casa dos avs, onde a me fora ter criana e morreu do parto. O pai
negociava em Ilhus, naquele tempo iniciava a vida e Ester ficou com os avs que lhe faziam
todas as vontades, que a mimava. e viviam exclusivamente para ela. O pai prosperou em Ilhus
com um armazm de secos e molhados, aparecia de quando em vez, duas viagens por ano 
capital, a negcios. Ester cursara o melhor colgio para moas da Bahia, um colgio de freiras,
primeiro externa, interna depois quando os avs morreram no ltimo ano do curso. Morreram
um aps o outro no mesmo ms. Ester vestiu luto, naquele momento no chegou a se sentir
sozinha porque tinha as colegas. No colgio sonhavam sonhos lindos, liam romances franceses,
histrias de princesas, de uma vida formosa. Todas tinham planos de futuro, ingnuos e
ambiciosos: casamentos ricos e de amor, vestidos elegantes, viagens ao Rio de Janeiro e  Europa.
Todas menos Geni que desejava ser freira e passava o dia rezando. Ester e Lcia, consideradas as
mais elegantes e belas do colgio, sonhavam de imaginao solta. Conversavam nos ptios,
durante os recreios, no silencio do dormitrio tambm.
    Ester deixa o piano, o ltimo acorde vai morrer na mata. Ah! os tempos felizes do colgio
Ester se recordava de uma frase de sror Anglica, a freira mais simptica de todas, quando elas
desejavam que o tempo de colgio passasse quanto antes e chegasse o momento de viver a vida
intensamente. Ento soror Anglica pousara nos seus ombros as delicadas mos, to magras! e
lhe dissera:
    - Nenhum tempo  melhor que este, Ester, em que o sonho  possvel.
    Naquele dia ela no entendera, fora preciso que passassem os anos, at que a frase lhe viesse 
memria de novo para ser recordada desde ento quase diariamente. Ah! Os tempos felizes do
colgio... Ester anda at a rede que a espera na varanda. Da ela v a estrada real onde de raro em
raro um trabalhador passa em busca do caminho de Tabocas ou de Ferradas. V tambm o grupo
de barcaas onde o cacau seca ao sol, pisado pelos ps negros dos trabalhadores. Terminado o
curso, ela viera para Ilhus, nem assistira ao casamento de Lcia com o Dr. Alfredo, o mdico de
tanto sucesso. A amiga viajara logo. Rio de Janeiro e Europa, onde o marido ia se demorar em
hospitais clebres, especializando-se. Lcia fora realizar seus sonhos, os vestidos caros, os
perfumes, os bailes de grande orquestra. ster pensa nas diferenas do destino. Ela viera para
Ilhus, outro mundo. Uma cidade pequena, que apenas comeava a crescer, de aventureiros e
lavradores, onde s se falava em cacau e mortes.
    O pai morava num primeiro andar, por cima do armazm, da sua janela Ester via a montona
paisagem da cidade. Um morro de cada lado. No encontrava beleza no rio, nem no mar. Para ela
a beleza estava com a vida de Lcia, os bailes em Paris. Nem mesmo nos dias de chegada de
navios, quando toda a cidade se animava, quando havia jornais da capital, quando os botequins se
enchiam de homens que discutiam poltica, nem nesses dias quase de festa Ester saa de sua
tristeza. Os homens a admiravam e a cortejavam de longe. No tempo das frias um estudante de
medicina escreveu-lhe uma carta e mandou-lhe versos. Mas para Ester o tempo era pouco para
chorar, para lastimar a morte dos avs que a obrigavam a viver naquele desterro. As notcias de
brigas e de mortes a assustavam, deixavam-na numa agonia. Aos poucos foi se deixando vencer
pela vida da cidade, se despreocupando da elegncia que tanto sucesso (e certo escndalo) fizera
quando da sua chegada, e quando um dia seu pai, muito alegre, lhe comunicou que o coronel
Horcio, um dos homens mais ricos da zona, pedia a sua mo, ela se contentou em chorar.
    Agora era uma festa quando ia a Ilhus. O sonho das grandes cidades, da Europa, dos bailes
imperiais e dos vestidos parisienses, ficara para trs. Parecia tudo muito longe, perdido no tempo,
naquele tempo "em que era possvel sonhar". Poucos anos se haviam passado. Mas era como se
toda uma vida tivesse sido vivida numa rapidez de alucinao. Seu melhor sonho desses dias 
uma viagem a Ilhus, assistir s festas da igreja, uma procisso, uma quermesse com leilo de
prendas.
    Balana-se na rede mansamente. Na sua frente, at onde seus olhos alcanam, estendem-se,
subindo e baixando os morros, as roas de cacau, carregadas de frutos. No terreiro ciscam as
galinhas e os perus. Os negros trabalham nas barcaas, revolvendo o cacau mole. O sol irrompe
sobre a paisagem, saindo de entre as nuvens. Ester se recorda do dia do casamento. No dia que
casara, nesse mesmo dia, havia vindo para a fazenda. Ester estremece na rede ao lembrar. Fora a
sua maior sensao de horror. Se lembrava que antes, ao ser anunciado o noivado, a cidade se
encheu de cochichos, de disses-no-disses. Uma senhora, que nunca a visitara, apareceu um dia
para lhe contar histrias. Antes haviam vindo velhas beatas, conhecidas da igreja, que lhe diziam
das lendas sobre o coronel. Mas aquela mulher trouxe uma notcia que era mais concreta e mais
terrvel. Dissera que Horcio matara a primeira mulher a rebenque porque a encontrara com
outro na cama. Isso no tempo em que ainda era tropeiro e atravessava as picadas recm-abertas
no mistrio da mata. S muito tempo depois, quando j ele enricara, essa histria comeara a
circular nas ruas de Ilhus, nas estradas da terra do cacau. Talvez porque toda a cidade falasse
dele em voz baixa, Ester, com certo orgulho e muito despeito, levou o noivado adiante, um
noivado feito de silncios longos nos raros domingos em que ele baixava  cidade e ia jantar em
sua casa. Um noivado sem beijos, sem carcias sutis, sem palavras de romance, to diferente do
noivado que Ester imaginara um dia, na quietude do colgio de freiras.
    Quisera um casamento simples, se bem Horcio tentasse fazer as coisas a grande: banquete e
baile, foguetes e missa cantada. Mas fora tudo muito ntimo, realizados em casa os dois
casamentos, o do padre e o do juiz. O padre fez um sermo, o juiz desejou felicidades com sua
cara cansada de bbado, o Dr. Rui botou discurso bonito. Casaram pela manh, e  noitinha, no
lombo dos burros, atravs dos atoleiros, chegavam  casa-grande da fazenda. Os trabalhadores
que se haviam reunido no terreiro em frente dispararam suas repeties quando os burros se
aproximaram. Estavam desejando boas-vindas ao casal, porm Ester sentiu seu corao apertar
com o estampido dos tiros na noite. Horcio mandara distribuir cachaa pelo pessoal mas,
minutos depois, j a deixava sozinha e saa para se informar do estado das roas, para saber como
se haviam perdido as arrobas de cacau que estavam secando na estufa, devido s chuvas. S
quando ele voltou as negras acenderam as lmpadas de querosene. Ester se assustou com o grito
das rs. Horcio quase no falava, esperava impaciente que o tempo passasse. Quando outra r
gritou no charco, ela perguntou:
    - Que ?
    A voz dele veio indiferente:
    - Uma r na boca de uma cobra...
    E chegou o jantar servido pelas negras que olhavam desconfiadas para Ester. E de repente,
mal terminado o jantar, foi aquele rasgar de vestidos e do seu corpo na posse brutal e inesperada.
    Se acostumou com tudo, agora se dava bem com as negras, a Felcia at estimava, era uma
mulatinha dedicada. Se acostumou at com o marido, com o seu silencio pesado, com os seus
repentes de sensualidade, com as suas frias que deixavam os mais ferozes jagunos encolhidos
de medo, acostumou com os tiros  noite na estrada, com os cadveres que por vezes passavam
estirados em redes, um triste acompanhamento de mulheres chorando, s no se acostumou com
a mata no fundo da casa, onde pelas noites, ao charco que o riacho fazia, as rs gritavam seu grito
desesperado na boca das cobras assassinas. No fim de dez meses nascera um filho, agora tinha
ano e meio e Ester via horrorizada que Horcio nascera novamente na criana. Era tudo dele e
Ester pensava consigo mesma que ela era culpada, pois no colaborara no gestar daquele ser,
nunca se entregara, fora sempre tomada como um objecto ou um animal. Mas ainda assim o
queria, o amava ardentemente e sofria por ele. Se acostumara com tudo, no sonhava mais. S
no se acostumara com a mata e com a noite da mata.
    Nas noites de temporal era espantoso: os raios iluminando os altos troncos, derrubando as
rvores, os troves roncando. Nessas noites Ester se encolhia com medo e chorava sobre o seu
destino. Eram noites de pavor, de medo irreprimvel, um medo que era como uma coisa concreta
e palpvel. Comeava na hora dilacerante do crepsculo. Ah! aqueles crepsculos da mata,
anunciadores de tempestades. .. Quando a tarde caa, cheia de nuvens negras, as sombras eram
como fatalidades definitivas, no havia luz de querosene que tivesse fora de espant-las, de evitar
que elas cercassem a casa e fizessem dela, das roas de cacau e da mata, uma coisa s, ligadas pelo
crepsculo igual a uma noite. As rvores se agigantavam, cresciam com o estrume misterioso das
sombras, os rudos se faziam dolorosos, pios de aves desconhecidas, gritos de animais que Ester
nunca sabia onde estavam. E o silvar dos rpteis, o bulir das folhas secas onde se arrastavam....
Ester tem sempre a impresso de que as cobras terminaro um dia por subirem na varanda,
penetrarem na casa e chegarem, numa noite de temporal, ao seu pescoo e ao da criana, nos
quais se enroscaro como um colar. Ela mesma no poderia contar o horror daqueles momentos
que duravam desde a chegada do crepsculo at o cair do temporal. Ento, quando ele desabava,
a natureza desejando destruir tudo, ela procurava os lugares onde a luz das lmpadas de
querosene mais brilhava. Ainda assim as sombras que a luz projectava lhe davam medo, faziam
sua imaginao trabalhar, acreditar nas mais supersticiosas histrias dos capangas. Havia uma
coisa que sempre voltava  sua memria nessas noites. Eram as cantigas de ninar que sua av
cantava para acalent-la na sua infncia distante. E Ester, junto  cama da criana, as repetia
baixinho, uma a uma, por entre lgrimas, acreditando mais uma vez no seu sortilgio. Cantava
para a criana que a olhava com seus olhos baos e duros, os olhos de Horcio, mas cantava para
si tambm, tambm ela uma criana amedrontada. Cantava baixinho, se embalava na melodia, as
lgrimas rolavam pela sua face. Esquecia a escurido da varanda, as terrveis sombras do campo,
o gemer aziago das corujas nas rvores, a tristeza da noite, O mistrio da mata. Cantava distantes
cantigas, melodias simples contra os malefcios. Era como se a sombra protectora da av se
estendesse ainda sobre ela, carinhosa e compreensiva.
    Mas, de sbito, O grito de uma r assassinada num charco por uma cobra atravessava a mata,
as roas, entrava pela casa adentro, era mais alto que o pio das corujas e o rumor das folhas, era
mais alto que o vento que assobiava, vinha morrer na sala que a lmpada de querosene iluminava,
estremecia o corpo de Ester. Silenciava a cantiga. Fechava os olhos e via - via nos mnimos
detalhes - o rptil que chegava devagar, Oleoso e repelente, se arrastando em curvas sobre a terra
e as folhas cadas, de sbito se jogava em cima de uma r inocente. E o grito de desespero, de
despedida da vida, abalava as guas calmas do riacho, enchia de medo, de maldade e de dor, O
cenrio da noite amedrontadora.
    Nessas noites ela via as cobras em cada canto da casa, saindo de entre as gretas do tabuado, de
entre as telhas, de cada vo de porta. Via de olhos fechados como cada uma ia se arrastando, se
aproximando cautelosamente at o pulo fatal sobre as rs. Tremia sempre que pensava que sobre
o telhado podia estar uma delas, sutil e silenciosa, vindo de manso para o leito de jacarand,
talvez para se enroscar no seu pescoo durante o sono. Ou ento para penetrar no bero da
criana e se enrodilhar sobre ela. Quantas noites passara sem dormir porque repentinamente
pensara que uma cobra descia pela parede? Bastava um rumor ouvido no princpio do sono. Era
o bastante para enche-la de terror. Levantava-se, arrancava as cobertas, atirava-se para a cama do
filho. Quando se convencia de que ele estava dormindo sem perigo, realizava uma busca por todo
o quarto, O candeeiro numa mo, Os olhos abertos de medo. Horcio por vezes acordava e
resmungava na cama, mas Ester continuava sua busca infrutfera. No dormia mais. Esperava e
esperava com terror que ela chegasse. Apareceria de sbito, movendo-se pela cama e Ester j no
poderia tentar nenhuma reaco. Chegava a sentir o estrangulamento na sua garganta onde a
cobra se enroscaria. Chegava a ver o filho morto, vestido de anjo no caixo azul. No rosto a
marca dos dentes venenosos.
    Certa vez foi um pedao de corda entrevisto na escurido que a fez soltar um grito que, igual
ao das rs, atravessou o campo e o charco, foi morrer na mata.
    Ester se recorda de outra noite. Horcio viajara para Tabocas, ela estava s com a criana e as
empregadas. Dormiam, quando pancadas na porta as despertaram. Felcia foi ver o que era e
chamou Ester aos gritos. Ela chegou e deparou com uns trabalhadores que traziam Amaro
mordido por uma cobra. Ester espiava da porta, sem querer se aproximar. Ouvia os homens que
pediam medicamentos e ouvia a explicao que um dava em voz rouca: "fora uma surucucu
apaga-fogo, venenosa como que". Amarraram a perna de Amaro com um cordo, acima do lugar
da mordida. Felcia trouxe uma brasa da cozinha, Ester viu quando a puseram sobre a picada. A
carne queimada chiou, Amaro gemeu, um cheiro estranho se espalhou pela casa. Um trabalhador
havia montado para ir a Ferradas em busca de um soro antiofdico. Mas o veneno teve uma aco
muito rpida. Amaro morreu entre Ester, as negras e os trabalhadores, o rosto esverdeado, os
olhos demasiadamente abertos. Ester no podia se desprender do cadver e ouvia sair daquela
boca para sempre calada gritos dolorosos como os das rs assassinadas nos charcos. Quando
Horcio chegou, pelo meio da noite, de Tabocas, e deu ordem para que levassem o cadver para
uma das casas de trabalhadores, Ester teve uma crise de choro e pediu ao marido, soluando, que
fossem embora dali, que partissem para a cidade ou ela morreria, as cobras viriam, seriam muitas,
a picariam toda, matariam a criana, terminariam por estrangul-la com seus anis viscosos. Sentia
no pescoo o frio do corpo mole da cobra, um arrepio a percorria e chorava mais alto. Horcio
riu do medo dela. E quando ele se tocou para a sentinela de Amaro, ela no quis ficar s em casa
e tambm foi.
    Os homens em torno do cadver bebiam cachaa e contavam histrias. Histrias de cobras, a
histria de Jos da Tararanga que vivia bbado e uma noite voltava para casa caindo de cachaa,
na mo direita o fif aceso, na esquerda um litro de parati. Na curva da estrada a surucucu pulou
no fif, com o baque Jos da Tararanga caiu. Quando sentiu a primeira picada da cobra abriu o
litro e o bebeu todo. No outro dia, quando os homens passaram para o trabalho nas roas,
encontraram Jos da Tararanga que dormia, a surucucu dormindo tambm enroscada no seu
peito. Mataram a cobra, Jos da Tararanga tinha dezessete picadas, mas nada lhe aconteceu por
causa da cachaa. O lcool diluiu o veneno, s que Jos inchou durante quinze dias, ficou do
tamanho de um cavalo, depois foi ficando so.
    Contaram tambm de homens curados de cobra que as pegavam pelas estradas sem que elas
nada fizessem. Bem prximo da fazenda, morava Agostinho que era "curado", cobra no lhe
fazia mal, e ele, s para se divertir entregava o brao pra elas morderem.
    Joana, mulher do tropeiro, que bebia como qualquer dos homens, contou que, numa fazenda
do serto, onde ela vivera antes de vir para essas terras do sul, sucedera uma histria triste.
    Certa cobra penetrara na casa-grande ande os senhores estavam a passeio. Vinham sempre no
fim do ano e desta vez vinham felizes pois havia nascido uma criana. Mas a cobra entrara e fora
se aninhar no bero da criana que era a primeira dos senhores casados h pouco mais de um
ano. A criana chorava pelo seio materno e tomou do rabo da cobra na sua inocncia. No outro
dia tinha na boca o rabo da jararaca que dormia mas j no mamava porque o veneno agira logo.
A senhora sara pelos campos, os cabelos de oiro soltos ao vento, os ps nus e alvos, como Joana
nunca vira iguais, pisando os espinhos, e dizem que nunca mais voltara a ser perfeita da cabea,
que ficara idiota e enfeara, perdera toda aquela lindeza de rosto e de corpo. Antes, parecia uma
destas bonecas estrangeiras, depois do acontecido ficara que nem uma bruxa de pano. A casa-
grande se fechou para sempre, nunca mais as senhores voltaram, a hera cresceu pelas varandas, o
capim invadiu a cozinha e os que passam perto ouvem hoje os pios das cobras que fazem ninho
l dentro. Joana terminou a sua narrao, bebeu outro trago de cachaa, cuspiu, procurou com os
olhos a Ester. Mas ela j no estava, correra para casa, para junto do filho, como se fora
enlouquecer tambm.
    Agora, na varanda, onde o sol brinca descuidado, ster recorda essa e outras noites de terror.
De Paris, Lcia lhe escrevia, cartas que levavam trs meses a chegar e que traziam notcias de
outra vida, de outra gente, de civilizao e de festas. Aqui eram as noites da mata, do temporal e
das cobras. Noites para chorar sobre o destino desgraado. Crepsculos que apertavam o
corao, tiravam toda a esperana. Esperana de que? Tudo era to definitivo na sua vida...
    Chorava noutras noites tambm. Quando via Horcio sair  frente de um grupo de homens
para uma expedio qualquer. Sabia que nessa noite, em alguma parte soariam os tiros. Que
homens morreriam por um pedao de terra, que a fazenda de Horcio, que era tambm sua,
aumentaria de mais um pedao de mata. De Paris, Lcia escrevia, contava bailes na Embaixada,
peras e concertos. Na casa-grande da fazenda, o piano de cauda esperava um afinador que
nunca viera.
    Noites em que Horcio saa na frente dos homens para expedies armadas! Certa vez, depois
dele partir, Ester se encontrou imaginando a morte de Horcio. Se ele morresse... Ento as
fazendas seriam somente dela, entregaria ao pai para administr-las e partiria... Iria encontrar
Lcia... Foi porm um sonho curto. Para Ester, Horcio era imortal, era o dono, o patro, o
coronel... Tinha certeza de que morreria antes dele... Ele dispunha da terra, do dinheiro e dos
homens. Era feito de ferro, nunca adoecera, parecia que as balas o conheciam e temiam... Por
isso ela nem se abalou naquele sonho to ruim e to maravilhoso... Para ela no tinha mesmo
jeito, nem esperana. Sua vida era aquela, aquele era seu destino. E em Ilhus quanta moa no a
invejava Ela era a dona Ester, a mulher do homem mais rico de Tabocas, do chefe poltico, dono
de tantas terras plantadas de cacau e de tanta mata virgem...
    Horcio chegou junto da rede. Ester mal teve tempo de enxugar as lgrimas. Ele trazia na mo
um pequeno coco de cacau, primcia da roa nova. Vinha quase sorridente:
    - A roa j est botando...
    Ficou parado, no compreendia por que ela estava chorando. Primeiro lhe deu raiva:
    - Por que diabo est chorando? Sua vida  chorar? No tem tudo o que quer? Que  que lhe
falta?
    Ester prendeu o soluo:
    - No  nada... Besteira minha...
    Tomou do fruto do cacaueiro, sabia que aquilo agradaria ao marido. Horcio sorriu j alegre,
j feliz da esposa, os olhos descendo pelo corpo dela. Ali estavam as nicas coisas que ele amava
no mundo: Ester e cacau. Sentou-se junto a ela na rede, perguntou:
    - Por que chora, tola?
    - No estou mais chorando...
    Horcio ficou pensando, logo falou, os olhos estirados para o lado das roas, o pequeno coco
de cacau na mo calosa:
    - Quando o menino crescer - sempre chamava o filho de "menino" - ele h de encontrar tudo
isso aqui cheio de roa. Tudo cultivado...
    Ficou mais tempo calado, por fim concluiu:
    - Meu filho no vai precisar viver socado nas brenhas como a gente. Vou meter ele na poltica,
vai ser deputado e governador. Pra isso  que fao dinheiro.
    Sorriu para Ester, desceu a mo pelo corpo dela. Depois avisou:
    - Enxugue esses olhos, mande fazer um jantar direito que hoje vem comer aqui o Dr. Virglio,
esse advogado novo que t em Tabocas e  protegido do Dr. Seabra. E voc se vista direito
tambm. E preciso mostrar ao moo que a gente no  bicho do mato..
    Riu sua risada curta, deixou com Ester o coco de cacau, saiu para dar ordens aos
trabalhadores. Ester ficou pensando nesse jantar da noite, com esse tal de advogado, igual
naturalmente ao Dr. Rui que se embriagava e ficava, na hora da sobremesa, a cuspir para todos os
lados e a contar histrias porcas... E, de Paris, Lcia escrevia cartas, falava de festas e de teatros,
de vestidos e de banquetes...

                                                  5

   Os dois homens transpuseram a porta, o negro falou:
   - Mandou chamar, coronel?
   Juca Badar ia dizer que eles entrassem, mas o irmo fez um gesto com a mo que eles
esperassem l fora. Os homens obedeceram e sentaram num dos bancos de madeira que estavam
na varanda larga da casa-grande. Juca andou de um lado para outro da sala, pitou o cigarro.
Esperava que o irmo falasse. Sinh Badar, o chefe da famlia, descansava numa alta cadeira de
braos, cadeira austraca que contrastava no s com o resto do mobilirio, bancos de madeira,
cadeiras de palhinha redes nos cantos, como tambm com a mstica simplicidade, das paredes
caiadas. O relgio na sala de jantar deu as cinco horas da tarde. Sinh Badar pensava, os olhos
semicerrados, a longa barba negra se estendendo sobre o peito. Levantou os olhos, espiou Juca
que andava nervosamente pela sala, o rebenque numa mo, o cigarro fumegando na boca. Mas
logo desviou os olhos e fitou o nico quadro da parede, uma reproduo oleogrfica de uma
paisagem de campo europeu. Ovelhas pastavam numa suavidade azul. Pastores tocavam uma
espcie de flauta e uma camponesa, loira e linda, bailava entre as ovelhas. Descia uma imensa paz
da oleogravura. sinh Badar se lembrou de como a comprara. Entrara casualmente numa casa
de srios na Bahia para avaliar um relgio de ouro. Vira o quadro e se lembrara que Don'Ana h
muito dizia que as paredes da sala necessitavam de algo que as alegrasse. Por isso o comprara e s
agora reparava nele atentamente. Era um campo tranquilo, de ovelhas, pastores, flautas e baile.
Azul, quase cor do cu. Bem diferente era esse campo deles Essa terra do cacau. Por que no
haveria de ser assim tambm como esse campo europeu? Mas Juca Badar andava impaciente de
um lado para outro, esperava a deciso do irmo mais velho. A Sinh Badar repugnava ver
correr sangue de gente. No entanto muitas vezes tivera que tomar uma deciso como a que Juca
esperava naquela tarde. No era a primeira vez que ordenava que um ou dois de seus homens
fossem se postar na "tocaia" para esperar algum que passaria na estrada.
    Olhou o quadro. Bonita mulher... De faces rosadas, os olhos celestes. Mais bonita talvez que
Don'Ana. . . E os pastores eram sem dvida bem diversos dos tropeiros da fazenda... Sinh
Badar gostava da terra e de plantar a terra. Gostava de criar animais, os grandes bois mansos, os
nervosos cavalos, as ovelhas de terno balar. Mas lhe repugnava ter de ordenar a morte de
homens. Por isso demorava sua deciso, s a pronunciava quando via que era o nico caminho.
Ele era o chefe da famlia, estava construindo a fortuna dos Badars, tinha de passar por cima
daquilo que Juca chamava as "suas fraquezas". Nunca havia reparado antes, detidamente, naquele
quadro. O colorido azul era uma beleza... Bem mais bonito que qualquer folhinha de fim de ano,
e havia folhinhas lindas. . .
    Juca Badar parou em frente ao irmo:
    - Eu j lhe disse, sinh, que no h outro jeito... O homem empacou que nem um jumento...
Que no vende a roa, que no h dinheiro, que ele no precisa... E voc bem sabe que Firmo
sempre teve fama de cabeudo. .. No tem jeito mesmo.
    Sinh Badar arrancou com tristeza os olhos da oleografia:
    -  pena que  um homem que nunca fez mal  gente. . . Se no fosse porque esse  o nico
jeito de estender a fazenda prs lados de Sequeiro Grande... Seno vai cair nas mos de Horcio...
    Sua voz se alterou ligeiramente quando pronunciou o nome odiado. Juca aproveitou:
    - Se a gente no manda fazer o servio, Horcio manda na certa. E quem tiver a roa de
Firmo tem a chave das matas de Sequeiro Grande..
    Sinh Badar estava perdido novamente na contemplao do quadro. Juca continuou:
    - Tu sabe, Sinh, que ningum conhece terra pra cacau como eu conheo. Tu veio de fora
mas eu j nasci aqui e desde menino que aprendi a conhecer terra que  boa pro plantio. Posso te
dizer que basta eu pisar numa terra e sei logo se ela presta ou no pro cacaueiro.  uma coisa que
tenho na sola dos ps. Pois eu te digo que no h terra melhor pra lavoura de cacau que as de
Sequeiro Grande. Tu sabe que eu j passei muita noite dentro daquele mundo de mata espiando a
terra. E se a gente no chega l depressa, Horcio chega antes. Ele tambm tem faro. . .
    Sinh Badar passou a mo pela barba negra:
    - E engraado, Juca, tu  meu irmo, tua me foi a mesma velha Filomena que me pariu e
Deus tenha em sua guarda. Teu pai era o finado Marcelino que era o meu pai tambm. E ns dois
 to diferente um do outro como pode ser duas pessoas no mundo. Tu gosta de resolver logo
tudo com tiros e mortes. Eu queria que tu me dissesse: tu acha bom matar gente? Tu no sente
nada? Nada por dentro? Aqui! - e Sinh Badar mostrava o lugar do corao.
    Juca pitou o cigarro, bateu com o rebenque na bota enlameada, andou pela casa. Depois falou:
    - Se eu no te conhecesse, Sinh, mo eu te conheo, e se no te respeitasse como meu irmo
mais velho, eu era at capaz de pensar que tu era um cago.
    - Tu no respondeu o que eu te perguntei.
    - Se gosto de ver a gente morrer? Nem sei mesmo. Quando tenho raiva de um, sou capaz de
cortar ele devagarinho. Tu sabe...
    - E quando no tem raiva?
    - Toda vez que um se mete na minha frente tem que sair pra eu passar. Tu  meu irmo mais
velho e  tu quem resolve das coisas da famlia. Tu  que Pai deixou tomando conta de tudo: das
roas, das meninas, de mim mesmo. Tu  que t fazendo a riqueza dos Badars. Mas eu te digo,
Sinh, que se eu tivesse no teu lugar a gente tinha duas vezes mais terra.
    Sinh Badar levantou-se. Era alto de quase dois metros a barba rolava-lhe pelo peito, negra
de tinta. Os olhos se acenderam, sua voz encheu a sala:
    - E quando tu j me viu, Juca, deixar de fazer uma coisa quando era necessrio? Tu bem sabe
que eu no tenho esse gosto de sangue que tu tem. Mas quando tu j viu eu deixar de mandar
liquidar um quando houve necessidade?
    Juca no respondeu. Respeitava o irmo e talvez a nica pessoa do mundo que ele temesse
fosse Sinh Badar. Este baixou a voz:
    - S que no sou como tu, um assassino. Sou um homem que s faz as coisas por necessidade.
Tenho mandado liquidar gente, mas Deus  testemunha que s fao quando no tem jeito. Sei
que isso no vale nada quando chegar o dia de prestar contas l em cima - apontava o cu.:Mas
para mim mesmo, tem o seu valor.
    Juca esperou que o irmo se acalmasse.
    - Tudo isso por causa de Firmo, um idiota cabeudo. Tu pode me chamar do que quiser, eu
no me importo. Agora s te digo uma coisa: no h terra pra cacau como as de Sequeiro Grande
e se tu quer elas prs Badars no h jeito mesmo... Filmo no vende a roa.
    Sinh Badar fez um gesto com a mo, Juca compreendeu, chamou os homens que estavam
na varanda. Mas, antes que eles entrassem, disse:
    - Se tu no quer, eu explico tudo aos cabras.
    Sinh semicerrou os olhos, sentou-se na alta cadeira:
    - Quando decido uma coisa, tomo a responsabilidade. Eu mesmo falo.
    Olhou o quadro, to tranquilo na sua paz azul. Se aquela terra retratada na oleogravura fosse
boa para o cultivo do cacau ele, Sinh Badar, teria que mandar jagunos pra detrs de uma
rvore, para a "tocaia", jagunos que liquidassem os pastores que tocavam gaita, a moa rosada
que danava to alegre... Os homens estavam esperando, ele fez um esforo, esqueceu toda a
cena do quadro, a mulher parando seu baile com o tiro que ele mandara dar, comeou a repetir
ordens com sua voz pausada de sempre, firme e calma.

                                                6

    Pela estrada onde o venta da tarde levanta uma poeira vermelha de barro vo dois homens,
cada um com sua repetio a tiracolo. Viriato, mulato sarar que viera do serto, prope uma
aposta:
    - Tou apostando cinco mil-ris que o homem vem  do meu lado. . .
    Acontecia que a estrada real se bifurcava nas proximidades da fazendola de Firmo. Por isso
Sinh Badar mandara dois homens. Um para cada caminho. O negro Damio, que era seu
homem de confiana, certeiro na pontaria, devotado como um co de caa, ficaria no atalho por
onde era mais provvel que Firmo passasse, economizando caminho e tempo. Viriato esperaria
na estrada real, por detrs de uma goiabeira onde j outros haviam cado antes. Viriato est
propondo uma aposta e apesar de que  quase certo que Firmo venha pelo atalho, Damio no
aceita. Viriato se admira:
    - Tou te desconhecendo, irmo. T curto de arame?...
    Mas no era porque lho faltasse cinco mil-ris, salrio de dois dias, que Damio no aceitava.
Muitas vezes havia apostado mais que isso, em outras tocaias, noutras tardes como esta. Mas hoje
h alguma coisa que o impede de aceitar.
    A noite vai caindo sobre os dois homens na estrada deserta de viandantes. S encontraram at
agora um homem montado num burro que os olhou muito e logo esporeou o burro pedindo
distncia. Quem no conhece nessas redondezas ao negro Damio, o jaguno de confiana de
Sinh Badar Sua fama corre terra, h muito que est alm da Palestina, de Ferradas e de
Tabocas. Dos botequins de Ilhus; onde comentavam seus feitos, ele viajara nos pequenos navios
at a capital e um jornal da Bahia j publicara seu nome em letra redonda. Como era um jornal de
oposio falava muito mal dele, chamava-o de nomes feios. Damio se lembra perfeitamente
desse dia: Sinh Badar o mandara chamar na casa-grande na hora do almoo. Estava muita
gente na mesa, onde as garrafas de vinho destapadas revelavam a presena do juiz. Estava
tambm o Dr. Genaro, o advogado dos Badars, e fora ele quem trouxera o jornal. Dr. Genaro
no era brilhante como o Dr. Rui, no sabia fazer aqueles discursos cheios de palavras bonitas,
mas conhecia meticulosamente todos os intrincados detalhes da lei e de como passar por cima da
lei, e Sinh Badar o preferia a qualquer dos vrios advogados do foro de Ilhus. Sinh Badar
sorriu para Damio, mostrou-o aos outros:
    - T aqui a fera. . .
    Como ele riu, Damio riu tambm, seu largo riso inocente, os dentes brancos e perfeitos
brilhando na enorme boca negra. O juiz bbado riu alegremente mas o Dr. Genaro apenas sorriu
e dava a impresso de que o fazia por pura cortesia. Sinh Badar continuou, agora falava para
Damio:
    - Tu sabe, negro, que os jornais da capital to se ocupando de ti Diz que no h melhor
matador nessa zona que Damio, o cabra de Sinh Badar.
    Dizia com orgulho e com orgulho Damio respondeu:
    - E verdade, Sinh, sim. No sei de cabra mais certeiro na pontaria que esse negro que t aqui
- e riu novamente com satisfao.
    Dr. Genaro engoliu em seco, encheu seu copo. O juiz
acompanhou a gargalhada de Sinh Badar. Esse leu a notcia para Damio que s a
compreendeu pela metade, havia muitos termos demasiado difceis para ele. Mas se foi satisfeito
porque Sinh Badar gritara para dentro:
    - Don'Ana! Don'Ana!
    A filha chegou da cozinha onde dirigia o andamento do almoo, era morena e forte, silvestre
flor da mata:
    - Que , pai?
    O juiz a olhava de olhos interessados. Sinh Badar ordenou:
    - Tira cinquenta mil-ris do cofre e d a Damio. O nome dele anda pelos jornais..
    Depois despediu o negro e a conversa continuara na sala de almoo. Damio fora a Palestina
gastar o dinheiro com as rameiras. Bebera a noite toda e a toda gente contava que um jornal da
Bahia tinha escrito que no havia pontaria como a dele.
    Por isso o homem montado esporeava o burro. Sabia que tiro do negro Damio era caixo de
enterro encomendado e sabia tambm que cabra de Sinh Badar era cabra garantido, no havia
polcia para eles. Toda a gente sabia que o juiz era homem dos Badars, at roa tinham botado
para ele, os Badars estavam por cima na poltica, contavam com a justia. Quando o homem
esporeou o burro, Viriato riu se divertindo. Mas o negro Damio ficou srio e Viriato repetiu:
    - Tou te desconhecendo, irmo..
    Damio tambm estava se desconhecendo. Muitas vezes j fora para outras "tocaias", esperar
homens a quem matar. E hoje era como se fosse pela primeira vez.
    Aqui a estrada se bifurcava. Viriato insistiu:
    - No quer apostar, negro
    - J disse que no.
    Se separaram, Viriato foi assobiando. A noite descera completamente, a lua iniciava sua subida
para o cu. Noite boa para uma "tocaia". Se via a estrada como se fosse de dia. O negro Damio
tomou pelo atalho, sabia de uma rvore magnfica para a espera. Era uma jaqueira frondosa na
beira da estrada, parecia de propsito para um homem se esconder atrs dela e atirar no que
passasse. "Nunca atirei em nenhum dessa jaqueira", pensou Damio. O negro vai triste, desde a
varanda ele ouvira a conversa dos irmos Badars. Ouvira o que Sinh dissera a Juca e  isso que
o perturba nessa noite. Seu corao inocente est apertando numa agonia. Nunca Damio se
sentiu assim. No compreende, nada lhe di no corpo, no est doente, e no entanto era como se
o estivesse.
    Se antes algum lhe dissesse que era terrvel esperar homens na "tocaia" para mat-los, ele no
acreditaria, pois seu corao era inocente e livre de toda a maldade. As crianas da fazenda
adoravam o negro Damio que servia de cavalo para as mais pequenas, que ia buscar jaca mole
nas grandes jaqueiras, cachos de banana-ouro nos bananais onde viviam as cobras, que selava
cavalos mansos para os maiorezinhos passearem, que levava todos para o banho no rio e lhes
ensinava a nadar. As crianas o adoravam, para elas ningum era melhor que o negro Damio.
    Sua profisso era matar, Damio nem sabe mesmo como comeou. O coronel manda, ele
mata. No sabe quantos j matou. Damio no sabe contar alm de cinco e ainda assim pelos
dedos. Tampouco lhe interessa saber. No tem dio de ningum, nunca fez mal a pessoa alguma.
Pelo menos assim pensou at hoje. Por que hoje tem o corao pesado como se estivesse doente?
 delicado na sua rudeza, se h um trabalhador enfermo na fazenda, logo aparece Damio para
fazer companhia, para ensinar remdios de ervas, para chamar Jeremias, o feiticeiro. Por vezes os
caixeiros-viajantes que param na casa-grande obrigam-no a contar algumas das mortes que ele
praticou. Damio narra com voz calma, inocente de todo o mal. Para ele uma ordem de Sinh
Badar  indiscutvel. Se ele manda matar h de matar. Da mesma maneira que quando ele manda
selar a sua mula preta para uma viagem h que selar a mula preta rapidamente. E demais, no h
o perigo da cadeia porque cabra de Sinh Badar nunca foi preso. Sinh sabe garantir os seus
homens, trabalhar para ele  um prazer. No  como o coronel Clementino que mandava fazer o
trabalho e depois entregava os homens. Damio desprezava o coronel. Um patro assim no 
patro para um homem de coragem servir. ele o servira muito antes quando era um rapazola. L
aprendera a atirar, para Clementino matara o primeiro homem. E um dia teve que fugir da
fazenda porque a polcia fora procur-lo e o coronel nem o avisara sequer... Se acoitara em terras
dos Badars e agora era o homem de confiana de Sinh Se no seu corao h algum mau
sentimento  o desprezo profundo que ele sente pelo Coronel Clementino. Por vezes, quando
falam no seu nome nas casas dos trabalhadores, o negro Damio cospe e diz:
    - Aquilo no  homem.  mais covarde que uma mulher... Devia vestir saia...
    Diz e depois ri com seus dentes brancos, com seus olhos grandes, com o rosto todo. Risada
feliz e s, inocente como a gargalhada de uma criana. Rolava pela fazenda, ningum a distinguia
da risada das crianas quando Damio estava brincando com elas no terreiro, ao lado da casa-
grande.
    O negro Damio chega  jaqueira. Tira a repetio, coloca-a sobre o tronco d rvore. De um
bolso da cala de bulgariana saca o pedao de fumo de corda. Comea com o faco a cortar fumo
para um cigarro. A lua agora  enorme e redonda, to grande assim Damio nunca viu. Sente que
dentro dele alguma coisa se aperta como se tivesse uma mo enorme, uma das suas enormes
mos negras, a apert-lo por dentro. Nos seus ouvidos ainda soam as palavras de Sinh Badar:
"Tu acha bom matar gente? Tu no sente nada? Nada por dentro?" Damio nunca pensou que se
pudesse sentir nada. E hoje ele sente, as palavras do coronel esto sobre seu peito como um peso
impossvel de arrancar, mesmo por um negro forte como Damio. ele sempre odiou a dor fsica.
Suportava-a bem, uma vez deu um profundo talho no brao esquerdo com o faco, quando
cortava os cocos de cacau nas roas. Atingira quase o osso e ele odiou a dor, se bem que
continuasse assobiando enquanto Don'Ana Badar botava iodo na ferida. Outra vez Jacundino o
cortara tambm a faco, trs talhos numa perna. Aquilo, aquela dor ele compreendia, era uma
coisa que estava, por assim dizer, diante dos seus olhos. Mas o que ele sente agora  diferente.
Coisas em que ele nunca pensou enchem sua cabea quase to grande como a de um boi. Tinha
as palavras de Sinh Badar metidas na cabea e atrs delas vinham imagens e sensaes, velhas
imagens j esquecidas e novas sensaes antes desconhecidas.
    Acabou de fazer seu cigarro. A luz do fsforo brilhou na mata. Pitou. ele nunca pudera
imaginar o coronel com remorso. Era remorso a palavra. Uma vez um caixeiro-viajante lhe
perguntara se ele, Damio, no tinha remorsos. ele pedira que lhe explicasse o que era. O viajante
explicou e Damio apenas disse na maior inocncia:
    - Por que?
    O caixeiro-viajante sara assombrado e at hoje narrava o caso nos cafs da Bahia, quando,
com outros, discutia sobre a humanidade, a vida, os homens, e outras filosofias. Depois, num
Natal, Sinh Badar trouxera um frade para celebrar missa na fazenda. Havia armado um altar na
varanda - uma beleza de altar, ao se lembrar Damio sorri seu nico sorriso dessa noite de
"tocaia" - Damio ajudara muito a Don'Ana, a j finada Ldia, esposa de Sinh, a Olga, mulher de
Juca, que tratavam da festa. O frade chegou de noite, houve um jantar com uma infinidade de
pratos, galinhas, perus, carne de porco e de carneiro, caa e at peixe que haviam mandado
buscar em gua-Branca. Havia aquela pedra fria que chamavam gelo e Don'Ana, que era uma
menina ficando moa, dera um pedao a Damio, pedao que lhe queimara a boca. Don'Ana rira
muito com a cara desconsolada do negro. No outro dia foi a missa, quem era amigado se casou,
os meninos se batizaram, os padrinhos eram sempre da famlia dos Badars. Por fim o frade fez
um sermo, um discurso que nem o Dr. Rui era capaz de fazer to bonito nos juris de Ilhus. 
verdade que ele tinha a lngua meio embolada porque era estrangeiro, mas talvez por isso mesmo
quando falava do inferno, das chamas que queimavam os condenados para todo o sempre, fazia
estremecer os homens. At Damio ficara com medo. Antes nunca pensara no inferno, depois
tampouco voltou a pensar. S hoje se lembra do frade, da sua voz gritando com dio contra os
que matavam seus semelhantes. O frade falara muito em remorso, o inferno em vida. Damio j
sabia o que era remorso, mas naquela ocasio tampouco a palavra o impressionou. Ficara
impressionado, sim, com a descrio do inferno, um fogo que no acabava, um queimar sem fim
das carnes. No pulso Damio tem a marca de uma queimadura, uma brasa que lhe cara em cima,
um dia em que ajudava as negras na cozinha. Doera de fazer medo. Imagine ento o corpo todo
queimado e queimando sempre, sempre, sempre. E o frade disse que bastava matar um para ir
com certeza pro inferno. Damio nem sabe quantos matou. Sabe que foram mais de cinco
porque at cinco sabe contar e contou. Depois perdera a conta, sem achar que aquilo tivesse
muita importncia. No entanto hoje, enquanto fuma seu cigarro na "tocaia", ele se esfora
inutilmente para se recordar de todos. Primeiro fora aquele tropeiro que desfeiteara o coronel
Clementino. Fora uma coisa inesperada, ele ia com o coronel, montados os dois, quando
cruzaram com a tropa que viajava para o Banco-da-Vitria. O tropeiro quando viu Clementino
lanara o longo chicote de tocar os burros na cara do coronel. Clementino ficara branco, gritara
para Damio:
    - Abaixa ele. . .
    Foi com um revlver que levava no cinto. Atirou e o tropeiro caiu, os burros passaram por
cima do cadver. Clementino tocou para a fazenda, no rosto levava a marca vermelha do chicote.
Damio nem tivera tempo de pensar no caso porque a polcia apareceu dias depois e ele tivera
que fugir. Depois comearia a matar para Sinh Badar: Zequinha Fontes, o coronel Eduardo,
aqueles dois jagunos de Horcio no encontro de Tabocas, faziam cinco, mas j Slvio da Toca o
negro Damio no sabia que nmero era. Muito menos o homem que quisera atirar em Juca
Badar numa casa de mulheres em Ferradas e que s no atirou porque Damio puxara antes o
revlver. Muito menos os que se seguiram. Que nmero seria Firma? "Vou pedir a Don'Ana que
me ensine a contar na outra mo." Havia trabalhadores que sabiam contar nos dedos da mo e
nos dedos dos ps, mas estes eram uns inteligentes, no eram um negro burro como Damio.
Mas agora era necessrio saber contar pelo menos os dedos da outra mo. Quantos homens j
havia matado? A lua sobe sobre a jaqueira, ilumina a estrada por onde vir Firmo. Sim, porque
com certeza ele vir por aqui e no pela estrada real onde est Viriato.  um atalho de quase uma
lgua, Firmo deve estar com pressa de chegar em casa, de arrancar as botas e deitar com dona
Teresa, sua mulher. Damio a conhecia, algumas vezes parara em frente da casa, quando ia de
viagem, para pedir um caneco de gua. E dona Teresa, um certo dia at lhe dera uma pinga e
trocara duas palavras com ele. Era bonita, branca que nem um papel de escrever. Mais branca que
Don'Ana. Don'Ana era morena, queimada do sol. Dona Teresa parecia que nunca tinha estado ao
sol, que o sol no queimava suas faces, sua carne branca. Tinha vindo da cidade, era filha de um
italiano e possua uma voz bonita, parecia que estava cantando quando falava. Firmo, com
certeza, vem com pressa de chegar em casa, deitar com a mulher, se enfiar naquelas carnes
brancas. Mulher naquelas bandas era coisa rara. Tirando as rameiras dos povoados, quatro ou
cinco em cada um, cada qual mais acabada de doena, apenas uns poucos homens tinham
mulher. E claro que isso se passava com os trabalhadores e Firmo no era um trabalhador, tinha
uma rocinha, ia andando para a frente, se deixassem ia acabar um coronel com muitas terras.
Botara a rocinha, foi logo pra Ilhus arranjar uma mulher. Casara com a filha de um italiano que
era padeiro. Mulher branca e bonita, at haviam dito que Juca Badar, que era doido por mulher,
andara de Olho nela. Damio no sabia ao certo. Mas mesmo que fosse verdade, com certeza ele
no tinha querido nada porque Juca arrepiara carreira e os comentrios haviam cessado. Sim, no
tinha dvida, Firmo viria pelo atalho, no ia encompridar caminho quando tinha uma mulher
branca e moa esperando por ele. E' a verdade  que o negro Damio est preferindo que Firmo
venha pela estrada real...  a primeira vez que lhe acontece isso. Na confuso que vai pela sua
cabea e pelo seu peito ele sente tambm uma certa humilhao.
    Parecia at que ele no estava acostumado. Parecia at Antnio Vtor, aquele trabalhador que
viera de Sergipe e que quando matara um homem no encontro de Tabocas, com a gente de
Horcio, ficara tremendo a noite toda, chegara mesmo a chorar que nem uma fmea. Depois
acostumara e agora era o capanga de Juca Badar, andava sempre a seu lado nas suas viagens.
Quem estava igual a Antnio Vtor, naquele dia era o negro Damio como se no estivesse
acostumado a ficar uma noite toda na "tocaia' esperando um homem. Se os outros soubessem ia
se rir dele como se haviam rido de Antnio Vtor naquela noite do barulho de Tabocas. O negro
Damio fecha os olhos para ver se consegue esquecer todas aquelas imagens. O cigarro j acabou
e ele pensa se vale a pena fazer outro. Tem pouco fumo e a espera pode demorar. Quem sabe a
que horas vir Firmo? Fica indeciso, est quase contente porque agora s pensa nesse problema
do fumo. Fumo bom... Esse  sertanejo do bom, o que  feito em Ilhus no vale nada,  uma
desgraa, seco, no dura... Mas que faz ali Teresa? E branca, Damio est pensando e no fumo
negro, que  que vem fazer ali o rosto branco de dona Teresa? Quem a chamou? O negro
Damio tem raiva. Mulher  sempre metida, aparece sempre onde ningum a chama. Ms
tambm, por que Sinh Badar, naquela tarde, dera de falar naquelas coisas para o irmo? Por
que pelo menos no mandara que ele e Viriato fossem para longe? Da varanda ouvia a conversa
toda:
    - Tu acha bom matar gente? Tu no sente nada? Nada por dentro
    O negro Damio est sentindo. Antes nunca sentia nada. Talvez se no fosse Sinh Badar
quem houvesse falado, se fosse o prprio Juca, talvez ele nem ligasse. Mas Sinh Badar era
como um deus para Damio. Respeitava-o mais que a Jeremias, o feiticeiro que o tinha "curado"
de bala e de mordida de cobra. E as palavras tinham ficado dentro dele, pesavam sobre seu
corao, andavam pela sua cabea. E traziam Para a sua frente o rosto branco de dona Teresa,
esperando o marido, repetindo as palavras de Sinh Badar, as palavras do frade tambm. Ela era
meio estrangeira como o frade. S que a voz do frade era cheia de raiva, anunciava coisas
terrveis, e a voz de dona Teresa era doce como uma musica.
    J no pensava em fazer um cigarro e pitar. Pensava era em dona Teresa esperando Firmo
para o amor na cama de casal. Carnes brancas que esperavam o marido. Tinha cara de ser uma
criatura boa. Uma vez dera uma pinga ao negro Damio... E trocara com ele umas palavras sobre
o sol que batia a estrada naquela tarde. Sim, era uma mulher boa, sem besteiras. Bem que podia
nem ter falado a um negro assassino como Damio. Ela tinha sua roa de cacau, podia ser uma
orgulhosa como tantas outras. Mas tinha lhe dado uma pinga e falara sobre o sol escaldante. No
tivera medo dele como muitas outras... Muitas outras que, mal enxergavam o negro Damio que
vinha vindo, se escondiam pela casa adentro, eram os maridos que atendiam. Damio sempre se
rira desse medo que algumas senhoras lhe tinham, at se orgulhava dele: era a sua fama, que
corria mundo. Mas hoje, Damio, pela primeira vez, imagina que no fugiam de um negro
valente. Que fugiam de um negro assassino... Um negro assassino... Repetiu as palavras baixinho,
devagarinho, e elas soaram tragicamente aos seus ouvidos. O frade disse que ningum deve matar
os outros, que  um pecado mortal que se pagava com o inferno Damio no ligara. Mas hoje
fora Sinh Badar que dissera aquelas coisas sobre matar. Um negro assassino. . . E dona Teresa
era boa, bonita como que, branca como ela no havia outra nas fazendas prximas... Gostava do
marido, bem se via, tanto que nem aceitara o arrastar de asa de Juca Badar, homem rico por
quem as mulheres viviam se babando. . . As mulheres tinham medo dele, do negro Damio, o
assassino. .. Agora se recordava de uma srie longa de detalhes, mulheres que desapareciam dos
terreiros quando ele surgia, outras que o espiavam a medo pelas frestas das janelas, aquela
prostituta de Ferradas que no quis dormir com ele de jeito nenhum" apesar dele mostrar a nota
de dez mil-ris na mo... No quisera dormir com ele. No dissera por qu, inventara que estava
doente, mas na sua cara, Damio vira outra coisa: o medo. No ligara, rira sua gargalhada ampla,
foi em busca de outra mulher. Mas agora a recusa da rameira lhe di no peito j to ferido nesse
dia. S Don'Ana Badar era boa com ele, no tinha medo do negro. Mas Don'Ana era uma
mulher valente, era da famlia dos Badars. As crianas  que no tinham medo dele, as crianas
no entendiam nada ainda, no sabiam que ele era um assassino que ia para as "tocaias" esperar
homens para derrubar com sua pontaria certeira. Gostava das crianas. Se entendia melhor com
elas que com os grandes. Gostava de brincar com os ingnuos brinquedos dos meninos das
casas-grandes, gostava de fazer as vontades dos filhos miserveis dos trabalhadores. Se dava bem
com as crianas. . . E, de sbito, a idia aterradora cortou sua cabea: e se dona Teresa estivesse
prenhe, um filho na barriga? Ia nascer sem pai, o pai teria ficado debaixo da pontaria do negro
Damio. . . Faz uma fora imensa, sua enorme cabea est pesada como nos dias de grande
bebedeira: no, dona Teresa no est grvida, ele reparara bem nela no dia em que haviam
trocado duas palavras na porta da casa de Firmo. Ela no tinha barriga nenhuma, no, no estava
prenhe... Mas isso j fazia seis meses, quem sabe se agora? Bem que pode estar pra parir, um filho
na barriga... Ia nascer sem pai, ia saber que o pai cara na estrada numa noite de lua, derrubado
pelo negro Damio. E teria dio do negro, no seria como as outras crianas que vinham brincar
com Damio, que subiam nas suas costas quando ainda no podiam montar nos burros mais
mansos.. No comeria jaca colhida pelo negro Damio, nem banana-ouro que o negro ia buscar
nos bananais. Olharia o negro com dio, para ele Damio seria sempre o assassino de seu pai...
    Damio sente uma tristeza infinita. A lua sobre ele, a jaqueira o esconde da estrada, a repetio
descansa no tronco. Outros marcavam no cabo da arma, com um trao, cada morto derrubado.
Ele nunca o fizera porque no queria estragar sua repetio. Gostava dela, guardava-a sempre
dependurada sobre sua cama de tbuas, sem colcho. Por vezes,  noite, Sinh Badar tinha que
sair de viagem e mandava chamar o negro para acompanh-lo. Era s pegar da repetio e andar
para a casa-grande. Os burros j estavam selados, quando Sinh montava ele montava tambm, ia
atrs do patro, a repetio na frente da sela. Podia um homem de Horcio estar escondido na
estrada. Acontecia que Sinh Badar o chamava para a frente e ia conversando com ele sobre as
raas, as safras, sobre o estado do cacau mole, sobre uma srie de coisas que se relacionavam com
a vida da fazenda. Esses eram dias felizes para o negro Damio. Felizes tambm porque, quando
chegavam no termo da viagem: Rio-do-Brao, Tabocas, Ferradas ou Palestina, o coronel lhe dava
uma nota de cinco mil-ris e ele ia passar o resto da noite na cama com uma mulher. A deixava a
repetio nos ps da cama porque Sinh poderia querer voltar a qualquer momento e um
moleque do povoado corria as casas de mulheres  procura do negro. Ele saltava da cama - certa
noite saltou mesmo do corpo da mulher - pegava da repetio e ia de novo. Se encaminhara com
a arma, a trazia limpa, dava gosto ver. Hoje, no entanto, nem a quer mirar, seus olhos procuram
outra viso. A lua est no alto dos cus. Por que se pode fitar a lua e no h olhos que aguentem
fitar o sol? Esse problema nunca ocorrera ao negro Damio Agora se tranca nele, sua cabea
toda empregada em resolve-lo. Assim no v dona Teresa, nem o filho que ela vai ter, nem a voz
de Sinh Badar perguntando a Juca:
    - Tu acha bom matar gente? Tu no sente nada? Nada por dentro?
    Por que ningum pode olhar o sol de cara para cima? No h quem aguente. Tambm aos
homens que matara, Damio nunca havia olhado depois. No tinha tempo, tinha que arribar logo
depois de feito o "trabalho". Tambm nunca tivera o desgosto de saber que um ficara com vida,
como o finado Vicente Garangau que tinha tanta fama e foi acabar nas mos de um em quem
atirara. No foi se certificar se o homem estava morto mesmo e depois terminou daquela
maneira horrorosa, cortado aos pedacinhos. . Damio tambm nunca foi ver nenhum dos que
derrubou. Como ficariam? Ele j viu muito homem morto, mas como seria que haviam de ficar
os que ele matou? Como ficaria Firmo nessa noite de hoje? Cairia de bruos sobre o burro, que o
arrastaria na corrida, ou cairia logo no cho, o sangue correndo do peito? Assim de peito furado o
levariam para casa quando o encontrassem no outro dia. Dona Teresa la estaria aflita com a
demora. E que faria quando o visse chegar j frio, morto pelo negro Damio? As lgrimas
desceriam pelo seu rosto branco de cal. Talvez at fizesse mal  prenhez dela. Talvez, com o
choque, tivesse o filho antes do tempo. Talvez at morresse, que era fraca, to magra na sua
brancura... Assim, em vez de matar um, o negro teria matado dois. . . Teria matado uma mulher e
isso um negro valente no faz... E o menino? No estava contando com o menino. Com o
menino - Damio contou nos dedos  eram trs. . . Agora j no discutia que Teresa estivesse
grvida. Era uma coisa certa para ele. Ia matar trs nessa noite.. Um homem, uma mulher e um
menino. Os meninos so to lindos, bons para o negro Damio, gostam dele. Com aquele tiro ele
ia matar um... E tambm a dona Teresa, a carne branca morta no caixo de defuntos, o enterro
saindo para o cemitrio de Ferradas que era o mais perto. Ia ser preciso muita gente para levar os
trs caixes. Iriam buscar gente pela redondeza, possivelmente acudiriam  fazenda dos Badars.
E Damio viria e levaria o caixozinho azul da criana que estaria vestida de anjo... Era quase
sempre ele quem levava os caixes de "anjo' quando uma criana morria na fazenda. Damio
arranjava flores silvestres, enfeitava o caixo, levava-o no ombro. Mas o do filho do Firmo ele
no poderia levar... Pois se foi ele quem o matou... O negro Damio faz fora novamente. Sua
cabea no lhe obedece, por que? A verdade  que ele no matou nenhuma criana, no matou
dona Teresa, no matou nem mesmo a Firmo ainda. Nesse momento foi que a idia de no matar
Firmo apareceu pela primeira vez na cabea do negro Damio. Levemente apenas, ele no
chegou propriamente a pensar em no matar. Foi uma coisa rpida e fugidia, mas ainda assim o
amedrontou. Como no cumprir uma ordem de Sinh Badar? Homem direito, Sinh Badar.
Demais gostava dele, do seu negro Damio. Na estrada conversava com ele, tratava-o quase
como a um amigo. E Don'Ana tambm. Lhe davam dinheiro, seu salrio era dois mil e
quinhentos ris por dia, mas em verdade ele tinha muito mais, cada homem que derrubava era
uma gratificao na certa. Alm de que trabalhava pouco, h muito que no ia para as roas,
ficava sempre fazendo pequenos servios na casagrande, acompanhando o coronel nas suas
viagens, brincando com as crianas, esperando ordens para matar um homem.. Sua profisso:
matar. Agora Damio se d perfeita conta disso. Sempre lhe parecera que ele era um trabalhador
da fazenda dos Badars. Agora  que via que era apenas um "jaguno". Que sua profisso era
matar, que, quando no havia homens que derrubar na estrada, ele no tinha nada que fazer.
Acompanhava Sinh mas era para guardar a vida dele, era para baixar algum que quisesse balear o
coronel. Era um assassino.. Essa fora a palavra que Sinh Badar empregara a respeito de Juca,
na conversa daquela tarde. Palavra justa para ele tambm. Ainda agora que fazia ali seno esperar
um homem para atirar nele? Estava sentindo alguma coisa por dentro, alguma coisa que era
terrivelmente dolorosa. Doa como uma ferida. Era como se o tivessem apunhalado por dentro.
A lua brilha sobre a mata silenciosa. Damio se lembra que pode fazer um cigarro, assim ter
alguma coisa em que se ocupar.
    Quando acabou de acender o cigarro a idia voltou: e se ele no matasse Firmo? Agora
chegou como uma coisa definida, Damio se encontrou pensando no assunto. No, isso no era
possvel. Damio sabia perfeitamente por que Sinh Badar necessitava da morte de Firmo. Era
para poder mais facilmente se apossar da sua roa e marchar para as matas de Sequeiro Grande.
Quando os Badars tiverem aquelas matas vo ter a fazenda maior do mundo; vo ter mais cacau
que o resto de toda gente junta, vo ser mais ricos que mesmo o coronel Misael. No, deixar de
liquidar Firmo nessa noite era faltar  confiana que Sinh depositava nele. Se o mandara 
porque confiava no negro Damio. Tinha que matar. Se aferrou a esse pensamento. Matara
tantos antes, por que hoje era to difcil? O pior era Teresa, a branca dona Teresa, com um filho
no bucho. Ia morrer com certeza, o menino tambm. Est vendo dona Teresa, antes aqui era o
branco luar que caa, agora  o rosto alvo da mulher de Firmo. Nem que tivesse bebido, um porre
me. Outros bebiam antes de ir liquidar um homem. Ele nunca precisou. Veio sempre calmo,
confiante na sua pontaria. Nunca precisou tomar um trago como os outros, se ? embebedar para
atirar num homem. Mas hoje se encontra mo se tivesse bebido muito e a cachaa tivesse subido.
Est vendo no cho o rosto branco de dona Teresa. Antes era o luar, alvo de leite, se derramando
sobre a terra. Virou dona Teresa, de rosto branco e aflito, de rosto aberto numa surpresa trgica;
estava esperando o marido para o amor, ele chegava morto, uma bala no peito. Do cho ela
olhava para o negro Damio. Est pedindo que ele no mate Firmo, que pelo amor de Deus ele
no mate... No cho de luar o negro v perfeitamente visto o rosto de Teresa. Se estremece todo,
seu enorme corpo de gigante.
    No, no podia atender, dona Teresa. Sinh Badar mandou, o negro Damio tem que fazer.
No podia trair a confiana de um homem direito como Sinh Badar. Ainda se fosse Juca que
tivesse mandado.. Mas era Sinh, dona Teresa, esse negro no pode fazer nada. A culpa tambm
 de seu marido... Por que diabo ele no vende a roa? No t vendo que contra os Badars ele
no pode lutar? Por que ele no vendeu a roa, dona Teresa? No chore que o negro Damio 
capaz de chorar tambm... E um cabra valente no pode chorar que se desmoraliza. O negro
Damio lhe jura que se pudesse no matava Firmo, lhe fazia a vontade. Mas foi Sinh quem
mandou, negro Damio tem que obedecer...
    Quem disse que Dona Teresa era boa! mentira. Agora ela abre a boca e com sua voz musical
repete aquelas palavras de Sinh Badar:
    - Tu acha bom matar gente Tu no sente nada? Nada por dentro?
    A voz dela  musical mas  terrvel tambm. Soa como uma praga na mata, no corao
amedrontado do negro. O cigarro se apagou, ele no tem coragem de riscar um fsforo para no
despertar as assombraes da mata. S agora pensou nelas porque esse rosto de dona Teresa se
desenhando no cho  com certeza coisa de bruxaria. Damio sabe que muita gente tem rogado
praga contra ele. Parentes de gente que ele matou. Pragas horrveis, ditas na hora do sofrimento e
do dio. Mas eram coisas distantes. Damio apenas sabia delas por ouvir dizer. Agora no. 
dona Teresa que est ali, seus olhos tristes, seu branco rosto, sua voz musical e terrvel.
Amaldioando o negro Damio. Perguntando se ele no sente nada por dentro, l no fundo do
corao. Sente, sim, dona Teresa. Se o negro Damio pudesse no matava Firmo. Mas no tem
jeito, no  porque ele queira, no. . .
    E, se dissesse que errou o tiro? Era uma idia nova, iluminou o crebro de Damio. Por um
segundo ele viu o luar em vez do rosto de Teresa. Ficaria desmoralizado, outros cabras no
erravam a pontaria, quanto mais o negro Damio! Sua pontaria era a melhor de toda aquela zona
do cacau. Nunca dera dois tiros para matar um homem. Bastou sempre com o primeiro. Ficaria
desmoralizado, toda a gente ia rir dele, at as mulheres, at os meninos. Sinh Badar daria seu
lugar a outro... Iria ser um trabalhador como os outros, colhendo cacau, tocando burros,
danando na barcaa para secar os caroos moles. Toda gente ia rir dele. No, no podia. Demais
ia trair da mesma maneira a confiana de Sinh Badar. O coronel precisava que Firmo morresse,
quem tinha culpa era mesmo Firmo que era to cabeudo.
    Dona Teresa sabe de tudo no mundo,  mesmo assombrao, porque ela agora est
lembrando ao negro, desde o cho onde seu rosto substituiu novamente o luar, que Sinh estava
indeciso naquela tarde, s mandou os homens porque Juca forara. Damio levanta os ombros...
Sinh Badar era l homem para decidir uma coisa s porque Juca insistia... Isso era no
conhecer Sinh Badar... Bem se v que dona Teresa no o conhece... Ela, porm, est
lembrando detalhes e o negro Damio comea a vacilar. E se Sinh no quisesse tambm a morte
de Firmo? Se tambm ele tivesse pena de dona Teresa? Do filho que ela tem na barriga? Se ele
tambm estivesse sentindo alguma coisa por dentro como o negro Damio Damio aperta a
cabea com as mos. No, era verdade. Era tudo mentira de dona Teresa, de dona Teresa com
suas bruxarias. Sinh Badar, se no quisesse que Firmo morresse, no o mandaria. Sinh Badar
s faz o que quer. Para isso ele  rico e  o chefe da famlia. Juca tinha medo dele, apesar de toda
valentia que arrota. Quem  que no tinha medo de Sinh Badar? S mesmo o negro Damio.
Mas, se no matar Firmo, vai ter medo toda vida, nunca mais vai olhar direito para Sinh Badar.
    Do cho a voz de dona Teresa se rindo do negro: "ento  s de medo de Sinh Badar que
ele vai matar Firmo? Com medo de Sinh Badar? E esse  o negro Damio que se diz o cabra
mais valente da redondeza?..."
    Dona Teresa no ri, a risada cristalina e burlona sacode os nervos do negro. Ele est tremendo
todo por dentro. A risada vem do cho, vem da mata, da estrada, do cu, de toda parte, todos
esto dizendo que ele tem medo, que ele  um medroso, um cago, ele, o negro Damio falado
nos jornais... dona Teresa no ria mais, eu sou capaz de lhe dar um tiro. Nunca atirei em mulher,
um homem no faz isso. Mas sou capaz de atirar em vosmec, se vosmec no parar de rir. No
ria do negro Damio, dona Teresa. O negro no tem medo de Sinh Badar.. Tem  respeito,
no quer faltar  confiana que Sinh tem nele. . Por Deus que  isso. . . No ria mais que eu lhe
dou um tiro, lhe meto bala nessa cara branca...
    Esto apertando seu peito. O que foi que puseram em cima dele? Isso  bruxaria,  praga que
lhe rogaram. Praga de mulher em cima do negro. Vem da mata a voz que repete as palavras de
Sinh Badar:
    - Tu acha bom matar gente? Tu no sente nada? Nada por dentro?
    A mata inteira ri dele, a mata toda grita aquelas palavras, a mata toda aperta seu corao, dana
na sua cabea. Na frente dona Teresa, no  ela toda,  s o rosto. Isso  bruxaria,  praga que
rogaram no negro. Damio sabe bem o que eles querem. Querem que ele no mate Firmo...
Dona Teresa est pedindo, o que ele pode fazer? Sinh Badar  um homem direito, dona Teresa
tem o rosto branco. Est chorando... Mas quem ? E dona Teresa com seu rosto no cho ou  o
negro Damio? Est chorando... Di mais que talho de faco, que brasa chiando na carne do
negro...
    Prenderam seus braos, no pode matar. Prenderam seu corao, ele tem que matar.. . Pelo
rosto negro de Damio choram os olhos azuis de dona Teresa... A mata se sacode em riso, se
sacode em pranto, a bruxaria da noite rodeia o negro Damio. ele sentou no cho e chora
mansamente como uma criana castigada.
    O rudo de um burro trotando aumenta na estrada. Vem mais perto, cada vez mais perto, sob
o luar aparece o vulto de Firmo. O negro Damio alteia seu corpo, se levanta, um n na garganta,
suas mos tremem na repetio. A mata grita em torno, Firmo se aproxima.

                                                 7

    - Cristal bacarat... - anunciou Horcio batendo com o dedo na taa. Sonoridades claras e
pequenas se espalharam pela mesa. Horcio completou;
    - Me custou um dinheiro. . . Foi quando casei. Mandei buscar no Rio...
    O Dr. Virglio tomou da sua taa onde as gotas do vinho portugus manchavam de sangue a
transparncia do cristal. Suspendeu-a  altura dos olhos:
    -  de refinado bom gosto. . .
    Se dirigia a todos mas seu olhar demorou em Ester como a lhe dizer que ele, Virglio, sabia
perfeitamente que o bom gosto era dela. Falava com sua bela voz cheia e modulada e escolhia as
palavras como se estivesse num torneio de oratria. Saboreava o vinho como um conhecedor, em
pequenos goles que valorizavam a bebida. Suas maneiras finas, seu lnguido olhar, sua cabeleira
loira, tudo contrastava com a sala. Horcio o sentia vagamente. Maneca Dantas se dava conta.
Mas para Ester a sala no existia. Ela, com a presena do jovem advogado, fora bruscamente
retirada da fazenda, jogada para os dias do passado. Era como se ainda estivesse no colgio de
irms, numa daquelas grandes festas de fim de ano, quando danava com os rapazes mais finos e
distintos da capital. Sorria a respeito de tudo requintava tambm nas palavras e nos modos, uma
doce melancolia que era quase alegre andava dentro dela. "Era o vinho", pensava Ester. O vinho
lhe subia facilmente  cabea. Pensava e bebia mais e bebia tambm as palavras do Dr. Virglio.
    - Foi uma festa em casa do senador Lago. . . Um baile comemorando exactamente a sua
eleio. Que festa, dona Ester! Algo inimaginvel! O ambiente era o que havia de mais
aristocrtico. Estavam as Paivas - Ester conhecia as Paivas, haviam sido suas colegas - Mariazinha
estava encantadora de tafet azul. Parecia um sonho...
    - Ela  linda... - fez Ester, e ia certa reserva em sua voz, que no escapou ao Dr. Virglio.
    - No, porm, a mais linda do colgio no seu tempo... -esclareceu o advogado e Ester
ruborizou se. Bebeu mais vinho.
    Virglio continuou discorrendo. Falava de msica, lembrou uma valsa pelo nome, Ester
recordou a melodia. Horcio interveio:
    - Ester  uma pianista de mo cheia, hein!
    A voz de Virglio numa splica doce:
    - Ento, aps o jantar iremos ter a alegria de ouvi-la.. . No nas vai negar esse prazer. . .
    Ester disse que no, h muito que no tocava, j tinha perdido a agilidade dos dedos e demais
o piano estava que era um horror... desafinado, abandonado ali naquele fim de mundo. . .
    Mas Virglio no aceitou as desculpas. E se dirigiu a Horcio e lhe pediu que "insistisse junto a
dona Ester para que ela abandonasse a modstia e enchesse a casa de harmonia:' Horcio insistiu:
    - Deixe de rodeio e toque pro moo ouvir. Eu tambm quero ouvir.. Afinal meti um dinheiro
nesse piano, o maior que havia na Bahia, deu um trabalho dos diabos trazer ele para aqui e pra
que? Um dinheiro posto fora.. seis contos de ris. . .
    Repetiu, era quase um desabafo:
    - Seis contos postos fora... - e olhava Maneca Dantas, este era capaz de compreender o que ele
sentia... Maneca Dantas achou que devia apoiar:
    - Seis contos  muito dinheiro...  uma roa...
    Dr. Virglio tinha completa impunidade:
    - Que so seis contos de ris, seis mseros contos, se so empregados em dar uma alegria  sua
esposa, coronel?. . . - e levava o dedo ao alto, prximo ao rosto do coronel, o dedo de unha bem
tratada onde o rubi do anel de advogado brilhava escandaloso. - O coronel fala, mas garanto que
jamais gastou seis contos to satisfeito como quando comprou esse piano. No  verdade?
    - Bem, que dei contente,  verdade. Ela tocava piano na casa do pai.. Eu no quis que ela
trouxesse o de l, um piano pequenininho, chinfrim, muito reles. . - fez com a mo enorme um
gesto de desprezo. - Comprei esse. Mas ela quase no toca. Uma vez na vida...
    Ester ouvia muda, um dio ia subindo dentro dela. Maior ainda que o que sentira na noite do
seu casamento quando Horcio rasgou seus vestidos e se lanou sobre seu corpo. Estava
ligeiramente tomada pelo vinho, embriagada tambm pelas palavras de Virglio, e seus olhos eram
novamente os trfegos e sonhadores olhos da normalista dos anos passados. E viram Horcio
transformado num grande porco sujo, igual a um que havia na fazenda e habitava os lamaais
prximos  estrada. E Virglio surgia como um cavalheiro andante, um mosqueteiro, um conde
francs, mistura de personagens de romances lidos no colgio, todas nobres, audazes e belas. .
Apesar de tudo, apesar do dio - ou mesmo por causa do dio? - era delicioso aquele jantar.
Sorveu mais um copo de vinho e anunciou sorrindo:
    - Pois eu toco... - tinha falado para Virglio e ento voltou-se para Horcio. - Voc tambm
nunca me pediu... - sua voz era suave e meiga e seu dio se satisfazia porque ela agora
compreendia que podia se vingar dele. Falou mais, tinha desejos de, depois, mago-lo muito:
    - Pensava at que a msica no lhe agradava... Agora, que sei que voc gosta, o piano no vai
ter descanso.
    Tudo havia mudado para Horcio. Essas no eram palavras contrafeitas. Essa no era a Ester
de antes. Era outra. Que pensava nele, num desejo seu. Sentia uma sensao boa, uma coisa que
rompeu as muitas capas com que estava coberto o seu corao e o lavou de bondade. Talvez
tivesse sido sempre injusto com Ester... No a havia compreendido, ela era de outro meio...
Achou que devia lhe prometer alguma coisa muito grande, muito boa, que a fizesse muito feliz.
Falou:
    - Pelas festas, vamos  Bahia... - falava para ela, somente para ela, no enxergava mais
ningum na mesa.
    E a conversa adquiriu novamente sua brilhante normalidade. Conversa gasta quase que
somente por Ester e Virglio, descries de festas, discusso sobre modas, sobre msicas e
romances. Horcio envolvido na admirao da esposa, Maneca Dantas olhando de olhos astutos.
    - Gosto de Jorge Ohnet. .. - esclareceu Ester. - Chorei quando li "O Grande Industrial".
    Dr. Virglio se fez levemente melanclico:
    - Porque lhe encontrou algo de autobiogrfico?
    Horcio e Maneca Dantas no compreendiam nada e a prpria Ester demorou um pouco em
compreender. Mas quando o compreendeu, ps uma mo sobre o rosto e negou nervosamente:
    - Oh! no, no!
    Suspiro de Dr. Virglio:
    - Ah!
    Ela achou que tinha ido demasiado longe.
    - Isso no quer dizer...
    Porm ele no queria saber. Estava radiante, seus olhos brilhavam e perguntou finalizando a
conversa:
    - Zola, j leu Zola?
    No, no havia lido, as freiras no colgio no deixavam. Virglio achou que, realmente, para
mocinhas no estava bem. Mas uma senhora casada... ele tinha o "Germinal" em Ilhus. Ia
mandar  dona Ester.
    As negras serviam as infindveis sobremesas. Ester props que tomassem o caf na sala.
Virglio levantou-se rapidamente, tomou da cadeira da qual ela se levantava, puxou-a para trs
fazendo espao para ela sair. Horcio olhava com certa longnqua inveja. Maneca Dantas
admirava os modos do advogado. Considerava que a educao era uma grande coisa. E pensou
nos filhos e os imaginou, no futuro, iguais ao Dr. Virglio. Ester saa da sala, os homem a
seguiram.
    Chuviscava no campo, um chuvisco mido, atravessado pela claridade da lua. As estrelas eram
muitas, nenhuma outra luz empanava sua luz celeste. Virglio chegou at a porta, andou um passo
na varanda. Felcia entrava com a bandeja de caf, Ester servia o acar. Virglio voltou, fez a
considerao como se declamasse um poema:
    - S na mata se v uma noite to bela...
    - Est bonita, sim... - apoiou Maneca Dantas que mexia sua xcara de caf. Voltou-se para
Ester: - Mais uma colherzinha, comadre. Gosto de caf bem doce...Mais uma vez atendeu ao
advogado. - Muito bonita a noite e essa chuvinha ainda d mais graa... - fazia fora para
acompanhar o ritmo que Virglio e Ester emprestavam  conversa. Ficou contente porque teve a
impresso de que dissera uma frase parecida com as deles.
    - E o doutor? Pouco ou muito acar?
    - Pouco, dona Ester... Basta... Muito obrigado... A senhora tambm no acha que o progresso
mata a beleza?
    Ela entregou o aucareiro a Felcia, tardou um minuto a responder. Estava pensativa e sria.
    - Acho que o progresso tambm tem tanta beleza...
    - Mas  que nas grandes cidades, com a iluminao, nem se vem as estrelas... E um poeta ama
as estrelas, dona Ester... As da cu e as da terra...
    - Mas h outras noites que no so de estrelas...agora a voz de Ester era profunda, vinha do
corao. - Nas noites de tempestade  horroroso..
    - Deve ser terrivelmente belo... - a frase subia pela sala, danava diante de todos. Completou: -
 o belo horrendo...
    - Talvez. . . - disse Ester. - Mas eu tenho medo nessas noites - e o olhava com um olhar
splice, como a um amigo de largos anos.
    Virglio viu que ela j no representava e teve pena, imensa pena. Foi nesse momento que
pousou os olhos nela com doura e com verdadeiro interesse. E os pensamentos risonhos e
astuciosos de antes desapareceram substitudos por algo mais srio e mais profundo.
    Horcio se meteu:
    - Sabe de que essa tola tem medo, doutor? Do grito das rs quando as cobras engolem elas na
beira do rio...
    O Dr. Virglio j tinha tambm ouvido aquele grito e tambm ao seu corao ele confrangera.
Disse apenas:
    - Eu compreendo. . .
    Foi um momento feliz, os olhos dela estavam puros e de uma alegria s. Agora no
representavam. Foi um segundo s mas foi o bastante. Nela no restou nem o dio por Horcio.
    Andou para o piano. Maneca Dantas comeou a expor a Virglio o seu negcio. Era um
"caxixe" importante, causa de muitos contos de ris. Virglio esforava-se para prestar ateno.
Horcio aparteava por vezes com sua experincia. Virglio citou uma lei. Os primeiros acordes
vibraram na sala. O advogado sorriu:
    - Agora vamos ouvir dona Ester. Depois aumentaremos sua fazenda. .
    Maneca Dantas concordou num gesto, Virglio se aproximou do piano. A valsa no cabia na
sala, saa pelo campo at a mata nos fundos da casa. No sof, Maneca Dantas comentou:
    - Moo distinto, hein! E que talento! Diz que  at poeta... Como fala... De advogado estamos
bem servidos. . Tem tutano na cabea.
    Horcio estendeu as grandes mos, esfregou-as uma na outra, sorriu seu sorriso para dentro:
    - E Ester? Que  que voc me diz, seu compadre Quem  que tem em Ilhus, e mesmo na
Bahia  repetia - e mesmo na Bahia, uma mulher to educada?... Entende desses troos todos:
francs, msica, figurinos, de tudo. . . Tem cabea - batia com o dedo na testa - no  s
boniteza. . . - falava com orgulho como um dono falaria de uma propriedade sua. Sua voz
respirava vaidade. E era feliz porque imaginava que Ester fazia msica para ele, tocava porque ele
pedira. Maneca Dantas concordou balanando a cabea. "A comadre era mulher educada, sim".
    Junto ao piano, os olhos enternecidos, Virglio trauteia a melodia. Quando Ester termina e vai
levantar-se, ele lhe d a mo para ajud-la. Ela fica em p, bem prxima a ele. Enquanto bate
palmas, aplaudindo, Virglio murmura para que s ela o oua:
    -  como um passarinho na boca de uma cobra. .
    Maneca Dantas pedia, com entusiasmo, outra msica. Horcio vinha se chegando, Ester fez
um esforo supremo e prendeu as lgrimas.

                                                8

   Ao bordo da mata o negro Damio esperava um homem na tocaia. Ao luar via alucinaes e
sofria. Ao bordo de outra mata, na sala da casa grande, o Dr. Virglio punha seus conhecimentos
da lei a servio da ambio dos coronis e descobria o amor nos olhos amedrontados de Ester.
Junto  mata que descambava por detrs do morro, na fazenda Sant'Ana da Alegria, a fazenda
dos Badars, Antnio Vtor espera, os ps enfiados na gua do rio. O rio corria manso, pequeno
e claro, e nas suas guas se misturavam as folhas cadas dos cacaueiros e as que caam do outro
lado, das grandes rvores que os homens no haviam plantado. Aquelas guas limitavam a mata
das roas, e Antnio Vtor, enquanto espera, pensa que no tardar que os machados e o fogo
ponham a mata abaixo. Seria tudo cacaueiro, o rio no marcaria mais nenhuma separao. Juca
Badar falava em derrubar aquela mata nesse mesmo ano. Os trabalhadores se aprontavam para
as queimadas, j estavam sendo preparadas as mudas de cacau que encheriam o lugar que a mata
ainda ocupava. Antnio Vtor gostava da mata. Sua cidade de Estncia, to distante agora at no
seu pensamento, ficava dentro de um bosque, dois rios a cercavam e as rvores a penetravam nas
ruas e nas praas. Ele se acostumara mais com a mata, onde todas as horas eram horas de
crepsculo, que mesmo com as roas de cacau que explodiam no ouro velho dos frutos,
luminosos e brilhantes. Vinha para junto da mata quando, nos primeiros tempos, terminava o
trabalho nas raas. Ali  que descansava. Ali recordava Estncia todavia presente, recordava
Ivone deitada na ponte sobre o rio Piauitinga. Ali sofria a doce dor da saudade. Nos primeiros
tempos, que foram tempos duros, a saudade roendo por dentro, o trabalho pesado, imensamente
mais pesado que no milharal que ele plantara com os irmos, antes de vir para estas terras do Sul.
Na fazenda era o levantar-se s quatro da manh, preparar a carne seca para comer ao meio-dia
com o piro de farinha, beber a caneca de caf e estar na roa colhendo cacau s cinco, quando o
sol apenas comeava a sua subida pelo morro de detrs da casa-grande. Depois o sol chegava ao
cimo do morro e doa nas costas nuas de Ancneo Vtor, dos outros tambm, principalmente dos
que haviam vindo com ele e no estavam acostumados. Os ps afundavam nos atoleiros, o visgo
do cacau mole se grudava neles, de quando em vez a chuva vinha suj-los ainda mais pois
atravessava as copadas roas e chegava carregada de gravetos, de insectos, de imundcies de toda
classe. Ao meio-dia - conheciam pelo sol - paravam o trabalho. Engoliam a bia, derrubavam
uma jaca mole de uma jaqueira qualquer e era a sobremesa. Mas j o capataz estava gritando de
cima de seu burro que pegassem as foices. E recomeavam at s seis horas da tarde quando o sol
abandonava as roas. Chegava a noite triste e cheia de cansao, sem mulher com quem deitar,
sem Ivone para acariciar na ponte que no existia, sem as pescarias de Estncia. Falavam nesse
dinheiro do sul. Uma dinheirama de fazer medo. Ali por aquele trabalho todo, eram dois mil e
quinhentos ris por dia, empregados inteiramente no armazm da fazenda, um saldo miservel no
fim do ms, quando havia saldo. Chegava a noite, trazia a saudade com ela, pensamentos
tambm. Antnio Vtor vinha para perto da mata, metia os ps no rio, cerrava os olhos e
recordava. Os demais ficavam pelas casas de barro batido, jogados nos leitos de tbuas, dormindo
quebrados de cansao, outros cantavam saudosas tiranas. Gemiam as violas, versos de outras
terras, lembranas de um mundo deixado para trs, msica de partir coraes. Antnio Vtor
vinha para perto da mata, trazia consigo suas recordaes. Novamente, pela centsima vez,
possua Ivone na ponte de Estncia. E era sempre pela primeira vez. Novamente a tinha nos
braos e novamente manchava de sangue seu desbotado vestido de flores vermelhas. Sua mo
calosa do trabalho nas roas era mulher de suave pele, era Ivone se entregando. Sua mo tinha a
quentura, a maciez, o requebro e dengue do corpo de mulher. Crescia junto da mata, virava, no
sexo de Antnio Vtor, a vir em se entregando. Ali, na beira do rio, nos primeiros tempos.
Depois o rio lavava tudo, corpo e corao, no banho noturno. S restava mesmo o visgo de
cacau mole preso na sola dos ps, cada vez mais grosso, igual a um estranho sapato.
    Depois Juca Badar se afeioara a ele. Primeiro porque, quando derrubavam a mata onde hoje
era a roa do Repartimento, ele no a temera como os outros quando chegaram de noite, na
tempestade. Fora mesmo ele, Antnio Vtor, quem derrubara a primeira rvore. Hoje era a roa
do Repartimento, onde as mudas de cacau comeavam a virar troncos dbeis ainda, mas j
prximos  primeira florao. Depois, no barulho de Tabocas, Antnio Vtor baixara um homem
- seu primeiro homem - para salvar Juca.  verdade que chorara muito na volta para a fazenda,
desesperado,  verdade que passou noites e noites vendo o homem cair, a mo no peito, a lngua
saindo pra fora. Mas isso passara tambm. Juca o tirara do trabalho nas roas para o trabalho
muito mais suave de "capanga". Acompanhava Juca Badar na fiscalizao do trabalho da
fazenda, nas viagens repetidas que ele fazia aos povoados e  cidade, trocara a foice pela
repetio. Conhecera as prostitutas de Tabocas, de Ferradas, de Palestina, de Ilhus, tivera doena
feia, levara um tiro no ombro. Ivone agora era uma sombra distante e vaga. Estncia uma
lembrana quase perdida. Restara o costume de vir pela noite deitar no bordo da mata, os ps
dentro do rio.
    E de esperar ali a Raimunda. Ela vinha pelas latas de gua para o banho noturno de Don'Ana
Badar. Descia cantando, mas mal enxergava Antnio Vtor parava o canto e fechava a cara, um
ar de aborrecida. Respondia de maus modos ao cumprimento dele e a nica vez que ele quis
peg-la, apert-la contra si, ela deu um jeito no corpo e atirara o cabra no rio, era forte e decidida
como um homem. Nem por isso ele deixara de voltar todas as noites, apenas nunca mais tentou
abusar dela. Dava as boas noites, recebia a resposta resmungada, ficava assobiando a modinha
que ela cantava pelo caminho. Ela enchia a lata de querosene na beira no rio, ele ajudava-a a p-la
na cabea. E Raimunda se perdia entre os cacaueiros, os ps grandes, muito mais negros que o
rosto mulato, afundando na lama da picada. Ele se atirava n'gua. Se estava distante o dia em que
dormira com mulher num povoado, possua antes Raimunda que aparecia nua na sua mo
transformada em sexo. Voltava pela roa de cacau, ia receber as ordens de Juca Badar para o dia
seguinte. Por vezes, Don'Ana mandava lhe dar um copo de pinga. Antnio Vtor ouvia os passos
de Raimunda na cozinha, sua voz que respondia ao chamado do Don'Ana.
    - J tou indo, madrinha.,
    Era afilhada de Don'Ana se bem que fossem as duas da mesma idade. Nascera no mesmo dia
que Don'Ana, filha da negra Risoleta, cozinheira da casa-grande, uma negra linda, de ancas rolias
e carne dura. Ningum sabia quem era o pai de Raimunda que nascera mulata clara, de cabelos
quase lisos. Mas muita gente murmurava que no era outro que o velho Marcelino Badar, o pai
de Sinh e de Juca. Essas murmuraes no foram motivo para que dona Filomena mandasse a
cozinheira embora. Ao contrrio, foi Risoleta quem amamentou nos seus grandes seios negros a
"sinhazinha" recm-nascida, a primeira neta dos velhos Badars. Don'Ana e Raimunda cresceram
juntas nos primeiros tempos, uma em cada brao de Risoleta, uma em cada seio seu. No dia do
batizado de Don'Ana, a mulatinha Raimunda se batizou tambm. A negra Risoleta escolhera os
padrinhos. Sinh, que era ento um rapaz de pouco mais de vinte anos, e Don'Ana que tinha
apenas meses. O padre no protestou, j ento os Badars eram uma potencia diante da qual a lei
e a religio se inclinavam. Raimunda cresceu na casa-grande, era a irm de leite de Don'Ana. E
como Don'Ana chegara inesperadamente para alegrar a famlia, na quase velhice dos avs, vinte
anos depois da ltima menina Badar que enchera a casa de dengues, a famlia toda fazia-lhe as
vontades. E Raimunda ganhava as sobras desse carinho. Dona Filomena, que era uma mulher
religiosa e boa, costumava dizer que Don'Ana havia tomado a me de Raimunda e por isso os
Badars tinham que dar algo  mulatinha. E era verdade: a negra Risoleta no tinha olhos para
outra coisa no mundo que no fosse a "sua filha branca', a sua "sinhazinha", a sua Don'Ana. Por
ela, na infncia da menina branca, chegara a levantar a voz contra Marcelino quando o velho
Badar tentava castigar a neta mimada. p desobediente. A negra Risoleta virava fera quando
escutava o choro de Don'Ana. Chegava da cozinha, os olhos brilhando, o rosto inquieto. Fora
mesmo uma das diverses predilectas de Juca, ento meninote, fazer a sobrinha chorar para
assistir  tempestade de fria de Risoleta. Esta o chamava de "demnio", no o respeitava,
chegara por vezes at a dizer que ele era "pior que um negro". Na cozinha, dizia s outras negras,
enxugando as lgrimas:
    - Este menino  uma pestinha...
    Para Don'Ana a cozinha fora sempre o grande lugar do asilo. Quando fazia uma traquinagem
demasiado grande fugia para ali, para junto das saias de sua "me negra" e ali nem mesmo dona
Filomena, nem mesmo o velho Marcelino, nem mesmo Sinh que era seu pai, a vinham buscar.
A negra se preparava como se fosse para uma batalha. Raimunda fazia pequenos trabalhos
caseiros, aprendia a cozinhar, mas na casa-grande lhe ensinaram tambm costura e bordado, lhe
ensinaram a ler as primeiras letras, a assinar o nome e a fazer contas de somar e de diminuir. Os
Badars acreditavam estar pagando a sua dvida. Risoleta morrera com o nome de Don'Ana na
boca, olhando a filha de criao que lhe dera a alegria de estar ao seu lado naquela hora final. O
velho Marcelino Badar j estava enterrado ha dois anos e h um ano falecera a sua filha, que
casara com um comerciante e fora morrer na Bahia, no tendo se acostumado com a cidade,
longe da fazenda. Dera de enfraquecer e pegara a tsica. Dona Filomena tirou Raimunda da
cozinha, a trouxe em definitivo para dentro da casa-grande. E protegeu sempre a mulatinha
enquanto viveu. Depois, quando a esposa de Sinh morreu tsica, ficaram os padrinhos, Sinh e
Don'Ana, mas aos poucos Raimunda foi tendo uma vida igual s das demais criadas da casa:
lavar, remendar roupa, buscar gua no rio, fazer os doces. S que nas festas Don'Ana lhe regalava
um corte de fazenda para um vestido melhor e Sinh lhe dava um par de sapatos e um pouco de
dinheiro. Ela no tinha ordenado, para que precisava ela de dinheiro se tinha de tudo na casa dos
Badars? Quando Sinh, pelas festas de So Joo e de Natal, lhe dava dez mil-ris, dizia sempre:
    - V guardando para o seu enxoval...
     que ele mesmo no se dava conta de que Raimunda pudesse ter nenhum desejo. No
entanto, desde sua infncia, o corao de Raimunda vivia cheio de desejos irrealizados. Primeiro
foram as bonecas e os brinquedos que vinham da Bahia para Don'Ana e nos quais lhe proibiam
de tocar. Quantas surras no levara da negra Risoleta por bulir nos brinquedos da "irm de
criao". Depois fora o desejo de montar como Don'Ana num cavalo bem arreado e partir a
correr os campos. E por fim desejara ter, como ela, algumas daquelas coisas to lindas, um colar,
um par de argolas, um pente espanhol para os cabelos. Herdara um destes, fora busc-lo no lixo
onde Don'Ana o jogara como intil, os dentes partidos, restando dois ou trs apenas. E, no seu
pequeno quarto que um candeeiro iluminava pelas noites, ela o colocava no cabelo e sorria para si
mesma. Talvez fosse esse o seu primeiro sorriso daquele dia, pois Raimunda tinha uma cara sria
e zangada, fechada para todos. Juca, que no deixava passar mulher perto dele, fosse mulher da
vida ou mulher casada na cidade, fossem as mulatinhas na roa, mesmo as negras, nunca se
metera com Raimunda, talvez a achasse feia, o nariz chato contrastando com o rosto quase claro.
Era zangada, a prpria Don'Ana o notava e em geral, na fazenda, diziam que Raimunda era
"ruim", no era de bom corao. Parecia no estimar ningum, vivia sua vida calada, trabalhando
como quatro, recebendo, o que lhe davam, com um agradecimento murmurado. Assim crescera e
se fizera moa. Mais de um pretendente lhe aparecera, na certeza de que Sinh Badar no
deixaria de ajudar aquele que casasse com sua afilhada, a irm de leite de Don'Ana. O empregado
do armazm, um loirao que viera da Bahia e sabia contas e lia livros, quis casar com ela. Era
magro, e fraco, usava culos, Raimunda no aceitou, chorou quando Sinh falou no assunto,
disse que no e no. Sinh fez um gesto de desinteresse com os ombros:
    - No quer, acabou-se... No tou obrigando...
    Juca ainda se meteu:
    Mas  um casamento... Um rapaz branco, instrudo... Nunca mais aparece outro igual. Nem
sei o que ele viu nessa negra...
    Porm Raimunda, suplicou a Sinh e esse deu o assunto por encerrado. Sinh comunicou ao
empregado do armazm a recusa de Raimunda, Juca Badar lhe perguntou o que ele vira de
bonito naquela cara fechada da mulata. Tambm Agostinho, que era capataz numa das roas dos
Badars, a desejou e falou com ela. Raimunda respondeu de maus modos. Don'Ana tinha uma
explicao para o fato:
    - Raimunda nunca h de deixar a gente. Ela tem aquela cara fechada mas gosta da gente...
    E se enternecia de repente, lembrando-se de Risoleta e nesses dias dava sempre um vestido 
mulata, ou uma prata de dois mil-ris. Mas essas conversas sobre Raimunda eram raras, os
Badars nem sempre tinham tempo de se preocupar com o futuro da "irm de criao".
    Antnio Vtor fazia muito que andava de olho nela. Na fazenda mulher era objecto de luxo e
seu corpo jovem pedia mulher. No bastava o amor feito com as rameiras nas viagens aos
povoados. Ele queria um corpo que esquentasse o dele nas longas noites de chuva dos meses de
inverno, de maio a setembro, a estao das guas.
    Esperava-a no bordo da mata. No tardar que a voz de Raimunda chegue pela picada,
precedendo a mulata. A cara dela talvez no seja uma beleza, mas Antnio Vtor tem na cabea 
o seu corpo forte, de ndegas grandes, de seios rijos, de rolias coxas. No cu de crepsculo a
noite se prepara. O rio corre manso, talvez chuvisque nesta noite. Os grilos iniciam seu canto na
mata. Caem folhas, sobre as guas. Falavam dessa dinheirama do sul. Antnio prometera voltar
um dia, rico, bem vestido, de botinas rangedeiras Agora, esses pensamentos j no existem na sua
cabea. Agora ele  um capanga de Juca Badar, conhecido pela rapidez do seu tiro. A lembrana
de Estncia, de Ivone se entregando na ponte, se esfumaou na sua memria. Os sonhos
tampouco enchem sua cabea como na noite de bordo. S um desejo: casar com a mulata
Raimunda, terem uma casa de barro batido para os dois. Casar com Raimunda, ter um corpo em
que repousar do dia rduo do trabalho, das viagens longas pelos caminhos difceis, da morte de
um derrubado por ele. Descansar no corpo dela. Corpo em que repousar sua cabea sem sonhos.
A voz de Raimunda na picada. Antnio Vtor levanta a cabea e o busto, se prepara para ajud-la
e encher a lata de gua. A noite envolve a mata, corre tranquilo o rio.
                                               9

    Os homens pararam em frente da casa-grande da fazenda dos Macacos.
    O nome oficial era outro muito mais bonito: Fazenda Auricdia, homenagem de Maneca
Dantas  esposa, gorda e preguiosa matrona cujos nicos interesses na vida eram os filhos e os
doces que ela sabia fazer como ningum. mas, com grande tristeza do coronel, o nome no
pegara e toda a gente tratava a fazenda por "Macacos", nome da roa inicial, encravada nas matas
de Sequeiro Grande entre as grandes propriedades dos Badars e de Horcio, onde os macacos
em bando corriam pela selva. S nos documentos oficiais de posse da terra aparecia o nome
"Auricdia". E somente Maneca Dantas dizia: "I, na Auricdia...' Todos os mais ao se referirem 
fazenda falavam dos "Macacos".
    Os homens pararam, descansaram a rede atravessada com um pau, onde o cadver efetuava
sua ltima viagem. De dentro da sala mal iluminada dona Auricdia perguntou, movendo
preguiosamente as banhas:
    - Quem ?
    -  de paz, dona - respondeu um dos homens.
    O menino havia corrido at a varanda e voltou com a notcia:
    - Mame,  dois homens com um morto.. Um morto negro...
    Antes de se alarmar, dona Auricdia, que fora professora corrigiu mansamente:
    -  dois no, Rui. So dois  como se deve dizer..
    Movimentou-se para a porta, o filho ia agarrado nas suas saias. Os menores j dormiam. Na
varanda os homens haviam sentado num banco, no cho se abria a rede com o cadver.
    - Jesus Cristo lhe de boa noite... - falou um deles, era um velho de carapinha branca.
    O outro tirou o chapu furado e cumprimentou. Dona Auricdia respondeu, focou esperando.
O moo explicou:
    - Ns t trazendo ele da Fazenda Barana, trabalhava l... Tamos levando pro cemitrio de
Ferradas..
    - Por que no enterraram na mata?
    - No v que ele tem trs filhas em Ferradas? Tamos levando para entregar a elas. Se vosmec
consente a gente descansa um tempinho. A caminhada  muita, o tio aqui j t dando o prego...
- apontou para o velho.
    - De que foi que ele morreu? - perguntou a senhora.
    - Febre. . . - agora era o velho que respondia.  Essa febre braba que d na mata. Tava
derrubando mata, a febre pegou ele... Foi trs dias s. No teve remdio que prestasse. .
    Dona Auricdia afastou o filho, afastou-se ela mesma alguns passos. Ficou refletindo. O
cadver do homem magro, velho ele tambm, repousava na rede sobre a varanda.
    - Levem para a casa de um trabalhador. Descansem l... Aqui, no.  s andar um pouco
mais, encontraro logo as casas. Digam que eu mandei. Aqui, no, por causa dos meninos...
    Temia o contgio, aquela febre no conhecia remdio que servisse. S muitos anos depois os
homens foram saber que era o tifo, endmico ento em toda a zona do cacau. Dona Auricdia
ficou espiando os homens levantarem a rede, colocarem-na nos ombros e partirem:
    Boa noite, dona...
    - Boa noite. .
    Olhava o lugar onde o cadver estivera. E ento aquela gordura toda se movimentou. Gritou
pelas negras l dentro, mandou que trouxessem gua e sabo e, apesar de ser de noite, lavassem a
varanda. Levou consigo o filho, lavou-lhe as mos at a criana quase chorar. E naquela noite no
dormiu, de hora em hora levantava-se para ver se Rui no estava com febre. E ainda por cima
Maneca no se encontrava em casa, fora comer na fazenda de Horcio...
    Os homens chegaram com rede em frente de uma casa de trabalhadores. O velho ia cansado,
o outro falou:
    - O finado est pesando, hein, tio?
    Aquela idia de levar o morto at Ferradas fora do velha. Eram amigos os dois, ele e o que
morrera. Decidira entregar o cadver s filhas para que estas o "enterrassem coma cristo",
explicava ele. Era uma viagem de cinco lguas e h horas que eles andavam sob o luar, baixaram
novamente a rede, o mao enxugou o suor enquanto o velho golpeava
com seu basto na porta mal cerrada, de tbuas desiguais. Uma luz se acendeu, a pergunta saiu:
    - Quem ?
    -  de paz. . . - respondeu novamente o velho.
    Ainda assim o negro que abriu a porta trazia um revlver na mo, naquelas terras no havia
que descuidar. O velho explicou sua histria. Terminou dizendo que fora dona Auricdia quem os
mandara. Um homem magro que surgira por detrs do negro comentou:
    - L ela no quis... Podia pegar nos filhos a febre... Mas para aqui no faz mal, no ? - e riu.
    O velho pensou que o iam mandar mais uma vez para adiante. Comeou uma explicao, mas
o homem magro interrompeu:
    - No tem nada, meu velho. Pode entrar. Na gente a febre no pega mesmo. Trabalhador tem
o couro curtido...
    Entraram. Os outros homens que dormiam despertaram. Eram cinco ao todo e a casa no
tinha mais que uma pea, as paredes de barro, o teto de zinco, o cho de terra. Ali era sala, quarto
e cozinha, a latrina era o campo, as roas, a mata. Descansaram o morto em cima de um dos
jiraus onde os homens dormiam. Ficaram todos em torno, o velho tirou uma vela do bolso,
acendeu na cabeceira do defunto. J estava queimada pela metade, iluminara o corpo no princpio
da noite, iria ilumin-lo quando chegassem tambm na casa das filhas.
    - Que  que elas fazem? - perguntou o negro.
    - Tudo  puta nas Ferradas. . . - explicou o velho.
    As trs? - o homem magro se admirou.
    - Todas trs, sim Sinh...
    Houve um minuto de silencio. O morto repousava magro, a barba crescida, pintada de
branco. O velho continuou:
    - Uma foi casada... Depois o marido morreu...
    - Era um homem velho, hein? - fez o magro apontando o cadver.
    - Tinha seus sessenta bem contados...
    - Fora os que mamou. . . - disse um que at ento no tinha intervindo na conversa. Mas
ningum riu.
    O homem magro trouxe a garrafa de cachaa. Havia um caneco que passou de mo em mo.
Reagiram com o trago. Um dos que morava na casa havia chegado para a fazenda naquele dia.
Quis saber que febre era aquela de que o velho morrera.
    - Ningum sabe mesmo. E uma febre da mata, pega um, liquida em dois tempos. No h
remdio que de jeito. . . Nem mesmo doutor formado. Nem mesmo Jeremias que trata com
erva...
    O negro explicou para o cearense recm-chegado que Jeremias era o feiticeiro que morava nas
matas de Sequeiro Grande sozinho, socado entre as rvores numa cabana em runas. S num
ltimo caso os homens se atreviam a ir at l. Jeremias se alimentava com razes e com frutas
silvestres. Fechava o corpo dos homens contra bala e contra mordida de cobra. Na sua cabana as
cobras andavam soltas e cada uma tinha seu nome como se fosse uma mulher. Dava remdio
para males do corpo e para males do amor. Mas com essa febre nem ele podia.
    - Me falaram l no Cear mas eu no dei crena... Se falava tanta histria dessas terras que at
parecia coisa de milagre...
    O trabalhador magro quis saber o que  que diziam:
    - Coisa boa ou coisa ruim?
    - Boa e ruim, mais ruim que boa. De boa s dizia que aqui era uma fartura de dinheiro que o
fulano enricava logo que desembarcava. Que dinheiro era calamento de rua, era poeira de
estrada. . . De ruim, que tinha a febre, os jagunos as cobras... De ruim muita coisa...
    - E ainda assim tu veio...
    O cearense no respondeu, foi o velho que vinha trazendo o cadver quem falou:
    - Pode ter a ruindade que tiver, se tem dinheiro o homem no enxerga nada. Homem  bicho
que s v dinheiro, fica cego e surdo quando v falar em dinheiro. . . Por isso  que h tanta
desgraa nessas terras. . .
    O homem magro apoiou com a cabea. Tambm ele deixara pai e me, noiva e irm, para vir
atrs do dinheiro dessas terras de Ilhus. E os anos se haviam passado e ele continuava a colher
cacau nas roas para Maneca Dantas. O velho continuava:
    - Tem dinheiro muito, mas a gente no v...
    A vela iluminava a cara magra do defunto. Ele parecia escutar atento a conversa dos homens
em torno dele. A caneca de cachaa passou mais uma vez. Comearam os chuviscos l fora, o
negro fechou a porta. O velho fitou longamente o rosto barbado do morto, sua voz era cansada e
sem esperana:
    - To vendo o finado? Pois bem: fazia pra mais de dez anos que trabalhava nas Baranas pro
coronel Teodoro. No tinha nada, nem mesmo as filhas... Passou dez anos devendo pro coronel.
.. Agora a febre levou ele, o coronel no quis dar nem um vintm pra ajudar as meninas a fazer o
enterro. . .
    O moo concluiu a histria que o velho contava:
    - Inda disse que fazia muito no mandando a conta que o velho devia pras filhas pagar. Que
rapariga ganha muito dinheiro. . .
    O homem magro cuspiu com nojo. As orelhas largas do defunto pareciam escutar. O cearense
estava um pouco alarmado. Ele chegara naquele dia, um capataz de Maneca Dantas o contratara
em Ilhus juntamente com outros que haviam desembarcado do mesmo navio. Haviam chegado
j tarde e tinham sido distribudos pelas casas dos trabalhadores. O negro esclareceu, enquanto
emborcava o caneco de cachaa:
    - Amanh tu vai ver...
    O velho que trazia o defunto resumiu:
    - Nunca vi destino mais ruim que o de trabalhador de roa de cacau. . .
    O homem magro considerou:
    - Os capangas ainda passam melhor... - virou para o cearense. - Se tu tem boa pontaria, tu t
feito na vida. Aqui s tem dinheiro quem sabe matar, os assassinos...
    O cearense arregalou os olhos. O morto o assustava vagamente, era um prova concreta do
que conversavam.
    - Quem sabe matar?
    O negro riu, o homem magro falou:
    Um cabra certeiro na pontaria tem regalias de rico... Vive pelos povoados, com as mulheres,
tem dinheiro no bolso, nunca falta saldo pra ele.. . Mas quem s serve pra roa... Tu vai ver
amanh...
    Como o homem magro era o segundo que falava nesse dia de amanh, o cearense quis saber o
que ia se passar. qualquer um podia explicar mas foi mesmo o homem magro quem falou:
    - Amanh cedo o empregado do armazm chama por tu para fazer o "saco" da semana. Tu
no tem instrumentos pro trabalho, tem que comprar. Tu compra uma foice e machado, tu
compra um faco, tu compra uma enxada. . . E isso tudo vai ficar por cem mil-ris. Depois tu
compra farinha, carne, cachaa, caf pra semana toda. Tu vai gastar uns dez mil-ris pra comida.
No fim da semana tu tem quinze mil-ris ganho do trabalho - o cearense fez as contas, seis dias a
dois e quinhentos, e concordou. - Teu saldo  de cinco mil-ris, mas tu no recebe, fica l para ir
descontando a dvida dos instrumentos... Tu leva um ano pra pagar os cem mil-ris, sem ver
nunca um tosto. Pode ser que no Natal o coronel mande te emprestar mais dez mil-ris pra tu
gastar com as putas nas Ferradas...
    O homem magro disse aquilo tudo com um ar meio burlo, entre cnico, desanimado e
trgico. Depois pediu cachaa. O cearense tinha ficado emudecido, olhava o morto. Falou, por
fim:
    - Cem mil-ris por um faco, uma foice e uma enxada?
    Foi o velho quem explicou:
    - Em Ilhus tu tira um faco Jacar por doze mil-ris. No armazm das fazendas tu no tira
por menos de vinte e cinco. . .
    - Um ano. . . - fez o cearense, e estava fazendo clculos sobre quando a chuva cairia
novamente na sua terra de secas do Cear. Ele pretendia voltar logo que chovesse sobre a terra
abrasada e pretendia levar dinheiro para poder comprar uma vaca e um bezerro. - Um ano.. -
repetiu, e fitou o morto que parecia sorrir.
    - Isso tu pensa... Antes de terminar de pagar tu j aumentou a dvida. . . Tu j comprou mais
cala e camisa de bulgariana... Tu j comprou remdio que  um Deus nos acuda de caro, tu j
comprou um revlver que  o nico dinheiro bem empregado nessa terra... E tu nunca paga a
dvida.. . Aqui - e o homem magro fez um gesto circular com a mo abarcando todos eles, os que
trabalhavam para os "Macacos" e os dois que vinham com o morto das "Baranas" aqui tudo
deve, ningum tem saldo. . ,
    Os olhos do cearense estavam amedrontados. A vela se gastava iluminando o morto com sua
luz vermelha. Chuviscava l fora, o velho se levantou:
    - Eu era menino no tempo da escravido... Meu pai foi escravo, minha me tambm.. Mas no
era mais ruim que hoje... A coisa no mudou foi tudo palavras...
    O cearense tinha deixado mulher e filha no Cear. Viera para voltar com a notcia das
primeiras chuvas, carregado de dinheiro ganho no Sul, dinheiro para recomear a vida na sua
terra. Agora estava com medo. O morto ria, a luz da vela aumentava e diminua seu sorriso. O
homem magro concordou com o velho:
    - No faz diferena...
    O velho apagou a vela, guardou no bolso. Levantaram lentamente a rede, ele e o moo. O
homem magro abriu a porta. O negro perguntou:
    - As filhas dele, as putas. . .
    - Sim!. . . - fez o velho.
    -...onde mora
    - Na rua do Sapo. .. E a segunda casa..
    Depois o velho voltou-se pro cearense:
    - Daqui nunca ningum volta. Fica amarrado no armazm desde o dia que chega. Se tu quer ir
embora v hoje mesmo, amanh j  tarde. . . Se tu quer ir, vem com a gente, assim faz tambm a
caridade de ajudar a carregar o finado.. . Depois  tarde...
    O cearense duvidava ainda. O velho e o moo j estavam com a rede sobre os ombros. O
cearense perguntou:
    - E pra onde vou? Que vou fazer
    Ningum soube responder, aquela pergunta no havia ocorrido a nenhum deles. Nem mesmo
o velho, nem mesmo o homem magro que tinha a voz burlona e cnica. O chuvisco caa sobre o
morto. O velho deu boa noite e agradeceu. O moo tambm. Ficaram olhando da porta, o negro
se benzeu em homenagem ao cadver mas logo pensou nas trs filhas, rameiras as trs. "Rua do
Sapo", segunda casa. . . Iria l quando fosse a Ferradas... O cearense olhava os homens que iam
sumindo na noite. De repente disse:
    - E eu vou tambm. . .
    Juntou febrilmente seus trapos, soluou uma despedida, saiu correndo. O homem magro
fechou a porta:
    - E pra onde vai - E como ningum respondesse  sua pergunta ele mesmo respondeu: - Pra
outra fazenda, vai ser o mesmo que aqui.
    Apagou o candeeiro.

                                               10
    Apagou o candeeiro com um sopro. Antes Horcio havia desejado boas noites, desde a porta,
ao Dr. Virglio que dormia no quarto em frente. A voz sonora do advogado respondera
delicadamente:
    - Que durma bem, coronel.
    No silencio do quarto Ester ouviu e prendeu as mos sobre o peito, queria prender as batidas
do seu corao. Chegavam da sala os roncos compassadas de Maneca Dantas. O compadre
dormia numa rede armada na sala de visitas, cedera ao doutor o quarto em que sempre se
hospedava. Ester, no escuro, espiava os movimentos do marido. Havia nela uma sensao
definida: era a certeza da presena de Virglio no quarto em frente. Horcio despiu-se no escuro,
Ester escutou o rudo das botas ao serem descaladas. Ele estava sentado na beira da cama e
ainda estava alegre, ainda trazia no peito aquela sensao quase juvenil de felicidade que o
acompanhava desde a mesa quando Ester resolvera tocar piano a pedido dele. Da beira da cama
ouvia a respirao de Ester. Arrancou a camisa e as calas, vestiu o camisolo de pequenas flores
vermelhas bordadas no peito. Levantou-se para fechar a porta que comunicava o quarto deles
com aquele onde o filho dormia guardado por Felcia. A muito custo Ester consentira em tirar a
criana do seu quarto, em deix-la dormir sob os cuidados da empregada. E exigira que a porta
ficasse sempre aberta no seu medo que pela noite as cobras descessem e estrangulassem o
menino. Horcio cerrava a porta devagarinho. Ester seguia, seu olhos abertos no escuro, os
movimentos do marido. Sabia que ele a iria tomar essa noite sempre que fechava a porta entre os
dois quartos era porque a queria possuir. E - era o mais estranho de quanta coisa estranha
acontecera naquela noite - pela primeira vez ster no sentia aquela obscura sensao de asco que
se renovava todas as vezes que Horcio a procurava para o amor. Das outras vezes se encolhia na
cama, inconscientemente, um frio a percorria toda, seu ventre, seus braos, seu corao. Sentia
seu sexo se fechar numa angstia. Hoje no sente nada disso. Porque, se bem seus olhos
vislumbrassem na escurido do quarto os movimentos de Horcio, sua cabea est no quarto em
frente onde Virglio dorme. Dormir Talvez no, talvez pense nela, talvez seus olhos atravessem
a escurido e a porta, o corredor e a outra porta e procurem ver sob a camisa de cambraia o
corpo de Ester. Estremece ao imagin-lo. Mas no de horror,  um estremecimento doce que
desce pelas suas costas, sobe pelas coxas, morre no sexo numa morte de delcia. Nunca sentira o
que sente hoje. Seu corpo magoado das passadas brutalidades de Horcio, seu corpo possudo
sempre com a mesma violncia, se negando sempre com a mesma repulsa, seu corpo que se havia
trancado para o desejo, acostumado a receber o adjetivo - "fria" - cuspido por Horcio aps a
luta de instantes, seu corpo se abriu hoje como se abriu seu corao. No sente no sexo aquela
sensao de coisa que se aperta, que se esconde na casca como um caramujo. A s presena de
Virglio no outro quarto a abre toda, com o s pensar nele, no seu bigode largo e bem cortado,
nos seus olhos to compreensivos, no seu cabelo loiro, sente um frio no sexo que se banha de
morna sensao. Quando ele lhe dissera aquela comparao do passarinho e da cobra, a sua boca
estivera perto do ouvido de Ester mas foi no corao e no sexo que ela ouviu. Cerra os olhos
para no ver Horcio que se aproxima. V  Virglio, ouve suas palavras boas.. e ela que pensara
que ele fosse bbado como o Dr. Rui... Sorri. Horcio pensa que o sorriso  para ele. Tambm ele
est feliz nessa noite. Ester v Virglio, sua mos cuidadas, seus lbios carnudos, e sente no sexo,
coisa que ela nunca sentiu, um desejo doido. Uma vontade de te-lo, de apert-lo, de se entregar,
de morrer nos braos dele. Na garganta um estrangulamento como se fosse soluar. Horcio
estende as mos sobre Ester. Delicadas e doces mos de Virglio, carcias que ele saber, ela vai
desmaiar, Horcio esta por cima dela, Virglio  aquele por quem ela esperou desde os dias
longnquos de colgio... Estende as mos procurando os seus cabelos para acarici-los, esmaga
nos lbios de Horcio os lbios desejados de Virglio... E vai morrer, sua vida escoa pelo sexo em
chamas.
    Horcio nunca a encontrara assim. Hoje  outra mulher a sua mulher. Tocara msica para ele,
se entregara com paixo. Parece morta nos seus braos... Aperta-a mais, prepara-se para te-la
novamente. Para Horcio  como madrugada, uma inesperada primavera,  a felicidade que ele j
no esperava. Sustenta sua cabea formosa, soam os golpes na porta da rua. Horcio suspende
seu gesto de carinho, ouve de ouvido atento. Ouve Maneca Dantas que se levanta, os golpes que
se repetem, a tranca da porta que  aberta, a voz do compadre perguntando quem . Nas suas
mos a cabea de Ester. Os olhos vo se abrindo devagar. Horcio sente os passos de Maneca
que se aproximam, abandona o doce calor do corpo de Ester. E sente uma repentina raiva de
Maneca, do importuno que chegou nessa hora feliz, seus olhos se tornam pequenos. Do corredor
vem a voz de Maneca Dantas:
   - Horcio! Compadre Horcio
   - Que ?
   - Venha aqui um minuto.  coisa sria...
   Do outro quarto chega a voz de Virglio:
   -Eu sou preciso?
   Maneca responde:
   - Venha tambm, doutor.
   Do leito sai a voz estrangulada de Ester:
   - Que , Horcio?
   Horcio volta-se para ela. Sorri, leva a mo ao seu rosto:
   - Vou ver, volto j.. .
   Eu tambm vou. . .
   E, enquanto ele sai, ela salta da cama, veste uma bata sobre a camisa. Recorda-se que assim
pode ver mais uma vez a Virglio nessa noite. Horcio saiu como estava, o candeeiro aceso numa
mo, o camisolo at os ps, as flores no peito, pequenas e cmicas. Virglio j se encontra na sala
com Maneca Dantas quando Horcio chega. Reconhece imediatamente o terceiro homem: 
Firmo que tem uma roa junto das matas de Sequeiro Grande. Est cansado, se sentou numa
cadeira, as botas enlameadas, o rosto tambm pingando de lama. Horcio ouve os passos de
Ester, diz:
   - Traz uma pinga. . .
   Ela mal teve tempo de constatar que Virglio no veste como os outros um camisolo para
dormir. Veste pijama muito elegante, e fuma nervosamente. Maneca Dantas aproveita a sada de
Ester para enfiar umas calas sobre o camisolo. Fica mais ridculo ainda, um pedao das fraldas
saindo pelas calas. Firmo volta a explicar para Horcio:
    - Os Badars mandaram me liquidar..
   Maneca Dantas est ridculo e ansioso naqueles trajes. Sua pergunta envolve um profundo
conhecimento dos capangas dos Badars:
   - E como  que voc t vivo ainda?
   Horcio tambm espera a resposta. Virglio o olha , O coronel tem rugas na testa, est enorme
no cmico camisolo. Firmo conta:
   - O negro se amedrontou, errou a pontaria...
   - Mas era mesmo um homem dos Badars?  Horcio queria certeza.
   - Era o negro Damio...
   E errou? - a voz de Maneca vinha cheia de incredulidade.
   - Errou... Parece que tava bbado... Saiu correndo pela estrada como doido. A lua tava
bonita, eu vi bem a cara do negro...
   Maneca Dantas falou pausado:
   - Pois pode mandar acender uma vela ao          Senhor do Bonfim... Escapar do tiro do negro
Damio  milagre e dos grandes...
   Ficaram todas calados. Ester chegava com a garrafa de cachaa e os copos. Serviu. Firmo
bebeu e pediu outro. Emborcou-o tambm de um trago. Virglio admirou a nuca de Ester que se
curvara para servir Maneca Dantas. O cangote branco aparecia aos pedaos sob o cabelo solto.
Horcio estava parado, agora Ester servia a ele. Virglio os olhava e teve um desejo de rir, O
coronel era ridculo, parecia um palhao de circo, com aquele camisolo bordado, a cara picada
de bexiga. Na mesa era um homem tmido que no entendia a maior parte do que ele conversava
com Ester. Agora era sumamente cmico, Virglio se sentiu dono daquela mulher que o acaso
jogara ali, num meio que no era o dela. O gigantesco fazendeiro parecia-lhe uma coisa frgil e
sem importncia, incapaz de ser obstculo aos projectos que nasciam no crebro de Virglio. A
voz de Firmo o trouxe para a realidade ambiente:
    - E dizer que estou bebendo essa cachacinha... Podia estar na estrada, estirado...
    Ester estremeceu, a garrafa tremeu na sua mo, Virglio foi jogado tambm, subitamente,
dentro da cena. Estava diante de um homem que escapara de ser morto. Era a primeira vez que
ele constatava um daqueles tantos acontecimentos dos quais os amigos lhe haviam falado na
Bahia, quando ele se preparava para vir para Ilhus. Mas ainda assim no se dava perfeita conta
da importncia do fato. Julgava que as rugas de Horcio, o olhar ansioso de Maneca Dantas,
refletiam apenas as emoes que lhes causava a vista de um homem que escapara de ser
assassinado. No tempo relativamente curto, em que Virglio estava na zona do cacau, ouvira falar
de muita coisa mas ainda no se encontrara frente a frente com um fato concreto. O barulho das
Tabocas, entre a gente de Horcio e a dos Badars, se dera quando ele voltara  Bahia, a passeio.
Quando chegara, restavam os comentrios mas ele duvidara de muita coisa. J ouvira falar nas
matas de Sequeiro Grande, j ouvira dizer que tanto Horcio como os Badars as desejavam, mas
nunca dera uma grande importncia a tudo aquilo. E demais encontrava Horcio igual a um
"clown" naquela roupa de dormir, presena cmica que completava uma imagem formada com a
atitude dele no jantar e na sala de visitas. Se no fosse o ar de Firmo ele nem se daria conta do
dramtico da cena. Por isso se admirou quando Horcio se voltou para Maneca Dantas e disse:
    - No h mais jeito... Eles to querendo, vo ter..
    Virglio no esperava aquela voz firme e enrgica de Horcio. Chocava com a imagem que ele
formara do coronel. Olhou interrogativamente, Horcio falou para ele numa explicao:
    - Vamos precisar muito do senhor, doutor. Quando eu mandei pedir ao Dr. Seabra um
advogado bom  que j previa que isso ia se dar... A gente t por baixo na poltica, no conta com
juiz, precisa de um advogado que entenda das leis.. E no Dr. Rui no confio mais.. ' Um
cachaceiro, brigado com todo mundo, com o juiz, com os escrives... Fala bem, mas  s o que
sabe fazer.. E aqui, agora e preciso um advogado que tenha cabea e manha. . .
    Aquela franqueza com que Horcio falava dos advogados, da advocacia e da justia, as
palavras fortes envoltas em certo desprezo, novamente chocaram Virglio. A figura do coronel
como um palhao torpe e cmico ia ruindo na imaginao do advogado. Perguntou:
    Mas, de que se trata?
    Era um grupo estranho. Estavam todos de p em torno de firmo que tinha a roupa molhada
do chuvisco e que ainda arfava da corrida a cavalo. Horcio, enorme no camisolo branco.
Virglio fumando nervoso. Maneca Dantas plido, sem notar o pedao de camisa que saia das
calas. ster havia sentado tambm, s tinha olhos para Virglio. Tambm ela ficara plida, ela
sabia que ia comear a luta pela posse de Sequeiro Grande. Mas, mais importante que esse fato,
era a presena de Virglio, era o pulsar novo do seu corao, era a alegria indita dentro dela.
Quando Virglio fez a pergunta, Horcio disse:
    - Vamos sentar.. .
    Vinha uma autoridade da voz dele que Virglio no conhecera antes. Como se uma ordem sua
no pudesse sequer ser discutida. Virglio se recordou do Horcio de quem falavam em Tabocas e
em Ilhus, o das muitas mortes, o das velhas beatas que tinha o diabo preso numa garrafa.
Vacilava entre as duas imagens: uma mostrando um homem poderoso e forte, dono e senhor; a
outra mostrando um palhao ignorante e desgraado, de uma infinita fraqueza. Da sua cadeira
Horcio falou, o palhao foi desaparecendo.
    - Se trata do seguinte: essa mata do Sequeiro Grande  terra boa pra cacau, a melhor de toda
zona. Nunca ningum entrou nela pra plantar. S quem vive l  um maluco, metido a
curandeiro.. . Do lado de c da mata tou eu com minha propriedade. J meti o dente na mata por
esse lado. Do lado de l to os Badars com a fazenda deles. Eles tambm j meteram o dente na
mata. Mas pouca coisa de um lado e de outro. Essa mata  um fim do mundo, seu doutor, e
quem tiver ela  o homem mais rico dessas terras de Ilhus... E mesmo que ser dono de uma vez
de Tabocas, de Ferradas, dos trens e dos navios. . .
    Os outros bebiam as suas palavras, Maneca Dantas apoiava com a cabea. Virglio comeava a
compreender. Firmo ia se repondo do seu susto. Horcio continuou:
    - Na frente da mata, entre eu e os Badars t o compadre Maneca Dantas com a fazenda dele.
Mais arriba ta Teodoro das Baranas. S tem essas duas fazendas grandes. O mais  roa
pequena, como a do Firmo, umas vinte... Tudo mordendo a mata, mas sem coragem de entrar. . .
Faz muito que eu tenho o plano de derrubar a mata de Sequeiro Grande. Os Badars bem sabe...
Se mete porque quer...
    Olhou em frente, as ltimas palavras soavam como anunciando desgraas irremediveis.
Maneca Dantas esclareceu:
    Eles to de cima na poltica, por isso se atrevem...
    Virglio queria saber uma coisa:
    - Mas que  que Firmo tem que ver?
    Horcio voltou a falar:
    - E que a roa dele est entre a mata e a propriedade dos Badars. . . Faz tempo que eles
andavam propondo comprar a roa dele. Ofereceram at mais do que valia. Mas Firmo e meu
amigo meu eleitor h muitos anos, ma consultou, aconselhei que no vendesse. Eu sabia a teno
dos Badars que era entrar pela mata. Mas imaginei que eles mandassem liquidar Firmo... Quer
dizer que eles to decididos... To querendo...
    Vinha uma ameaa na sua voz, os homens abaixaram as cabeas. Horcio riu seu riso para
dentro, Virglio via um gigante de fora inimaginvel. Sob o imprio da sua voz desapareciam at
as cmicas flores do camisolo. Fez um gesto, Ester serviu outra rodada de cachaa. Horcio
virou-se para o Dr. Virglio:
    - O senhor acha mesmo, doutor, que o Seabra vai ganhar as eleies?...
    - Estou certo disso...
    - T bem... Acredito no senhor - falou como se acabasse de tomar uma resoluo definitiva. E
era certo porque levantou e andou para Firmo: - No tem nada, Firmo. Tu, que acha? E tu,
compadre? - virava-se para Maneca Dantas. - Tem algum dono de roa na beira da mata que no
esteja comigo?
    Explicou a Virglio:
    - Os donos de roa tudo sabe que se eu ficar com as matas no vou botar eles para fora das
terras deles... At dou parte da mata.. . Se me ajudarem. J temos conversado. Agora, os Badars
querem  tudo, a mata e as roas junto... Tudo, querem mais do que podem engolir..
    Olhou para Maneca e para Firmo esperando a resposta da pergunta que fizera antes. Firmo
falou primeiro:
    - T tudo com vosmec. . .
    Maneca Dantas tinha uma restrio:
    - No endosso por Teodoro das Baranas.  homem muito da casa dos Badars... S vendo...
    Horcio resolvia rapidamente:
    - Tu, Firmo, vai voltar agorinha mesmo. Mando dois homens pra lhe garantir... Tu fala com os
outros todos: Braz Jos da Ribeira, com a viva Miranda, com Colo, com todo o mundo. No
esquea compadre Jarde que  um homem valente. Diga que venha tudo almoar aqui amanh.
T o doutor, a gente bota tudo no preto e no branco. Fico com a mata at a beira do rio, o mais,
o que t do outro lado,  pra dividir. . . E tambm as terras que se tomar... T certo?
    Firmo concordou j se levantando para partir. Virglio se sentia tonto, olhava Ester branca
mais que branca, plida mais que plida, que no pronunciava uma palavra. Horcio falava agora
para Maneca Dantas, dava ordens, e era o senhor:
    - E tu, compadre, vai falar com Teodoro. Explica o caso a ele. Se ele quiser vir, que venha.
Fao um acordo com ele. Se no quiser, que se prepare, porque vai chover tiro nessas vinte
lguas de terra..
    Saiu at o terreiro. Virglio o seguiu com os olhos prenhes de admirao. Depois olhou
timidamente Ester, encontrou-a distante e quase inatingvel. La fora Horcio gritava para as casas
dos trabalhadores:
    - Algemiro! Jos Dedinho! Joo Vermelho!
    Depois foram todos para a varanda. No terreiro os burros eram selados, os homens se
armavam. Partiram juntos, Maneca, Firmo e os trs capangas, a cavalhada ressoando na
madrugada que chegava. O capataz viera tambm, Horcio estava explicando o caso para ele.
Virglio e Ester entraram na sala. Ela se aproximou, estava lvida, falou em voz rpida, palavras
arrancadas do corao:
    - Me leve daqui para muito longe...
    Ouviram os passos de Horcio antes que Virglio respondesse. O coronel entrou, falou para a
esposa e para o advogado:
    - Essa mata vai ser minha nem que tenha de lavar a terra toda com sangue. . . Seu doutor, se
prepare, o barulho vai comear...
    Descobriu Ester com medo:
    - Tu vai para Ilhus,  melhor. . - mas estava interessado era nos acontecimentos. - Doutor,
vosmec vai ver como se liquida uns bandidos.. Porque os Badars no so mais que uns
bandidos. .
    Tomou Virglio pelo brao, conduziu-o at a varanda. Na madrugada que se avizinhava a terra
se vestia de uma luz ainda baa e triste. Horcio apontou para longe, um horizonte que mal se
via.
    - Nessa direco, seu doutor, esto as matas de Sequeiro Grande. Daqui uns tempos vai ser
tudo p de cacau... To certo como eu me chamar Horcio da Silveira...

                                                11

   Quando o cachorro uivou no terreiro, Don'Ana Badar se estremeceu na rede. No era medo,
na cidade, nos povoados e nas fazendas a gente dizia que os Badars no sabiam o que era medo.
Mas estava inquieta, assim passara toda a tarde, na certeza de que lhe ocultavam algo, de que,
entre o pai e o tio havia um segredo que as mulheres de casa no conheciam. Notara a ausncia
da Damio e de Viriato, perguntara por eles a Juca que respondera que os homens "haviam ido a
um recado. Don'Ana percebera a mentira na voz do tio mas nada dissera. Havia uma gravidade
espalhada no ar e ela a sentia e se inquietava. O uivo do cachorro se repetiu, chorava ao luar
numa angstia de macho sem fmea em noite de desejo. Don'Ana olhou o rosto do pai que, de
olhos semicerrados, esperava que ela iniciasse a leitura. Sinh Badar estava tranquilo, uma
serenidade descia-lhe pelos olhos e pelas barbas, suas mos grandes apoiadas nas pernas, todo ele
segurana e paz. Se no fosse Juca se movendo inquieto na cadeira, Don'Ana talvez no sentisse
to dentro de si o uivo do cachorro.
   Estavam na sala de visitas e era chegada a hora da leitura da Bblia. Aquele era um hbito de
muitos anos, vinha desde os tempos da finada dona Ldia, me de Don'Ana. Era religiosa e
amava buscar na Bblia a palavra conselheira para os negcios do marido. Quando ela morrera
Sinh conservou o hbito e o respeitava religiosamente. Onde quer que ele estivesse, na fazenda,
em Ilhus, mesmo na Bahia a negcio, onde quer que fosse, algum havia de ler para ele ouvir,
cada noite, trechos esparsos da Bblia onde ele procurava adivinhar conselhos e profecias para os
seus negcios. Desde que Ldia morrera, Sinh se fazia cada vez mais religioso, misturando agora
ao seu catolicismo um pouco de espiritismo e muito de superstio. Principalmente lhe era
arraigado aquele hbito da leitura da Bblia. As ms lnguas, em Ilhus, pilheriavam sobre o
assunto e contavam nos cafs que certa noite Sinh Badar, de passeio na Bahia, resolvera ir a
uma casa de prostitutas. E antes de se deitar com a rameira sacara do bolso a velha Bblia e fizera
com que ela lesse um trecho. Por causa dessa histria Juca Badar armara um barulho no caf do
Zeca Tripa, partindo a cara do farmacutico Carlos da Silva que a contava entre gargalhadas.
    Desde que dona Ldia morrera, Don'Ana passara a ser leitora, na fazenda ou em Ilhus, das
pginas j sujas e por vezes rasgadas do velho exemplar de Bblia. Exemplar que Sinh Badar
nunca quisera trocar por outro, certo de que aquele era o que tinha capacidade mgica de o guiar.
Nem mesmo quando o Cnego Freitas, numa noite que dormiu na fazenda, lhe fez notar que
aquela era uma Bblia editada pelos protestantes e que no ficava bem a um catlico ler um livro
"anatemado". Sinh Badar no entendeu o adjetivo e no pediu explicaes. Respondeu que
pouca diferena fazia, que ele sempre se dera bem com aquela e que "Bblia no era almanaque
que se mudasse todo ano". O Cnego Freitas no encontrou argumentos e preferiu calar,
achando que j era uma grande coisa que um coronel lesse a Bblia todas as noites. Tampouco
Sinh Badar admitiu que Don'Ana ordenasse a leitura, como ela o tentou ao substituir Ldia nos
cuidados da casa. Don'Ana propusera partir da primeira pgina e lerem at o fim. Mas Sinh
protestou, ele acreditava que a Bblia devia ser aberta ao acaso, para ele era um livro mgico, a
pgina aberta casualmente era aquela que tinha o que ensinar. Quando no se satisfazia mandava
que a filha abrisse noutro trecho qualquer e mais noutro e noutro, at que encontrava uma
relao entre a pgina lida e o negcio que o estava preocupando. Prestava uma enorme ateno
s palavras muitas delas no entendia - buscava-lhes o sentido, interpretava-as ao seu modo, em
funo das suas necessidades. Vrias vezes deixara de realizar negcios devido s palavras de
Moiss ou de Abrao. E costumava dizer que nunca se havia dado mal. E ai daquele, parente ou
visita, que, chegada a hora da leitura, pilheriasse ou protestasse. Sinh Badar perdia a calma e
tinha uma exploso de clera. Nem mesmo Juca se atrevia a reclamar contra aquele hbito que ele
considerava sumamente molesto. Ouvia procurando prestar ateno, se divertindo com os
trechos que tratavam das relaes sexuais, era o nico que entendia certas palavras cujo sentido
real escapava a Sinh e a Don'Ana.
    Don'Ana fita o pai sereno na sua cadeira alta. Parece-lhe que, com os seus olhos semicerrados,
ele olha o quadro da parede, aquele quadro que ele trouxera da Bahia quando ela lembrara que a
sala precisava de algo que a alegrasse. Ela tambm olha o quadro e sente toda a paz que desce da
oleografia. Mas logo v que Juca est nervoso, que no se interessa pelo jornal que l, um jornal
da Bahia atrasado de quinze dias. O cachorro uivou novamente e Juca falou:
    - Quando vier de Ilhus vou trazer uma cadela. Peri anda sentindo falta. . .
    Don'Ana achou que a frase soava falso, que Juca procurava apenas ocultar com o rudo das
prprias palavras a sua agitao. No a enganam, existe algo, algo de grave. Onde estaro Damio
e Viriato? Muitas noites assim j passou Don'Ana Badar, sentindo na casa esse ar perturbado,
essa atmosfera de segredo. Por vezes s muitos dias depois ela ia saber que um homem morrera e
que as terras dos Badars haviam aumentado. E ficava terrivelmente magoada por lhe haverem
escondido o fato, como se ela fosse uma menina. Desvia o olhar do tio, a quem ningum
respondeu, e agora inveja a calma de Olga, a esposa de Juca que faz "crochet" numa cadeira ao
lado do marido. Olga pouco demorava na fazenda e quando, obrigada por Juca, subia no trem de
Ilhus para passar um ms com Don'Ana, vinha chorando e se lastimando. Sua vida eram os
cochichos de Ilhus, era se fazer de mrtir perante as velhas beatas e as amigas, o se queixar dia e
noite das aventuras amorosas de Juca. A princpio quisera reagir contra as sucessivas infidelidades
do marido. Mandara cabras ameaar mulheres que se metiam com ele, certa vez mandou raspar a
cabea de uma mulatinha para quem Juca botara casa. Mas a reaco de Juca foi violenta - as
vizinhas diziam que ele a surrara - e ela passou a se contentar com os comentrios, com as
queixas feitas a todo mundo, com o ar de vtima resignada que punha nas festas de igreja. E isso
era a sua prpria vida, nada lhe agradava mais que se queixar, que ouvir as murmuraes e as
lamentaes das velhas beatas, possivelmente se sentiria defraudada se Juca se convertesse num
esposo modelo. Odiava a fazenda onde Sinh no queria ouvir suas lamrias, onde Don'Ana,
ocupada todo o dia, tinha pouco tempo para se condoer dela. Demais Don'Ana tinha a viso de
vida dos Badars e no chegava a encontrar mal nenhum nas aventuras de Juca desde que ele
dava  esposa tudo que ela necessitava. Assim fora seu pai, assim haviam de ser sempre os
homens, pensava Don'Ana. Alm de que Olga, desinteressada de todos os problemas dos
Badars, inimiga de terra, desconhecendo tudo que se relacionava com o cultivo do cacau,
parecia a Don'Ana terrivelmente estranha  famlia, distante e perigosa. Don'Ana a sentia como
que respirando outra atmosfera que no a que ela, Sinh e Juca respiravam. Porm nesse
momento ela fita Olga com certa inveja da sua calma, da sua indiferena ante o mistrio que
perdura na sala. Don'Ana pressente que alguma coisa de muito srio se est processando. E sente
tristeza e raiva porque a afastam do segredo, no lhe do o lugar que lhe compete na famlia
Badar. E demora o incio da leitura, seus olhos passeiam de rosto em rosto.
    Raimunda chega, terminadas as tarefas da cozinha, se senta no cho, por detrs da rede,
comea a catar cafun nas ancas de Don'Ana. Os dedos da mulata estalam na morte de
imaginrios piolhos, nem mesmo aquela carcia suave consegue adormecer a inquietao da moa.
Que segredo guardam Sinh e Juca, seu pai e seu tio Onde se encontraro Viriato e o negro
Damio Por que Juca est to inquieto, por que olha o relgio tantas vezes? O uivo do cachorro
corta a noite de agonia.
    Sinh abre lentamente os olhos, demora-os na filha:
    - Por que no comea, filha?
    Don'Ana abre a Bblia, Olga olha com desinteresse, Juca larga o jornal sobre as pernas.
Don'Ana comea a ler:

                          "E todos estes saram com as suas tropas,
                        uma multido de gente to numerosa como a
                        areia que h nas praias do mar; e um nmero
                               imenso de cavalos e carroas."

   Era a histria das lutas de Josu, e Don'Ana se admira de Sinh no mandar que ela abra
noutra pgina. E, enquanto o pai ouve muito atento os versculos, ela procura tambm penetrar o
sentido deles, encontrar a ligao que existe entre eles e o segredo que a preocupa. Sinh est
voltado para a frente, a barba descansando sobre as pernas, curvado, no interesse de no perder
uma s palavra. Mais de uma vez olhou para Juca. Don'Ana l vagarosamente, procura ela
tambm sair de um mundo de dvidas.
   E Sinh pede que ela repita um versculo, aquele que dizia:

  "Tomou pois Josu toda a terra das montanhas e do meio-dia, e a terra de Gosen, e a
      plancie, e o distrito ocidental, e o monte de Israel e as suas campinas."

   A voz de Don'Ana silenciou, o pai fez um gesto para ela esperar. Estava refletindo, se bem lhe
parecesse clara a bendio divina  sua famlia e aos seus projectos. Se sentia invadido por uma
grande tranquilidade e por uma segurana absoluta. Falou:
   - A Bblia no mente nunca. Nunca me dei mal seguindo ela. Ns se toca pra essas matas de
Sequeiro Grande, essa  a vontade de Deus. Hoje ainda tava com dvida, agora no tenho mais.
   E, de repente, Don'Ana compreendeu e ficou feliz, agora sabia que as matas de Sequeiro
Grande iam ser dos Badars, que naquelas terras iam crescer os ps de cacau e que, como uma
vez Sinh lhe prometera, o nome daquela fazenda seria escolhido por ela. Seu rosto se abriu de
alegria.
   Sinh Badar se levantou, era majestoso, parecia um profeta antigo com os longos cabelos
que comeavam a embranquecer e a barba negra rolando sobre o peito. Juca olhou o irmo mais
velho:
   - Sempre te disse, Sinh, que a gente tinha que entrar nessa mata. No dia que a gente tiver ela
ningum vai mesmo poder com os Badars. .
   Don'Ana abriu mais seu riso. Apoiava as palavras do tio. A voz de Olga veio assustada:
    - Vo comear de novo com os barulhos? Se  assim vou pra Ilhus. No me dou com essa
vida de ver se matar gente..
    Nesse momento Don'Ana a odiou. Teve um olhar de
infinito desprezo pela esposa do tio, desprezo e raiva, era uma pessoa de outro mundo, um
mundo intil e torpe, segundo pensava Don'Ana.
    O relgio bateu as horas. Sinh falou para a filha:
    - V dormir, Don'Ana, esta na hora. Voc tambm, Olga, que eu quero conversar com Juca.
    Toda alegria desapareceu do rosto de Don'Ana. Olga e Raimunda j se levantavam, ela ainda
procurava as palavras para pedir a Sinh para ficar. Mas os latidos do cachorro que acusava
algum no terreiro fizeram com que todos parassem. Segundos depois Viriato aparecia na porta
da varanda, o cachorro o seguia, logo que o reconhecera parara de latir. Juca se adiantou
perguntando:
    - E o servio?
    O mulato baixou os olhos, falou apressadamente:
    - O homem veio pelo atalho, no veio pelo meu lado. Se tivesse vindo eu tinha derrubado
ele...
    Sinh perguntou:
    - Que foi que teve? Se passou alguma coisa com Damio? Fale logo.
    - Errou a pontaria...
    - No  possvel!
    - Errou? - Juca se admira.
    -  o que tou pensando, sim senhor. No sei o que deu nele. Tava esquisito desde que saiu
daqui. No sei o que deu nele. Cachaa no era, eu havia de conhecer. .
    - O que  que tu sabe? - perguntou Sinh.
    O mulato baixou de novo os olhos:
    - Seu Firmo nem foi ferido. Todo mundo j sabe Pela redondeza. To dizendo que Damio
maluqueceu. Ningum sabe que rumo tomou...
    - E Firmo? - quis saber Juca.
    - Topei com dois homens levando um defunto. Diz que seu Firmo passou no rumo da casa
do coronel Horcio. Ia no galope, s parou para dizer que vosmec tinha mandado liquidar ele
mas que Damio errou a pontaria. No quis mais conversa, ia com uma pressa da disgrama..
Topei com os homens, j tava muita gente conversando. . .
    As mulheres estavam paradas, Don'Ana segurava a Bblia na mo, seguia a conversa com os
olhos vidos. Agora compreendia tudo. E dava ao acontecimento toda a sua importncia. Sabia
que o futuro dos Badars estava sendo jogado naquela noite. Sinh atravessou a sala em passos
largos. Falou:
    - Que teria dado no negro?
    Viriato tentou explicar:
    - Parece que deu o medo nele. . .
    - No estou lhe perguntando. . .
    O mulato se encolheu, Juca esfregou as mos, procurava esconder seu nervosismo:
    - Agora no tem mais jeito...  melhor comear antes que Horcio comece... Porque vai ser
guerra de verdade. .
    Olga suspendeu um gesto com medo do marido. Sinh sentou-se novamente. Esteve um
minuto silencioso, pensava nos trechos da Bblia que a filha lera. Era bem claro mas ele queria
mais:
    - L mais, Don'Ana. ..
    Ela tomou do livro, abriu-o ao acaso e leu mesmo de p. Suas mos tremiam um pouco mas
sua voz estava firme:

"No ters misericrdia com ele, mas far-lhe-s pagar vida por vida, olho por olho, dente
                              por dente, m,o por or p po. p."

   Sinh suspendeu a cabea, j no tinha dvidas. Fez com a mo um gesto para que as
mulheres sassem. Olga e Raimunda comearam a andar mas Don'Ana no se moveu. J as duas
estavam no corredor e ela ainda se encontrava de livro na mo, em p na sala, olhando o pai. Juca
estava ansioso que ela partisse para conversar livremente com Sinh. Este disse com voz spera:
   - J te mandei ir dormir, Don'Ana. Que est esperando?
   E ento ela recitou de memria, sem olhar sequer para o livro, olhos fitos nos do pai:

                         "No te ponhas contra mim obrigando-me
                      a deixar-te e a ir-me; porque para onde quer que
              tu fores irei eu; e onde quer que tu ficares, ficarei eu tambm."

   - Isso no  coisa pra mulher. . . - comeou Juca.
   Mas Sinh Badar o interrompeu:
   - Deixe que ela fique. E uma Badar. Um dia vo ser os filhos dela, Juca, que vo colher o
cacau das roas de Sequeiro Grande. Pode ficar, minha filha.
   Juca e Don'Ana sentaram-se perto dele. E comearam a traar os planos da lua pela posse das
matas de Sequeiro grande. Don'Ana Badar estava alegre e a alegria fazia ainda mais formosa sua
cabea morena, de olhos ardentes e negros.

                                               12

   Em torno da mata, na noite de ambies, desejos e sonhos desencadeados, as luzes se
acendiam. Luzes de placas de querosene da casa de Horcio, luzes da casa dos Badars. Vela que
Don'Ana acendera aos ps da Virgem, no altar da casa grande, para que ela ajudasse os Badars
nos dias que iam vir, vela que iluminava o caminho do defunto que os homens levavam para
entregar s filhas, em Ferradas. Luzes na fazenda das Baranas, onde Juca Badar e Maneca
Dantas chegaram quase ao mesmo tempo pra conversar com Teodoro. Luz de fifs, vermelha e
fumacenta, nas casas dos trabalhadores que despertavam mais cedo para ouvir a histria do
negro Damio que havia errado a pontaria e sumira ningum sabia para onde. Luz na casa de
Firmo onde dona Teresa esperava o marido com seu corpo branco, pronto para o amor na cama
de jacarand. Luzes nas casas dos pequenos lavradores despertados pela inesperada chegada de
Firmo com os cabras de Horcio, convidando-os para o almoo no dia seguinte. Em torno da
mata brilhavam as luzes das lanternas, das placas, dos candeeiros e dos fifs. Marcavam os limites
da mata de Sequeiro Grande, ao norte e ao sul, a leste e a oeste.
   Os homens a cavalo ou a p cortavam, por vezes, para atalhar a estrada real, pequenos trechos
da mata. Eram os que iam de fazenda em fazenda, de roa em roa, nos convites para as
conversaes do dia que se avizinhava. Em torno da mata a ambio dos homens acendia luzes,
cortava as estradas num galope. Mas nem as luzes, nem o passo dos homens acordava a mata de
Sequeiro Grande que dormia seu sono de centenas de anos pelos galhos e pelos troncos.
Repousavam as onas, as cobras e os macacos. Ainda no se haviam despertado os pssaros para
saudar a madrugada. Somente os vaga-lumes, lanternas de assombraes, iluminavam com sua
verde luz o verde espesso das rvores. A mata de Sequeiro Grande dormia, em torno dela os
homens vidos de dinheiro e de poder concertavam planos para conquist-la. E, no corao da
mata, no mais fechado da floresta, iluminado somente pela luz incerta e inconstante dos vaga-
lumes, dorme Jeremias, o feiticeiro.
   Como as rvores e os animais tambm ele no se deu ainda conta de que a mata est
ameaada, de que a ambio dos homens a cercou, de que os dias das grandes rvores, dos
animais ferozes e das assombraes chegaram ao fim. Na sua cabana miservel ele dorme junto
com as rvores e os animais.
    Quantos anos ter esse negro Jeremias, de carapinha branca, de olhos que j perderam o
brilho, quase cegos, de corpo curvado, seco de carnes, de rosto retalhado de rugas de boca sem
um s dente, e cuja voz  apenas um murmrio que  necessrio adivinhar?
    Ningum no sabe nessas vinte lguas de terra em torno das matas de Sequeiro Grande. Para
toda gente ele  um ser da mata, to temvel como as onas e as cobras, como os troncos
enredados de cips, como as prprias assombraes que ele dirige e desencadeia. Ele  dono e
senhor dessa mata de Sequeiro Grande que Horcio e os Badars disputam. Desde a fmbria do
mar, no porto de Ilhus, at o mais longnquo povoado no caminho do serto, os homens falam
em Jeremias, o feiticeiro, o que cura as molstias, o que fecha o corpo dos homens para as balas e
para as mordidas de cobra, o que d remdios tambm, para os males do amor, aquele que sabe
as mandingas que fazem uma mulher se agarrar a um homem que nem visgo de jaca mole. Sua
fama anda por cidades e povoados que ele nunca viu. De muito longe vem gente para consult-lo.
    Um dia, muitos anos antes, quando a floresta cobria muito mais terra, quando se estendia em
todas as direces, quando os homens ainda no pensavam em derrubar as rvores para plantar a
rvore do cacau que todavia no chegara da Amaznia, Jeremias se acoitou naquela mata. Era um
negro jovem, fugido da escravido. Os capites-do-mato o perseguiam e ele entrou pela floresta
Onde moravam os ndios e no saiu mais dela. Vinha de um engenho de acar onde o senhor
mandara chicotear as suas costas escravas. Durante muitos anos tivera tatuada nas espduas a
marca do chicote. Mas mesmo quando ela desapareceu, mesmo quando algum lhe disse que a
abolio dos escravos havia sido decretada, ele no quis sair da mata. Fazia muitos anos que
chegara, Jeremias havia perdido a conta do tempo, j tinha perdido tambm a memria desses
acontecimentos. S no havia perdido a lembrana dos deuses negros que seus antepassados
haviam trazido da frica e que ele no quisera substituir pelos deuses catlicos dos senhores de
engenho. Dentro da mata vivia em companhia de Ogum, de Omolu, de Oxssi e de Oxoluf,
com os ndios havia aprendido o segredo das ervas medicinais. Misturou aos seus deuses negros
alguns dos deuses indgenas e invocava a uns e a outros nos dias em que algum ia lhe pedir
conselho ou remdio no corao da mata. Vinha muita gente, vinha mesmo gente da cidade, e
aos poucos foram abrindo um caminho at a sua cabana, estrada feita pelos passos dos doentes e
dos angustiados.
    Viu os homens brancos chegarem para perto da mata, assistiu a outras matas serem
derrubadas, viu os ndios fugirem para mais longe, assistiu ao nascimento dos primeiros ps de
cacau, viu como se formavam as primeiras fazendas. Foi se retirando cada vez mais para o fundo
da mata e um temor foi se apossando dele: o de que os homens chegassem um dia para derrubar
a mata de Sequeiro Grande. Profetizara desgraas sem conta para esse dia. A todos que o vinham
ver ele dizia que essa mata era moradia dos deuses, cada arvore era sagrada, e que, se os homens
pusessem a mo nela, os deuses se vingariam sem piedade.
    Se alimenta de razes e ervas, bebe a gua pura do rio que corta a mata, tem na sua cabana
duas cobras mansas que assombram os visitantes. E nem mesmo os coronis mais temidos, nem
mesmo Sinh Badar que e chefe poltico e homem respeitado, Horcio, sobre quem contam
tantas histrias, nem mesmo Teodoro das Baranas que tem uma fama terrvel de malvado, nem
mesmo Brasilino que  smbolo de valentia, ningum  to temido nessas terras de So Jorge dos
Ilhus como o feiticeiro Jeremias. Dele so as foras sobrenaturais, aquelas que desviam o curso
das balas, que transformam em gua inofensiva o veneno mais perigoso da cobra mais mortfera
que  a cascavel.
    Na sua cabana dorme Jeremias, o feiticeiro. Mas seus ouvidos acostumados a todos os rudos
da floresta percebem, mesmo no sono passos precipitados que se aproximam. Abre os olhos
cansados, levanta a cabea que repousa na terra. Procura enxergar na madrugada que apenas se
avizinha, ergue o busto magro, vestido de farrapos. Os passos esto cada vez mais prximos,
algum corre pela picada que conduz  cabana. Algum que vem em busca de remdio ou de
conselho e que vem com o desespero no corao. Jeremias j se acostumou a conhecer a angstia
dos homens pela rapidez com que atravessam a mata. Esse vem desesperado, vem correndo pela
picada, deve trazer o peito pesado de dor. O feiticeiro se acocora no cho, de entre os galhos
chega uma luz dbia que ilumina fracamente a cobra que se arrasta pela cabana. Jeremias espera.
Esse que vem no traz luz que ilumine o caminho, seu sofrimento  suficiente para gui-lo. O
feiticeiro morde palavras ininteligveis.
    E, subitamente, o negro Damio se arroga na cabana, ajoelha no cho, beija as mos de
Jeremias:
    - Pai Jeremias, me sucedeu uma desgraa. . . Nem tenho voz pra contar, nem sei como dizer...
Pai Jeremias, eu tou perdido. .
    O negro Damio treme todo, seu corpo enorme parece um frgil bambu batido pelo vento na
beira do rio. Jeremias pousa sobre a testa do negro as suas mos descarnadas:
    - Filho, no h desgraa sem cura. Tu conta pra eu, negro velho vai dar remdio. . .
    Sua voz  fraca mas suas palavras tem uma fora de convico. O negro Damio se aproxima
mais, arrastando os joelhos pela terra:
    - Meu pai, no sei como se deu... Nunca se deu isso com o negro Damio. Desde que
vosmec me fechou o corpo pras balas que nunca perdi um tiro, nunca me meteu medo ter de
derrubar um desinfeliz.. No sei como se deu, pai Jeremias, foi coisa de feitio..
    Jeremias espera a histria em silencio. Suas mos sobre a testa de Damio so seu nico gesto.
A cobra agora parou de andar, se enrodilhou no quente onde o feitio dormia. Damio treme ao
continuar com uma voz que ora  precipitada, ora  demorada na busca das palavras:
    - Sinh Badar mandou eu ir liquidar o homem. Era seu Firmo, o que tem a roa dele bem
aqui juntinho. Fui tocaiar no atalho e veio assombrao, meu pai, veio assombrao, era a mulher
dele a dona Teresa, e me perturbou o entendimento. . .
    Fica esperando. Seu corao est pequeno, so as emoes que enchem seu peito, emoes
novas e desencontradas.
Jeremias diz:
    - Conta, meu filho.
    - Tava tocaiando o homem, apareceu a mulher, andava de barriga, diz que o filho ia morrer,
que o negro Damio ia matar todos trs... Foi me amolecendo, foi me pegando, foi botando coisa
na minha cabea, tirou a fora de minha mo, tirou a pontaria de meu Olho. Coisa de feitio,
meu pai, negro Damio errou o tiro. . . Que vai dizer agora Sinh Badar? Ele  um homem
bom, eu atraioei ele. . . No matei o homem, foi coisa de feitio, botaram mandinga, meu pai!
    Jeremias est com o corpo duro e os olhos parados, seus olhos quase cegos. Tambm ele
compreende que, por detrs da histrias do negro Damio, est uma histria muito mais
importante, que por detrs do destino do negro est o de toda a mata de Sequeiro Grande:
    - Pra que era que Sinh queria fazer o trabalho em Firmo, filho?
    - Seu Firmo no quis vender a roa, como Sinh podia entrar na mata, nessa mata, meu pai? E
eu atraioei ele, no derrubei o homem, os olhos da mulher tirou a coragem do meu peito. Eu
juro que vi, meu pai, no  mentira do negro no...
    Jeremias se ergue. Desta vez no precisou de bordo para sustentar em p seu corpo
centenrio. Deu dois passos para a porta da cabana. Agora seus olhos quase cegos viam
perfeitamente vista a mata em todo seu esplendor. E a via desde os dias mais longnquos do
passado at esta noite que marcava o seu fim. Sabia que os homens a iam penetrar, iam derrubar
a floresta, matar os animais, plantar cacau na terra onde havia sido a mata de Sequeiro Grande.
Enxergou o fogo das queimadas se estorcendo nos cips, lambendo os troncos, ouviu o miado
das onas acossadas, o guincho dos macacos, o silvo das cobras se queimando. Viu os homens de
machado e faces acabando com o resto que o fogo deixara, pelando tudo, pondo a terra nua,
arrancando at as razes mais profundas dos troncos. No via o negro Damio que trara seu
chefe e chorava agora a sua traio. Via era a mata devastada, derrubada e queimada, via os
cacaueiros nascendo, e estava possudo de um dio imenso. Sua voz no saiu num murmrio
como sempre, no se dirigia tampouco ao negro Damio que tremia e chorava na espera das
palavras que alijariam o sofrimento para longe. As palavras de Jeremias eram para os seus deuses,
os deuses que tinham vindo das florestas da frica, Ogum, Oxssi, Ians, Oxoluf, Omolu, e
tambm a Exu, que  o diabo. Clamava por eles para que desencadeassem a sua clera sobre
aqueles que iam perturbar a paz da sua moradia. E disse:
    - O olho da piedade secou e eles t olhando pra mata com o olho da ruindade. Agora eles vai
entrar na mata mas antes vai morrer homem e mulher, os menino e at os bicho de pena. Vai
morrer at no ter mais buraco onde enterrar, at os urubu no dar mais abasto de tanta carnia,
at a terra t vermelha de sangue que vire rio nas estrada e nele se afogue os parente, os vizinho e
as amizade deles, sem faltar nenhum. Vo entrar na mata mas  pisando carne de gente, pisando
defunto. Cada p de pau que eles derrube vai ser um homem derrubado, e os urubu vai ser tanto
que vai esconder o sol. Carne vai ser estrume de p de cacau, cada muda vai ser regada com
sangue deles, deles tudo, tudo, sem faltar nenhum.
    Gritou mais uma vez o nome dos seus deuses queridos. Gritou por Exu tambm, entregando-
lhe sua vingana, sua voz atravessando a mata, despertando as aves, os macacos, as cobras e as
onas. Gritou mais uma vez, era uma praga ardente:
    - Cada filho vai plantar seu cacaueiro em riba do sangue do pai. . .
    Depois olhou fito para a madrugada que se abria em trinados de pssaros sobre a mata de
Sequeiro Grande. Seu corpo foi cedendo, tinha sido imenso o esforo. Foi cedendo, seus olhos
cegaram de todo, as pernas se dobraram e ele caiu sobre a terra, os ps tocaram no negro Damio
transido de medo. No saiu da sua boca nem um suspiro, nem um lamento. No estertor da
morte, Jeremias procurava apenas repetir sua praga, torcida de dio sua boca agonizante. Nas
rvores, os pssaros gorjeavam um canto matinal. A luz da madrugada iluminava a mata de
Sequeiro Grande.

                                      Gestao de Cidades

                                                 1

    Era uma vez trs irms: Maria, Lcia, Violeta, unidas nas correrias, unidas nas gargalhadas.
Lcia, a das negras tranas; Violeta, a dos olhos mortos; Maria, a mais moa das trs. Era uma
vez trs irms, unidas no seu destino.
    Cortaram as tranas de Lcia, cresceram seus seios redondos, suas coxas como colunas,
morenas, cor de canela. Veio o patro e a levou. Leito de cedro e penas, travesseiro, cobertores.
Era uma vez trs irms.
    Violeta abriu os olhos, seus seios eram pontudos, grandes ndegas em flor, ondas no
caminhar. Veio o feitor e a levou. Cama de ferro e de crina, lenis e a Virgem Maria. Era uma
vez trs irms.
    Maria, a mais moa das trs, de seios bem pequeninos, de ventre liso e macio. Veio o patro,
no a quis. Veio o feitor, no a levou. Por ltimo veio Pedro, trabalhador da fazenda. Cama de
couro de vaca, sem lenol, sem cobertor, nem de cedro, nem de penas. Maria com seu amor.
    Era uma vez trs irms: Maria, Lcia, Violeta, unidas nas gargalhadas, unidas nas correrias.
Lcia com o seu patro, Violeta com seu feitor e Maria com seu amor. Era uma vez trs irms,
diversas no seu destino.
    Cresceram as tranas de Lcia, caram seus seios redondos, suas coxas como colunas,
marcadas de roxas marcas. Num auto pela estrada cade o patro que se foi Levou a cama de
cedro, travesseiros, cobertores. Era uma vez trs irms.
    Fechou os olhos Violeta com medo de olhar em torno; seus seios bambos de pele, um filho
pra amamentar. No seu cavalo alazo, o feitor partiu um dia, nunca mais h de voltar. Cama de
ferro se foi. Era uma vez trs irms.
    Maria, a mais moa das trs, foi com seu homem pro campo, pras plantaes de cacau. Voltou
do campo Maria, era a mais velha das trs Pedro partiu um dia, no era patro nem feitor, partiu
num pobre caixo, deixou a cama de couro e Maria sem seu amor. Era uma vez trs irms.
   Cade as tranas de Lcia, os seios de Violeta, cade o amor de Maria?
   Era uma vez trs irms numa casa de putas pobres. Unidas no sofrimento, unidas no
desespero, Maria, Lcia, Violeta, unidas no seu destino.

                                                2

    Na porta da casa de barro, sem pintura e sem caiao, os trs homens pararam. O jovem e o
cearense levavam a rede com o cadver, o velho descansava, apoiado no bordo. Na porta da
casa ficaram um minuto parados. Era manhzinha e na rua de rameiras no havia movimento. O
jovem disse:
    - E se ela tiver dormindo com macho?
    O velho suspendeu os braos:
    - A gente tem mesmo que acordar.
    Bateram palmas mas ningum respondeu de dentro da casa. O silencio ia pela rua a fora. Uma
rua de canto no povoado de Ferradas. Casas pequenas, de barro batido, algumas cobertas de
palha, duas ou trs de telhas, a maioria de zinco. Ali viviam as rameiras, ali os trabalhadores das
fazendas vinham nos dias de festa em busca do amor. O velho bateu na porta com o bordo.
Bateu uma vez e outra. Afinal algum gritou l de dentro:
    - Quem ? Que diabo  que quer? - era uma voz de mulher mal despertada.
    Logo um homem completou:
    - V adiante... Aqui t tudo cheio.. - e riu uma gargalhada satisfeita.
    - To com macho... - comentou o jovem. Ele no via como entregar o cadver s filhas se elas
estivessem dormindo com homens.
    O velho refletiu um momento:
    - No tem jeito... A gente tem mesmo que entregar...
    O cearense interveio na conversa:
    - No era melhor esperar?
    - E o que  que a gente faz com ele? - o velho apontava O cadver.- J t sem cova h muito
tempo. O pobre precisa descansar...
    E gritou para dentro:
    - Lcia! Violeta! Lcia!
    - Que  que quer? - era uma voz de homem que perguntava.
    O velho chamou pela terceira filha:
    - Maria! Oh! Maria!
    Na porta da casa vizinha apareceu uma mulher velha e sonolenta. Vinha reclamar contra o
rudo mas ao ver o cadver parou e apenas perguntou:
    - Quem ?
    - E o pai delas...- respondeu o cearense apontando para a casa.
    - Foi morte matada? - quis saber a mulher.
    - Foi de febre...
    A mulher saiu da porta, se aproximou do grupo. Examinou o cadver com ar de nojo:
    - Que coisa..
    O velho perguntou:
    - Elas to em casa? Ningum atende...
    - Tavam de farra na noite passada. Era aniversrio de Juquinha que tem um rabicho com
Violeta. Tiveram de ferra at de madrugada. Por isso no acordam.
    Juntou a sua voz  do velho:
    - Violeta! Violeta!
    - Que ? Que diabo  que quer?
    A mulher se esganiou num grito.
    -  teu pai!
   - Quem? - a voz chegava de dentro da casa numa surpresa.
   - Teu pai
   Houve um silencio logo cortado pelo movimento de gente que andava na casa. A porta se
abriu e apareceu a cabea de Violeta. Viu o grupo, esticou o pescoo, reconheceu o cadver do
pai. Deu um grito, O rudo dentro da casa aumentou.
   E logo se movimentou a rua toda. Saam mulheres de todas as casas, mais lentamente vieram
vindo homens que pernoitavam com algumas delas. A maior parte das rameiras vinha em trajes
menores, algumas traziam apenas uma camisa sobre o corpo. Cercavam o cadver, murmuravam
comentrios:
   - Foi a febre...
   - Ningum pode com ela.
   - Ser que no pega mais?
   - Diz que pega at pelo ar. . .
   -  melhor enterrar logo.. .
   - Fazia anos que no via as filhas. . . Tinha raiva delas ser perdidas...
   - Dizque nem vinha a Ferradas de vergonha...
   Mulheres de caras machucadas, mulatas, negras, uma que outra branca. Nas pernas e nos
braos, por vezes nos rostos, marcas de feridas. Havia no ar um cheiro de lcool misturado com
perfume barato. Uma mulata cuja cabeleira despenteada subia enorme para o alto andou at junto
do cadver:
   - Uma vez dormi com ele... Foi em Tabocas...
   Houve um silencio em torno dela. Violeta ainda parava na porta sem coragem de se
aproximar. E foi a mulata que ordenou:
   - Levem ele pra dentro.
   Lcia e Maria iam chegando. Lcia chorava: "meu pai, meu pai". Maria vinha devagar, seus
olhos medrosos. Uns homens apareceram atrs. Uma mulher comentou, rindo:
   - Juquinha, teu sogro morreu...
   O velho pediu:
   - Respeitem o morto. . .
   Outra mulher xingou a que falara:
   - Tu  mesmo uma puta suja...
   Levantaram a rede, levaram para dentro. Entrou todo mundo atrs do cadver. Alguns
homens ainda terminavam de abotoar as calas, as mulheres iam mesmo como estavam, vestidas
pela metade. Todas pareciam ter a mesma idade e a mesma cor, uma cor de doena. Era um resto
de gente perdido no fim do mundo. E, como no havia sala na casa, eram cinco quartos
pequenos ocupados por cinco mulheres, deitaram o morto na cama de Violeta, que era no quarto
da frente. O velho acendeu o toco de vela que estava quase todo gasto. Por detrs da cama havia
uma gravura de um santo, Senhor do Bonfim. Uma pgina de revista mostrava, pregada na
parede, uma mulher loira e nua. Lcia soluava, Maria atendia ao cadver, Violeta fora em busca
de outra vela. A gente se espalhou pelo corredor. Juquinha foi l dentro, trouxe uma garrafa de
cachaa, comeou a servir aos homens que haviam trazido o cadver. Maria tirou o violo que
estava ao lado da cama, junto  cabea do morto.
   O velho falou pro cearense, apontando Maria que passava com o violo.
   - Conheci ela quando era menina. .. Era uma lindeza. Depois foi uma moa bonita como que. .
. Quando casou com Pedro. Hoje nem parece.
   - Ainda tem uns traos. . .
   - Essa vida de rapariga come a beleza de mulher em dois dias. . .
   O jovem ficou olhando Maria com interesse.
   Algumas mulheres se retiravam para se vestir. Antes de partir, um homem ofereceu seus
prstimos a Lcia. Violeta fazia com Juquinha clculos demorados sobre o caixo e o enterro. Era
caro. Entraram para o quarto onde estavam, com o cadver, Lcia e Maria. Ficaram no quarto
discutindo. Juquinha era como se fosse da famlia. Fazia contas. No era possvel comprar um
caixo. J o lugar no cemitrio era muito caro:
    - O jeito  enterrar mesmo na rede... - disse Lcia. - A gente cobre com um lenol.
    Violeta, que agora, aps os gritos iniciais, estava serena, falou:
    - Tambm no sei por que no enterraram de uma vez na estrada... Ele nunca ligou pra
gente...
    - Tu no tem mesmo corao... - atalhou Maria. - No sei por que tu gritou quando viu ele. .
S de fita.. Ele era um homem bom.
    Violeta ia retrucar, Maria continuou:
    - Ele tinha era vergonha da gente ser mulher da vida. . . Tinha sentimento... No era que no
gostasse da gente...
    No corredor, o velho que trouxera o cadver contava para as visitas como o homem morrera"
aquela febre de trs dias liquidando com a fora dele:
    - No teve remdio que servisse... Ficou uma conta braba de medicao no armazm das
Baranas... No adiantou.
    No quarto, Lcia, que era muito religiosa, props chamarem Frei Bento para rezar as oraes.
Juquinha duvidou que o frade viesse:
    - Ele no vem em casa de mulher-dama. .
    - Quem foi que disse? - perguntou Violeta.  Quando Isaura morreu ele veio... S que cobra
caro.
    E no acrescentou nenhum comentrio, ela no queria que a tomassem por ma inimiga do pai.
Foi Juquinha quem a apoiou:
    - S vem por muito dinheiro. Por menos de vinte mil ris no h de vir.. .
    Lcia ia desistindo do seu projecto:
    - Se  assim no se chama. . .
    Olhou o defunto, sua cara magra, verdosa, parecendo sorrir na aflio da morte. E deu em
Lcia uma agonia, uma tristeza do pai se enterrar sem oraes, balbuciou numa crise de choro:
    - Vai se enterrar sem orao, coitado! No fez mal a ningum, era um homem bom... E vai se
enterrar sem ser encomendado. Nunca pensei. . . Meu pai. . .
    Violeta tomou do brao dela, o melhor gesto de carinho que conhecia.
    - A gente mesmo reza... Eu ainda me lembro de uma orao...
    Mas a mulata que havia certa vez dormido com o morto, e que do corredor ouvia o dilogo,
tirou vinte mil-ris da meia e, entrando no quarto, entregou a Lcia:
    - No deixe ele sem orao. . .
    Foi isso que deu idia a Juquinha de fazer uma subscrio. Saiu entre os presentes recolhendo
dinheiro. Um homem que no tinha o que dar se ofereceu para ir chamar Frei Bento e partiu. Era
a sua maneira de colaborar.
    Lcia lembrou enxugando as lgrimas:
    -  preciso dar caf aos homens que trouxeram ele...
    Maria partiu para os fundos da casa. Quando chamou o velho, o jovem e o cearense, todos a
acompanharam para a cozinha. No quarto ficaram apenas Violeta e, a mulata que dera os vinte
mil-ris. Ela nunca tinha visto, repousando na paz da morte, um homem com quem houvesse
dormido. Estava impressionada e o considerava como um morto seu, como um parente prximo.
    Na cozinha, em torno do caf, o velho contou para mudar a conversa:
    - Sabe que ontem os Badars mandou liquidar seu Firmo?
    Houve um interesse geral:
    - O que t me dizendo?
    - Mataram ele?
    - O tiro no pegou.  de admirar... Foi o negro Damio.
    Um homem assobiou sua admirao. Outro falou:
    - O negro Damio errando tiro?  o fim do mundo...
    O velho se sentia orgulhoso do interesse despertado. Meteu a unha no dente, como se fora
um palito, arrancando uma felpa de aipim. E contou:
    - Seu Firmo passou pela gente, ia numa pressa dos diabos, ia tocando pra casa do coronel
Horcio. Diz que a coisa vai pegar fogo.. .
    Haviam esquecido o defunto e cercavam o velho, alguns
se debruavam sobre a pequena mesa da cozinha para no
perder uma palavra. Assomavam cabeas sobre os que estavam na frente, olhos abertos de
curiosidade. O velho explicou o que todos sabiam:
    -  por causa da mata de Sequeiro Grande...
    - A coisa vai comear. .
    O velho pediu silencio e relatou:
    - J t comeando... Mais adiante a gente se encontrou com seu Firmo que vinha de volta com
dois cabras do coronel Horcio. Vinha tambm o coronel Maneca Dantas que tomou pelo atalho
pras Baranas. . . Ia tudo no galope. . .
    Juquinha, que era homem dos Badars, interveio:
    - Coronel Horcio t pensando que Teodoro vai fazer parte com ele. Parece menino que se
engana com chupeta. No v que coronel Teodoro  unha e carne com os Badars. . .
    Lcia interrompeu:
    -  miservel, isso sim. Um bandido daqueles.. Ta com quem der mais vantagem pra ele...
    Uma mulher riu:
    - Tu  que bem sabe, foi amsia dele, foi ele que te descabaou.
    Lcia ergueu o busto, os olhos com raiva:
    - Aquilo  a pior misria do mundo. No h homem to desgraado.
    - Mas  valente. . . - falou um homem.
    - Valente pro lado de mulher - era a voz de Lcia, - quando quer comer uma fica mais manso
que um passarinho. Tou me lembrando comigo. Vinha pra meu lado, era um presente todo dia,
um corte de fazenda, uma sandlia, um leno bordado. E promessa de fazer medo. Me prometeu
casa em Ilhus, me prometeu vestido, at aquele anelo de brilhante que usa no dedo mindinho.
Prometeu tudo at que eu fui na conversa e dei pra ele... Depois, promessa foi um dia... Me
largou foi na rua de mulher-dama e sem a bno de meu pai!. . .
    Estavam calados, o cearense olhava alarmado, Lcia espiou todos, viu que ainda estavam
esperando mais:
    - E pensa que foi s? Quando me tinha comido e no queria mais, j tinha se cansado, botou
o olho em Violeta... Se no fosse Ananias, que era o capataz, que j tinha passado antes e juntado
as pernas com ela.. . S no fez mais porque tinha medo de Ananias.. .
    O velho falou:
    - Negro tem filha  mesmo pra cama de branco. . .
    Lcia ainda tinha o que contar:
    - E quando morreu Pedro, que tinha casado com Maria, na mesma noite do enterro, o coronel
apareceu na casa dela com a conversa de oferecer seus prstimos. . . E no respeitou nem a dor
da pobre, foi ai mesmo, na cama que ainda tava quente do corpo do marido... Aquilo  pior que a
desgraa...
    Houve silencio. O jovem que trouxera o cadver, desde que chegara olhava Maria com olhos
de desejo. Se no fosse dia de nojo teria proposto dormir com ela. Fazia dois meses que ele no
sabia o que era mulher. Desde que entrara, que os restos de beleza de Maria lhe haviam chamado
a ateno. E de toda a conversa, s aquele caso do coronel Teodoro possuindo ela no dia do
enterro do marido interessara ao jovem.
    O velho que perdera importncia com a interrupo de Lcia, puxou de novo a conversa para
os acontecimentos da noite:
    - Jaguno agora vai valer ouro... Se comear os barulhos quem tiver pontaria vai enricar. Pode
botar roa.. .
    - Eu tou apostando nos Badars - disse Juquinha. - Eles to por cima na poltica. Vo ganhar
com certeza. Sinh e Juca so dois machos.
    - Ningum pode com o coronel Horcio. . . - falou outro.
    Um homem saiu. Juquinha comentou:
    - Chico j vai se apresentar... No h barulho que no se meta.  homem do coronel
Horcio...
    Algumas visitas saram tambm na nsia de espalhar as notcias que o velho trazia. E se
distriburam pelas poucas ruas de ferradas, indo de conhecido a conhecido. O cearense se
admirava daquela terra:
    - Nessa terra s se fala em morte. . .
    O velho sentenciou:
    - Morte aqui  mercadoria barata. E agora vai ser mesmo de graa. Tu saiu em tempo. .
    - T fugindo? - perguntou uma mulher,
    - Tou indo embora..
    Juquinha riu:
    - Logo agora que a coisa vai se por boa?
    Mulheres j vestidas voltavam a entrar na casa. Uma trazia flores, murchas flores que um
amante ocasional lhe dera dois dias antes, e as depositou nos ps do cadver. Chegavam homens
tambm, queriam saber das notcias que o velho trouxera. Pelo povoado circulavam, aumentadas.
Diziam que havia chegado o cadver de um cabra que acompanhava Firmo e morrera com o tiro
destinado ao patro. Que Firmo escapara por milagre do tiro do negro Damio. Outros diziam
que fora o cadver do prprio Firmo que chegara.
    Frei Bento entrou em casa das mulheres. Uma que ainda estava em camisa saiu correndo para
se vestir direito. Atrs de Frei Bento vinha o sacristo. O frade saudou da porta, com sua voz
estrangeira:
    - Deus esteja convosco.
    Entrou pelo corredor, antes de tudo quis saber das notcias. Depois do velho ter repetido toda
a histria numa voz humilde, o frade se dirigiu para o quarto, parou junto ao cadver. Violeta
explicou, com voz envergonhada, as dificuldades de dinheiro. Depois fez contas com o sacristo
deu a nota de vinte mil-ris que a outra oferecera e mais umas pratas. O frade iniciou as oraes.
Homens e mulheres repetiam em coro:
    - Ora pro nobis..
    Lcia chorava baixinho, as trs irms estavam juntas, apertadas uma na outra. O jovem olhava
Maria. Ser que ela no aceitaria dormir com ele nesse mesmo dia, depois do enterro? No j
dormira ela com o coronel Teodoro depois do enterro de Pedro, que fora seu marido. Repetia
com o coro maquinalmente:
    - Orai pro nobis..
    O frade desfiava as oraes da ladainha. Da porta algum gritou:
    - L vem Juca Badar.. .
    Correram todos para a rua onde, num galope que levantava poeira, Juca passava
acompanhado por Antnio Vtor e mais dois cabras, a caminho de Tabocas. Haviam corrido
todos, at o sacristo, para v-los passar. Frei Bento espiou pela janela, a cabea esticada por cima
do cadver, sem parar a orao. S as trs irms e o jovem que desejava Maria ficaram com o
frade ao lado do cadver. Juca Badar e os cabras j iam no fim do povoado. Passavam em frente
ao grande armazm de Horcio, onde era depositado o seu cacau seco, e deram uns tiros pro ar.
Os homens e mulheres foram voltando. As oraes de defuntos se perdiam em meio aos
comentrios. O jovem ia se aproximando de Maria.

                                                 3

   Muitos anos depois quando algum atravessava esse povoado de Ferradas em companhia de
um velho que conhecia as histrias da terra do cacau, era quase certo o velho comentar
apontando as casas e as ruas cuja lama desaparecera sob o calamento de pedras:
    - Isso aqui j foi coito dos piores bandidos dessa terra. Muito sangue j correu em Ferradas.
No comeo do cacau. . .
    O povoado de Ferradas era feudo de Horcio. Estava encravado entre as fazendas dele.
Durante algum tempo Ferradas marcara os limites da terra do cacau. Quando os homens
iniciaram no Rio-do-Brao a plantao da nova lavoura, ningum pensava que ela ia terminar
com os engenhos de acar, os alambiques de cachaa e as roas de caf que existiam em redor
do Rio-do-Brao, de Banco-da-Vitria, de gua-Branca, os trs povoados da beira do rio
Cachoeira que ia dar no porto de Ilhus. Mas o cacau no s liquidou os alambiques, os pequenos
engenhos e as roas de caf, como andou mata adentro. E no seu caminho nasceram as casas do
povoado de Tabocas e mais longe as casas do povoado de Ferradas, quando os homens de
Horcio haviam conquistado a mata da margem esquerda do rio. Ferradas foi, durante algum
tempo, o povoado mais distante de Ilhus. Dali partiam os conquistadores de novas terras. Por
vezes, rompendo a mata, chegavam viajantes de Itapira, da Barra do Rio de-Contas, que era o
outro lado das terras do cacau. Ferradas foi um centro de comrcio, pequeno e movimentado.
Iria parar seu crescimento com a conquista da mata de Sequeiro Grande, nos limites da qual
nasceria o povoado de Pirangi, uma cidade feita em dois anos. E anos depois, com o andar rpido
da lavoura do cacau, nasceria Bafor, j no caminho do serto, que logo trocaria seu nome pelo
mais eufnico de Guaraci. Mas, nos tempos da conquista, Ferradas era importante, talvez mesmo
mais importante que Tabocas. Falava-se que a estrada de ferro chegaria at l. Era um projecto
muito discutido nas vendas e na farmcia. Ditavam-se prazos, falava-se no progresso que isso
traria a Ferradas. Mas a estrada nunca veio. Acontecia que Ferradas politicamente era de Horcio.
Mandava ele e mais ningum. E como ele era seabrista, estava na oposio, o governo nunca
aprovara o projecto dos ingleses de criarem um ramal da estrada at Ferradas. E quando Seabra
subiu ao governo e Horcio esteve de cima j se encontrava muito mais interessado em levar a
estrada at Sequeiro Grande junto ao qual nascia Pirangi. Ferradas foi uma etapa, naqueles anos
fervia de gente, comerciava, era conhecida das grandes casas exportadoras da Bahia, estava no
roteiro de todos as caixeiros-viajantes. Estes chegavam no lombo dos cavalos, as malas de
amostras trazidas por uma tropa de burros, e durante alguns dias exibiam suas roupas de linho
branco entre a roupa caquis dos grapinas. Os caixeiros-viajantes namoravam as moas solteiras
do povoado, bailavam quando havia bailes, bebiam cerveja quente reclamando contra a falta de
gelo, faziam grandes negcios. E na cidade da Bahia, na volta das viagens, contavam nos cabars
as histrias bravias daquele povoado de aventureiros e jagunos, onde havia apenas uma penso,
onde a lama era o calamento da rua, mas onde qualquer homem de p descalo levava um mao
de dinheiro no bolso. Comentavam:
    - Nunca vi tanta nota de quinhentas mil-ris como em Ferradas. .
    Era a nota mais alta que havia naquele tempo. Em Ferradas ningum tinha troco, nqueis
quase no existiam. Contavam outras anedotas tolas, como todas as anedotas dos caixeiros-
viajantes.
    - Quando algum cheg em Ferradas, Chico Martins, que  o dono da penso, pe acar na
cama onde o hspede vai dormir.
    O que ouvia a histria se admirava:
    - Acar? Para qu?
    - Para dar formiga e as formigas comerem os percevejos.
    A varola e o tifo eram endmicos no povoado e a casa melhor de Ferradas no estava
propriamente nas suas ruas. Estava mais para dentro da mata, era o lazareto onde internavam os
bexigosos. Diziam que nenhum bexigoso voltara de l. Era cuidado por um preto velho que
tivera a bexiga negra e se salvara. Ningum entrava no pedao de mata onde estava o lazareto.
Infundia terror em toda a populao.
    Ferradas nascera em torno do armazm de cacau que Horcio fizera construir ali. Ele
precisava de um depsito onde juntar o cacau j seco das suas diversas fazendas. Ao lado do
armazm foram surgindo casas, em pouco tempo se abriu uma rua na lama, dois ou trs becos a
cortaram, chegaram as primeiras prostitutas e os primeiros comerciantes. Um srio abriu uma
venda, dois barbeiros se estabeleceram vindos de Tabocas, passou a haver feira aos sbados,
Horcio mandava abater dois bois para vender a carne. Tropeiros, que vinham conduzindo tropa
de cacau seco das fazendas mais distantes, pernoitavam em Ferradas, os burros vigiados por
causa dos ladres de cacau.
    Mas Ferradas comeou a ser mesmo muito falada quando da nomeao dos subdelegados. O
prefeito de Ilhus, a instncias de Juca Badar, nomeara um subdelegado de polcia para Ferradas.
Era uma maneira de ferir Horcio, de se meter nas terras dele. Disseram que aquilo j era um
povoado e no importava que estivesse em terras de Horcio. Era necessrio que a justia se
implantasse ali e se pusesse cobro aos assassinatos e roubos que se sucediam. O delegado chegou
por uma tarde. Vinha com trs soldados de polcia, anmicos e tristes. Chegaram montados e pela
noite voltaram a p e nus, aps terem tomado uma surra tremenda. O jornal governista de Ilhus
falou no assunto atacando Horcio, o jornal da oposio perguntou por que nomeavam um
subdelegado e no entanto no calavam nem uma rua, no punham nem um candeeiro de
iluminao nas esquinas? As benfeitorias que Ferradas possua eram feitas pelo coronel Horcio
da Silveira. Se, o municpio queria intervir na vida da localidade que ento contribusse tambm
com algum progresso para ela. Ferradas vivia em paz, no precisava de polcia, precisava era de
calamento, de luz e de gua encanada. Mas no adiantaram os argumentos do jornal da oposio
que respondia aos interesses de Horcio. O prefeito, sempre atiado por Juca, nomeou outro
delegado. este era conhecido como valente, era Vicente Garangau, que fora muito tempo jaguno
dos Badars. Chegou com dez soldados, conversando muito, que ia fazer e acontecer. Logo no
dia seguinte prendeu um trabalhador de Horcio que armara uma baderna numa casa de
raparigas. Horcio mandou um recado pra ele soltar o homem. Ele mandou dizer que Horcio
viesse soltar. Horcio veio mesmo, soltou o homem, Vicente Garangau foi morto no caminho
dos Macacos quando procurava se esconder na fazenda de Maneca Dantas. Arrancaram-lhe a
pele do peito, as orelhas e os ovos e mandaram tudo de presente ao prefeito de Ilhus. Desde
esse tempo no havia subdelegado em Ferradas por mais que Juca Badar procurasse um homem
que quisesse o cargo.
    Horcio fizera construir uma capela e conseguiu um frade que viesse para ali. Frei Bento
parecia mais um conquistador de terra que um sacerdote de Cristo. Sua paixo era o colgio que
as freiras estavam construindo em Ilhus com todas as dificuldades, e todo o dinheiro que
conseguia arrebanhar em Ferradas enviava para as freiras, para a sua obra. Por isso no era
simpatizado no povoado. Esperavam que ele se preocupasse mais com Ferradas, que pensasse
em levantar uma igreja melhor que a de Tabocas para substituir a capela. Mas Frei Bento s
pensava no colgio das freiras que se iniciara monumental no morro da Conquista, na cidade de
Ilhus. Fora um projecto dele, custara-lhe muito convencer ao arcebispo da Bahia, para que
mandasse as freiras. E se as obras se haviam iniciado devia-se a Frei Bento que formou comisses
de senhoras em Ilhus. E ele, se aceitara aquele lugar de capelo em Ferradas, fora com o fito de
arranjar dinheiro ali para as obras do colgio. Metia-lhe medo a indiferena dos coronis pela
educao das filhas. Pensavam muito nos filhos, em fazer deles mdicos, advogados ou
engenheiros, as trs profisses que haviam substitudo a nobreza, mas nas filhas no pensavam,
bastava que aprendessem a ler e a cozinhar. Em Ferradas no perdoavam a Frei Bento o
desinteresse pelo povoado. Diziam que ele dormia com a cozinheira, uma mulatinha que viera da
fazenda de Horcio. E, quando ela pariu, apesar de que todo mundo sabia que o menino era filho
de Virgulino, o empregado do srio, todos achavam que ele se parecia com Frei Bento. Frei Bento
sabia dos comentrios, encolhia os ombros, saa  cata de dinheiro para o colgio. Tinha um
secreto desprezo por aquela gente toda que ele considerava irremediavelmente perdida,
assassinos, ladres, homens sem lei, sem respeito a Deus. Segundo Frei Bento no havia um s
morador de Ferradas que no houvesse h bastante tempo conquistado a eternidade do inferno.
E o dizia nos sermes de poucos assistentes nas missas de domingo.
    Essa opinio do frade era mais ou menos generalizada pelas terras do cacau onde Ferradas era
sinnimo de morte violenta. Mais que o catolicismo representado pelo frade com seu desinteresse
pela povoao, o espiritismo medrava. Na casa de Eufrosina, uma mdium que comeava a criar
fama, os "crentes" se reuniam para ouvir os parentes e os amigos mortos. Eufrosina tremia na
cadeira, comeava a falar com a lngua embolada, um dos presentes reconhecia a voz de um
defunto conhecido. Contavam que, h muito tempo, os mortos, principalmente o esprito de um
ndio que era o guia de Eufrosina vinha anunciando os barulhos por causa da mata de Sequeiro
Grande. Aquelas profecias eram comentadas e ningum era cercado de tanto respeito em
Ferradas como a mulata Eufrosina que atravessava a sua magreza pelas ruas enlameadas. Com o
sucesso das "sesses", Eufrosina iniciou tambm uns tratamento de molstias pelo espiritismo,
com relativo sucesso. Foi s ento que o Dr. Jess Freitas, que era mdico em Tabocas e que
vinha uma vez por semana a Ferradas para atender aos doentes do povoado, que era chamado
tambm nas noites de tiroteio, uniu a sua campanha  de Frei Bento, contra Eufrosina. Ela lhe
estava tirando a clientela, os doentes de febre iam cada vez mais  mdium que ao mdico. Frei
Bento chegou a falar com Horcio. Mas Horcio no ligou. Dizem que foi por isso que Frei
Bento inventou aquela histria sobre Horcio e as sesses espritas. Frei Bento tinha - segundo
Ferradas - uma lngua venenosa. E desta vez fora mesmo ele quem espalhara a histria. Dizia esta
que, em certa sesso esprita em casa de Eufrosina, chamaram o esprito de Mundinho de
Almeida, um dos primeiros conquistadores de terra, o mais terrvel deles morto muitos anos
antes, mas cuja fama de malvadez ainda perdurava. Falava-se nele como smbolo de homem ruim.
    Eufrosina empregou-se toda em chamar o esprito de Mundinho de Almeida. No havia jeito
dele vir. Foi uma luta tremenda, a mdium se rebentando num esforo enorme de tremedeiras e
transes. Por fim, ao cabo de mais de uma hora de trabalho, os assistentes j cansados de tanta
concentrao, Mundinho de Almeida chegou, muito cansado e muito apressado. Que dissessem
logo o que queriam, ele tinha que voltar rapidamente. A mdium perguntou com doura:
    - Mas, por que tanta pressa, irmo?
    - Ah! no inferno a gente est muito ocupado. Todo mundo.. - respondera o esprito de maus
modos, e pelos maus modos os mais velhos afirmaram que era mesmo Mundinho de Almeida.
    - O que  que esto fazendo? - quis saber Eufrosina, voz da curiosidade geral.
    - Tamos juntando lenha o dia todo. Trabalha todo mundo, os pecador e os diabo. .
    - Pra que tanta lenha, irmo?
    - Tamos fazendo a fogueira pro dia que vier Horcio. . .
    Eram assim as histrias do povoado de Ferradas, feudo de Horcio coito de bandidos. Dali
partiram para as matas os desbravadores de terra. Era um mundo primitivo e brbaro cuja nica
ambio era dinheiro. Cada dia chegava gente desconhecida em busca de fortuna. De Ferradas,
partiam as novas estradas recm-abertas da terra do cacau. De Ferradas, os homens de Horcio
iam partir para dentro das matas de Sequeiro Grande. Naquele dia Ferradas vivia das notcias que
o velho trouxera com o cadver. Juca Badar passara por ali na ida para Tabocas. Na volta j no
poderia vir por Ferradas, teria que procurar outro caminho. De manh para a tarde Ferradas se
ps em p de guerra. Chegaram jagunos para guardar o armazm de Horcio. Nas vendas, os
homens bebiam mais cachaa que normalmente. No princpio da noite, Horcio chegou.
    Chegou com uma comitiva grande, uns vinte cavalos, uma tropa de burros que conduzia as
bagagens. Se dirigiam a Tabocas, onde, no dia seguinte, Ester tomaria o trem para Ilhus. Ela
vinha montada  maneira daquele tempo, sentada de banda no selim que tinha cabeo de prata
como de prata era o cabo do rebenque que ela trazia na mo. A seu lado marchava Virglio num
cavalo tordilho. Mais atrs, ao lado de Horcio pesado na sua montaria, vinha, baixo e troncudo,
o rosto cortado por um longo talho de faco, compadre Braz, dono de uma roa junto das matas
de Sequeiro Grande, respeitado como ele s na zona do cacau. Trazia uma repetio na frente da
sela e sobre ela descansava a mo que segurava a rdea. E vinham cabras e tropeiros, repetio no
ombro, o revlver no cinto. Fechando a marcha cavalgava Maneca Dantas que havia fracassado
na sua misso ante o coronel Teodoro Martins, o proprietrio das Baranas. Este ficara com os
Badars. Vinham todos num grupo cerrado, levantando poeira na estrada de barro vermelho. Os
tropeiros gritavam pelos burros de carga, aquilo parecia mais um pequeno troo de exrcito
invadindo um povoado. Entraram num galope. Logo no comeo da rua, Horcio passou na
frente de todos e riscou o solo com as patas do seu cavalo ao parar defronte da casa de Farhat, o
srio, onde iam pernoitar. Assim com o cavalo levantado sobre as patas traseiras, levantado ele
tambm da sela, o cho com as marcas do risco das patas do animal, o rebenque numa mo, a
outra sustentando pela rdea o equilbrio do cavalo, Horcio parecia uma esttua equestre de um
antigo guerreiro. Os cabras e os tropeiros se espalharam pelo povoado que fervia de comentrios.
Nessa noite pouca gente dormiu em Ferradas. Era como uma noite de acampamento antes da
manh da batalha.

                                               4

    Com seus longos chicotes que estalavam ao tocar o solo, os tropeiros atravessavam as ruas
enlameadas de Tabocas. Gritavam, para os burros no entrarem pelos becos e pelas ruas novas
que se abriam:
    - Eh! Diamante! Dianho! Pra frente, burro da desgraa..
    Na frente da tropa chocalhando de guizos, com um peitoral enfeitado, ia o burro que melhor
conhecia o caminho, a "madrinha da tropa". Os coronis requintavam no enfeite dos peitorais
das "madrinhas das tropas", era uma prova da sua fortuna e da seu poderio.
    O grito dos tropeiros atravessava dia e noite o povoado de Tabocas, se elevando sobre todas
as vozes e todos os rudos:
    - X, Piranha! Toca pra frente, Borboleta! Mula empacadeira dos diabos...
    E os longos chicotes estalavam no ar e no solo, enquanto as tropas de burros revolviam a
lama das ruas no seu passo seguro e tardio. De uma porta qualquer um conhecido pilheriava com
o tropeiro na pilhria mais gasta de Tabocas:
    - Como vai, mulher de tropeiro?
    - Vou ver tua me daqui a pouquinho.. .
    Por vezes entravam boiadas que vinham do serto e que, ou paravam em Tabocas, vendidas
aos abatedores, ou seguiam no caminho de Ilhus. Os bois mugiam nas ruas, os vaqueiros
vestidos de couro, nos seus pequenos cavalos de tanta agilidade, se misturavam aos tropeiros nas
vendas onde bebiam cachaa ou nas casas das rameiras onde buscavam um carinho de mulher.
Cavaleiros atravessavam a rua no galope dos cavalos, o revlver no cinto. As crianas que
brincavam na lama se afastavam rpidas, abrindo caminho. E mil vezes por dia a lama das ruas
era revolvida, cacau e mais cacau se depositava nos armazns enormes. Assim era Tabocas.
    Primeiro no teve nome, quatro ou cinco casas apenas  margem do rio. Depois foi o
povoado de Tabocas, as casas se construindo umas atrs das outras, as ruas se abrindo sem
simetria ao passo das tropas de burros que traziam cacau seco. A estrada de ferro avanou de
Ilhus at ali e, em torno dela, nasceram novas casas. E eis que no eram s casas de barro
batido, sem pintura, de janelas de tbuas, casas levantadas s pressas, casas mais para pouso que
mesmo para moradia como as de Ferradas, Palestina e Mutuns. Em Tabocas se levantaram casas
de tijolos e tambm casas de pedra e cal, com telhados, vermelhos, com janelas de vidro, uma
parte da rua central tinha sido calada de pedras.  verdade que as outras ruas eram um puro
lamaal, revolvido diariamente pelas patas dos burros que chegavam de toda a zona do cacau,
carregados com sacos de quatro arrobas. As ruas se abriam em armazns e armazns onde o
cacau era depositado. Algumas casas exportadoras j tinham filial em Tabocas e ali compravam o
cacau aos fazendeiros. E se bem no tivesse sido ainda instalada uma filial do Banco do Brasil,
havia um representante bancrio que evitava a muitos coronis fazerem a viagem de trem a Ilhus
para depositar e retirar dinheiro. No meio de uma larga praa plantada de capim, havia sido
construda a igreja de So Jos, padroeiro da localidade. Quase em frente, num dos poucos
sobrados de Tabocas, estava a Loja Manica que reunia no seio a maioria dos fazendeiros e que
dava bailes e mantinha uma escola.
    Do outro lado do rio j se levantavam vrias casas e comeava-se a falar em construir uma
ponte que ligasse os dois pedaos da cidade. Os habitantes de Tabocas tinham uma grande
reivindicao: que o povoado fosse elevado  categoria de cidade e fosse sede de governo e de
justia, com seu prefeito, seu juiz, seu promotor, seu delegado de polcia. Algum j propusera at
o nome que devia ter o novo municpio e a nova cidade: Itabuna, que em lngua guarani quer
dizer "pedra preta". Era uma homenagem s grandes pedras que surgiam nas margens e no meio
do rio e sobre as quais as lavadeiras passavam o dia no seu trabalho. Mas como Tabocas
respondia politicamente a Horcio, sendo ele o maior fazendeiro das proximidades, o governo do
Estado no atendia ao apelo dos moradores. Os Badars diziam que era um plano poltico de
Horcio para dominar ainda mais aquela zona. Tabocas continuava um povoado do municpio de
So Jorge dos Ilhus. Mas j muita gente quando escrevia cartas, no as datava mais de Tabocas e,
sim de Itabuna. E quando perguntavam a um morador dali, que estivesse de passeio em Ilhus,
de onde ele era, o homem respondia cheio de orgulho:
    - Sou da cidade de Itabuna.. .
    Havia um subdelegado, era a maior autoridade. Isso de nome, porque em verdade, a maior
autoridade era Horcio. O subdelegado era um ex-cabo do exrcito, pequeno, magro e valente,
que se mantinha ali apesar de todas as ameaas dos cabras de Horcio. Fora hbil tambm,
procurava no abusar da sua autoridade, e s se envolvia num barulho quando ou j as feridas
eram graves ou algum havia cado morto. Horcio se dava com ele, e, mais de uma vez, havia
apoiado algumas atitudes do cabo mesmo contra jagunos seus. Quando Horcio chegava em
Tabocas, o cabo Esmeraldo ia sempre visit-lo, trocar dois dedos de prosa com ele. E sempre
falava na possibilidade de uma reconciliao com os Badars. Horcio ria, seu riso para dentro,
batia no ombro do cabo:
    - Tu  um homem direito, Esmeraldo. Porque tu ta servindo a esses Badars  que eu no
entendo. No dia que tu quiser, tem um amigo s ordens.
    Mas Esmeraldo sentia por Sinh Badar uma venerao que vinha de longe, de dias remotos
quando haviam os dois varado juntos as matas da terra do cacau. Nessas terras se dizia que os
homens de Sinh eram fiis por amizade. Quem so ligava a ele no o abandonava nunca. Que
no era como Horcio, homem de trair os seus amigos.
    Em Tabocas quem era amigo e eleitor de Horcio mantinha sempre uma atitude de
hostilidade em relao aos amigos e eleitores dos Badars. Nas eleies havia barulhos, tiros e
mortes. Horcio ganhava sempre e sempre perdia porque as urnas eram fraudadas em Ilhus.
Votavam vivos e mortos, muitos votavam sob a ameaa dos cabras. Nesses dias Tabocas se
enchia de jagunos que guardavam as casas dos chefes polticos locais; a do Dr. Jess, que era
eternamente o candidato de Horcio, a de Leopoldo Azevedo, chefe dos governistas, a do Dr.
Pedro Mata, agora tambm a do Dr. Virglio, o novo advogado. Havia uma farmcia para cada
partido e nenhum doente que votasse nos Badars se tratava com o Dr. Jess. Era com o Dr.
Pedro. Os dois mdicos mantinham relaes pessoais, mas diziam horrores um do outro. Dr.
Pedro dizia que o Dr. Jess no ligava para os enfermos, muito mais preocupado com a poltica e
com a sua roa de cacau. Dr. Jess afirmava. e a populao fazia coro, que o Dr. Pedro no
respeitava as enfermas, que um homem casado ou pai de famlia no lhe podia entregar sua
mulher ou sua filha para um exame geral. Havia tambm um dentista para cada um dos partidos.
Todo o povoado estava dividido nos dois partidos polticos e trocava desaforos pesados nos
jornais de Ilhus. Horcio j encomendara as mquinas para fundar em Tabocas um semanrio
que Dr. Virglio dirigiria.
    S os advogados eram muitos, seis ou sete naquele povoado, ganhando dinheiro todos com os
"caxixes" escandalosos. Mais que em Ilhus, era em Tabocas que o "caxixe" medrava. Homens
que h anos possuam terras e plantaes as perdiam de um dia para outro devido a um "caxixe"
bem feito. No havia coronel que se animasse a fazer negcios sem antes consultar um bom
advogado, se resguardar completamente da possibilidade do "caxixe" futuro. Um negro de
Tabocas, Claudionor, fazendeiro que colhia suas mil arrobas de cacau, fizera certa vez um
"caxixe" que ficara clebre e fora citado mesmo pelos jornais da Bahia. A vitima fora o coronel
Misael, cuja fortuna j era meio lendria ainda naquele tempo, fazendeiro de muitas mil arrobas,
accionista das obras do porto e da estrada de ferro, dono de um banco em Ilhus. Era toda uma
fora econmica, tinha um advogado por genro. Pois ainda assim fora logrado pelo negro
Claudionor. Na quietude da sua fazenda, Claudionor estudara o "caxixe" e o realizara com a ajuda
do Dr. Rui.
   Um dia apareceu para o coronel Misael e lhe pediu setenta contos de ris emprestados, para
comprar uma roa. Misael emprestou com juros altos e prazo curto: seis meses. Tambm o
coronel Misael tinha seu plano, que era ficar com a fazenda de Claudionor quando este no
pagasse. Claudionor era analfabeto e assinou em cruz os documentos de reconhecimento de
dvida. Voltou para a sua fazenda e, na passagem por Itabuna, contratou um professor de
primeiras letras. Levou-o para a roa e com ele aprendeu a ler e a assinar o nome. Seis meses
depois, quando a dvida venceu, Claudionor apenas negou que devesse. Que nunca tomara
dinheiro algum a Misael, que era tudo uma trampa do coronel. E a melhor prova - argumentava o
Dr. Rui, seu advogado - era que Claudionor sabia ler perfeitamente e assinava o nome. E o
coronel Misael perdeu setenta contos de ris, Claudionor aumentou suas terras e ajudou s festas
de So Jos naquele ano.
   Em verdade no se podia dizer que fossem apenas seis ou sete advogados. Estes, eram os que
moravam em Tabocas. Mas os que habitavam em Ilhus trabalhavam tambm no povoado, e os
de Tabocas trabalhavam na cidade. Eram apenas trs horas e meia de trem, um dia havia de ser
to somente quarenta e cinco minutos pela estrada de rodagem que havia de ser construda com o
progredir da zona,
   Em meio aos "caxixes", s lutas polticas s intrigas e s festas da Igreja ou da Maonaria, vivia
Tabocas, que antes no tivera nome e agora pensava em se chamar Itabuna. Muitas vezes o
sangue de homens cados nos barulhos se misturava  lama das ruas. Os burros revolviam tudo
no seu passo lento. Por vezes, quando o Dr. Jess chegava com sua mala de ferros, custava
encontrar a ferida, porque a lama cobria o corpo do homem. Mas, ainda assim, a fama de
Tabocas corria mundo, se falava desse povoado at no serto, e certo jornal da Bahia j o
chamara de "centro de civilizao e de progresso'.

                                                 5

   Margot estendeu a mo, apontou o trecho de rua que se via pela janela aberta, queria indicar
todo o povoado de Tabocas:
    - Isto  a ltima terra do mundo. . .  um cemitrio. .
    Virglio a puxou para si, Margot deixou a cadeira com m-vontade, veio se sentar nas pernas
dele:
    - Voc  uma gatinha mal acostumada.
    Ela se levantou num repente, falou zangada:
    - E s o que voc sabe dizer.. Eu  que sou culpada.. Quando voc veio se meter nessa terra
no faltou quem lhe abrisse os olhos. Me lembro de Juvenal dizendo que voc devia era ir pro
Rio, fazer carreira. No sei por que voc aceitou vir portaquis.. .
    Virglio chegou a abrir a boca para falar. Mas ficou com o gesto pela metade, encontrando que
no valia a pena. Se fosse um ms antes, ele perderia, sem dvida, um tem o enorme em explicar
para a amante que ali estava o seu futuro, que se a oposio vencesse as eleies, como tudo
indicava que venceria, ele seria candidato a deputado por aquela zona que era a mais prspera do
Estado. Que o caminho do Rio de Janeiro era muito mais fcil atravs das estradas do cacau, que
atravs do mar, num transatlntico. Que Tabocas era terra de dinheiro e que ele, em poucos
meses, havia ganho ali o que no ganharia em anos de advocacia numa capital. J lhe explicara
isso mais de uma vez, sempre que Margot sentia saudades das festas, dos cabars, dos teatros da
Bahia. De certa maneira ele compreendia o sacrifcio que a amante estava fazendo. Aquele caso
comeara quando ele era ainda quartanista. Conhecera Margot numa penso de mulheres,
dormira com ela algumas vezes, no tardou que a mulher se enxodozasse por ele. E quando ele
esteve a pique de abandonar os estudos, devido  morte do pai que deixara mal os negcios da
famlia, ela viera lhe oferecer o que possua e o que ganhava cada noite. Aquele gesto o comovera
e, como um chefe poltico oposicionista lhe conseguira um emprego na secretaria do partido e
um lugar na redaco do jornal, ele pudera ficar com Margot s para si. Passou a pagar o quarto
dela na penso, dormia l todas as noites, saa mesmo com ela para os teatros. S no vivia
publicamente com a amante porque isso seria um escndalo que poderia prejudicar sua carreira.
Mas foi no quarto de Margot que, com Juvenal e outros colegas, concebeu toda a campanha
acadmica que faria dele o orador da turma e junto a ela escreveu o discurso de formatura.
    E quando, aconselhado pelo chefe poltico aceitou o lugar de advogado do partido em
Tabocas perdeu horas para convencer Margot de que devia ir com ele. Ela no queria, achava de
menos as festas, a vida e o movimento da Bahia. Sempre acreditara que Virglio, logo depois de
formado, rumaria para o Rio de Janeiro. Tambm Virglio pensava o mesmo nos seus dias de
acadmico. Mas os chefes polticos souberam convence-lo de que, se queria fazer carreira, devia
perder uns anos naquelas terras novas do cacau. E veio, apesar de Margot ter declarado que
estava tudo terminado entre eles. Fora uma noite dolorosa aquela ltima noite na "Penso
Americana". Ela chorava, abraada a ele, e o acusava de abandon-la. Ele dizia que era ela quem o
abandonava, no gostava dele. Margot tinha medo:
    - Voc vai pra l, vai casar com uma tabaroa rica qualquer, me larga naquelas brenhas.. No
vou no...
    - Voc no gosta  de mim. Se gostasse ia mesmo..
    Se possuram em meio  agonia daquela noite que pensavam ser a ltima que passavam juntos.
E se requintaram no amor, querendo cada um conservar do outro a melhor lembrana.
    Ele veio sozinho, mas poucas semanas se passaram e ela chegou inesperadamente,
escandalizando Ilhus com seus vestidos da ltima moda, com seus chapus largos, com o rosto
pintado. E a noite do reencontro encheu as ruas de Ilhus de suspiros e ais de amor. Viera com
ele para Tabocas e nos primeiros tempos se comportara bem, parecia ter esquecido a vida
brilhante e alegre da Bahia, parecia at uma senhora casada, cuidando da roupa dele, dirigindo a
comida na cozinha, toda entregue a ele, descuidando um pouco da elegncia, deixando os cabelos
carem sobre os ombros sem reclamar contra a falta de cabeleireiros que lhe fizessem os
complicados penteados de ento.
    No viviam juntos, que Virglio no podia escandalizar o povoado preconceituoso. ele era
advogado de um partido poltico, tinha responsabilidades. Ela vivia numa casa bonita com a
amante de um comerciante local. Nessa casa Virglio passava uma grande parte do dia, por vezes
recebia l mesmo algum constituinte mais apressado, l comia e dormia. l redigia os
considerandos dos casos que tinha de defender perante a justia, em Ilhus.
    Margot parecia feliz, os vestidos de grandes babados dormiam esquecidos nos armrios, quase
no falava na Bahia. Mas aos poucos foi se cansando. Aos poucos foi se dando conta de que era
mais largo do que ela pensava, o tempo que ele devia passar ali. Demais ele, em geral, evitava
lev-la a Ilhus nas suas repetidas viagens, para eludir os comentrios maliciosos. E quando ela ia,
era noutro trem e na cidade pouco o via. E, o que era pior, o vira mais de uma vez de conversa
com moas casadoiras, filhas de fazendeiros ricos. Nesses dias o mundo vinha abaixo, Margot
abria a boca em escndalos que abalavam a rua, e, nem Virglio lhe dizer que aquilo era necessrio
para a sua carreira, nem isso a comovia. Saam brigados e ela lhe lanava em rosto o sacrifcio que
estava fazendo por ele, socada ali naquelas brenhas, quando podia estar na Bahia, vivendo no
bom e no melhor, porque no faltava comerciante rico ou poltico montado na vida, que quisesse
botar casa para ela. Muitos a haviam convidado, ela deixara tudo para vir atrs dele, feito uma
tola.
   - Bem que Clo me dizia que no viesse... Que era essa a paga que voc ia me dar. . .
   As brigas terminavam sempre no abrir de uma garrafa de champanha e no estalar dos beijos,
na noite de amor delirante. Mas restava depois, cada vez maior dentro de Margot, a saudade da
vida boa da Bahia e a certeza de que Virglio no sairia mais daquelas terras. E o tempo entre as
brigas ia diminuindo, agora se sucediam com espao de poucos dias, por qualquer motivo. Ela se
queixava da falta de costureiras, de que ali estava botando seu cabelo a perder, de que estava
engordando, de que nem sabia mais danar, de tanto tempo que no danava.
   Nessa tarde a coisa fora mais sria. ele anunciara que ia a Ilhus onde se demoraria uns quinze
dias ou mais. Margot pulou de contente. Ilhus afinal era uma cidade, se podia danar no cabar
de Nhozinho, havia algumas mulheres com quem era possvel conversar, no eram s aquelas
raparigas imundas de Tabocas, vindas na sua maioria das roas, defloradas pelos coronis ou
pelos capatazes e que caam na vida no povoado. Mesmo a mulher que vivia com ela, a amante
do comerciante, era uma mulata que nem sabia ler, de corpo bonito e de riso idiota, que o filho
de um fazendeiro desfrutara e que o comerciante tirara da rua do Poo que era a rua de mulheres
fceis. Em Ilhus, havia mulheres que vinham da Bahia e do Recife, havia mesmo mulheres
chegadas do Rio de Janeiro, e com elas era possvel conversar sobre vestidos e penteados. Margot
se alvoroou toda quando Virglio anunciou a ida a Ilhus e a demora na cidade. Correu para ele,
o enlaou pelo pescoo, beijou-o repetidas vezes na boca:
   - Que bom! Que bom!
   Mas a alegria no durou porque ele lhe avisou que no podia lev-la. Antes mesmo de que ele
explicasse por que no a levava, ela j gritava entre soluos e lgrimas:
   - Voc tem  vergonha de mim. . . Ou tem alguma outra em Ilhus. .  capaz de estar metido
com alguma sem-vergonha. Mas fique sabendo que eu quebro a cara dela, que fao um escndalo
que todo o mundo vai saber. . . Voc no sabe quem sou eu, ainda no me viu zangada. . .
   Virglio deixou que ela gritasse e s quando ela parou, apenas as lgrimas corriam dos olhos e
os soluos saam do peito,  que ele comeou a explicar, com uma voz que procurava fazer a mais
carinhosa possvel, por que no a levava. Ia a negcios srios, no teria tempo para cuidar dela,
ser que ela no sabia ainda que as coisas estavam se pondo feias entre Horcio e os Badars por
causa da mata de Sequeiro Grande? Ela fez com a cabea que sim, que sabia. Mas no via naquilo
motivo para ele no a levar. E, quanto ao tempo, no tinha importncia. Ele no havia de
trabalhar a noite toda e era pela noite que a acompanhava ao cabar quando estavam em Ilhus.
   Virglio ficou procurando argumentos. Sentia que ela tinha razo e que as desconfianas que
vinham no voz dela, nas acusaes vagas de que existia outra mulher, que vinham nesse olhar
entre raivoso e medroso que ela punha ao fit-lo, eram certas. Ele no queria lev-la porque ia
no s tratar dos interesses de Horcio, como pensava em poder, nesses dias, ter todo o tempo
para Ester. Ester no lhe saa da cabea. Ainda no deixara de ouvir, dia e noite, aquele pedido de
socorro que ela murmurara, quando o marido estava na varanda:
   - "Me leve embora... Pra longe daqui...
   Virglio sabia que se Margot fosse a Ilhus no tardaria a ouvir algum comentrio maledicente.
E seria um inferno, ela era capaz de um escndalo que inclusive envolvesse Ester. E Virglio no
sabia colocar juntas, num mesmo p, Ester e Margot. Esta fora a amante dos tempos de
estudante, que so tempos de loucuras. Ester era o amor descoberto entre as matas, aquele que
chega um dia e  mais forte que o mundo. No queria que ela fosse, estava decidido. Mas no a
queria ferir tambm, ele no sabia magoar uma mulher. Procurava como um desesperado um
argumento decisivo. E acreditou encontr-lo quando disse a Margot que no queria deix-la em
Ilhus sem poder cuidar dela, tinha cime dos outros, a casa de Machado, onde ela pousava
sempre, era a casa de mulheres mais freqentada pelos coronis de maior fortuna. Era por cimes
que no a levava. Disse, dando  sua voz a maior fora de convico que conseguiu. Margot
sorriu por entre as lgrimas. Virglio se sentiu vitorioso. E esperava poder dar o assunto por
terminado, quando ela veio, sentou-se no seu colo e falou:
   - T com cime da tua gatinha? Por que? Voc bem sabe que eu nem ligo pras propostas que
me fazem. Se eu me soquei aqui foi por tua causa, por que havia de te enganar?
    Beijou-o muito, agora pedia:
    - Leva tua gatinha, meu negro, eu juro que no saio. S com voc para ir no cabar. No saio
do quarto, no converso com homem nenhum. Quando voc no tiver tempo eu passo o dia
trancada..
    Virglio sentiu que estava cedendo. Mudou de tctica:
    - Tambm no sei o que  que voc acha de to horroroso em Tabocas que no pode passar
dez dias aqui sozinha. . . S quer estar metida em Ilhus. . .
    Ela levantou-se, foi quando apontou a rua:
    - E um cemitrio. . .
    Falou de novo no erro dele ter se metido ali, sacrificando seu futuro e a vida dela. Virglio
pensou em explicar. Mas compreendeu que no valia mais a pena, naquela hora viu que seu caso
com Margot havia chegado ao fim. Desde que conhecera Ester que no tinha olhos para outra
mulher. Mesmo na cama, com Margot, no era o mesmo amante de outras noites, sensual,
apaixonado pelo corpo dela. J olhava com certa indiferena os seus encantos, as coxas rolias, os
seus seios de virgem, as invenes que ela sabia para tornar ainda mais saborosa a hora do amor.
Agora, seu peito era s desejo, mas desejo de Ester dela toda seus pensamentos e seu corpo, seu
corao e seu sexo. Por isso ficou de boca semi-aberta naquele gesto de quem ia comear a dizer
qualquer coisa. Margot esperava. E como ele no falasse, apenas levantasse a mo como a dizer
que no valia a pena, ela voltou  carga:
    - Tu me trata como uma escrava. Se toca pra Ilhus, me larga aqui. Depois vem com essa
histria de cime. Conversa fiada. Eu  que sou mesmo besta. Mas agora no vou ser mais..
Agora quando vier um com conversa pra meu lado, querendo me levar pra Ilhus e pra Bahia, eu
vou dar trela. ..
    Virglio se irritou:
    - Por mim, minha filha, pode dar.. Pensa que eu vou morrer?
    Ela se enfureceu:
    - Eu aqui bancando a tola.. No falta homem atrs de mim... Juca Badar vive pelo beio me
mandando recado... E eu feito besta por tua causa e tu o que quer  se tocar pra Ilhus, atrs com
certeza de alguma tabaroa rica pra casar pelo dinheiro dela...
    Virglio se levantou, os olhos cheios de raiva:
    - Cala a boca...
    - Pois no calo. Deve ser isso mesmo. Tu quer  enganar uma tabaroinha qualquer, agarrar o
dinheiro dela. ..
    Virglio virou as costas da mo, bateu com ela na boca da mulher. O sangue correu do beio
partido, Margot olhou assustada. Quis dizer um desaforo mas apenas rompeu em soluos:
    - Tu no gosta mais de mim. . . Tu nunca tinha me tocado...
    Ele se comoveu tambm. E se admira do seu gesto bruto. Sentia que o clima daquela terra
estava penetrando nele tambm, estava a modific-lo. J no era o mesmo homem que chegara
meses antes da Bahia, todo gentil, incapaz de pensar em bater numa mulher. Tambm sobre ele,
ser civilizado de outra terra, pesava o clima da terra do cacau. Baixou a cabea envergonhado.
Olhava a mo com tristeza. Andou para Margot, tirou o leno, limpou a gota de sangue:
    - Me perdoe, minha filha. Perdi a cabea,  tanto negcio em que pensar que me pe
nervoso... E tambm voc falando em me deixar, em Juca Badar, em ir com outro... Foi sem
querer. . .
    Ela soluava, ele prometeu:
    - No chore mais, eu lhe levo a Ilhus. . .
    Margot suspendeu a cabea, j sorria. Pensava que ele lhe batera por cimes. Se sentia ainda
mais dele. Virglio era seu homem. Se apoiou nele, estava pequena e terna, toda metida no peito
dele. E se encheu de desejo e o arrastou consigo para o quarto.

                                               6

    Os gritos dos alfaiates alcanaram o Dr. Jess que j ia na esquina:
    - Doutor Doutor Jess l Chegue aqui!
    Estavam os quatro alfaiates na porta da "Tesoura de Paris", a melhor alfaiataria de Tabocas,
propriedade de Tonico Borges que, neste momento, segurava as metades de uma cala numa mo
e na outra a agulha e a linha. A "Tesoura de Paris" era no somente a melhor alfaiataria de
Tabocas como tambm, no dizer de todos, o quartel-general das ms lnguas locais. Ali se
comentavam todos os fatos, ali se sabia de todos os acontecimentos, se sabia at o que se comia
nas casas particulares. Naquele dia a "Tesoura de Paris" estava alvoroada com as noticias
chegadas de Ferradas na rabada da comitiva de Horcio. Por isso Tonico Borges reclamava aos
berros a presena esclarecedora do Dr. Jess.
    E quando ele chegou, gordo, baixo e apressado, o chapu no alto da cabea, os culos
querendo cair pelo nariz, as botas muitos sujas de lama, perguntando o que queriam, um dos
alfaiates correu com uma cadeira para ele se sentar:
    - Esteja a gosto, doutor.
    O mdico sentou-se, depositou no cho de ladrilhos a sua maleta de ferros. Maleta que era
clebre no povoado porque dentro dela o mdico levava as mais diversas coisas: desde o bisturi
at gro de cacau seco, desde injeces at frutas maduras, desde vidros de remdios at os
recibos a cobrar das casas que possua para aluguel. Tonico Borges, que havia ido aos fundos da
casa, chegou com um grande abacate maduro que ofereceu ao Dr. Jess:
    - Guardei isso pro senhor, doutor.
    Jess agradeceu, meteu o abacate entre as inmeras coisas que abarrotavam a maleta. Os
alfaiates cercaram o mdico. Puxaram as cadeiras para perto da dele, dali dominavam toda a rua.
Dr. Jess se adiantou:
    - Que h de novo?
    - O senhor  quem pode contar, doutor - riu Tonico Borges. - O senhor  quem bem sabe. . .
    - De que?
    - To dizendo por a que a coisa vai se esquentar entre o coronel Horcio e os Badars. .. -
adiantou outro alfaiate.
    - Que Juca Badar anda recrutando gente... - completou Tonico.
    - Isso no  novidade, eu j sabia - falou o mdico.
    - Mas tem uma coisa que o senhor no sabe.. Posso garantir.
    - Vamos a ver. . .
    - Que Juca Badar j tem um agrnomo contratado para fazer a medio das matas de
Sequeiro Grande. . .
    - O que est me dizendo? Quem lhe disse?
    Tonico fez um gesto cheio de mistrio:
    - Os filhos da Candinha, seu doutor... O que  que no se sabe em Tabocas? Aqui, quando
no se tem o que falar, se inventa...
    Mas Jess queria saber:
    - Falando srio. . . Quem disse?
    Tonico Borges baixou a voz:
    - Foi o Azevedo da loja de ferragens. Foi l que Juca redigiu o telegrama chamando o
homem.. .
    - Isso eu no sabia... Vou mandar um recado pro compadre Horcio hoje mesmo..
    Os alfaiates se olharam: a coisa estava feia. Tonico continuou:
    - Dizque o coronel Horcio mandou dona Ester pra Ilhus pra ela no correr perigo na
fazenda... Que ele vai entrar pela mata ainda essa semana... Que j fez um contrato com Braz,
com Firmo, com Jos da Ribeira e com Jarde pra diviso da mata... Ele fica com metade e divide
a outra metade com os que ajudar ele.  verdade, doutor?
    O mdico quis negar.
    - Pra mim  novidade...
    - Doutor. . . - Tonico Borges entornou os olhos.  Pois se at se sabe que foi o Dr. Virglio
quem redigiu o contrato, que est selado e tudo... Ah I que Maneca Dantas tambm faz parte.
Todo mundo j sabe, doutor,  segredo em saco furado. . .
    Dr. Jess acabou por confessar e confessou tambm que at ele iria ter um pedao da mata.
Tonico Borges pilheriou:
    - Ento at o senhor vai pegar no pau furado, hein, doutor? J comprou seu Colt trinta e oito?
Ou quer um parablum Se quer lhe vendo um em bom estado...
    Dr. Jess riu tambm:
    - J estou muito velho para comear carreira de valente...
    Riram todos, a covardia do Dr. Jess era proverbial. E o que espantava era ele ser, apesar
disto, um homem respeitado nas terras do cacau. A nica coisa que realmente desmoralizava
algum por completo, naquela zona, de Ferradas a Ilhus, era a covardia. Homem com fama de
covarde era homem sem futuro nessas estradas e nesses povoados. Se alguma virtude era exigida
a um homem para tentar a vida no sul da Bahia, na poca da conquista da terra, essa virtude era a
coragem pessoal. Como se aventurar algum entre jagunos e conquistadores de terra, entre
advogados sem escrpulos e assassinos sem remorsos, se no levasse consigo a despreocupao
da vida e da morte?
    Homem que apanhava sem reagir, que fugia de barulho, que no tinha uma histria de valentia
para contar, no era levado a srio entre os grapinas. Dr. Jess era a nica exceo. Mdico em
Tabocas, vereador em Ilhus, eleito por Horcio, sendo um dos chefes polticos da oposio, fora
a nica pessoa que se sustentara no conceito pblico apesar de todos o saberem medroso. A
covardia do Dr. Jess era proverbial e quando queriam medir a de outro, a medida era sempre o
mdico:
    - E quase to medroso quanto o doutor Jess...
    Ou ento:
    - E to covarde que nem parente do doutor Jess..
    No era, como podia parecer, um boato lanado pelos inimigos polticos do mdico. Os seus
prprios correligionrios no contavam com ele para as horas de barulho. E mesmo eles
comentavam pelos botequins e pelas casas de rameiras as histrias que comprovavam a covardia
do doutor Jess.
    Num barulho de propores que houvera em Tabocas entre a gente de Horcio e a gente dos
Badars, por exemplo, se contava que o Dr. Jess havia enveredado por uma casa de mulheres da
vida` e fora encontrado escondido debaixo da cama. De outra feita, ele discursava durante um
"meeting" de propaganda eleitoral, do alto de uma tribuna improvisada no porto de Ilhus. Fora
durante a ltima campanha eleitoral para renovao do Senado e da Cmara de Deputados. Viera
da Bahia, como candidato a deputado da oposio por aquela zona, um rapaz que comeava sua
carreira poltica, filho de um ex-governador do Estado. O rapaz viera fazer sua propaganda com
muito medo. Lhe haviam contado brabezas dessa terra e ele temia receber um tiro ou uma
punhalada. Horcio mandou cabras para Ilhus para garantir o comcio. Os cabras cercaram a
tribuna, os revlveres nos cintos, prontos para tudo. Os homens dos Badars se haviam
distribudo entre a multido curiosa de ouvir o moo da Bahia que tinha fama de bom orador.
Primeiro falou o Dr. Rui, meio bbedo como sempre, e meteu o pau no governo federal. Depois
discursou o Dr. Jess, a quem cabia fazer a apresentao, do candidato, aos eleitores. E por fim
chegou a vez do visitante, Este andou mais para frente da tribuna, uma pequena tribuna
improvisada com tbuas de caixes velhos, que balanava sob o peso dos oradores. Tossiu para
chamar a ateno, o silencio era completo, comeou:
    - Senhoras, senhores e senhoritas... Eu...
    No pode dizer mais nada. Como no havia senhoras nem senhoritas, um gaiato gritou.
    - Senhorita  a me..
    Riram, outros pediram silencio. O orador falou em "m educao". Os cabras dos Badars se
aproveitaram do zum-zum para comear o tiroteio, logo respondido pelos homens de Horcio.
Dizem que ento, quando o moo candidato quis se meter debaixo da tribuna para fugir s balas
que se cruzavam, j encontrara o lugar ocupado pelo doutor Jess, que no s lhe fez lugar, como
lhe disse:
    - Se o senhor no quer ficar desmoralizado volte para seu lugar. Aqui s eu tenho o direito de
me esconder porque sou covarde de tradio...
    E, como o rapaz no concordasse e quisesse,  fora, se meter sob a tribuna, embolaram os
dois na disputa do esconderijo. Segundo consta esta foi a nica vez que doutor Jess brigou. E
algumas pessoas que estavam prximas, e puderam apreciar a briga, a narravam sempre como a
coisa mais cmica a que haviam assistido, direitinho uma briga de mulheres, um arranhando a
cara do outro.
    Tonico Borges puxou a cadeira, acercou-se mais ao mdico:
    - Sabe quem chega de hoje para amanh?
    - Quem ?
    - O coronel Teodoro... Diz que t juntando homem na fazenda pra entrar aqui...
    Dr. Jess se assustou:
    - Teodoro? O que  que vem fazer?
    Tonico no sabia:
    - S sei que vem com muito jaguno... O que vem fazer no sei. Mas  ter coragem, hein,
doutor?
    Outro alfaiate completou:
    - Olhe que entrar em Tabocas, com tanta gente do coronel Horcio aqui... E depois de ter
dado uma resposta daquelas. . . Como foi mesmo, Tonico?
    Tonico sabia de memria:
    - Diz que ele respondeu ao coronel Maneca: "Diga a Horcio que eu no me junto com gente
da laia dele, que no trato com tropeiro".
    Comentavam a resposta que Teodoro dera a Maneca Dantas quando este o fora convidar em
nome de Horcio para se aliarem na conquista da mata de Sequeiro Grande. Dr. Jess se
admirou:
    - Tambm vocs sabem tudo. . . Aqui se corta a vida de todo mundo, no escapa ningum...
    Um dos alfaiates riu:
    - Pois se  a diverso da terra, doutor...
    Tonico Borges queria saber se havia alguma ordem de Horcio em relao a Teodoro, se ele
chegasse a entrar em Tabocas:
    - No sei... No sei nada... - e o mdico pegou a maleta e se levantou apressado. Parecia ter se
lembrado de repente de algo urgente a fazer.
    Tonico Borges, antes que ele sasse, lanou o ltimo boato:
    - Dizque, doutor, o doutor Virglio t se derretendo pro lado de dona Ester..
    Jess ficou srio, respondeu j com o p na porta:
    - Se voc quer um conselho de um homem que vive nessa zona vai fazer vinte anos, oua: fale
mal de tudo, das mulheres de todo mundo, fale mal de toda a gente, fale mal mesmo de Horcio,
mas nunca fale da mulher dele. Porque se ele chegar a saber eu no dou um real pela sua vida. 
conselho de amigo...
    E arribou, deixando Tonico Borges branco, plido de medo. Comentou para os outros:
    - Ser que ele conta ao coronel Horcio?
    E, apesar dos outros haverem achado que no, que Dr. Jess era um homem bom, Tonico no
descansou enquanto no pode ir ao consultrio do mdico a lhe rogar que no "contasse nada ao
coronel, que aquela histria lhe fora contada pela mulher que vivia com Margot e que tinha
assistido a uma discusso entre Virglio e a amante por causa de uma outra zinha, que ela pensava
que fosse dona Ester".
    - Isso  uma terra desgraada, doutor, se fala de todo mundo - concluiu. - No escapa
ningum. . . Mas minha boca agora t fechada a cadeado. No dou nem um pio. S tinha falado
mesmo ao senhor.
    Dr. Jess o sossegou:
    - V descansado, Tonico. Por mim Horcio no vai saber nada... Agora, o melhor que voc
faz  se calar. A no ser que esteja querendo se suicidar...
    Abriu a porta, Tonico saiu, entrou uma mulher. Dr. Jess custou a encontrar, na confuso da
maleta, o aparelho para auscultar o peito da doente.
    Na sala de espera do consultrio homens e mulheres conversavam. Uma mulher que estava
com uma criana pela mo, ao ver Tonico Borges, largou a sua cadeira, se aproximou do alfaiate.
Vinha sorrindo:
    - Como vai, seu Tonico?
    - Vou indo, dona Zefina. E a senhora?
    Ela nem respondeu. Queria contar.
    - O senhor j soube do escndalo?
    - Que escndalo?
    - Que o coronel Totonho do Riacho Doce largou a famlia pra ir atrs de uma rapariga, uma
sirigaita da Bahia? Embarcou com ela, no trem, na vista de todo mundo...
    Tonico Borges fez um gesto de enfado.
    - Isso  velho, dona Zefina. Agora garanto que a senhora no sabe  da novidade...
    A mulher se abriu em curiosidade, esticou o corpo todo. nervosa:
    - Qual, seu Tonico?
    Tonico Borges duvidou um momento. Dona Zefina esperava numa nsia:
    - Conte logo...
    Ele espiou para todos os lados, puxou a mulher mais para longe da sala, baixou a voz.
    - To dizendo por a que o doutor Virglio. . .
    Sussurrou o resto no ouvido da velha. Esta explodiu em exclamaes de surpresa:
    - Ser possvel? Quem havia de dizer, hein?
    Tonico Borges pediu:
    - Eu no lhe disse nada, hein... S contei por ser a senhora...
    - Ora, seu Tonico, o senhor sabe que a minha boca  um cofre... Mas quem havia de dizer,
hein? Parecia uma mulher direita. . .
    Tonico Borges desapareceu na porta. Dona Zefina voltou  sala, examinou com os olhos os
clientes que esperavam. No havia ningum que valesse a pena. Ento decidiu deixar a injeco
do neto para o dia seguinte. Deu boas tardes aos demais, disse que estava ficando tarde e ela no
podia esperar mais, tinha hora marcada no dentista. Saiu arrastando a criana. O boato queimava-
lhe a lngua, ia alegre como se tivesse ganho um bilhete de loteria. Tocou-se a toda pressa para a
casa das Aventinas, trs solteironas que moravam perto da igreja de So Jos.


                                                7

   Dr. Jess examinava o homem, bateu-lhe maquinalmente no peito e nas costas, encostou o
ouvido, mandou que ele dissesse trinta e trs. Em verdade estava muito longe dali, o pensamento
em outras coisas. Naquele dia o consultrio havia estado cheio. Era sempre assim... Quando ele
tinha pressa o consultrio se enchia de gente que no tinha nada, que vinha s para tomar-lhe
tempo. Mandou que o homem se vestisse, rabiscou uma receita:
   - Mande preparar na Farmcia So Jos... L, vo lhe fazer mais barato... - isso no era
verdade, porm a Farmcia So Jos era de um correligionrio poltico, enquanto que a `
Primavera" era de um eleitor dos Badars.
   - Nada de grave, doutor?
    - Nada. Esse catarro  mesmo das chuvas na mata.. Tome esse remdio, vai ficar bom. Volte
com quinze dias. .
    - No vou poder no, seu doutor. No v que  um custo poder sair da roa pra dar um pulo
aqui? Trabalho muito longe. . .
    Dr. Jess queria encurtar a conversa:
    - Bem, venha quando puder... Voc no tem nada de srio.
    O homem pagou, o mdico empurrou-o at a porta. Ainda atendeu a outro, um trabalhador
velho, ps descalos, camisa de bulgariana, que vinha em busca de um remdio para a mulher que
"tinha uma febre que ia e vinha, todos os meses derrubava a pobre na cama". Enquanto o
homem contava a sua histria comprida, Dr. Jess pensava no que ouvira na alfaiataria. Duas
notcias desagradveis: primeiro aquela da prxima vinda de Teodoro a Tabocas. Que diabo ele
viria fazer? Devia desconfiar que Tabocas no era bom lugar para a sade dele. Mas Teodoro era
homem de coragem, amigo de fazer estrepolias. Se vinha a Tabocas, era com certeza para fazer
alguma coisa malfeita. Dr. Jess precisava mandar avisar a Horcio, que estava em Ilhus. O pior
 que o trem j havia sado, s podia mandar o recado no dia seguinte. Em todo caso falaria com
o Dr. Virglio nesse mesmo dia. E ento se lembrou da segunda notcia: estavam comentando no
povoado que o Dr. Virglio se derretia para o lado de comadre Ester (ela e Horcio eram
padrinhos de um filho do Dr. Jess, que tinha nove, uma escadinha de crianas, cada uma mais
velha que a outra um ano). Dr. Jess pensava no caso. Relembrava Ester passara quatro dias em
Tabocas, enquanto esperava que Horcio resolvesse uns negcios e a pudesse acompanhar a
Ilhus. E durante esses quatro dias Virglio havia aparecido muito em casa do mdico onde o
coronel estava hospedado. Ficava um tempo enorme na sala conversando com Ester e riam os
dois. Ele mesmo, Jess, pegara as criadas comentando. O diabo fora aquela festa na casa de
Resende, um comerciante cuja mulher aniversariava. Oferecera uma mesa de doces, e como havia
piano na casa e moas que tocavam, tinham improvisado um arrasta-p. Em Tabocas mulher
casada no danava. Mesmo em Ilhus, quando alguma mais moderna danava era com o marido.
Da o escndalo quando Ester saiu danando com Virglio. Dr. Jess se lembrava que Virglio
pedira. Licena a Horcio para danar com ela e o coronel dera, orgulhoso de ver a esposa
brilhar. Mas o povo no sabia disso e comentava. Esse era um assunto feio. To feio ou mais que
o da vinda de Teodoro. Dr. Jess coa a cabea. Ah se Horcio chegasse a saber dessas
murmuraes... A coisa ia ser braba... O cliente que j terminara de contar as dificuldades de sua
mulher e que esperava em silencio o diagnstico do mdico, falou:
    - Vosmic no acha que  maleita, seu doutor?
    Dr. Jess o olhou espantado. Tinha se esquecido dele inteiramente. Fez com que o homem
repetisse uns detalhes, esteve de acordo:
    -  impaludismo, sim.
    Receitou quinino. Recomendou a farmcia So Jos mas seu pensamento j estava de novo
nas complicaes da vida de Tabocas. As ms lnguas - e quem no era m lngua em Tabocas? -
estavam tomando conta da vida de Ester. Mau negcio. Para aquela gente no havia mulher
casada que fosse honesta. E no havia nada que Tabocas gozasse tanto como um escndalo ou
um tragdia passional. E ainda por cima a notcia de que Teodoro ia entrar no povoado. Que
diabo vinha fazer?
    Dr. Jess vestiu o palet. Visitou dois ou trs doentes, em todas as casas o comentrio
obrigatrio eram os barulhos que se avizinhavam por causa da mata de Sequeiro Grande. Todos
queriam notcias, o mdico era ntimo de Horcio, era quem bem podia saber. Depois Jess foi ao
Grupo Escolar. Ele o dirigia desde um governo anterior, quando o seu partido estava por cima.
Nunca fora demitido seria um escndalo demasiado grande, j que ele fizera construir o prdio
novo do Grupo e era muito apoiado pelas professoras. Entrou pelo ptio, atravessou uma sala.
Esqueceu tanto a Ester como a Teodoro. Esqueceu tambm a mata de Sequeiro Grande. Agora
estava pensando era na festa que o Grupo Escolar preparava para comemorar o "Dia da rvore",
da a dois dias. Os meninos que corriam pelo ptio se atrapalhavam nas pernas curtas do mdico.
ele segurou dois ou trs, mandou que procurassem a subdirectora e a professora de portugus.
Atravessou mais uma sala de aula, os meninos se levantaram  sua passagem. Fez sinal para que
se sentassem, saiu noutra sala. A subdiretora e umas quantas professoras j o esperavam.
    Sentou-se, ps o chapu e a maleta em cima de uma mesa. Puxou o leno e limpou o suor que
escorria no rosto gordo.
    - O programa j est feito. . . - informou a subdiretora.
    - Vamos ver...
    - Primeiro temos a sesso aqui. Discurso...
    - O Dr. Virglio no pode falar porque vai amanh pra Ilhus a negocio do coronel Horcio...
Fala mesmo Estanislau... - Estanislau era um professor particular, orador obrigatrio de quanta
festa havia em Ferradas. Em cada discurso repetia, sobre qualquer acontecimento, os mesmos
tropos de retrica e as mesmas imagens. Havia em Ferradas quem soubesse de cor o "discurso de
Estanislau".
    - Que pena... - lastimou uma professora magrinha que era admiradora do Dr. Virglio. - O
doutor fala to bem e  to bonito...
    As outras riram. Dr. Jess limpava o suor:
    - Que  que eu posso fazer?
    A subdiretora continuou seu informe:
    - Pois bem: primeiro, sesso solene no Grupo. Discurso do professor Estanislau (corrigiu o
nome no papel que lia). Depois declamao pelos alunos. Por ltimo cantaro todos em coro o
"Hino da Arvore". Em seguida formatura e marcha at a praa da Matriz. A, plantio de um
cacaueiro, discurso do doutor Jess Freitas e poesia da professora Irene.
    O mdico esfregou as mos:
    - Muito bem, muito bem.
    Abriu a maleta, extraiu dela umas folhas de papel almao cortadas pela metade, ao comprido.
Era o seu discurso. Comeou a ler para as professoras. Aos poucos foi se entusiasmando, se
levantou, lia agora com todos os gestos, a voz forte e eloquente. A meninada se juntou na porta
da sala e, apesar dos repetidos "psius" da subdiretora, no manteve silencio. Ao Dr. Jess pouco
importava. Estava embriagado pelo seu discurso e lia com nfase:

"A rvore  um presente de Deus aos homens.  nosso irmo vegetal, que nos d sua
sombra fresca, sua fruta gostosa, sua madeira to til para a construo de mveis e
outros objectos de conforto. Com troncos de rvores foram construdas as caravelas que
descobriram o nosso idolatrado Brasil. As crianas devem amar e respeitar as rvores."

   - Muito lindo... Muito lindo... - aplaudiu a subdiretora.
    As professoras comentavam:
    - Uma beleza. . .
    - Vai fazer sucesso. .
    Dr. Jess suava por todos os poros. Passou o leno na cara, deu um berro com os meninos
que ainda se demoravam na porta e que saram em disparada. Sentou-se de novo:
    - T bom, hein? E escrevi de repente, ontem de noite. .. Esses dias passados no pude porque
o compadre e a comadre estavam em casa, eu tinha que fazer sala...
    - Dizem que para dona Ester no era preciso  falou uma professora. - Que o doutor Virglio
fazia o dia todo...
    - Tambm se fala de tudo. . . - protestou a professora magra. - Terra atrasada  assim mesmo...
- ela viera da Bahia e no se acostumava com Tabocas.
    Outra professora que era grapina, se sentiu ofendida:
    - Pode ser atrasada para quem quer chamar descarao de progresso. Se  progresso ficar no
porto at dez horas da noite agarrada com rapazes, ento graas a Deus, Tabocas  muito
atrasada mesmo.
    Era uma aluso a um namoro da professora com um rapaz tambm da Bahia, empregado de
uma casa exportadora, namoro escandaloso que toda Tabocas comentava. A professorinha
reagiu:
    - Isso  comigo? Pois bem, namoro como quero, fique sabendo. E no dou ousadia pra
ningum. A vida  minha, pra que se metem? Converso at a hora que bem quiser... Prefiro isso a
ficar solteirona como voc. . . No nasci pra vitalina.
    Dr. Jess se meteu:
    - Calma, calma. . . Tem coisas de que se fala com razo, mas tem coisas que exageram sem
motivo. Ento s porque um moo visita uma senhora casada e lhe empresta uns livros pra ler, j
 pra se fazer escndalo? Isso  atraso, sim...
    Todas concordaram que era atraso. Alis, segundo a subdiretora, no se dizia nada demais. S
se notara a insistncia do advogado em ficar quase o dia inteiro na casa do mdico, conversando
na sala com dona Ester. A professora que protestara quando a outra falou do atraso de Tabocas
acrescentou que "esse doutor Virglio no respeitava mesmo as famlias de Tabocas. Tinha uma
mulher da vida habitando numa rua de famlias e era um escndalo toda a vez que se despediam.
Ficavam aos beijinhos na porta da rua, toda a gente vendo". As professoras riram muito
excitadas. O prprio Dr. Jess pediu detalhes. A professora moralista que morava perto de
Margot, se estendeu:
    - E uma imoralidade. A gente at peca, como eu j disse ao padre Tom. Peca sem querer.
Peca com os olhos e os ouvidos. Pois a tal de mulher chega na porta vestida com uma bata meio
aberta na frente, quase nua, e se agarra no pescoo do doutor Virglio e ficam que nem cachorro
a se beijarem e a dizerem coisas.
    - Que  que dizem? - quis. saber a baiana, seu corpo magro se movendo em gestos nervosos,
os olhos num espasmo ao ouvir aquela descrio. - Que  que dizem?
    A professora se vingou:
    - E no  atraso contar?
    - Deixe de ser tola... O que dizem?
    -  "meu cachorrinho" pra c, "minha gatinha" pra l... "Meu cozinho de luxo", - abaixou a
voz, cobriu o rosto com vergonha do mdico - "minha eginha puladora".
    - O que? - fez a subdiretora ruborizada.
    - Assim mesmo... Uma imoralidade..
    - E numa rua de famlias... - reclamou outro.
    - Pois . Ao meio-dia vem at gente de outras ruas pra assistir.  um teatro.. - disse,
resumindo tudo.
    Dr. Jess bateu com a mo na testa, se recordando:
    - O teatro... Hoje  dia de ensaio e eu nem me lembrava... Tenho que comer mais cedo, se no
vai atrasar tudo.
    Saiu quase correndo pelo Grupo Escolar, agora j deserto de crianas, o silencio pelos ptios e
pelas salas de aulas. S a voz das professoras comentando a vida do Dr. Virglio ainda se
prolongava at a porta da rua:
    -...uma indecncia...
    Dr. Jess comeu s pressas, respondeu  pergunta da esposa sobre a sade de Ribeirinho, um
cliente amigo, puxou as orelhas de um dos filhos, se tocou para a casa de Lauro onde ia ensinar o
"Grupo de Amadores Taboquenses que tinha uma representao marcada para breve. J circulava
pelo povoado e at por Ferradas um volante anunciando:

                            SBADO, 10 DE JUNHO
                               TEATRO SO JOS
                  SERA LEVADA A CENA A IMPORTANTE PEA EM
                             4 ATOS, INTITULADA
                              VAMPIROS SOCIAIS
                            AGUARDEM PROGRAMAS
                    PELO GRUPO DE AMADORES TABOQUENSES.
                          SUCESSO! SUCESSO! SUCESSO!

    Havia a poltica, havia a famlia, havia a medicina, havia as roas e as casas para alugar, havia o
Grupo Escolar, havia tudo isso com que se preocupar, mas a grande paixo real do Dr. Jess era
o "Grupo de Amadores Taboquenses". Levara anos ideando a sua fundao. Sempre surgiram
dificuldades. Primeiro teve que vencer, com encarniada luta, a recusa das moas locais a
tomarem parte numa representao teatral. E s a vencera porque chegara a Tabocas, vinda do
Rio, onde estudava, a filha de um comerciante rico. Esta  que animara a mais algumas a
"deixarem de besteiras" e a entrarem para o Grupo de Amadores. Mas ainda assim Dr. Jess
tivera que conseguir autorizao dos pais e no fora fcil. Quando conseguia era sempre
acompanhada do final comentrio materno:
    - S deixo porque  o senhor quem pede, doutor...
    Outras recusavam peremptoriamente:
    - Esse negcio de teatro no  para moa direita..
    Mas, afinal o grupo se formara, e representara a primeira pea, um drama escrito pelo
professor Estanislau: "A queda da Bastilha". Foi um sucesso enorme. As mes das artistas no
cabiam em si de orgulho. Houve at algumas que brigaram na discusso sobre qual das filhas
representara melhor. E Dr. Jess comeou a ensaiar outra pea, essa sua, de carcter histrico-
nacional, sobre Pedro II. Foi representada em benefcio das obras da Matriz, quando esta ainda se
estava construindo. Apesar de que a representao teve que lamentar um incidente surgido` entre
dois artistas em cena, foi tambm um xito que solidificou definitivamente o prestgio do "Grupo
de Amadores Taboquenses". O grupo passara a ser um orgulho de Tabocas, e cada vez que um
habitante do povoado ia a Ilhus, no deixava de falar nos Amadores para ferir os habitantes da
cidade que, se bem tivesse um bom Teatro, no tinha nenhum grupo de artistas. O sonho actual
do Dr. Jess era levar o grupo a Ilhus, para ali uma representao. Contava com o sucesso de
"Vampiros Sociais", pea que ele tambm escrevera, para convencer as mes de permitirem que
as suas filhas fossem representar na cidade vizinha.
    Ensaiou largas horas. Fazia as moas e os rapazes repetirem os gestos longos, a voz tremula, a
declarao afetada. Aplaudia a um, reclamava com outro, suava pelo rosto todo e estava feliz.
    S quando saiu do ensaio se lembrou novamente da mata de Sequeiro Grande, de Teodoro,
de Ester, do doutor Virglio. Pegou a maleta onde os originais da pea se misturavam com
medicamentos e correu para a casa do advogado. Mas este estava em casa de Margot e Dr. Jess
se tocou para l.
    O sino da igreja bateu as nove horas e as ruas estavam desertas. Os "amadores" se recolhiam,
as mes acompanhando as filhas. Um bbedo falava sozinho numa esquina. Num botequim,
homens discutiam poltica. Mais que os lampies de querosene, a lua cheia iluminava a rua.
    Doutor Virglio estava em pijama. A voz de Margot vinha do quarto querendo saber quem
era. Dr. Jess descansou a maleta numa cadeira da sala:
    - Consta que o Coronel Teodoro vem a. O senhor avise ao compadre Horcio. Ningum
sabe o que  que ele quer aqui. . .
    - Fazer arruaa na certa...
    - E h uma coisa grave.
    - Diga.
    - Dizem que Juca Badar mandou chamar um agrnomo para medir a mata de Sequeiro
Grande e tirar um ttulo de propriedade...
    Doutor Virglio riu, satisfeito de si mesmo:
    - Pra que  que eu sou advogado, doutor? A mata j est registrada, com medio e tudo, no
cartrio de Venncio, como propriedade do coronel Horcio, de Braz, de Maneca Dantas, da
viva Merenda, de Firmo, de Jarde e. . . - lamentou a voz - do Dr. Jess Freitas. .. O senhor tem
que ir l amanh assinar..
   Explicou o "caxixe", a cara do mdico se abriu num sorriso:
   - Parabns, doutor.. Essa  de mestre...
   Virglio sorriu modesto:
   - Custou dois contos de ris convencer o escrivo. O mais foi fcil Vamos ver agora o que eles
fazem. Vo chegar tarde...
   Dr. Jess ficou um momento silencioso. Era um golpe de mo cheia. Horcio se adiantara aos
Badars, agora era legalmente dono da mata. Ele e os seus amigos entre os quais o Dr. Jess.
Esfregou as mos gordas, uma na outra:
   - Trabalho bem feito. . . No h outro advogado aqui como o senhor... E, com essa, vou
saindo, vou deixar os dois - apontava para o quarto onde Margot esperava - sozinhos... Isso no
so horas de conversar... Boa noite, doutor.
   Quando chegara vinha pensando em tocar a Virglio nos comentrios que andara ouvindo
sobre ele e Ester. Pensava em lhe aconselhar mesmo a, em Ilhus, no procurar muito a casa de
Horcio. Na cidade as lnguas eram to maliciosas quanto no povoado. Mas agora no dizia nada,
tinha medo de ofender o advogado, de o magoar. E hoje, por nada desse mundo, Jess queria
magoar o Dr. Virglio que dera um golpe to srio nos Badars.
   Virglio o acompanhou at a porta. Dr. Jess desceu rua abaixo, no encontrava ningum no
seu caminho a quem dar a notcia, algum de confiana. Legalmente os Badars estavam
perdidos. O que  que podiam fazer agora? Chegou at o botequim. Espiou da porta. Um dos
homens que bebia perguntou:
   - Procura algum, doutor?
   Ali tampouco havia quem merecesse tomar conhecimento de tamanha notcia. Respondeu
com uma pergunta:
   - Sabe onde anda Tonico Borges?
   - J foi dormir - informou um. - Encontrei faz pouco com ele, ia prs lados da casa da
rapariga...
   Dr. Jess fez uma careta de contrariedade. Tinha que guardar a grande notcia at o dia
seguinte. Continuou a andar, com seu passo ligeiro e curto de homem gordo. Mas, antes de
chegar a casa, ainda parou um momento para reconhecer de quem era o cacau trazido por uma
tropa de uns quinze burros que entrava povoado adentro, num chocalhar de guizos, a voz do
tropeiro despertando os vizinhos.
   - X, burro desgraado! Toca pra frente, Canivete.

                                               8

    O homem chegou afobado na loja de ferragens:
    - Seu Azevedo! Seu Azevedo!
    O empregado atendeu:
    - Seu Azevedo est l dentro, seu Incio.
    O homem entrou loja adentro. Seu Azevedo fazia contas repassando as folhas de um grande
livro. Voltou-se:
    - Que  que h, Incio?
    - O senhor ainda no sabe?
    - Diga logo, homem... Coisa sria?
    Incio tomou folego. Viera quase correndo.
    - Acabei de saber agorinha mesmo. Vosmec no imagina, vai cair de costas.
    Seu Azevedo largou o lpis, o papel e o livro de vendas a crdito. Esperou com impacincia.
    -  o maior "caxixe" que j vi falar.. . Doutor Virglio molhou as mos de Venncio e
registrou no cartrio dele um ttulo de propriedade das matas de Sequeiro Grande em nome do
coronel Horcio e mais cinco ou seis: Braz, Dr. Jess, coronel Maneca, no sei mais quem.
   Seu Azevedo se levantou na cadeira:
   - E a medio? Quem fez? No vale esse registro...
   - T tudo legal, seu Azevedo. Tudo legalzinho, sem faltar uma vrgula. O moo  um
advogado bamba. Arranjou tudo direitinho. A medio j havia, uma velha que tinha sido
mandada tirar faz muito tempo pelo finado Mundinho de Almeida quando andou abrindo roa
pra aqueles lados. Nunca chegou a se registrar porque o coronel Mundinho esticou as canelas.
Mas Venncio tinha o documento da medio. . .
   - No sabia disso...
   - No se alembra que o coronel Mundinho at mandou buscar um agrnomo na Bahia pra
fazer a medio e veio um barbudo, cachaceiro como ele s?
   - Agora sim, me lembro.
   - Pois doutor Virglio desencavou a medio, o resto foi fcil, foi s fazer uma rasura nos
nomes e registrar tudo no cartrio. Diz que por a que Venncio recebeu dez contos pelo
trabalho.
   Seu Azevedo sabia dar valor  informao:
   - Incio, muito obrigado, esse  um favor que eu no vou esquecer. Voc  um amigo direito.
Agora mesmo vou comunicar a Sinh Badar. E ele  reconhecido, voc sabe. . .
   Incio sorriu:
   - Diga ao coronel Sinh que eu tou  disposio dele.. . Pra mim no h outro chefe nessa
zona. Eu soube do acontecido, vim direitinho aqui. . .
   Se despediu, seu Azevedo ficou um momento matutando. Depois tomou da pena, se
debruou sobre a mesa, escreveu com sua letra difcil uma carta a Sinh Badar. Mandou o
empregado chamar um homem. Este chegou minutos depois. Era um mulato escuro, descalo
mas de esporas, um revlver saindo por baixo do palet rasgado:
   - As ordens, seu Azevedo...
   - Milito, voc vai montar no meu cavalo e tocar  toda pra fazenda dos Badars, entregar
essa carta a Sinh. De minha parte. E de toda urgncia.
   - Vou por Ferradas, seu Azevedo?
   - Por Ferradas,  muito mais perto.. .
   - Dizque h ordens do coronel Horcio de no deixar homens dos Badars passar l. . .
   - Isso  conversa.. . Ou  que voc t com medo?
   Vosmec j me viu com medo? S queria saber...
   - Pois ento. Sinh vai lhe recompensar bem pois  uma notcia importante...
   O homem recebeu a carta. Antes de sair em busca do cavalo, perguntou:
   - Tem resposta?
   - No.
   - Entonces at mais ver, seu Azevedo.
   - Boa viagem, Milito.
   Da porta o homem voltou a cabea:
   - Seu Azevedo?
   -O que ?
   - Se eu ficar na estrada, por Ferradas, vosmec olhe por minha mulher e meus filhos..

                                              9

   Don'Ana Badar na varanda da fazenda conversa com o homem que acabara de desmontar:
   - Foi a Ilhus, Milito. S volta daqui a trs dias..
   - E seu Juca?
   - Tambm no est...  coisa urgente?
   - Penso que , sinh dona. Seu Azevedo mandou que eu tocasse sem parar, que cruzasse por
Ferradas por ser mais perto... E Ferradas t em p de guerra...
    - Como voc fez?
    - Cortei por detrs do lazareto, ningum me viu...
    Don'Ana se decidiu, abriu a carta, decifrou as garatujas
    - Ser coisa urgente?
    - Acho que , sinh Don'Ana. Seu Azevedo me disse que era de muita importncia e de muita
pressa. At me mandou no cavalo dele.
    Don'Ana se decidiu, abriu a carta, decifrou as garatujas de Azevedo. Seu rosto se fechou:
    - Bandidos!
    Ia entrando com a carta na mo. Mas lembrou-se do portador:
    - Milito, sente aqui na varanda. Vou lhe mandar uma pinga..
    Gritou:
    - Raimunda! Raimunda
    - O que , madrinha?
    - Sirva uma cachaa a seu Milito aqui na varanda...
    Entrou para a sala, andou de um lado para outro, parecia um dos irmos Badars quando
estes pensavam ou discutiam. Terminou por sentar na cadeira alta de Sinh, o rosto fechado na
preocupao da notcia. O pai e o tio estavam em Ilhus e esse era um recado que no podia
esperar. Que devia fazer? Mandar a carta pro pai? S chegaria a Ilhus no dia seguinte, tudo se
demoraria. De repente lembrou-se, levantou, voltou para a varanda. Milito bebia seu clice de
cachaa.
    - T muito cansado. Milito?
    - No, sinh. Foi uma corridinha. Oito lguas pequenas. .
    - Ento voc vai montar de novo e dar um pulo nas Baranas. Vai levar um recado meu pro
coronel Teodoro. Diga a ele que venha aqui conversar comigo imediatamente. E voc volte com
ele..
    - As ordens, sinh Don'Ana.
    - Que ele venha logo que possa. Que  coisa sria...
    Milito montou. Acariciou o cavalo, se despediu:
    - Boa tarde, sinh...
    Ela ficou da varanda olhando o homem que partia. Estava tomando responsabilidades. Que
diria Sinh quando soubesse? Voltou a ler a carta de seu Azevedo e concluiu que tinha feito bem
em mandar chamar Teodoro. Murmurou mais uma vez:
    - Bandidos. E esse advogadozinho... Merece um tiro. . .
    O gato veio e se enroscou nas suas pernas. Don`Ana baixou a mo e o acariciou suavemente.
Seu rosto no tinha nenhuma dureza, era um pouco melanclico, os fundos olhos negros, a boca
de lbios sensuais. Vista assim na varanda, Don'Ana Badar parecia uma tmida menina do
campo.

                                              10

    No Grupo Escolar tudo andou muito bem. Dr. Jess tinha conseguido que alguns
comerciantes fechassem suas lojas e armazns para comemorar o "Dia da rvore". No Grupo
Escolar, onde o professor Estanislau lera seu discurso e uns meninos declamaram, havia pouca
assistncia alm das professoras e das crianas, mas a Praa da Matriz estava cheia. No Grupo,
Dr. Jess presidiu a sesso, os meninos lhe ofereceram um ramalhete de flores. Marcharam para a
Praa onde j esperavam os dois colgios particulares da localidade: o de Estanislau e o de dona
Guilhermina, professora clebre pela rudeza com que tratava seus discpulos. Dr. Jess marchava
na frente do Grupo, empunhando seu ramalhete de flores.
    A Praa estava repleta de gente. Mulheres com os vestidos de festas, moas que espiavam os
namorados, alguns comerciantes, os empregados das casas que haviam fechado naquele dia.
Todos queriam aproveitar a inesperada diverso surgida no ritmo triste da vida de Tabocas. O
Grupo formou defronte dos colgios particulares. O professor Estanislau, que tinha uma velha
diferena com dona Guilhermina, se aproximou dos seus alunos para lhes impor silencio.
Desejava que eles se comportassem pelo menos to bem como os da rival, que estavam srios e
calados sob o olhar de bruxa da mestra. Junto a um buraco recentemente aberto, em meio da
Praa, haviam colocado um cacaueiro novo, de pouco mais de um ano. Era a rvore para ser
plantada na solenidade. O subdelegado viajara, os Badars o haviam chamado a Ilhus, e por isso
a fora policial - oito soldados  no comparecera. Mas a "Euterpe 3 de Maio" - que fora fardada
com dinheiro de Horcio - estava presente com seus instrumentos musicais. E foi a ela que coube
iniciar o ato, tocando o hino nacional. Os homens tiraram os chapus, fez-se silncio. Os
meninos dos trs colgios cantaram a letra. O sol queimava de to quente. Alguns abriam guarda-
sis para se resguardar.
    Quando a msica terminou, Dr. Jess chegou bem para o centro da praa e comeou seu
discurso. De todos os lados pediam silencio. As professoras iam entre os alunos reclamando
ordem e menos barulho. Mas no obtinham grandes resultados. S havia mesmo silencio entre os
discpulos de dona Guilhermina, que se mantinha rgida, as mos cruzadas na frente, metida num
vestido branco, engomado e duro. Quase ningum conseguia ouvir o que o Dr. Jess dizia e
pouca
gente o conseguia ver, pois como no haviam armado tribuna, ele discursava mesmo no cho.
Ainda assim, quando ele terminou, aplaudiram muito. Alguns cavalheiros vieram cumpriment-lo.
Ele apertava as mos, que lhe eram estendidas, modesto e comovido. Foi o primeiro a reclamar
silencio para que pudesse ouvir a poesia da professora Irene. A voz fraca da professora se
esganiou nos versos:

                        "Bendita a semente que fecunda a, terra. . "

   Os meninos chamavam os vendedores de queimados quase aos gritos. Riam, conversavam,
discutiam, trocavam pontaps. As professoras prometiam castigos para o dia seguinte. A
professora Irene suspendia um brao baixava e suspendia o outro:

                         "rvore bendita que d sombra e fruta..."

   O tropel dos cavalos aumentou e eles irromperam na Praa da Matriz. Era o coronel Teodoro
das Baranas,  frente de doze homens armados. Entraram dando uns tiros para o ar, os cavalos
pisando o capim da Praa. Teodoro atravessou entre os colgios, os meninos corriam, corriam as
mulheres e os homens. Parou bem em frente ao grupo reunido em torno  rvore. A professora
Irene engoliu o verso que ia dizer, ainda estava com o brao levantado. Teodoro tinha o revlver
na mo:
   - Que fu  esse? To plantando uma roa aqui na Praa?
   Jess explicou a comemorao em palavras tremulas. Teodoro riu, pareceu concordar:
   - Ento plantem logo. Quero ver...
   Apontou o revlver, os cabras chegaram mais para perto, seguravam as repeties. Jess e
mais dois homens plantaram o cacaueiro.  verdade que a cerimnia foi muito diversa da que o
Dr. Jess imaginara. No tivera mesmo solenidade nenhuma, apenas empurraram, s pressas, o
cacaueiro dentro do buraco, cobriram-no com a terra que se acumulava ao lado. Restava pouca
gente na Praa, a maioria correra.
   - J est? - perguntou Teodoro.
   - J. .
   - Agora vou orvalhar ele. . . - riu Teodoro.
   E,, de cima mesmo do cavalo, abriu a braguilha, puxou o sexo, urinou em cima do cacaueiro.
Mas no acertava direito, a urina respingava em todo mundo. A professora Irene tapou os olhos
com a mo. Antes de acabar, Teodoro deu um jeito com : mo, o resto da urina caiu em cima do
Dr. Jess. Depois chamou pelos seus homens, saram num galope pela rua central. Os assistentes
que no tinham podido fugir ficaram sem gestos, olhando uns para os outros. Uma professora
limpava o rosto onde caram uns pingos de urina. Outra se assombrava:
   -- Ora, j se viu?
   Teodoro atravessou a rua dando tiros. Ao final, fazendo esquina com um beco, ficava o
cartrio de Venncio. Ali pararam, saltaram dos cavalos, Venncio e os empregados s tiveram
tempo de escapulir pelos fundos. Teodoro chamou por um dos seus homens, oste chegou com
uma garrafa, comeou a derramar querosene no cho e nas estantes pejadas de papis. Quando
terminou, jogou a garrafa ao acaso.
   - Mete fogo. . . ; ordenou Teodoro.
   O cabra riscou um fsforo, a chama andou pelo cho, se elevou por uma estante, encontrou
uma folha de papel, engordou nos documentos arquivados no cartrio. Teodoro saiu com o
cabra, agora os seus homens guardavam a esquina, esperando que o fogo tomasse corpo.
Teodoro vestia um palet branco sobre a cala de brim cqui, tinha um solitrio enorme no dedo
mnimo. Na rua ia juntando gente. Teodoro ordenou aos cabras que montassem. Com as patas
dos cavalos espalhavam os curiosos mais prximos. Na rua iam aparecendo homens de Horcio,
armados. Teodoro dobrou a esquina com seus capangas, procurando a estrada de Mutuns.
Quando eles partiram, a gente encheu a rua, Venncio apareceu arrancando os cabelos, os
homens de Horcio correram com as armas. Da esquina atiraram, os cabras de Teodoro
respondiam. Estes iam abrindo caminho entre o povo que chegava, correndo pelo beco para ver
o incndio. Antes que Teodoro se perdesse no comeo da estrada, um dos seus homens caiu
baleado. O cavalo continuou a correr sem cavaleiro, junto com o resto da comitiva. Os homens
de Horcio andaram para o ferido e terminaram com ele a faco.

                                             O mar

                                                1

   O homem de colete azul no respondeu. Ficava miudinho com o enorme colete azul
desabando sobre as calas de brim pardo, mais pardas ainda da sujeira.
   Ia uma noite lrica l fora. A poesia da noite chegava at o balco seboso da venda atravs
dum pedao de luar que caia sobre as pedras da rua, as estrelas entrevistas pelas portas abertas, o
longnquo som de um violo que algum tocava ao mesmo tempo que uma voz de mulher,
morna voz soturna, cantava certa msica sobre amores perdidos numa distante mocidade. Talvez
mais que o luar e que as estrelas, que o cheiro pecaminoso dos jasmineiros no sobrado prximo,
que as luzes do navio iluminado, talvez mais que tudo isso, a voz morna da mulher, que cantava
na noite, perturbou os coraes cansados dos homens que dormiam, sentados em caixotes ou
encostados no balco.
   O de anelo falso repetiu a pergunta, j que o homem de colete azul no respondia:
   - E voc, seu lesma, nunca teve uma mulher. ..?
   Mas foi o loiro quem falou:
   - Ora, uma mulher.. Dezenas de mulheres em todos os portos. Mulher  bicho que no falta
para marinheiro. Eu, por mim, tive s dzias. . . - fazia um gesto com as mos, abrindo e
fechando os dedos.
   A prostituta cuspiu por entre os dentes podres, olhou com interesse o loiro marinheiro:
   - Corao de marinheiro  como as ondas do mar que vo e vem. Bem que conheci Jos de
Santa. Um dia foi embora seu calado num navio que nem era dele. . .
   - Ora - continuou o marinheiro - um martimo no pode ancorar mesmo em carne de mulher
nenhuma. Um dia vai embora, a doca fica vazia, vem outro e atraca. Mulher, meu bem,  bicho
mais traioeiro que temporal de vento.
   Agora um pedao de luar forcejava entrar pela porta, iluminando o cho de tbuas grossas. O
de anelo falso cutucou o colete do outro com a faca de partir carne seca:
   - Fala, lesma. No  verdade que  direitinho uma lesma? Vocs j viram algum to parecido
com uma lesma?
Tu j teve mulher?
   A prostituta riu s gargalhadas, passou o brao pelo pescoo do marinheiro loiro e riram
juntos ento. O de colete azul bebeu o resto da cachaa que estava no copo, limpou a boca com a
manga do palet e contou:
   - Da vocs no sabem onde foi, foi muito longe daqui, noutro porto, noutra terra bem maior.
Foi num botequim, me lembro o nome: "Novo Mundo".
   O de anelo pediu mais cachaa dando um murro na mesa.
   - Eu conhecia a amiga dela, estavam as duas mais um rapaz, eu tomava um trago com um
companheiro e tava se conversando das ruindades da vida. Diz que no h paixo de primeiro
olhar, bem que  mentira...
   A prostituta apoiou com a cabea e apertou um pouco mais o brao forte do marinheiro loiro.
A voz da mulher que cantava encheu de sbito a cena suja da venda:

                              "Partiu para nunca mais voltar..."

    Ficaram ouvindo. O de anelo sorvia a cachaa em pequenos tragos como se fosse um licor
caro, enquanto esperava, o rosto ansioso, que o homem do colete azul continuasse.
    - Que importa? - disse este e limpou a boca com a manga do palet.
    - A lua est grande e bonita. H muito tempo no vejo ela assim - sussurrou a prostituta se
chegando mais para o loiro.
    - Conta! Conta o resto. . . - pediu o de anelo falso.
    - Pois foi. Como eu tinha falado, tava sentado com um amigo virando um trago. E ele tava se
queixando da vida, a patroa dele andava com umas mazelas, o arame apertado, muito curto. Tava
triste, eu tambm j tava ficando triste, foi quando ela entrou. Vinha com outra, eu j disse?
    - Disse, sim - exclamou o marinheiro loiro que comeava a se interessar pela histria.
Tambm o espanhol, dono da venda, se encostou no balco para ouvir. A voz da mulher que
cantava vinha em surdina do fundo misterioso da noite. O de colete azul agradeceu, com um
gesto, ao marinheiro loiro e continuou:
    - Pois foi. Vinha com a outra e um fulano. A outra eu conhecia, me dava com ela desde outros
tempos. Mas, gentes!, quase no via a conhecida, s via mesmo ela.
    - Era morena? - perguntou o do anelo falso que tinha uma queda pelas morenas.
    - Morena? No. No era morena, nem loira tambm, mas,  engraado, parecia uma
estrangeira, gente de outra terra.
    - Sei como ... - falou o loiro que era marinheiro de um cargueiro que varava mar largo. O de
colete azul agradeceu com um outro gesto.
    A prostituta murmurou, muito chegada ao marinheiro:
    - Tu sabe tudo... - sorriu. - V como a lua est... Grande, grande e to amarela..
    - Como esse moo disse... - o de colete azul apontou o marinheiro com o beio. - Parecia
embarcadia de um navio vindo de longe. No sei mesmo como cheguei perto. Parece que foi o
amigo que estava comigo que se chegou para falar com a outra. Da, a outra disse quem ns era,
ficou conversando com a gente... O que foi que conversou juro que no sei.. S vi ela e ela no
falou, s que ria, uns dentes brancos, brancos, que nem areia da praia... Vai o meu amigo falava,
contava as tristezas dele. A outra falava tambm, penso que consolava. Verdade, no sei. Ela e o
fulano tavam calados mas ela ria - sorriu lembrando e sorrindo falou - e ria depressa, to depressa
nunca vi ningum rir. Os olhos dela... - parou se recordando. - No sei como eram os olhos
dela... - abanava as mos.  Mas parecia a mulher de uma histria que o negro Astrio contava a
bordo do navio sueco, aquele que afundou na barra dos Coqueiros. . .
    O de anelo falso passou o p na rstia de luar, cuspiu, perguntou:
   - E o porreta que tava com ela era dono dessa embarcao to maneira?
   - Sei l... No tinha porte no... Parecia mais amigo sei la.. . So sei mesmo que ela ria, ria, os
dentes brancos, o rosto branco, os olhos. . .
   Agora metia os dedos pelos bolsos do colete azul, sem jeito para as mos at que resolveu
emborcar o copo de cachaa.
   - E depois? - quis saber o de anelo.
   - Pagaram, foram embora os trs. Tambm fui embora, voltei ao botequim tantas vezes. . .
Uma vez vi ela de novo. Vinha de longe, tinha certeza. De muito longe, no era daquela terra. .
   - To bonita a lua. . . - disse a rameira e o marinheiro reparou que ela tinha os olhos tristes.
Ela queria dizer outra coisa mas no encontrou as palavras.
   - De longe, quem sabe se do fundo do mar? S sei mesmo que veio e foi embora. E s
mesmo o que sei. Ela nem reparou em mim. Mas at hoje me lembro do jeito dela rir, dos dentes,
da brancura dela. E o vestido - quase gritou de alegria ao recordar do novo detalhe -, o vestido de
mangas abertas. . .
   Emborcou o copo, esticou o beio, no estava mais alegre. A voz da mulher que cantava na
noite lrica ia subindo devagarinho:

                              "Partiu para nunca mais voltar. . ."

   - E depois? - perguntou novamente o de anelo falso.
   O de colete azul no respondeu e a prostituta no sabia se ele estava olhando para a lua ou
para alguma coisa que ela no via, la, mais alm da lua, e das estrelas, mais alm do cu, mais alm
da noite to tranquila. Tambm nunca soube por que lhe deu aquela vontade de chorar. E antes
que as lgrimas viessem, partiu com o loiro marinheiro para a festa da noite de luar.
   O espanhol se encostou no balco para ouvir as aventuras do de anelo falso, mas o de colete
azul agora estava de novo indiferente, fitando a lua amarela no cu. O de anelo parou a histria
de uma cabrocha, que contava com grandes gestos, virou-se para o espanhol, apontou o de colete
azul:
   - No parece direitinho uma lesma?

                                                 2

    Na noite de conversas no cais, a cidade de Ilhus dormia seu sono inquieto, cortado de boatos
que chegavam de Ferradas, de Tabocas e de Sequeiro Grande. Comeara a luta entre os Badars
e Horcio. Os dois semanrios que se publicavam na cidade trocavam descomposturas violentas,
cada qual fazia o elogio dos seus chefes, arrastava no lodo a vida dos chefes contrrios. O melhor
jornalista era aquele que sabia xingar com mais violncia. No se respeitava nada, nem a famlia,
nem a vida privada.
    Manuel Oliveira, o director do "O Comrcio", o jornal dos Badars, estava peruando o jogo
de pquer, sentado por detrs de Juca. Os outros parceiros eram o coronel Ferreirinha, Teodoro
das Baranas, e o capito Joo Magalhes. Fora Ferreirinha, que o conhecia desde que haviam
viajado juntos da Bahia para Ilhus, que apresentara o capito a Juca.
    - Um moo educado. . . - dissera. - Muito rico, viaja por desfastio... Capito reformado. De
engenharia...
    Juca Badar tinha vindo por um assunto da mata de Sequeiro Grande.  que o Dr. Roberto, o
agrnomo, no estava em Ilhus, havia viajado para a Bahia, e Juca tinha pressa em fazer a
medio da mata para poder registrar a propriedade. Quando ouviu falar que havia um
engenheiro na cidade pensou que o problema estava resolvido. Ferreirinha fez as apresentaes.
Juca foi logo propondo:
    - Capito, muito prazer em conhece-lo. Tenho um negcio pro senhor ganhar dinheiro. . .
    Joo Magalhes se interessou, talvez aquela fosse a oportunidade que ele tanto procurava.
Viera para Ilhus em busca de dinheiro, mas de dinheiro grande, no apenas do que lhe deixavam
as mesas de pquer Procurou ser gentil com Juca:
    - O prazer  todo meu. Alis, eu j conheo o senhor. Viemos da Bahia no mesmo navio...
Apenas no houve ocasio de sermos apresentados...
    - Isso mesmo... - recordou Ferreirinha.  Voc tambm vinha no navio, Juca. S que tava
muito ocupado com uma dona' que vinha tambm. . . - bateu com a mo na barriga de Juca e riu.
    Juca lamentou que no se houvessem conhecido antes e entrou no assunto que lhe
interessava:
    - Capito, o que se passa  o seguinte: nossa fazenda faz divisa com uma mata que no e de
ningum, mas  mais da gente que de qualquer pessoa, porque ns  quem primeiro entrou nela.
A mata de Sequeiro Grande. Agora ns quer derrubar ela pra plantar cacau. Vem da, um chefe
de jaguno que tem aqui, um tal de Horcio da Silveira, quis fazer um trabalho sujo: arranjou uma
medio velha e registrou a mata no nome dele e de uns amigos dele... Mas no teve nada porque
a gente desfez o "caxixe" em dois tempos.
    - Ouvi falar... Incndio num cartrio, no foi? Trabalho corajoso, bem feito. Fiquei
admirado... - o capito Joo Magalhes acompanhava suas palavras de gestos expressivos. - Foi o
senhor? Se foi, meus parabns. Gosto de homens decididos.
    - No. Foi o compadre Teodoro, dono das Baranas. E um homem de brio e de coragem.. .
    - T se vendo. . .
    - Agora ns tamos procurando um engenheiro agrnomo pra fazer a medio da mata. Mas,
por desgraa, o Dr. Roberto viajou e  o nico que h aqui que sirva. Os outros dois so uns
covardes, no quiseram se meter. Ento, se passou que eu ouvi que o senhor  engenheiro e vim
consultar se o senhor quer fazer a medio. A gente paga bem.. . E quanto  vingana de
Horcio, no tenha medo, a gente lhe garante.
    O capito Joo Magalhes riu superior:
    - Ora, pelo amor de Deus... Falar de medo a mim? Sabe em quantas revolues j tomei parte,
coronel? Mais de uma dzia... Agora no sei  se eu posso, legalmente, - frisava o termo - fazer a
medio. Eu no sou engenheiro agrnomo. Sou engenheiro militar. No sei se tem valor.. .
    - Antes de vir lhe falar eu consultei meu advogado e ele disse que sim, que o senhor podia.
Que os engenheiros militares podem exercer. . .
    - No estou to certo assim.. . Demais, meu ttulo no  registrado na Bahia. S no Rio. O
cartrio no vai aceitar medio minha...
    - Isso no tem importncia... A gente arranja com o escrivo. Por isso no...
    Joo Magalhes ainda duvidava. No era nem militar nem engenheiro, sabia bem era jogar
qualquer espcie de jogo, sabia era trabalhar com um baralho e tambm ganhar a confiana dos
demais. Mas desejava uma oportunidade maior, desejava fazer um dinheiro grande, no viver na
dependncia eterna das mesas de jogo, um dia com muito, no outro sem um tosto. Afinal, que
perigo corria? Os Badars estavam por cima na poltica, todas as possibilidades de ganhar a luta
eram deles, e se eles a ganhassem, a propriedade da mata de Sequeiro Grande no seria nunca
discutida. E, mesmo que viessem a saber que a medio era ilegal, feita por um charlato, ele j
estava longe, gozando noutras terras o dinheiro recebido. Valia a pena arriscar. Enquanto
pensava, olhava Juca Badar que diante dele, impaciente, batia com o rebenque na bota. Joo
Magalhes falou:
    - A verdade  que eu sou de fora e no queria me meter em encrencas daqui... Se bem a
verdade  que simpatizo muito com a causa do senhor e do seu irmo. Principalmente depois do
incndio do cartrio. Esses atos de coragem me conquistam. . . Enfim. . .
    - Pagamos bem, capito. O senhor no vai se arrepender.
    - No estou falando em dinheiro. . . Se fizer  por simpatia. .
    - Mas  que a gente tem que acertar isso tambm. Negcio  negcio, apesar do favor a gente
ficar devendo sempre. . .
    - Isso  verdade...
   - Quanto o senhor pede pelo trabalho? Vai ter que passar uns oito dias na fazenda. .
   - E os instrumentos? - perguntou Joo Magalhes para ganhar tempo e poder calcular quanto
podia pedir.  Os meus ficaram no Rio. . .
   - No tem nada. Consigo os do Dr. Roberto com a mulher dele.
   - Se  assim... - pensou. - Bem, eu no venho aqui para trabalhar, venho a passeio. . . Deixe
ver: oito dias na fazenda, vou ter que perder o navio de quarta-feira...falou directamente para
Juca. - Eu ia para a Bahia quarta-feira - voltou a murmurar. - Talvez no alcance mais o negcio
de madeiras no Rio a tempo de fech-lo... Um transtorno... Enfim... - falou para Juca novamente
que esperava nervoso, amiudando os golpes do rebenque na bota. - Vinte contos, creio que no 
muito. . .
   -  muito dinheiro. . . - fez Juca Badar. - Daqui a oito dias chega Dr. Roberto e faz o servio
por trs contos...
   Joo Magalhes fez um gesto com o rosto expressando sua completa indiferena, como a
dizer que ento esperassem.
   - E muito dinheiro. . . - repetiu Juca Badar.
   - Veja: trs contos lhe cobra o agrnomo. Mas ele tem o ttulo registrado na Bahia, vive disso,
s volta daqui a oito dias, se voltar. Eu vou arriscar minha carreira profissional, posso at ser
processado e perder meu ttulo e at minha patente... Demais estou a passeio, vou perder o navio
e talvez um grande negcio de centenas de contos... Se fico  mais por simpatia que pelo
dinheiro...
   - Reconheo isso, capito. Mas  muito dinheiro. Se o senhor quer dez contos,  trato feita,
vamos amanh mesmo. . .
   Joo Magalhes props um acordo:
   - Quinze contos..
   - Seu capito, eu no sou srio nem mascate. Posso pagar os dez contos e  pela pressa que eu
pago. Se o senhor quer, pode receber hoje mesmo e amanh a gente embarca. . .
   Joo viu que no adiantava discutir:
   - Bem, j que vou fazer o favor, fao completo. Est certo.
   - Vou lhe ficar devendo a vida toda, capito. Eu e meu irmo. O senhor pode contar com a
gente pro que quiser..
   Antes de se despedir perguntou:
   - Quer receber agora mesmo ? Se quer, vamos at em casa...
   - Ora, por quem me toma.. Quando o senhor quiser pagar... No h pressa...
   - Ento podamos nos encontrar hoje  noite. . .
   - O senhor joga pquer?
   Ferreirinha aplaudiu entusiasmado:
   - Boa idia... Faremos uma mesinha no cabar.
   - T certo - disse Juca. - Lhe levo o dinheiro l... E depois vou ganhar ele no jogo e fica de
graa a medio. .
   Joo Magalhes pilheriou tambm:
   - Eu  que vou ganhar mais dez pacotes e cobrar os vinte que queria... Venha forrado, seu
Juca Badar...
   - Falta um parceiro - avisou Ferreirinha.
   - Eu levo Teodoro - resolveu Juca.
   E agora estavam ali, na sala dos fundos do cabar de Nhozinho, jogando aquele pquer Juca
Badar cada vez gostava mais do Capito. Era um tipo dos dele, conversador, experiente em
mulheres, contador de anedotas picantes, vivido. O jogo se dividia entre os dois. Teodoro e
Ferreirinha perdiam, Teodoro perdia muito dinheiro. Ganhava Juca algum, Joo Magalhes
ganhava muito. O cacife era alto, Manuel Oliveira foi  sala de danas chamar Astrogildo, um
outro fazendeiro, para vir apreciar o tamanho das apostas. Ficaram os dois peruando:
   - Seus 160 mais 320. . - dizia Teodoro.
    - J est perdendo mais de dois contos. ..  murmurou Manuel de Oliveira a Astrogildo. -
Nunca vi peso igual.
    Juca Badar pagou para ver. Teodoro mostrou uma trinca de nove. A de Juca era de dez:
    - Na cabea, compadre...
    Recolheu as fichas. Nhozinho entrava muito cheio de cumprimentos e pilhrias. Trazia uma
rodada de usque. Manuel de Oliveira tomou seu copo. Peruava o jogo para pegar esses biscates:
um usque, uma ficha perdida no bacarat ou na roleta.
    - Bom usque . . - disse.
    O capito Joo Magalhes estalou a lngua, aprovando:
    - Melhor que esse s mesmo um que me vendiam no Rio, que vinha de contrabando... Um
nctar..
    Teodoro pedia silencio. Toda a gente dizia que Teodoro no sabia perder, o que era uma
pena, j que ele jogava muito e de toda classe de jogo. Diziam tambm que ele podia estar muito
rico se no fosse esse vcio. Nos dias que ganhava pagava bebida para todo mundo, dava dinheiro
a mulher, fazia ceias com champanha, no cabar. Mas quando perdia se punha impossvel,
reclamava contra tudo.
    - Pquer se joga  calado - protestou.
    Ferreirinha deu cartas. Todos foram ao jogo. Manuel de Oliveira saboreava seu usque sentado
atrs da cadeira de Juca Badar. Nem reparava no jogo, dedicado totalmente  bebida. Por detrs
de Teodoro, em p, o coronel Astrogildo seguia o pquer No seu rosto, que se apertava de
desaprovao, Joo Magalhes lia o jogo de Teodoro. Este pediu duas cartas, Astrogildo fez uma
careta de desacordo. Joo Magalhes ento no pediu nenhuma se bem s tivesse um par
vagabundo. Teodoro largou as cartas em cima da mesa:
    - Quando quero passar um blefe encontro um de jogo feito. . .
    Os outros correram tambm, Joo recolheu as fichas.
    Nhozinho apareceu querendo saber se desejavam alguma coisa mais. Teodoro o correu de
maus modos:
    - V amolar a me.. .
    Ia a todas as mos e perdia sempre. Certa hora quando ele abandonou um par de ases para
pedir uma carta para flush, Astrogildo no se conteve e comentou:
    - Tambm assim voc s tem mesmo que perder. . . Isso no  jogar pquer,  jogar dinheiro
fora.. . Desmanchar um jogo desse...
    Teodoro pulou da cadeira, queria brigar:
    - E voc o que  que tem com isso, seu filha da puta? O dinheiro e meu ou  seu? Por que no
se mete na sua vida. .
    Astrogildo replicava:
    - Filho da puta  voc, seu valento de merda. . . - sacava o revlver querendo atirar.
    Juca Badar e Ferreirinha se meteram. Joo Magalhes procurava aparentar calma, no
demonstrar o medo que sentia. Manuel de Oliveira nem se movia da cadeira, saboreando seu
usque indiferentemente. Aproveitou a confuso para derramar no seu copo metade da bebida do
copo de Ferreirinha que ainda estava cheio.
    Tinham tomado o revlver de Astrogildo, tambm o de Teodoro. Juca Badar pedia calma:
    - Dois amigos... Que besteira  essa... Deixe as balas pra gastar com Horcio e os homens
dele. . .
    Teodoro voltou a sentar, ainda reclamando contra os "perus". Lhe davam azar, dizia.
Astrogildo, um pouco plido, se sentou tambm, desta vez ao lado de Joo Magalhes. Jogaram
mais umas mos, Ferreirinha props que fossem danar um bocado na sala da frente. Contaram
as fichas, Joo Magalhes ganhava quase trs contos, Juca Badar tinha um lucro de conto e
tanto. Antes que sassem Juca fez um apelo a Teodoro e Astrogildo:
    - Vamos acabar com isso... Isso  coisa mesmo de jogo. . . A gente fica de cabea quente. . .
    - Ele me ofendeu - disse Astrogildo.
    Teodoro ofereceu a mo, o outro apertou. Saram para a sala da frente mas Teodoro no
demorou, disse que estava com dor de cabea, foi para casa. Ferreirinha comentou:
    - Esse vai morrer assim por uma besteira... De um tiro sem porque.. .
    Juca o desculpava:
    - Tem seus repentes mas  um homem bom. ..
    A sala do cabar estava animada. Um negro velho se rebentava em cima de um piano, ainda
mais velho que ele, enquanto um sujeito de cabeleira loira fazia o que podia com um violino.
    - Orquestra ruinzinha. . . - falou Ferreirinha.
    - Infame. . - reforou Manuel de Oliveira.
    Pares danavam uma valsa muito agarrados. Mulheres de diversas idades estavam espalhadas
pelas mesas. Em geral se bebia cerveja, numa ou noutra mesa havia copos de usque e gim.
Nhozinho veio servir. Juca Badar tinha antipatia aos dois garons do cabar porque eram ambos
pederastas. Era sempre servido pelo prprio dono. E, como ele costumava fazer despesas
grandes, Nhozinho servia muito humilde, gastando mesuras. Ferreirinha saiu danando com uma
mulher muito nova, no devia ter mais de quinze anos. Fazia pouco que aparecera na prostituio
e Ferreirinha era doido por meninas assim, "verdinhas e tenras", como explicou a Joo
Magalhes. Uma mulher velhusca veio se sentar ao lado de Manuel Oliveira:
    - Paga um pra mim, Mano? - perguntou apontando o usque.
    Manuel de Oliveira consultou Juca Badar com os olhos. Como esse aprovasse, chamou por
Nhozinho e mandou autoritrio:
    - Baixe depressa um usque aqui para a dama. .
    A orquestra parou, Ferreirinha comeou a contar um caso que se passara com ele, fazia
tempos:
    - Aqui a gente tem que ser de tudo, seu Capito. O senhor, que  engenheiro militar, vai fazer
servio de agrnomo... E eu, que sou lavrador e ignorante, j tive que ser at mdico operador. . .
    - Operador?
    - Pois assim foi. Um trabalhador da minha fazenda engoliu um osso de cotia, o bicho
atravessou no estmago do desgraado, ia matando ele. No podia fazer suas necessidades, no
dava tempo tambm de trazer pra cidade. No tive outro jeito, operei eu mesmo. .
    - Mas como?
    - Arranjei um arame comprido e grosso, dobrei a ponta como um anzol, lavei com lcool
primeiro, virei o homem de bunda pra cima e sapequei o arame no cu do desinfeliz. Deu
trabalho, saiu um bocado de sangue mas o osso saiu tambm e at hoje o homem t vivo.. .
    - Formidvel, hein!
    - Esse Ferreirinha. . .
    - O pior foi a fama depois, seu capito. Vinha gente de longe me procurar para se tratar. . . Se
eu desse de botar consultrio arruinava muito mdico bom.. .
    Riu, riram todos com ele. Juca Badar falou:
    - A gente tem mesmo que ser tudo. Tem tabaru daqui, capito, que d lio em advogado. . .
    - Terra de futuro. . . - elogiou Joo Magalhes.
    Manuel de Oliveira combinava encontros com a prostituta velha. Juca Badar s tinha olhos
para Margot que estava noutra mesa com Dr. Virglio. Astrogildo acompanhou o seu olhar,
pensou que ele estivesse mirando o advogado:
    - Esse  o tal Dr. Virglio que fez o "caxixe" da medio. . .
    - J sei - respondeu Juca. - Conheo ele.
    Joo Magalhes olhou tambm e cumprimentou Margot com a cabea. Juca Badar quis
saber:
    - O senhor conhece ela?
    - Se conheo... Se dava muito com uma pequena que eu tinha na Bahia, de nome Violeta. T
com doutor Virglio h dois anos.
    -  bonita. . . - fez Juca Badar.
   Joo Magalhes compreendeu que ele estava interessado na mulher. Via nos olhos que ele
punha, na voz com que dizia que ela era bonita. Pensou em tirar partido:
   - E um pedao. . . Muito minha amiga. . .
   Juca virou para ele. Joo Magalhes disse num tom de indiferena, como que no acaso:
   - Ela se hospeda em casa de Machado. Amanh quando ela tiver s, vou lhe fazer uma visita.
No gosto de ir quando est o doutor, porque ele  muito ciumento. Ela  muito dada, boa
menina.. .
   - Amanh o senhor no vai poder, capito. De manhzinha sai para a roa. No trem das oito
da manh.
   - E verdade. Ento vou quando voltar. . .
   Astrogildo comentava:
   - E um mulhero.
   Na mesa prxima Margot e Virglio conversavam animadamente. Ela estava agitada, movia os
braos e a cabea.
   - Esto discutindo. . . - disse Juca.
   - Vivem brigando. . . - informou a velha que estava com Manuel de Oliveira.
   - Como  que tu sabe?
   - Machado me contou... E cada escndalo...
   Mandaram vir mais usque A orquestra tocou, Margot e Virglio saram danando, mas ainda
na dana discutiam. No meio da msica Margot largou o brao de Virglio e sentou-se. O
advogado ficou um momento sem saber o que fazer, mas logo chamou o garo, pagou a
despesa, tomou o chapu que estava numa cadeira e saiu.
   - Esto brigando. . . - disse Juca Badar.
   - Desta vez parece coisa sria. . . - falou a mulher.
   Margot agora olhava a sala procurando aparentar indiferena. Juca Badar curvou-se na
cadeira falou baixinho para Joo Magalhes:
   - O senhor quer me fazer um favor, Capito?
   As ordens...
   - Me apresente a ela...
   Joo Magalhes olhou o fazendeiro com profundo interesse. Fazia planos. Desta terra do
cacau, sairia rico.

                                                  3

    Na noite lrica de lua cheia, Virglio seguia pelo leito da estrada de ferro. Seu corao ia aos
pulos, j nem se lembrava da cena violenta com Margot no cabar. Quando, por um minuto,
pensou nela, foi para encolher os ombros com indiferena. Era melhor que aquilo terminasse de
uma vez. Ele a quisera levar para casa, dissera que tinha um negcio que o prenderia fora at
muito tarde, por isso no podia ficar com ela. Margot, que j andava desconfiada, com a pulga
atrs da orelha, no aceitou desculpas: ou ele ia com ela para casa ou ela ficaria no cabar e estaria
tudo acabado entre eles. Sem saber mesmo por que, ele procurava convence-la de que existia um
negcio importante, de que ela devia ir para casa e dormir. Ela se negara, terminara brigando e ele
sara sem sequer se despedir. Talvez agora ela estivesse sentada  mesa de Juca Badar. Com a
presena dele Margot o havia ameaado:
    - Que me importa? Homem no me falta.  s ver os olhos que Juca Badar t me botando...
    Aquilo no o molestava. Era melhor assim, que ela se fosse com outro, seria a melhor das
solues. Quando pensou nisso, sorriu. Como as coisas mudavam com o tempo! Se um ano antes
ele pensasse em Margot com outro homem, era capaz at de perder a cabea e fazer uma besteira.
Certa vez, na "Penso Americana", na Bahia, ele fez um escndalo, brigou e acabou na polcia, s
porque um rapaz qualquer dissera uma piada a Margot. Agora se sente at aliviado ao saber que
Juca Badar est interessado nela, que vive de olho espichado para as carnes da sua amante.
Sorriu novamente. Juca Badar s tinha motivos para odi-lo, Virglio era o advogado de
Horcio. E, no entanto, sem o saber, Juca lhe estava prestando um grande favor.
   Mas, no leito da estrada, procurando acertar o passo pela distncia dos dormentes, ele j no
pensava em Margot. Nessa noite seus olhos enxergavam a beleza do mundo: a lua cheia se
derramando sobre a terra, as estrelas enchendo o cu da cidade, os grilos que cantavam no
matorral em torno. Um trem de carga apitou ao longe e Virglio abandonou o leito da estrada. Ia
junto aos fundos das casas, grandes quintais silenciosos. Num porto um casal se amava. Virglio
se desviou para que no o conhecessem. Num porto mais adiante Ester o esperava.
   A casa nova de Horcio em Ilhus, "o palacete", como ?o chamava toda gente, ficava na
cidade nova, construes que nasciam na praia, derrubando os coqueiros. Todas estas casas
davam os fundos para a estrada de ferro. Uma companhia se organizara, comprara os terrenos
plantados de coqueiros e os vendia em lotes. A Horcio, depois de casado, construra seu
sobrado, um dos melhores de Ilhus, os tijolos feitos especialmente na olaria da fazenda, cortinas
e moveis mandados vir do Rio de Janeiro. Nos fundos do palacete, Ester estar esperando
tremula de medo, ansiosa de amor.
   Virglio apressa o passo. J est atrasado, a briga com Margot fizera com que ele sasse depois
da hora. O trem de carga passa por ele iluminando tudo com seus holofotes poderosos. Virglio
pra, esperando que ele se v, e toma de novo pelo leito da estrada. Dera trabalho convencer a
ster que o viesse esperar no porto, para poderem falar tranquilamente. Ela tinha medo das
empregadas, das ms-lnguas de Ilhus, e tinha medo que um dia Horcio viesse a saber. O caso
de amor deles dois at ento no passara de um namoro de longe, palavras trocadas rapidamente,
uma carta que ele escrevera, longa e ardente, um bilhete de resposta de Ester com duas ou trs
palavras apenas: "Te amo, mas  impossvel", apertos de mo no cruzar de portas, olhares fundos
de desejo. E pensavam que, como era to pouco, ningum tinha ainda se dado conta, no
imaginavam sequer que toda Ilhus comentava o caso, considerando-os amantes, rindo de
Horcio. Depois da carta, quando Horcio voltara para a fazenda, ele fizera uma visita a Ester.
Era uma verdadeira loucura desafiar assim o poder de murmurao da cidade. Ester o disse,
pedindo que ele fosse embora. E para que ele fosse, ela prometera se encontrar com ele, na noite
seguinte, no porto. ele quisera beij-la, ela fugira.
   O corao de Virglio est como o de um adolescente enamorado. Pulsa com a mesma
rapidez, sente a beleza da noite com a mesma intensidade. Ali  o porto dos fundos do palacete
de Horcio. Virglio se aproxima tremulo e comovido.
   O porto est semi-encostado, ele empurra e entra. Sob uma rvore envolta numa capa,
banhada pela lua, ster o espera. Corre para ela, toma-lhe das mos:
   - Meu amor!
   O corpo dela treme, se abraam os dois, as palavras so inteis ao luar.
   - Quero te levar comigo, embora. Para longe daqui, para longe de todos, construir outra vida.
   Ela chora mansamente, sua cabea no peito dele. Dos cabelos dela vem um perfume que
completa a beleza e o mistrio da noite. O vento traz o rudo do mar que est do outro lado e se
confunde com o choro dela.
   - Meu amor!
   E o primeiro beijo, tem todo o mistrio do mundo, toda a beleza da noite, grande como a vida
e como a morte.
   - Meu amor!
   - E impossvel, Virglio. Tem meu filho. A gente no pode fazer isso..
   - Ns levamos ele tambm... Vamos para longe, para outras terras... Onde ningum conhea a
gente...
   - Horcio ir atrs da gente at no fim do mundo. . .
   Mais que as palavras, os beijos loucos de amor sabem convencer. A lua dos namorados se
debrua sobre eles. Nascem estrelas no ,cu da cidade de Ilhus. Ester pensa em soror Anglica:
voltava os tempos em que era possvel sonhar. E realizar os sonhos tambm. Fechou os olhos
sob as mos de Virglio no seu corpo.
    Debaixo da capa, Virglio encontrou nuinho o corpo de Ester. Cama de luar, lenol de
estrelas, suspiros da hora da morte que so os suspiros e os ais da hora extrema do amor.
    - Vou contigo, meu amor, para onde tu quiseres. . .
    Completou morrendo nos braos dele:
     At para a morte. .

                                                4

   O capito Joo Magalhes sorria da outra mesa. Margot sorriu tambm. O capito levantou-se,
veio apertar sua mo:
   - Sozinha?
   - Pois . . .
   - Brigaram?
   - T tudo terminado.
   - De verdade? Ou  como das outras vezes?
   - Desta vez se acabou. No sou mulher pra sofrer desfeitas...
   Joo Magalhes tomou um ar conspirativo:
   - Pois eu, como amigo, te digo, Margot, que isso  um alto negcio para ti. Sei de gente daqui,
cheia de dinheiro, que est de orelha murcha por voc. Agora mesmo. . .
   - Juca Badar... - atalhou ela.
   O capito Joo Magalhes fez com a cabea que sim:
   - T pelo beio...
   Margot estava cansada de saber:
   - No  de hoje que sei disso.. . Desde o navio ele deu em cima de mim. Eu no topei, tava
mesmo enrabichada com Virglio...
   - E agora?
   Margot riu:
   - Agora  outra conversa. Quem sabe...
   O capito tomou um ar protetor, deu conselhos;
   - Deixe de ser boba, menina, trate de encher seu p-de -meia enquanto  moa. Esse negcio
de amante pobre, minha filha, s serve para mulher casada com homem rico. . .
   Ela se deixara convencer:
   - Eu fui boba mesmo. Na Bahia tava assim  juntava os dedos num gesto - de gente rica atrs
de mim. Tu sabe...
   O capito apoiou com a cabea. Margot se lamentava:
   - E eu, feito trouxa, atrs de Virglio. Me soquei nessas brenhas, vivia remendando meia em
Tabocas... Agora acabou..
   - Tu quer ser apresentada a Juca Badar?
   - Ele pediu?
   - T doidinho. . .
   O capito Joo Magalhes voltou-se na cadeira, chamou com o dedo. Juca Badar se levantou,
abotoou o palet, veio sorrindo. Quando ele saa da mesa, Astrogildo comentou para Manuel de
Oliveira e Ferreirinha:
   - Isso vai terminar em barulho. . .
   - Tudo em Ilhus termina em barulho...  respondeu o jornalista.
   Juca chegava junto  mesa, Joo Magalhes quis fazer as apresentaes, mas Margot no deu
tempo:
   - Ns j nos conhecemos. Uma vez o coronel me marcou de belisco.
   Juca riu tambm.
   - E vosmec fugiu, nunca mais pus os olhos em cima de sua carnao... Sabia que andava por
Tabocas, tenho ido l mas no lhe vi. Diz que tava casada, eu respeitei..
   - Se divorciou.. . - anunciou Joo Magalhes.
   - Brigou?
   Margot no queria dar grandes explicaes:
   - Me deixou por um negcio, no sou mulher pra se trocar por negcios...
   Juca Badar riu de novo:
   - Ilhus inteiro sabe que negcio  esse...
   Margot franziu o rosto:
   - Que ?
   Juca Badar no tinha papas na lngua:
   -  a mulher de Horcio, a dona Ester.. O doutorzinho anda metido com ela...
   Margot mordeu os lbios. Houve um silencio, aproveitado por Joo Magalhes para se retirar
e voltar para a sua mesa. Margot perguntou:
   -  verdade?
   No sou homem pra mentiras...
   Ela ento riu largamente e perguntou com a voz afetada:
   - No me oferece nada para beber?
   Juca Badar chamou por Nhozinho:
   - Baixe champanha...
   Quando encheram as taas, ele disse para Margot:
   - Uma vez lhe fiz uma proposta no navio. Se arrecorda?
   - Me lembro, sim.
   - Tou fazendo ela de novo. Boto casa pra vosmec, lhe dou de tudo. S que mulher minha 
minha s e de mais ningum. . .
   Ela viu o anel no dedo dele, tomou-lhe a mo, elogiou:
   - Bonito!
   Juca Badar tirou o anel, enfiou num dedo de Margot:
   - E para vosmec. . .
   Saram bbedos os dois pela madrugada, eles e mais Manuel Oliveira, que, mal vira o espoucar
das garrafas de champanha, se chegara para a mesa e bebera mais que os dois juntos. Ia um frio
matinal pelo cais de Ilhus. Margot cantava, o jornalista fazia coro, Juca Badar dava pressa pois
tinha de sair no trem das oito. Os pescadores j chegavam das suas pescarias no alto mar.

                                                5

    Uma ordenana municipal proibia que as tropas de burros que traziam cacau chegassem at o
centro da cidade. As ruas centrais de Ilhus eram caladas todas elas e duas o eram de
paraleleppedos, num sinal de progresso que inchava de vaidade o peito dos moradores. As tropas
paravam nas ruas prximas  estao e o cacau entrava na cidade em carroas puxadas par
cavalos. Era depositado nos grandes armazns prximos ao porto. Alis, uma grande parte do
cacau, que chegava a Ilhus para ser embarcado, no descia mais no lombo dos burros: vinha pela
Estrada de Ferro ou baixava em canoas desde o Banco-da-Vitria, pelo rio Cachoeira, que
desembocava no porto.
    O porto de Ilhus era a preocupao maior dos moradores. Naquele tempo existia apenas
uma ponte onde atracar os navios. Quando coincidia chegar mais de um navio na mesma manh,
a mercadoria de um deles era desembarcada em canoas. Porm j se fundara uma sociedade
annima para beneficiar e explorar o porto de Ilhus, falava-se em construir mais pontes de
atracao e grandes docas. Falava-se tambm, e muito, em melhorar a entrada perigosa da barra,
em fazer vir dragas que a aprofundassem.
    Ilhus nascera sobre ilhas, o corpo maior da cidade numa ponta de terra, apertado entre dois
morros. Ilhus subira por esses morros - o do Unho e o da Conquista - e invadira tambm as
ilhas vizinhas. Numa delas ficava o arrabalde de Pontal onde a gente rica da cidade tinha suas
casas de veraneio. A populao crescia assustadoramente desde que a lavoura do cacau se
estendera. Por Ilhus saa para a Bahia quase toda a produo do sul do Estado. Havia apenas um
outro porto - Barra do Rio-de-Contas - e esse era um porto pequenssimo, onde s os barcos a
vela davam calado. Os moradores de Ilhus sonhavam em exportar algum dia o cacau
directamente, sem ter que mand-lo para a Bahia. Era um assunto que estava sempre nos jornais:
o aprofundamento da barra que no dava passagem a navios de grande calado. O jornal da
oposio o aproveitava para atacar o governo, o jornal governista usava dele tambm noticiando
de quando em vez que o "muito digno e operoso prefeito municipal estava em negociaes com
os governos estadual e federal para conseguir, finalmente, uma soluo satisfatria para a questo
do porto de Ilhus". Mas a verdade  que o assunto nunca ia adiante, o governo estadual punha
travas, protegendo a renda do porto da Bahia. Mas a questo das obras do porto servia para
encher, quase com as mesmas palavras, as plataformas governamentais de ambos os candidatos 
Prefeitura: o governista e o da oposio. Mudavam somente o estilo: a plataforma do candidato
dos Badars era escrita pelo Dr. Genaro, a do candidato de Horcio se devia  pena, muito mais
brilhante, do Dr. Rui.
    Em Ilhus podia se medir a fortuna dos coronis pelas casas que possuam. Cada qual
levantava uma casa melhor e aos poucos as famlias iam se acostumando a demorar mais na
cidade que nas fazendas. Ainda assim essas casas passavam fechadas grande parte do ano,
habitadas somente por ocasio das festas da Igreja. Era uma cidade sem diverses, apenas os
homens tinham o cabar e os botequins onde os ingleses da Estrada de Ferro matavam a sua
melancolia bebendo usque e jogando dados e onde os grapinas trocavam discusses e tiros. As
mulheres restavam como nicas diverses as visitas de famlia a famlia, os comentrios sobre a
vida alheia, o entusiasmo posto nas festas da Igreja. Agora, com o incio da construo do colgio
das freiras, algumas senhoras se haviam organizado para conseguir fundos para as obras. E
realizavam quermesses e bailes onde faziam coletas. A Igreja de So Jorge, padroeiro da terra,
grande e baixa, sem beleza arquitectnica mas rica em ouro no seu interior, dominava uma praa
onde se plantara um jardim. Existia tambm a Igreja de So Sebastio, prxima ao cabar, em
frente ao mar. E no morro da Conquista estava na frente do cemitrio a capela de Nossa Senhora
da Vitria, dominando a cidade desde o alto. Existia tambm um culto protestante que servia aos
ingleses da Estrada e ao qual haviam aderido uns quantos moradores. O mais, em matria
religiosa, eram as vrias "sesses espritas" nas ruas de canto, proliferando cada dia mais. Alis, a
cidade de Ilhus com os seus povoados e as suas fazendas de cacau, tinha m fama na
Arcebispado da Bahia. Muito se comentava ali a falta de religiosidade dos habitantes, as missas
desertas de homens, a prostituio sendo enorme, a falta de sentimentos religiosos
verdadeiramente assombrosa: uma terra de assassinos. Era pequeno o nmero de padres da
cidade e do municpio, em relao ao nmero de advogados e mdicos. E vrios desses padres se
convertiam, com o correr do tempo, em fazendeiros de cacau, pouco se preocupando com a
salvao das almas. Citava-se o caso do Padre Paiva, que levava sob a batina um revlver e no se
perturbava se acontecia um barulho perto dele. O Padre Paiva era caudilho poltico dos Badars
em Mutuns, nas eleies trazia levas de eleitores, diziam que ele prometia verdadeiros pedaos do
paraso e muitos anos de vida celestial aos que quisessem votar com ele. Era vereador em Ilhus e
no se interessava o mnimo pela vida religiosa da cidade. J o cnego Freitas se interessava.
Certa vez fizera um sermo que ficara clebre porque comparava o dinheiro gasto pelos coronis
no cabar, com as mulheres de m vida, com o pouco dinheiro recoletado para as obras do
colgio das freiras. Fora um sermo violento e apaixonado mas sem nenhum resultado prtico. A
Igreja vivia das mulheres e estas viviam dela, das missas, das procisses, das festas de Semana
Santa. Misturavam o comentrio da vida alheia com o enfeitar os altares, com o fazer novas
tnicas para as imagens dos santos.
    A cidade ficava entre o rio e o mar, praias belssimas, os coqueiros nascendo ao largo de todo
o areal. Um poeta que certa vez passara por Ilhus e dera uma conferncia, a chamara de "cidade
das palmeiras ao vento", numa imagem que os jornais locais repetiam de quando em vez.
    A verdade, porm,  que as palmeiras apenas nasciam nas praias e se deixavam balanar pelo
vento. A rvore que influa em Ilhus era a rvore do cacau, se bem no se visse nenhuma em
toda a cidade. Mas era ela que estava por detrs de toda a vida de So Jorge dos Ilhus. Por detrs
de cada negcio que era feito, de cada casa construda, de cada armazm, de cada loja que era
aberta, de cada caso de amor, de cada tiro trocado na rua. No havia conversao em que a
palavra cacau no entrasse como elemento primordial. E sobre a cidade pairava, vindo dos
armazns de depsito, dos vages de estrada de ferro dos pores dos navios, das carroas e da
gente, um cheiro de chocolate, que  o cheiro do cacau seco.
    Existia outra ordenana municipal que proibia o porte de armas. Mas muito poucas pessoas
sabiam que ela existia e, mesmo aqueles poucos que o sabiam, no pensavam em respeit-la. Os
homens passavam, calados de botas ou de botinas de couro grosso, a cala cqui, o palet de
casimira, e por baixo deste o revlver. Homens de repetio a tiracolo atravessavam a cidade sob
a indiferena dos moradores. Apesar do que j existia de assentado, de definitivo, em Ilhus, os
grandes sobrados, as ruas caladas, as casas de pedra e cal, ainda assim restava na cidade um certo
ar de acampamento. Por vezes, quando chegavam os navios abarrotados de emigrantes vindos do
serto, de Sergipe e do Cear, quando as penses de perto da estao no tinham mais lugar de
to cheias, ento barracas eram armadas na frente do porto. Improvisavam-se cozinhas, os
coronis vinham ali escolher trabalhadores. Dr. Rui, certa vez, mostrara um daqueles
acampamentos a um visitante da capital:
    - Aqui  o mercado de escravos. . .
    Dizia com um' certo orgulho e certo desprezo, era assim que ele amava aquela cidade que
nascera de repente, filha do porto, amamentada pelo cacau, j se tornando a mais rica do Estado,
a mais prspera tambm. Existiam poucos ilheenses de nascimento que j tivessem importncia
na vida da cidade. Quase todos, fazendeiros, mdicos, advogados, agrnomos, polticos,
jornalistas e mestres de obras eram gente vinda de fora, de outros Estados. Mas amavam
entranhadamente aquela terra aventurosa e rica. Todos se diziam grapinas e quando estavam na
Bahia, em toda parte eram facilmente reconhecveis pelo orgulho com que falavam.
    - Aquele  um ilheense... - diziam.
    Nos cabars e nas casas de negcios da capital eles arrotavam valentia e riqueza, gastando
dinheiro, comprando do bom e do melhor, pagando sem discutir preos, topando barulhos sem
discutir o porque. Nas casas de rameiras, na Bahia, eram respeitados, temidos, e ansiosamente
esperados. E tambm nas casas exportadoras de produtos para o interior, os comerciantes de
Ilhus eram tratados com a maior considerao, tinham crdito ilimitado.
    De todo o Norte do Brasil descia gente para essas terras do Sul da Bahia. A fama corria longe,
diziam que o dinheiro rodava na rua, que ningum fazia caso, em Ilhus, de prata de dois mil-ris.
Os navios chegavam entupidos de emigrantes, vinham aventureiros de toda a espcie, mulheres
de toda a idade, para quem Ilhus era a primeira ou a ltima esperana.
    Na cidade todos se misturavam, o pobre de hoje podia ser o rico de amanh, o tropeiro de
agora poderia ter amanh uma grande fazenda de cacau, o trabalhador que no sabia ler poderia
ser um dia chefe poltico respeitado. Citavam-se exemplos e citava-se sempre Horcio, que
comeara tropeiro e agora era dos maiores fazendeiros da zona. E o rico de hoje poderia ser o
pobre de amanh se um mais rico, junto com um advogado, fizesse um "caxixe" bem feito e
tomasse sua terra. E todos os vivos de hoje poderiam amanh estar mortos na rua, com uma bala
no peito. Por cima da justia. do juiz e do promotor, do jri de cidados, estava a lei do gatilho,
ltima instncia da justia de Ilhus.
    A cidade por aquele tempo comeava a se abrir em jardins, o municpio contactara um
jardineiro famoso na capital. O jornal da oposio atacara dizendo que "muito mais que de
jardins Ilhus precisava de estradas". Mas, mesmo os oposicionistas mostravam orgulhosos aos
visitantes as flores que cresciam nas praas antes plantadas de capim. E quanto s estradas, os
homens e os burros as iam abrindo no seu passo em busca de caminhos para trazer o seu cacau
at o porto de Ilhus, at o mar dos navios e das viagens. Era assim o porto de So Jorge dos
Ilhus, que comeava a aparecer nos mapas econmicos mais novos, cobertos por uma planta de
cacau.

                                               6

    O jornal da oposio, "A Folha de Ilhus", que saa aos sbados, ressumava naquele nmero
uma violncia inaudita. Era dirigida por Filemon Andria um ex-alfaiate que viera da Bahia para
Ilhus, onde abandonara a profisso. Constava na cidade que Filemon era incapaz de escrever
uma linha, que mesmo os artigos que assinava eram escritos por outros, ele no passava de um
testa-de-ferro. Por que ele terminara director do jornal da oposio ningum sabia. Antes fazia
trabalhos polticos para Horcio, e, quando este comprou a mquina impressora e as caixas de
tipos para o semanrio, toda a gente se surpreendeu com a escolha de Filemon Andria para
director.
    - Se ele mal sabe ler...
    - Mas tem um nome de intelectual. .. - explicou Dr. Rui. - Soa bem... E uma questo de
esttica...  enchia a boca para pronunciar - Filemon Andria! Nome de grande poeta. - conclua.
    A gente de Ilhus responsabilizava em geral o Dr. Rui pelos artigos de "A Folha de Ilhus". E
se formavam verdadeiros grupos torcedores quando, em poca de eleies, "A Folha de Ilhus" e
"O Comrcio" iniciavam uma daquelas polemicas cheias de adjectivos insultuosos. De um lado o
Dr. Rui, com seu estilo palavroso e de frases redondas e empoladas, de outro lado Manuel de
Oliveira e por vezes Dr. Genaro. Manuel de Oliveira era profissional de imprensa. Trabalhava em
vrios jornais da Bahia at que Juca Badar, que o conhecera nos cabars da capital, o contratara
para dirigir "O Comercio". Era mais gil e mais directo, quase sempre fazia mais sucesso. quanto
aos artigos do Dr. Genaro, eram cheios de citaes jurdicas, o advogado dos Badars era
geralmente considerado o homem mais culto da cidade, falava-se com admirao das centenas de
livros que ele possua. Ademais levava uma vida muito reservada, vivendo com seus dois filhos
sem quase sair de casa, sem aparecer nos botequins, sem ir ao cabar. Era abstmio, e, quanto a
mulheres, diziam que Machado ia uma ou duas vezes por ms  sua casa e dormia com ele.
Machado j estava velha, viera para a cidade quando ela apenas comeava a crescer, fora a
grande sensao feminina de Ilhus h vinte anos passados. Agora tinha uma casa de mulheres,
no fazia mais a vida. Abria exceo apenas para o Dr. Genaro que, segundo ela, no se
acostumava com outra mulher.
    Talvez fosse por isso que o artigo de fundo de "A Folha de Ilhus", que ocupava quase toda a
primeira pgina do pequeno semanrio da oposio, neste sbado, chamava o Dr. Genaro de
"jesuta hipcrita". E ele era, nesse dia, o menos atacado de todos os amigos dos Badars. O
artigo se devia ao incndio do cartrio de Venncio em Tabocas. "A Folha de Ilhus" condenava
de uma maneira violenta aquele "ato de barbarismo que depunha contra os foros de terra
civilizada de que gozava o municpio de Ilhus no conceito do pas". O coronel Teodoro reunia
em torno a seu nome, nas colunas do semanrio, uma magnfica coleco de substantivos e
adjectivos insultantes: "bandido", "brio habitual", "jogador de profisso e tendncias", "alma
sdica", "indigno de habitar uma terra culta", "sedento de sangue". Ainda assim restava para os
Badars. Juca aparecia como "conquistador barato de mulheres fceis", como "despudorado
protetor de rameiras e bandidos" e a Sinh o jornal fazia as acusaes de sempre: "caxixeiro",
"chefe de jagunos", "dono de fortuna mal adquirida", "responsvel pela morte de dezenas de
homens", "chefe poltico sem escrpulos".
    O artigo reclamava justia. Dizia que legalmente no havia como discutir a propriedade da
mata de Sequeiro Grande. Que a mata fora medida e o seu ttulo de propriedade registrado no
cartrio. E que no era propriedade de um s e, sim, de diversos lavradores. Havia entre eles
dois, fazendeiros fortes,  verdade. Mas a maioria  continuava o jornal - eram pequenos
lavradores. O que os Badars desejavam era se apossar da mata para eles s, prejudicando assim
no s os legtimos proprietrios como tambm o progresso da zona, a subdiviso da
propriedade que "era uma tendncia do sculo, como se podia comprovar com o exemplo da
Frana". Afirmava que o coronel Horcio, progressista e adiantado, ao resolver derrubar e plantar
de cacau a mata de Sequeiro Grande, pensara no somente nos seus interesses particulares.
Pensara tambm no progresso do municpio e associara  sua empresa civilizadora todos os
pequenos lavradores que limitavam com a mata. Isso se chamava ser um cidado til e bom.
Como pensar em compar-lo com os Badars, "ambiciosos sem escrpulos", que olhavam
apenas os seus interesses pessoais? "A Folha de Ilhus" terminava seu artigo anunciando que
Horcio e os demais legtimos proprietrios de Sequeiro Grande iriam recorrer aos tribunais e
que, quanto ao que sucedesse se os Badars tentassem impedir a derruba e o plantio da mata,
eles, os Badars eram os responsveis. Eles haviam iniciado o uso da violncia. A culpa era deles
pelo que viesse depois. O artigo terminava com uma citao em latim: "alea jacta est".
    Os leitores habituais das polemicas ficaram excitadssimos. Alm de que se anunciava uma
polemica de violncia sem precedentes, notavam que este artigo no era do Dr. Rui, conheciam o
estilo deste de longe. Dr. Rui era muito mais retrico, muito bom num discurso no jri mas sem a
mesma fora no jornal. E este artigo revelava um homem mais enrgico, de raciocnio mais claro
e adjectivos mais duros. No tardou que se soubesse que o autor do artigo era o Dr. Virglio, o
novo advogado do partido que residia em Tabocas mas que estava em Ilhus naqueles dias. Fora
o prprio Dr. Rui, a quem alguns haviam dado os parabns pelo artigo, quem revelara a
identidade do autor. Acrescentava que Virglio era directamente interessado no assunto, j que
fora ele o autor do registro da mata de Sequeiro Grande no cartrio que Teodoro incendiara. As
ms-lnguas no deixaram de dizer que ele estava interessado era na esposa de Horcio. E
gozavam de antemo a maneira como, sem dvida, "O Comrcio", na sua edio de quinta-feira,
comentaria esse aspecto da vida ntima do advogado e de Horcio.
    Mas, para surpresa geral, "O Comrcio" na sua resposta ao artigo, resposta que no pecava
pela serenidade, desconheceu o assunto familiar que a cidade comentava. Alis, no incio do seu
artigo, "O Comrcio" anunciava aos seus leitores que no iria usar da "linguagem de ,esgoto" do
"pasquim" que to vilmente atacara os Badars e os seus correligionrios. Nem tampouco se
envolver na vida privada de quem quer que fosse, como era hbito do sujo rgo da oposio.
Em relao a essa ltima afirmativa no a cumpriu seno a meias, j que rememorava toda a vida
de Horcio "esse ex-tropeiro que enriquecera ningum sabe como", misturando casos pblicos
com o processo pela morte dos trs homens ("escapou da justa condenao devido  chicana de
advogados que desmoralizavam a profisso, mas no escapou da condenao pblica") com
coisas muito pessoais como a morte de sua primeira esposa ("os misteriosos casos familiares de
parentes desaparecidos subitamente e enterrados  noite"). E, quanto  questo da linguagem, a
ento "O Comrcio" no cumpria absolutamente a promessa feita. Horcio era tratado de
assassino para baixo. O Dr. Rui era o "cachaceiro inveterado", o "co de fila que latia e no sabia
morder", o "mau pai de famlia que vivia nos botequins sem se preocupar com os filhos e a
esposa". Mas quem levava os adjectivos mais violentos era o Dr. Virglio. Manuel Oliveira
comeara o trecho sobre o advogado dizendo que "desejara molhar sua pena num esgoto para
escrever o nome do Dr. Virglio Cabral". Com essas palavras iniciava "O Comrcio" uma
"resumida biografia do advogado", que no era to resumida assim. Vinha dos tempos de
acadmico, relembrava as farras de Virglio na Bahia, "a cara mais conhecida em todos os
prostbulos da capital", as suas dificuldades para terminar o curso: "tendo que viver das migalhas
cadas da mesa deste corvo que  Seabra". Margot entrava em cena, se bem seu nome no
aparecesse. Dizia o trecho:

 "No foram, no entanto, somente polticos de m fama que encheram a pana do estudante
malandro e desordeiro. Uma elegante cocote f oi vitima dos seus hbitos de chantagista. Tendo
enganado a jovem beleza, o estudante salafrrio viveu s custas dela e, s custas deste dinheiro
adquirido na cama, o Dr. Virglio Cabral conseguiu seu ttulo de bacharel em direito. No 
preciso acrescentar que; depois de formado e de estar a servio do tropeiro Horcio, o mal-
agradecido abandonou a sua vitima, aquela boa e bela criatura que o ajudara, nos vaivns da
sorte."

    O artigo enchia pgina e meia, apesar de "O Comrcio" ser bastante maior que "A Folha de
Ilhus". Examinava demoradamente o caso do cartrio de Venncio. Explicava ao pblico o
"inominvel caxixe" que era registrar um ttulo de propriedade  base de uma velha medio j
sem valor legal e que, ademais, fora rasurada para substituir o nome de Mundinho de Almeida
pelo de Horcio e "seus sequazes". E atribua o incendi do cartrio ao prprio Venncio, "falso
servidor da justia que, ao lhe pedir o coronel Teodoro para ver a medio, preferiu incendiar seu
cartrio destruindo assim as provas da sua vileza". Apresentava os Badars como uns santos,
incapazes de fazer mal a uma mosca. Avisava que os "insultos miserveis" do "pasquim
oposicionista" estavam longe de atingir o bom nome de pessoas to conceituadas como os
Badars, o coronel Teodoro e "esse ilustre luminar da cincia do direito, que  o Dr. Genaro
Torres, orgulho da cultura grapina". Por ltimo se referia s "ameaas de Horcio e seus ces de
fila". O pblico julgaria, no futuro, de quem partiram primeiro aquelas ameaas de fazer correr
sangue e pesaria as responsabilidades "na balana da justia popular". Porm, que Horcio
soubesse que as suas "fanfarronadas ridculas" no metiam medo a ningum. Os Badars
estimavam lutar com as armas do direito e da justia, mas sabiam tambm - afirmava "O
Comrcio" - lutar com qualquer arma que o "desleal adversrio" escolhesse. Em qualquer terreno
os Badars sabiam dar o merecido a gente "da laia desses bandidos sem conscincia e desses
advogados sem escrpulos". E, respondendo ao "alea jacta est", o artigo de "O Comrcio
terminava tambm com uma citao latina: "Quousque tandem, Tropeiros, abutere patientia
nostra" Essa citao fora a colaborao do Dr. Genaro ao artigo de Manuel de Oliveira.
    Ilhus se deliciava pelas esquinas.

                                                7

   Quando, calado de botas enlameadas, a barba crescida, o capito Joo Magalhes voltou da
mata de Sequeiro Grande, diversos sentimentos desencontrados andavam dentro dele. Fora para
passar oito dias, levara quinze, demorando-se na fazenda dos Badars mesmo depois de
terminado o servio. Se arranjara de qualquer maneira com os instrumentos do agrnomo - com
o teodolito, a trena, o omimetro, a baliza - instrumentos que ele nunca havia visto antes na sua
vida de jogador de profisso. O clculo real da medio das terras se devia muito mais aos
trabalhadores que o haviam acompanhado e a Juca Badar do que a ele, que s fizera apoiar tudo
que os outros afirmavam, rabiscando clculos sobre quadrados e tringulos. Haviam passado dois
dias na mata, os negros carregando os instrumentos, Juca a acompanh-lo exibindo seu
conhecimento da terra:
   - Capito, boto a mo no fogo que no mundo inteiro no h terra igual a essa para o plantio
do cacau.. .
   Joo Magalhes se curvava, enchia a mo com a terra hmida:
   -  de primeira, sim... Bem adubada ela vai ser tima. . .
   - Nem precisa estrume nenhum.. . Isso  terra nova, terra forte, seu Capito. As roas aqui vo
carregar como nunca carregou roa nenhuma.
   Joo Magalhes ia aprovando, no se metia muito pela conversa no receio de dizer besteira.
Juca Badar continuava, mata adentro, fazendo o elogio das terras onde as rvores cresciam
agrestes.
   Porm mais que a bondade das terras de Sequeiro Grande, interessara ao Capito a figura
morena de Don'Ana Badar. J em Ilhus ele ouvira falar nela, diziam que fora Don'Ana quem
dera ordens a Teodoro para que incendiasse o cartrio de Venncio. Em Ilhus se falava de
Don'Ana como de uma moa estranha pouco chegada s conversas das comadres, pouco amiga
das festas da Igreja (apesar da me to religiosa), pouco amiga de bailes e namorados. Raras
pessoas se lembravam de hav-la visto danando e nenhuma delas saberia respeitar o nome de
um namorado seu. Vivera sempre mais interessada em aprender a montar a cavalo, a atirar, a
saber dos mistrios da terra e das plantaes. Olga comentava com as vizinhas o desprezo com
que Don'Ana tratava os vestidos que Sinh mandava buscar na Bahia ou no Rio, vestidos caros
realizados por costureiros de fama. Don'Ana no se preocupava com eles, queria era saber dos
potros novos que haviam nascido na fazenda. Sabia o nome de todos os animais que a famlia
possua, mesmo dos burros de carga. Tomara a si a contabilidade dos negcios dos Badars e era
a ela que Sinh se dirigia cada vez que necessitava de uma informao. A esposa de Juca dizia
sempre que "Don'Ana devia ter nascido homem".
    Joo Magalhes no pensou o mesmo. Talvez tivessem sido os olhos dela, que lhe lembravam
outros olhos adorados, que primeiro ganharam sua ateno. Enquanto a cumprimentava,
requintando nas palavras, ele se perdeu na contemplao daqueles olhos meigos onde, de sbito,
surgiram fulguraes intensas, iguais queles outros olhos que o fitavam com tanto desprezo um
dia. Depois esqueceu mesmo os olhos da moa que ficara no Rio de Janeiro, quando, com o
correr dos dias, fez mais intimidade com Don'Ana. No havia outra conversa na casa dos
Badars, naqueles dias, que a mata de Sequeiro Grande e os propsitos de Horcio e sua gente.
Faziam conjeturas, levantavam hipteses, calculavam possibilidades. Que faria Horcio quando
soubesse que os Badars estavam medindo a mata e iam registrar a medio e retirar um ttulo de
propriedade? Juca no tinha dvidas: Horcio tentaria entrar na mata imediatamente, enquanto
faria correr no foro de Ilhus um processo pela posse da terra, baseado no registro feito no
cartrio de Venncio. Sinh duvidava. Pensava que, estando Horcio sem apoio do governo,
como oposicionista que era, tentaria primeiro legalizar a situao com um "caxixe" qualquer,
antes de recorrer a fora. De Ilhus, Juca trouxera as ltimas novidades: o caso escandaloso de
Ester com Dr. Virglio, objecto de murmuraes da cidade toda. Sinh no acreditava:
    - Isso  conversa de quem no tem o que fazer. ..
    - Se ele at deixou a mulher que tinha, Sinh.  um fato. Estou bem informado... - e ria para
Joo Magalhes lembrando Margot.
    Joo Magalhes se envolvia naquelas discusses e conversas, tomava parte nelas como se fosse
um homem dos Badars, igual a Teodoro das Baranas, na noite que o coronel dormiu l. Se
sentia como um parente. E cada vez que Don'Ana o olhava e pedia, respeitosamente, a "opinio
do Capito", Joo Magalhes se extremava em insultos  gente de Horcio. Certa vez em que
notou mais doces e interessados os olhos dela, ele ps memo  disposio dos Badars o "seu
conhecimento militar, de capito que tomara parte em umas oito revolues". Estava ali, estava
s ordens. Se houvesse luta podiam contar com ele. Era homem para o que quisessem. Disse, e
fitou Don'Ana e sorriu para ela. Don'Ana correu para dentro, subitamente tmida e
envergonhada, enquanto Sinh Badar agradecia ao Capito. Mas esperava que no fosse preciso,
que tudo se resolvesse em paz, que no tivesse que correr sangue. E verdade que ele estava se
preparando - dizia - mas com esperanas de que Horcio desistisse de disputar com ele a posse da
mata. Recuar no recuaria, era chefe da famlia, sabia das suas responsabilidades, demais tinha
compromissos com amigos, gente como o compadre Teodoro das Baranas que estava se
sacrificando por ele. Se Horcio fosse para diante, ele iria tambm. Mas ainda tinha esperanas. . .
Juca encolhia os ombros, para ele era certo que Horcio tentaria entrar na mata  fora e que
muito sangue seria derramado antes que os Badars pudessem plantar em paz seu cacau nessas
terras. O capito Joo Magalhes novamente se ps  disposio:
    - Para o que quiserem. . . No gosto de arrotar valentia mas estou acostumado com essas
encrencas. . .
    Naquele dia, ele s viu Don'Ana Badar quando chegou a hora noturna da leitura da Bblia.
Ela foi recebida com uma gargalhada de Juca, que a apontava com o dedo:
    - Que  que h? E o fim do mundo?
    Sinh olhou tambm. Don'Ana estava sria, o rosto fechado em severidade. Tanto trabalhara
com a ajuda de Raimunda para fazer aquele penteado parecido com um que Ester exibira em
Ilhus numa festa, e agora se riam dela... Vestia um dos vestidos de sair, que ficava estranho na
sala da casa-grande da fazenda. Juca continuava a rir, Sinh no entendia o que se passava com a
filha. S Joo Magalhes se sentia feliz, e se bem percebesse o ridculo da figura de Don'Ana,
ataviada como para um baile, se ps srio tambm e dobrou os olhos numa languidez agradecida.
Mas ela no olhava ningum e pensava que todos estavam rindo dela. Por fim suspendeu os
olhos e quando viu que o capito a mirava enternecido, teve foras para dizer a Juca:
    - De que t rindo? Ou pensa que s sua mulher  que pode se vestir bem e se pentear?
    - Minha filha, que palavras so essas?  repreendeu Sinh, admirado da veemncia dela mais
ainda que dos trajes.
    - O vestido  meu, foi o senhor quem me deu. Ponho ele quando quero, no  para ningum
se rir...
    - Parece um espantalho. . - gozou Juca.
    Ento Joo Magalhes resolveu intervir:
    - Est muito elegante.. Parece uma carioca, assim se vestem as moas do Rio... Juca est 
brincado.
    Juca Badar olhou o capito. Primeiro pensou em brigar, seria que aquele sujeito estava
tentando lhe dar uma lio de boa educao. Mas depois refletiu que devia ser obrigao dele,
como visita, ser gentil com a moa. Encolheu os ombros:
    - Gosto  gosto, no se discute...
    Sinh Badar ps fim  discusso:
    - Leia, minha filha. .
    Mas ela saiu correndo para dentro, no queria chorar na vista dos outros. Foi nos braos de
Raimunda que deixou que os soluos abafados sassem do seu peito. E nessa noite, foi o capito
Joo Magalhes quem, profundamente pensativo, leu os trechos da Bblia para Sinh Badar que
o olhava pelo rabo do olho, como que a medi-lo e examin-lo.
    No outro dia, quando o capito levantou-se e saiu num passeio matinal, j encontrou
Don'Ana no curral, ajudando a pear as vacas que davam leite para a casa-grande. Cumprimentou-
a e se aproximou. Ela suspendeu o rosto, largou por um momento o peito da vaca, falou:
    - Ontem eu fiz um papel triste. . . O senhor deve estar pensando um bocado de coisas...
Tabaroa quando se mete a moa de cidade  sempre assim... - e riu mostrando os dentes brancos
e perfeitos.
    O capito Joo Magalhes sentou-se na cancela:
    - A senhora estava linda. . . Se estivesse num baile, no Rio, no haveria outra mulher to
bonita. Lhe juro.
    Ela o olhou, perguntou:
    - No gosta mais assim como eu sou todos os dias?
    - Para falar a verdade, sim - e o capito estava falando a verdade. - Assim  como eu gosto. 
uma beleza. .
    Ento Don'Ana ergueu-se, tomou do balde com leite:
    - O senhor  um homem direito. . . Gosto de quem fala a verdade... - e o fitou nos olhos e era
a maneira dela declarar seu amor.
    Raimunda apareceu rindo, risadinha curta de cumplicidade, recebeu os baldes que Don'Ana
segurava, saram as duas. Joo Magalhes falou em voz baixa para as vacas do estbulo:
    - Parece que vou me casar - olhou a fazenda em torno, a casa-grande, o terreiro, as roas de
cacau, com um ar de proprietrio. Mas lembrou-s de Juca e de Sinh, dos jagunos que se
juntavam na fazenda, e estremeceu.
    Pela fazenda ia um movimento fora do comum. Os trabalhadores partiam todas as manhs
para as roas, a colher cacau, outros pisavam cacau mole nos cochos ou danavam sobre o cacau
seco nas barcaas, cantando suas tristes canes:
                                    "Vida de negro  difcil
                                    ' difcil como qu. . . "

   Lamentos que o vento levava, gemidos sob o sol nas roas de cacau, no trabalho da manh 
noite:

                                 "Eu quero morrer de noite
                                 Bem longe, numa tocaia. ..
                                  Eu quero morrer de aoite
                                 Dos bordados de tua saia..."

    Os trabalhadores gemiam seus cantos nos dias de trabalho,seus cantos de servido e de amor
impossvel, .mas, ao mesmo tempo, se reunia na fazenda uma outra populao. Parecidos com os
trabalhadores no fsico e na rudeza da voz, na maneira de falar e no modo de se vestir, esses
homens que chegavam diariamente  fazenda, abarrotando as casas dos trabalhadores, vrios
dormindo j nos depsitos de cacau, outros espalhados pela varanda da casa-grande, eram os
jagunos que vinham, mandados por Teodora, recrutados por Juca, mandados pelo cabo
Esmeraldo, de Tabocas, ou por seu Azevedo, pelo padre Paiva, de Mutuns, guardar a fazenda dos
Badars e esperar os acontecimentos. Alguns chegavam montados, eram poucos. Os mais
vinham a p, a repetio no ombro, o faco no cinto. Chegavam e na varanda da casa-grande
esperavam ordens de Sinh Badar, enquanto sorviam o copo de cachaa que Don'Ana mandava
servir. Eram, em geral, homens calados, de poucas palavras, de idade quase sempre indefinida,
negros e mulatos, de quando em vez um loiro contrastando com os outros. Sinh e Juca
conheciam a todos e Don'Ana tambm. Aquele espetculo se repetia diariamente, Joo
Magalhes calculava que uns trinta homens haviam chegado na fazenda depois dele. E se
perguntava o que sairia daquilo tudo, como andariam os preparativos na fazenda de Horcio. Se
sentia interessado, preso quela terra como se de repente houvesse botado razes nela. Agora,
seus projectos de viagem se esfumaavam, no via como sair de Ilhus, no via por que seguir
adiante.
    Foi assim, cheio desses pensamentos, que chegou a Ilhus. No trem, ao lado de Sinh Badar
que dormira a viagem toda, ele reflectia largamente. Na vspera se despedira de Don'Ana na
varanda:
    - Vou embora amanh.
    - J sei. Mas vai voltar, no vai?
    - Se voc deseja, eu volto...
    Ela olhou, fez que sim com a cabea, correu para dentro sem lhe dar tempo ao beijo que ele
tanto esperava e desejara. No outro dia no a vira. Fora Raimunda quem lhe dera o recado:
    - Don'Ana manda dizer a vosmec que na festa de So Jorge ela vai em Ilhus. . - lhe deu uma
flor que ele agora trazia na carteira.
    No trem vinha pensando. Procurou refletir seriamente e chegou  concluso de que estava se
metendo em funduras. Primeiro aquela histria de medir terras, de assinar documentos. No era
nem engenheiro, nem capito, aquilo podia lhe dar uma complicao com processo e cadeia. Era
o bastante para ele arribar no primeiro navio, j tinha ganho dinheiro suficiente para vrios meses
sem preocupaes. Mas o pior era esse namoro com Don'Ana. Juca j desconfiava da coisa,
dissera umas piadas, rira, parecia estar de acordo. Lhe avisara que quem casasse com Don'Ana
teria que andar direitinho se no era capaz at de apanhar da esposa. E Sinh o olhava como que
a estud-lo, certa noite perguntara muito por sua famlia, suas relaes no Rio, o estado dos seus
negcios. O capito Joo Magalhes se enfiou numa monumental srie de mentiras. Agora no
trem, aquilo tudo lhe dava medo, seus olhos instintivamente procuravam de quando em vez o
cano da parablum que aparecia sob o palet de Sinh. Pensando bem, o que ele devia fazer era ir
embora, embarcar para a Bahia, e mesmo l no demorar por causa daquela histria de medio`
de terras. No podia voltar ao Rio, mas tinha todo o Norte  sua disposio, os usineiros de
acar de Pernambuco, os donos de seringais, da Amaznia. Tanto em Recife como em Belm
ou em Manaus, poderia mostrar suas habilidades no pquer e continuar a viver sua vida sem
maiores complicaes que a desconfiana de um parceiro de jogo, a expulso de um cassino, ou
um chamado  polcia sem consequncias. E, no trem, o capito Joo Magalhes decidiu que
embarcaria no primeiro navio. Tinha uns quinze ou dezasseis contos livres, era o bastante para se
divertir uns tempos. Mas, quando Sinh Badar despertou e ele viu-lhe os olhos, recordou os de
Don'Ana e compreendeu que a moa jogava um papel nesse assunto. Sempre procurara pensar
no caso de uma maneira cnica, vendo apenas a possibilidade de entrar, pelo casamento, na
famlia dos Badars, na fortuna dos Badars. Mas agora sentia que no era apenas isso. Sentia
falta dela, do jeito brusco que ela tinha ora meiga, ora severa, trancada na sua virgindade sem
beijos e sem sonhos de amor. Ela viria  festa de So Jorge, em Ilhus, mandara lhe dizer. Por
que no esper-la e decidir da sua partida depois da festa que estava prxima? At l no havia
perigo. O perigo estaria em Sinh Badar mandar pedir no Rio informaes sobre ele. Ento no
escaparia, com certeza, da vingana daquela gente rude e sensvel, seria feliz se escapasse com
vida. Olha o cano do revlver. Mas os olhos de Sinh Badar trazem Don'Ana para junto dele..
O capito Joo Magalhes est sem saber o que decidir. O trem apita entrando na estao de
Ilhus.
    A noite foi visitar Margot, trazia um recado de Juca para ela. Margot mudara de casa, sara da
penso de Machado e alugara uma casa pequena. onde vivia sozinha, com uma empregada que
cozinhava e arrumava. De Tabocas haviam chegado suas coisas e ela agora passeava sua elegncia
pelas ruas de Ilhus, atravessando com a sombrinha rendada por entre as murmuraes do povo.
Toda a gente j sabia que Juca Badar estava com ela. As opinies se dividiam quanto  maneira
como o caso se concretizara. A gente dos Badars afirmava que Juca a tomara de Virglio,
enquanto a gente de Horcio garantia que Virglio j a havia deixado. Depois do artigo de "O
Comrcio" as murmuraes cresceram e os eleitores dos Badars apontavam na rua a "mulher
que pagara os estudos do Dr. Virglio". Margot triunfava. Juca mandara abrir crdito para ela nas
lojas, os comerciantes se curvavam melosos.
    Margot ofereceu uma cadeira na sala de jantar, o capito sentou. Aceitou o caf que a criada
trazia, deu-lhe o recado de Juca. Ele viria na semana seguinte, queria saber se ela precisava de
alguma coisa. Margot crivou o capito de perguntas sobre a fazenda. Tambm ela se sentia como
dona da propriedade dos Badars. Parecia ter esquecido Virglio inteiramente, s falou nele uma
vez, para perguntar a Joo se ele havia lido o artigo de "O Comrcio".
    - Quem me faz, me paga... - afirmou.
    Depois fez o elogio de Manuel de Oliveira, "um sujeito batuta, de tutano na cabea". E
completava:
    - Demais,  um pndego... Divertido como ele s. Sempre vem aqui me fazer companhia... 
to engraado..
    O capito Joo Magalhes desconfiou dos elogios, quem sabe se Margot, na ausncia de Juca,
no estava se deitando com o jornalista? E, como se sentia parecido com ela, aventureiros e
estranhos os dois no meio daquela gente da terra, achou-se obrigado a lhe dar um conselho:
    - Me diz uma coisa? Tu tem algum chamego com esse Oliveira?
    Ela negou, mas sem fora:
    - No v logo. . .
    - Eu estou querendo te dar um conselho... Tu no quer cantar, no faz mal, eu mesmo no
quero saber. Mas vou te dizer: cuidado com os Badars. No  gente para brinquedo.. . Se tu tem
amor  pele no pense em enganar um Badar... No  gente para brincadeira...
    Dizia a Margot, parecia querer convencer a si mesmo:
    - E melhor desistir do que pensar em enganar eles...

                                                8

   Perto do porto, num sobrado, estava a casa exportadora "Zude, Irmo e Cia: ' Embaixo era
depsito de cacau, no andar superior ficavam os escritrios. Uma das trs ou quatro firmas que
comeavam a se dedicar  exportao de cacau, que se iniciara fazia poucos anos. Antes a
produo, ainda pequena, era toda consumida no pas. Mas com o crescimento da lavoura, alguns
comerciantes da Bahia e alguns estrangeiros, suos e alemes, fundaram firmas para a exportao
de cacau. Entre elas estava a dos irmos Zude, dois exportadores de fumo e de algodo. Criaram
uma seco para o cacau. Abriram a filial em Ilhus e mandaram para ela Maximiliano Campos,
um velho empregado, j de cabelos brancos, com muita experincia. Nesse tempo eram as casas
exportadoras que se curvavam ante as coronis, os empregados e gerentes se dobrando em
mesuras e cortesias, os proprietrios oferecendo almoos aos fazendeiros quando estes viajavam
 capital, levando-os aos cabars e s casas de mulheres. Ainda eram pequenas as casas
exportadoras de cacau, em geral eram apenas seces de grandes casas exportadoras de tabaco,
caf, algodo e coco.
   Por isso quando Sinh Badar terminou de subir as escadas de `Zude, Irmo e Cia:' e abriu a
porta do escritrio do gerente, Maximiliano Campos se levantou apressadamente, veio lhe apertar
a mo:
   - Que boa surpresa, coronel.
   Oferecia-lhe a melhor cadeira, a sua, e sentava-se modestamente numa das cadeiras de
palhinha:
   - H quanto tempo no aparecia. Eu o fazia na propriedade, tratando da safra..
   - Estava por l... Trabalhando.
   - E, como vo as coisas, coronel? Que me diz da safra desse ano? Parece que deixa a do ano
passado longe, hein? Ns, aqui, j compramos at este ms mais cacau que durante todo o ano
passado junto. E isso que alguns fazendeiros fortes, como o senhor, ainda no venderam suas
safras. . .
   - Por isso vim.. . - disse Sinh.
   Maximiliano Campos se tornou ainda mais cortes:
   - Resolveu no esperar preos mais altos? Acho que o senhor faz bem. . . No acredito que o
cacau de mais de catorze mil-ris a arroba esse ano. . . E olhe que, por catorze mil-ris,  melhor
plantar cacau que dizer missa cantada. . . - riu com a comparao.
   - Pois eu acho que d mais, seu Maximiliano. Acho que vai dar quinze mil-ris pelo menos, no
fim da safra. Quem puder guardar seu cacau, vai ganhar dinheiro muito. . A produo no chega
pra quem quer. Diz que s nos Estados Unidos. . .
   Maximiliano Campos balanou a cabea:
   - E verdade que se coloca quanto cacau haja... Mas isso de impor preos, coronel, ainda so os
gringos que, impem. O nosso cacau ainda no  nada em vista do cacau da Costa d'Ouro.  a
Inglaterra quem faz o preo. Quando os senhores tiverem plantado essa terra toda, tiverem
derrubado toda essa mataria que ainda h, pode ser que ento a gente possa impor os nossos
preos nos Estados Unidos...
   Sinh Badar se levantou. A barba cobria-lhe a gravata e o peito da camisa:
   - Pois isso  que vou fazer, seu Maximiliano. Vou derrubar a mata de Sequeiro Grande e
plantar ela de cacau. Daqui a cinco anos tou lhe vendendo cacau dessas terras. . . E a a gente
pode impor os preos...
   Maximiliano j sabia. Quem em Ilhus no sabia ainda dos projectos dos Badars a respeito
da mata de Sequeiro Grande? Mas todos sabiam tambm que Horcio tinha idnticos propsitos.
E Maximiliano falou no assunto. Sinh Badar esclareceu:
   - A mata  minha, agora mesmo venho de registrar o ttulo de propriedade no cartrio de
Domingos Reis.  minha e ai de quem quiser se meter nela...
   Dizia com convico e Maximiliano Campos recuou diante do dedo estendido de Sinh
Badar. Mas este riu e props conversarem de negcios:
   - Quero vender minha safra. Desde agora vendo doze mil arrobas.. Hoje est marcando
catorze mil e duzentos ris por arroba.. So cento e setenta contos de ris. T de acordo?
   Maximiliano fazia contas. Suspendeu a cabea, tirou os culos:
   - E o pagamento?
   - No quero dinheiro agora. Quero e que o senhor abra o crdito desse dinheiro para mim.
Vou precisar para em pregar na derruba da mata e no plantio das roas.. Vou retirando toda
semana...
   - Cento e setenta contos e quatrocentos mil-ris.. anunciou Maximiliano terminando as
contas.
   Conversaram os detalhes d negcio. Os Badars vendiam, seu cacau a "Zude, Irmo e Cia:'
h vrios anos. E para nenhum dos seus clientes do sul da Bahia a casa exportadora tinha tantas
atenes como para os Irmos Badars.
   Sinh se despedia. Voltaria no dia seguinte para assinar o contrato de venda: Ainda no
escritrio, disse:
   - Dinheiro pra derrubar a mata e plantar cacau! E tambm para lutar, se for preciso, seu
Maximiliano!?  estava srio, alisando a barba com a mo, olhar duro.
   Maximiliano no encontrou o que dizer, perguntou:
   - E a menina Don'Ana como vai?
   O rosto de Sinh perdeu toda a dureza, se abriu num sorriso:
   - T uma moa.. E bonita! no tarda a casar...
   Maximiliano no encontrou o que dizer, perguntou: no, s o deixou na calada da rua, num
longo aperto de mo:
   - Muitos votos de felicidade para toda a famlia, coronel.
   Sinh Badar andou para o centro da rua, a mo no chapu. retribuindo as saudaes que
recebia de todos os lados. Homens atravessavam a rua para vir cumpriment-lo.

                                                9

   Os sinos repicavam na tarde festiva do dia de So Jorge. Era a festa maior de Ilhus, a festa do
padroeiro da cidade. O Prefeito, no ato realizado pela manh na Intendncia Municipal,
relembrava aquele Jorge de Figueiredo Correia que fora donatrio da capitania dos Ilhus e que
plantara ali os primeiros engenhos rudimentares, engenhos de acar que logo os ndios
destruram. E, com ele, comparou os que vieram depois, trazendo a planta do cacau. Dr. Genaro
falara tambm num discurso repleto de citaes em lngua estrangeira que a maior parte da gente
no entendera.
    Nessas comemoraes oficiais os correligionrios de Horcio no haviam tomado parte. Mas
agora estavam todos vestidos de fraque negro, atravessando as ruas da cidade, a caminho da
catedral de onde sairia a procisso de So Jorge que percorria as ruas mais importantes de Ilhus.
    O cnego Freitas buscara sempre passar por cima das divergncias polticas dos grandes
coronis. No se envolvia nelas, se dava com os Badars e com Horcio, com o Prefeito de
Ilhus e com o Dr. Jess. Se fazia uma subscrio em benefcio das obras do Colgio das Freiras,
tirava duas cpias para que assim nem Sinh Badar nem Horcio tivessem que assinar em
segundo lugar. Tanto um como outro ficava satisfeito em receber o papel limpo de firmas,
pensando cada um que era o primeiro a por o seu nome. Essa hbil poltica fazia com que, em
torno da Igreja, governo e oposio se encontrassem unidos. Ao demais, o cnego Freitas era
bastante liberal, nunca fizera questo de que a maioria dos grandes coronis pertencesse  Loja
Manica.  verdade que ajudou Sinh Badar no combate que este moveu contra a maonaria
(que elegera Horcio para Gro-Mestre) mas sem aparecer, sempre por detrs do pano. Sua nica
luta aberta era contra o culto dos ingleses, a Igreja Protestante. No mais, ia se equilibrando. Nas
novenas de Santo Antnio se a senhora de Horcio patrocinava a primeira, a senhora de Juca
Badar e Don'Ana patrocinavam a ltima. E os dois rivais se esmeravam no luxo de foguetes e
bombas nas noites em que as esposas apadrinhavam as novenas. No ms de maio, ele entregava a
um a missa cantada, a outro o cuidado do altar. Quando podia jogava com a rivalidade e, quando
via interesse, procurava harmonizar.
    Em frente  praa onde ficava a Matriz os homens abotoados nos fraques negros esperavam a
passagem apressada das mulheres que penetravam na Igreja. Passou Ester pelo brao de Horcio,
muito elegante, num daqueles vestidos que lhe lembrava o tempo de estudante no colgio das
monjas na Bahia. Virglio a viu passar, sacou o chapu de coco para saudar. Horcio balanou a
mo, dando adeus, Ester acenou com a cabea.
    A gente em torno cochichou entre si, em sorrisos mordazes. Logo depois passaram Sinh e
Juca Badar. Sinh dava o brao a Don'Ana. Juca vinha ao lado da esposa. Foi a vez do Capito
Joo Magalhes, que, ao contrrio de quase todos, usava fraque cinzento num escndalo de
distino, tirar a cartola e dobrar-se na saudao. Don'Ana escondeu o rosto no leque, Sinh
levou a mo ao chapu, Juca gritou:
    - Ol, Capito!
    - To namorando. . . - disse um moa.
    Dr. Jess vinha apressado, suando muito, quase correndo na rua. Parou um minuto para falar
com Virglio, saiu depressa. Dr. Genaro vinha grave e solene, em passos cadenciados, olhando
para o cho. O Prefeito passou, passaram Maneca Dantas, dona Auricdia e os filhos. Teodoro
das Baranas vestia como sempre. Apenas, em vez de botas e culote cqui, levava uma cala
branca perfeitamente engomada. No dedo, o solitrio enorme brilhava. Margot passou tambm,
mas no entrou na Igreja; ficou num canto da praa conversando com Manuel de Oliveira. As
mulheres a espiavam pelo rabo dos olhos, comentando os seus vestidos e os seus modos.
    - E a nova amante de Juca Badar.. . - disse algum.
    - Dizem que antes era o doutor Virglio...
    - Agora ele tem coisa melhor...
    Riam. Homens de ps descalos estavam mais afastados. A multido sobrava da igreja,
sobrava da praa, se espalhava pelas ruas. O cnego Freitas e outros dois padres saram pela
porta. Comearam a ordenar a procisso. Primeiro saiu um andor com o Menino Jesus, uma
imagem pequena. Era levado por crianas vestidas de branco, quatro meninos escolhidos entre os
de melhores famlias. Ia, entre eles um filho de Maneca Dantas. O andor tomou para a rua em
frente da Matriz, adiante ia a Banda de Msica. Atrs marchavam, fardados, os colgios, sob o
olhar das professoras. Quando houve espao, saiu o andor da Virgem Maria, j bastante maior,
levado por moas da cidade. Uma delas era Don'Ana Badar. Ao passar, olhou para Joo
Magalhes e sorriu. O capito a achou parecido com a Virgem do andor, apesar dela ser morena e
a imagem ser de porcelana azul. A Banda de Msica e os meninos dos colgios andaram mais
para a frente, os homens, nas caladas, estavam todos de chapu na mo. Vestidas de branco, nos
pescoos fitas azuis de congregaes, saram s do andor da Virgem, as alunas das freiras. E
saram tambm as senhoras. A mulher de Juca vinha pelo brao do marido, Ester vinha com uma
amiga, a esposa de Maneca Dantas, dona Auricdia, que achava tudo lindo. Fizeram espao e saiu
o andor de So Jorge, grande e rico. O Santo era enorme, montado no seu cavalo, matando o
drago. Traziam-no, nos varais da frente, Horcio e Sinh Badar. E, nos de trs, Dr. Genaro e
Dr. Jess. Estes conversavam entre si, como amigos. Mas, Horcio e Sinh nem se fitavam, iam
srios, o olhar na frente, os passos simtricos. Vestiam os quatro uma bata vermelha sobre os
fraques negros.
    Atrs vinha o cnego Freitas e mais dois padres que o ladeavam. E vinha toda gente
importante da cidade: o Prefeito, o delegado, o juiz, o promotor, alguns advogados e mdicos, os
agrnomos, coronis e comerciantes. Vinham Maneca Dantas e Ferreirinha, Teodoro e Dr. Rui.
E por detrs se juntou a multido, velhas beatas, mulheres do povo, os pescadores da colnia Z.
21, os trabalhadores da rua, gente de p no cho. Mulheres levavam os sapatos na mo.
cumpriam promessas feitas ao santo.
    A Banda de Msica atacou um dobrado, a procisso partiu vagarosa e ordenada.
   Quase ao mesmo tempo o Dr. Virglio e o Capito Joo Magalhes deixaram a calada onde
estavam e foram se colocar, eles tambm, atrs do andor da Virgem. Juca Badar e Virglio se
cumprimentaram friamente, o capito se chegou, oferecendo uns queimados que havia
comprado. Don'Ana Badar desequilibrou o andor ao olhar para trs quando ouviu a voz do
capito. As outras riram baixinho.
   Um grupo de homens se formara em torno de Margot para ver a procisso passar. Quando o
andor de So Jorge atravessou diante deles, Sinh Badar e Horcio de passos acertados um pelo
outro, algum comentou:
   - Quem diria... O coronel Horcio e Sinh Badar juntos, um ao lado do outro. E Dr. Jess
com Dr. Genaro.. S mesmo milagre.
   Manuel de Oliveira esqueceu por um momento que era director do jornal dos Badars e disse:
   - Cada um deles t rezando para que o santo o ajude a matar o outro. . . To rezando e
ameaando. . .
   Margot riu, os outros riram tambm. E se juntaram todos  procisso, que, como uma
serpente descomunal, se movia lentamente nas ruas estreitas de Ilhus. Os foguetes espoucavam
no ar.

                                             A Luta

                                                1

    De onde vinha mesmo aquele pinicar de viola na noite sem lua? Era uma cano triste, uma
melodia nostlgica que falava em morte. Sinh Badar no se demorava nunca em refletir sobre a
tristeza das msicas e das letras das melodias que cantavam, na terra do cacau, os negros, os
mulatos e os brancos trabalhadores. Mas, agora, trotando no seu cavalo negro, ele sentia que a
msica o penetrava e se recordou no sabe por que, daquelas figuras do quadro que enfeitava a
sala da sua casa-grande. A msica devia vir de dentro de uma roa, de uma casa qualquer, perdida
nos cacaueiros. Era uma voz de homem que cantava. Sinh no sabia porque os negros perdiam
uma parte da noite pinicando os violes quando era to curto o tempo que tinham para dormir.
Mas a msica o acompanhava por todas as voltas da estrada, por vezes era apenas um murmrio,
de sbito se elevava como se estivesse muito prxima:

                 "Minha sina  sem esperana. . .  trabalhar noite e dia..."

    Atrs de si, Sinh Badar ouvia o trotar dos burros onde vinham os capangas. Eram trs: o
mulato Viriato, Telmo, um alto e magro, de tiro certo e voz efeminada, e Costinha, o que matara
o coronel Jacinto. Vinham conversando entre si, a brisa da noite trazia at Sinh Badar uns
restos de dilogo:
    - O homem meteu a mo na porta, foi um alvoroo...
    - Atirou?
    - No deu tempo...
    - Histria com mulher d sempre em desgraa...
    Se o negro Damio estivesse ali, Sinh o chamaria e ele viria a seu lado e Sinh contaria para
ele alguns dos seus projectos que o negro ouviria calado, aprovando com sua imensa cabea. Mas
Damio andava maluco pelas estradas do cacau, rindo e chorando que nem uma criana e fora
preciso que Sinh usasse de toda a sua energia para que Juca no mandasse liquidar o negro.
Certa vez ele passara pelas proximidades da fazenda, choramingando, e os que o viram disseram
que estava irreconhecvel, magro e coberto de lama, os olhos fundos, murmurando coisas sobre
meninos mortos e caixes brancos de anjos. Era um negro bom e at hoje Sinh Badar no
compreende por que ele errou a pontaria na noite em que atirou em Firmo. Ser que j estava
maluco? A msica, que voltou na curva da estrada, trouxe novamente a lembrana daquela tarde.
Sinh Badar se lembrou do quadro na sala de visitas: a camponesa e os pastores, a paz azul, as
gaitas que tocavam. Devia ser uma msica mais alegre, com palavras doces de amor. Uma msica
para danar, a moa tinha um p no ar num gesto de baile. No seria uma msica como essa que
parecia msica para enterro:

                                  "Minha vida  de penado
                                   Cheguei e fui amarrado
                                  nas grilhetas do cacau..."

    Sinh Badar procura enxergar para os lados da estrada. Deve ser de alguma casa de
trabalhador nas proximidades. Ou ser de algum homem que vai andando no atalho, a viola no
peito, encurtando o caminho com a sua msica? Faz bem quinze minutos que ela acompanha a
comitiva, falando da vida nessas terras, do trabalho e morte, do destino da gente presa ao cacau.
Mas os olhos de Sinh Badar, olhos acostumados  escurido da noite, no divisaram nenhuma
luz na redondeza. S os olhos de pressgio de um corujo que piou gravemente. Devia ser algum
homem que vinha por algum atalho, o que cantava. Estaria encurtando o caminho com sua
msica. estava aumentando o caminho de Sinh Badar que ia para a fazenda. Essas eram
estradas de perigo, agora no havia mais sossego nesses caminhos em redor da mata de Sequeiro
Grande. Naquela tarde, quando ele dera ordens para o negro Damio derrubar Firmo, ele ainda
tinha esperanas. Mas agora era tarde. Agora a luta estava declarada, Horcio ia entrar pela mata
de Sequeiro Grande, preparava homens, fazia correr um processo em Ilhus, disputando a posse
das terras. Naquela tarde a moa dos campos europeus bailava num p s, todavia Sinh Badar
tinha esperanas. A voz do homem que canta - decididamente vem pelo atalho - se aproxima,
aumenta em volume, aumenta em tristeza:

                                   "Quando eu morrer
                            Me levem numa rede balanando..."

   Agora passariam as redes na estrada, seria uma cena que se repetiria em muitas noites. E o
sangue pingaria delas e regaria a terra. essa no era uma terra para bailes e pastores azuis, de
boinas encarnadas. Era uma terra negra, boa para o cacau, a melhor do mundo. Sobe a voz mais
prxima
ainda, sua cano de morte:

                                    "Quando eu morrer
                             Me enterrem na beira da estrada..."

    Havia cruzes sem nomes pela estrada. Homens que haviam cado, de bala ou de febre, sob o
punhal tambm, nas noites de crime ou de doena. Mas os cacaueiros nasciam e frutificavam, seu
Maximiliano dissera que, no dia em que todas as matas estivessem plantadas, eles imporiam seus
preos nos mercados norte-americanos. Teriam mais cacau que os ingleses, em Nova Yorque se
saberia do nome de Sinh Badar, dono das fazendas de cacau de So Jorge dos Ilhus. Mais rico
que Misael... Na beira de uma estrada repousaria Horcio, com cruzes sem nome estariam Firmo
e Braz, Jarde e Z da Ribeira: Eles tinham querido assim. Sinh Badar preferiria que fosse como
os oleogravura, como um baile, todos alegres, os homens com suas gaitas no campo azul. A culpa
era de Horcio... Por que se metia em terras que eram suas, s podiam ser dos Badars, ningum
pensaria em disputar com eles?. . . Horcio  que quisera, pela vontade dele, Sinh Badar, seria
uma festa, a moa com o p no ar iniciando um bailado sobre as flores da campina. . . Um dia ia
ser como naquelas terras da Europa.. Sinh Badar derrama um sorriso sobre a barba, tambm
ele v o futuro como as cartomantes e os profetas. Na curva da estrada, onde ela se ramifica com
o atalho, surge o homem com a viola:
                                    "Quando eu morrer
                          Me enterrem por baixo de um coqueiro"

   Mas o som da cavalhada, que trota na estrada, cala a voz do msico. E agora Sinh Badar
sente falta dela. J no v a moa bailando nas terras do cacau, as matas plantadas, os preos
ditados desde Ilhus. Ele v  o homem que anda, os dedos ainda no violo, os ps vencendo a
estrada enlameada. Sai para um lado, dando passagem a Sinh Badar e aos seus cabras:
    - Boa noite, patro...
    - Boa...
    Os cabras respondem em coro:
    - Boa viagem...
    - Que Nosso Senhor acompanhe vosmecs...
    Agora a msica se afasta, o homem pinica sua viola cada vez mais longe, em breve no se
ouvir sua voz cantando tristezas, se lamentando da vida, pedindo que o enterrem debaixo de um
cacaueiro. Dizem que  aquele visgo do cacau mole que prende os homens ali. Sinh Badar no
sabe de ningum que tenha voltado. Conhece muitos que lamentam, assim como esse negro, se
lamentam dia e noite, nas casas, nos botequins, nos escritrios, no cabar, que dizem que essa
terra  desgraada,  mesmo uma terra infeliz,  o fim do mundo, sem diverses e sem alegria,
onde se mata gente por um nada, onde hoje se  rico e amanh se  mais pobre que J. Sinh
Badar conhece muitos, j ouviu essas conversas dezenas de vezes, j viu homens venderem suas
roas, juntarem o dinheiro e jurarem na beira da estrada que nunca mais voltariam. Partiam para
Ilhus para esperar o primeiro navio que sasse para a Bahia. Na Bahia tinha de tudo, cidade
grande, comrcio de luxo, casa de conforto, teatro e bonde de burro. L tinha de um tudo, o
homem estava com o dinheiro no bolso, pronto para gozar a vida. Mas antes do navio sair o
homem voltava, o visgo do cacau est pegado na sola dos seus ps, e ele vinha e enterrava de
novo o seu dinheiro num pedao de terra para plantar cacaueiro. . . Alguns chegavam a ir,
embarcavam, cortavam as ondas do mar, e onde chegavam no falavam noutra terra que nessas
terras de Ilhus. E, era certo, to certo quanto ele se chamar Sinh Badar, que passados seis
meses ou um ano, o homem voltava, sem dinheiro, para recomear a plantar cacau. Diziam que
era o visgo do cacau mole que agarra nos ps de um e nunca mais larga. Diziam as canes
cantadas nas noites das fazendas.. .
    Entraram por entre os cacaueiros. Esto na roa da viva Merenda, nos costados da mata de
Sequeiro Grande. Tinham dito a Sinh Badar que ela tinha feito acordo tambm com Horcio.
Nem por isso ele quisera deixar de aproveitar o atalho que encurtava seu caminho de quase meia
lgua. Se ela estava com Horcio, pior para ela e para os dois filhos que ela tinha. Porque ento
aquelas roas passariam a se juntar s roas novas que os Badars iam plantar nas matas de
Sequeiro Grande. Dentro de cinco anos ele, Sinh Badar, entraria nos escritrios de "Zude,
Irmos e Cia." e lhes venderia cacau colhido nas roas novas. Assim o dissera e assim o faria.
No era homem de duas palavras. Mesmo que a moa tivesse que terminar seu bailado recm-
iniciado no quadro da sala da casa-grande. Depois ento ela bailaria sobre um campo amarelo do
ouro do cacau maduro, que era bem mais bonito que aquele azul do quadro. Bem mais bonito.. .
    O primeiro tiro foi logo acompanhado de muitos outros, Sinh Badar s teve tempo de
levantar o cavalo que recebeu a descarga no peito e caiu de lado. Os seus jagunos desmontavam,
se atrincheiravam por detrs dos burros deitados. Sinh Badar procurava livrar a perna que
estava presa por baixo do cavalo agonizante. Seus olhos pesquisavam a escurido e foi ele quem,
ainda deitado, localizou os jagunos de Horcio na tocaia, atrs de uma jaqueira perto do atalho.
    - To detrs da jaqueira.. - disse.
    Agora havia um silencio total depois das primeiras descargas. Sinh Badar conseguiu livrar a
perna, levantou-se em toda a altura, um tiro furou seu chapu. Disparou o parablum, gritou para
os seus homens:
    - Vamos acabar com eles!
    A cabea de um dos assaltantes apareceu por detrs da jaqueira acertando a pontaria. Telmo
disse ao lado de Sinh Badar, com sua voz efeminada:
    - O meu j t, patro. . . - elevou a repetio, a cabea do homem atrs da jaqueira balanou
como um fruto maduro e caiu. Sinh Badar avanou atirando, agora estavam ele e seus homens
por trs de uns cacaueiros, e podiam ver os homens escondidos na tocaia. Eram cinco, contando
com o que morrera. Os dois filhos de Merenda e mais trs capangas de Horcio. Sinh Badar
carregava a arma, por detrs dele Viriato atirou. Foram andando pelos cacaueiros o plano de
Sinh era tomar a retaguarda dos alunos, de Horcio. Mas estes perceberam e acharam que era
melhor romper fogo para evitar a manobra do coronel. Tiveram que se afastar um pouco das
jaqueiras e Sinh Badar queimou um. O homem se torceu com o tiro, a mo para cima, o p no
ar. Viriato acabou com ele:
    - Descansa, fio da me...        Isso no  hora de danar...
    Sinh no meio de todo o barulho, se lembrou da moa do quadro danando num p s. No
era hora de danar, Viriato tinha razo. Foram andando mais. Um tiro acertou no ombro de
Costinha, o sangue molhou a ponta das calas de Sinh Badar.
    - No  nada...- disse Costinha.- S arranhou e ainda atirava.
    Continuaram o cerco, os trs homens que restavam na tocaia viram que no adiantava.
Ainda estava em tempo, se meteram pela roa. Sinh descarregou o parablum na direco em
que eles iam. Depois andou at o cavalo negro, passou a mo sobre o seu pescoo ainda morno.
O sangue corria no peito do cavalo, fazia poa no cho. Telmo se aproximou, comeou a tirar a
sela do animal morto. Viriato trouxe o burro em que vinha montado, e que se afastara um pouco
com o tiroteio, e nele Sinh Badar montou. Telmo levava no peitoral do seu burro os arreios do
cavalo. E na sua garupa, Viriato levava Costinha que apertava a ferida com a mo.
    Iam a passo pela estrada. Sinh Badar ainda segurava o parablum na mo. Seu olhar, quase
triste, se afundou na escurido em torno. Mas agora no vinha msica nenhuma, voz que
cantasse as desgraas dessa terra. No havia lua, tampouco, que iluminasse os cadveres junto aos
cacaueiros. Atrs, Telmo se vangloriava com sua voz fina, que parecia de mulher:
    - Acertei foi na cabea do peste...
    A luz de uma vela, que a saudade de mos piedosas havia acendido, iluminava uma cruz
recente na estrada. Sinh Badar pensou que se fossem iluminar todas as cruzes que iam se
levantar de agora em diante, as estradas da terra do cacau ficariam mais iluminadas que mesmo as
ruas de Ilhus. Se entristeceu de todo. "No  tempo para dana, moa, mas eu no tenho culpa,
no".

                                                2

    E os barulhos, comeados nessa noite, no pararam mais at que a mata de Sequeiro Grande
se transformou em roas de cacau. Depois a gente desta zona, de Palestina a Ilhus, mesmo a
gente de Itapira, ia contar o tempo em funo desta luta:
    - Isso aconteceu antes dos barulhos de Sequeiro Grande..
    - Foi dois anos depois de acabada a luta de Sequeiro Grande. .
    Foi a ltima grande luta da conquista da terra, a mais feroz de todas, tambm. Por isso ficou
vivendo atravs dos anos, as suas histrias passando de boca em boca, relatadas pelos pais aos
filhos, pelos mais velhos aos mais jovens. E nas feiras dos povoados e das cidades os cegos
violeiros cantavam a histria daqueles barulhos, daqueles tiroteios que encheram de sangue a terra
negra do cacau:

                                   "Foi praga de feiticeiro
                                  Em noite de feitiaria. . ."
   Os cegos so os poetas e os cronistas dessas terras. Pela sua voz esmoler, nas cordas das suas
violas perdura a tradio das histrias do cacau. A multido das feiras, os homens que vem para
vender sua farinha, seu milho, suas bananas e laranjas, os homens que vem para comprar, se
renem em torno aos cegos para ouvirem as histrias do tempo do comeo do cacau quando era
tambm o comeo do sculo. Jogam nqueis nas cuias ao p do cego, a viola geme, a voz conta
dos barulhos de Sequeiro Grande, daquelas mortandades passadas:

                                  "Nunca se viu tanto tiro
                                 Tanto defunto na estrada."

    Homens se acocoram no cho, o rosto sorridente, outros se apoiam nos bordes, os ouvidos
atentos  narrao do cego. A viola acompanha os versos, surgem diante dos homens aqueles
outros homens que abriram a floresta no passado, que a derrubaram, que mataram e morreram,
que plantaram cacau Ainda vivem muitos dos que tomaram parte dos barulhos de Sequeiro
Grande. Alguns figuram nesses versos que os cegos cantam. Mas os ouvintes quase no
relacionam os fazendeiros de hoje aos conquistadores de ontem. E como se fossem outros seres,
to diferentes eram os tempos. Antes aqui era a mata fechada de rvores e de mistrios, hoje so
as roas de cacau, abertas no amarelo dos frutos parecendo de ouro. Os cegos cantam, so
histrias de espantar:

                                "Eu vou contar uma histria
                                 Uma histria de espantar."

   Uma histria de espantar, a histria da mata de Sequeiro Grande. Na mesma noite em que os
irmos Merenda e os trs cabras de Horcio haviam atacado a Sinh Badar no atalho, nessa
mesma noite Juca partiu  frente de dez homens e cometeu uma srie de estrepolias na
redondeza. Comearam matando os dois irmos Merenda, dizem que na prpria vista da me,
para dar exemplo. Depois entraram pela roa de Firmo, largaram fogo numa plantao de
mandioca, e s no mataram o lavrador porque ele no estava em casa, andava por Tabocas.
   - J escapou duas vezes - dissera Juca. - A terceira no vai escapar.
   Depois tinham ido  roa de Braz e a o fogo comeu. Braz resistiu com seus homens e Juca
Badar teve que se retirar deixando um cabra morto e sem saber quantos haviam cado do lado
de Braz. Um era certo: fora Antnio Vtor quem o derrubara e Juca vira o homem rolar. Antnio
Vtor afirmava que tinha derrubado outro, mas no havia certeza.
   Vinte anos depois os cegos percorriam as feiras dos povoados novos, de Pirangi e Guaraci,
nascidos nos terrenos da mata de Sequeiro Grande, cantando detalhes da luta.

                                    "Fazia pena, dava d,
                                   tanta gente que morria.
                                    Cabra de Horcio caia
                                     E caia dos Badar..
                                  Rolava os corpos no cho,
                                     Dava dor no corao
                                   Ver tanta gente morrer,
                                   Ver tanta gente matar,"

    Os homens andavam atrs de jagunos recrutando os que tinham melhor pontaria, os de
coragem comprovada. Narram que Horcio mandou gente no serto buscar jagunos de fama,
que os Badars no mediam dinheiro quando era para pagar a um atirador de tiro certeiro. As
noites passaram a ser cheias de medo, de mistrio e de surpresas. Qualquer caminho, por mais
largo que fosse, era estrada insegura para os viandantes. Ningum, mesmo os que no tinham
nada a ver com a mata de Sequeiro Grande, com Horcio e com os Badars, se atrevia a viajar
por estas estradas do cacau sem ser acompanhado por um cabra pelo menos. Foi nesse tempo
que os comerciantes de ferragens que eram os que vendiam armas, haviam enriquecido. Menos
seu Azevedo, de Tabocas, que se arruinou fornecendo repeties para os Badars e s salvou
alguma coisa devido  sua habilidade poltica. Agora tinha uma quitanda em Ilhus, contando ele
tambm, na sua velhice pobre, aquelas histrias aos moos estudantes da cidade.

                                 "Se largou foice e machado,
                                    Se pegou repetio. . .
                                   A gente toda comprou,
                                Se vendeu como um milho."

   Cantavam os cegos, vinte anos depois. Contavam os feitos dos Badars, a coragem deles, de
Sinh e de Juca:

                               "Homem macho era Sinh
                                  O chefe dos Badar..
                                   Uma vez, ele ia s,
                               com cinco homem acabou.
                                  Juca no era menos,
                                 coragem nele sobrava,
                                 E Juca no respeitava
                            Nem os grandes nem os pequenos."

   Mas contavam tambm da coragem da gente de Horcio, dos homens que iam com ele, de
Braz, e sobre todos corajoso, que ferido com trs balas matara ainda assim dois homens:

                                  "Braz de nome Brasilino
                                Jos dos Santos, se chamava,
                                       m ele tava fino
                                  Mesmo do cho atirava,
                                   Tando ferido, matava"

   Retratavam Horcio, desde a sua fazenda, dando suas ordens aos homens, mandando-os pelos
caminhos que cercavam a mata de Sequeiro Grande:

                                  "Horcio as ordens dava
                                     Era sua Senhoria,
                                   Cabra saia pra estrada,
                                   Pra fazer estrepolia.. "

   Os rimances da luta de Sequeiro Grande iam desafiando as figuras e os feitos, as inquietaes
tambm. Diziam das esposas:

                                 "Mulher casada no havia
                                   S se fosse na Bahia...
                                    Por aqui j se dizia:
                                   Casada era s projecto
                                 - Mesmo as que tinha neto
                                   De viva no outro dia."
   Os homens das feiras que ouvem, vinte anos depois, nos povoados plantados sobre a terra
onde fora a mata de Sequeiro Grande, soltam exclamaes de admirao, riem se divertindo,
comentam em frases curtas. Pela voz do cego desfila ante eles este ano e meio de lutas, de
homens morrendo, de homens matando, a terra adubada com sangue. E quando os cegos
terminam:

                                 "Eu j contei uma histria,
                                 Uma histria de espantar!"

eles derrubam mais algumas moedas na cuia do narrador, e saem entre comentrios: "foi coisa de
feiticeiro". Assim diz o romance, assim eles o dizem hoje tambm. Foi coisa de feiticeiro, em
noite de feitiaria. A praga do negro Jeremias era distribuda, naquele tempo das lutas, pelas
estradas, de fazenda em fazenda, na voz do negro Damio, magro e sujo, doido manso,
choramingando pelos caminhos do cacau.

                                               3

   Ainda no haviam sequer esfriado os comentrios nascidos da tocaia contra Sinh Badar e da
morte dos irmos Merenda, quando Ilhus foi sacudida pelo incidente entre o Dr. Virglio e Juca
Badar, no cabar da cidade. Alis, naquele ano e meio os acontecimentos se sucederam com
tanta rapidez que dona Iai Moura, solteirona que zelava por um altar da Igreja de So Sebastio,
disse  sua amiga dona Lenita Silva, que zelava pelo altar em frente:
    - Se passa tanta coisa, Lenita, que a gente nem tem tempo de falar direito sobre nenhuma
delas... T tudo muito depressa...
    A verdade  que tanto Horcio como os Badars tinham pressa. Um e outro desejavam
derrubar a mata quanto antes e quanto antes plant-la de cacaueiros. A luta comia dinheiro, as
folhas de pagamento se elevavam nos sbados a alturas nunca vistas antes, os jagunos recebendo
em dia, o preo das armas aumentando. Tanto os Badars como Horcio tinham pressa e, por
isso, aqueles meses foram to cheios que as beatas no davam conta dos fatos a comentar. Ainda
estavam falando de um quando sucedia outro que lhes reclamava ateno. O que se passava
tambm com os dois jornais. Acontecia, por vezes Manuel de Oliveira estar escrevendo um artigo
descompondo Horcio por uma arruaa de seus cabras e receber a notcia de outra muito maior.
A violncia de "O Comrcio" e da "A Folha de Ilhus" no conheceu limites nesse ano. J no
havia adjectivos insultuosos, que no estivessem gastos e foi uma festa na redaco de "O
Comrcio" no dia que o dr, Genaro mandou buscar no Rio (as livrarias da Bahia no o tinham 
venda) um grande dicionrio portugus, editado em Lisboa, especializado em termos
quinhentistas. Foi quando, para gudio e admirao dos moradores, "O Comrcio" passou a
chamar Horcio e seus amigos de "fuo", "mequetrefe", vilo", "flibusteiro", e de outros
adjectivos dessa idade. "A Folha de Ilhus" respondeu caindo no calo nacional, no qual o Dr.
Rui era uma autoridade. O processo que Horcio fazia correr no foro de Ilhus continuava sem
soluo. "Correr no foro" era a mais inadequada das expresses jurdicas quando se tratava de um
processo de gente da oposio contra gente do governo, como era o caso actual. O juiz estava ali
para defender os interesses dos Badars. E, se no o fizesse bem, o menos que podia lhe
acontecer era o governador do Estado transferi-lo para uma cidadezinha qualquer do serto, falta
de todo conforto, perdida e esquecida de todos onde ele vegetaria anos e anos. J o juizado de
Ilhus, ao contrrio, era caminho para a Suprema Corte do Estado, para trocar o ttulo de juiz
pelo de desembargador, ttulo muito mais sonoro e muito melhor pago. No adiantava a fora
que o Dr. Virglio e Dr. Rui faziam, bombardeando o juiz com peties, requerimentos pedidos
de vistoria. O processo marchava, segundo Horcio, "a passos de cgado", e ele confiava muito
mais em tomar as terras  fora que pela lei. E fazia com que  ao contrrio do processo - os
acontecimentos andassem depressa. Tambm aos Badars interessava que marchassem o mais
rpido possvel. As eleies se aproximavam, seria no ano seguinte, e muita gente dizia que era
quase certo o rompimento entre o governo do Estado e o governo Federal devido  questo da
sucesso presidencial. E se o governo do Estado casse, os Badars passariam a ser oposio, j
no haviam de contar com o juiz, ento o processo de Horcio "correria" realmente.
    Tudo isso se comentava pelos botequins, pelas esquinas, nas casas de Ilhus, e at nos navios
que paravam no porto, entre os estivadores que os carregavam e os marinheiros que iam seguir
viagem. Nas cidades distantes, em Aracaju e em Vitria, em Macei e no Recife, se falava nessas
lutas de Ilhus como se falava nas lutas do Padre Ccero, em Juazeiro do Cear.
    Virglio havia ido  Bahia e conseguira de um desembargador, que apoiava a oposio, um
parecer favorvel a Horcio no caso da posse das terras de Sequeiro Grande. E o )untara aos
autos do processo e o Dr. Genaro quebrava a cabea em cima dos livros de direito para "esmagar
o parecer", como prometera ao juiz que estava aterrorizado com aquela intromisso de um
desembargador num processo que ainda se encontrava em primeira instncia. Porm, mais que o
parecer do desembargador, o que deve ter levado Juca Badar a provocar o Dr.Virglio foi, sem
dvida, a sene de artigos que este havia escrito no dirio oposicionista da Bahia sobre as lutas em
Ilhus. Os artigos de "A Folha de Ilhus" no incomodavam o mais mnimo aos Badars. Mas
aqueles artigos num jornal dirio da Bahia tiveram repercusso mesmo fora do Estado e, se bem
os dirios do governo houvessem defendido Sinh Badar, o governador lhe fizera saber que era
bom evitar qualquer publicidade sobre "esses incidentes" num momento em que o governo
estadual no se encontrava em muito boa harmonia com o federal. Horcio tivera conhecimento
do fato e Virglio andava nas mas de Ilhus como um vitorioso.
    Certa noite, ele foi ao cabar. H muito que no aparecia, suas noites agora eram nos braos
de Ester, loucas noites de amor e de delrio, a carne dela despertada em sensualidade, se
educando nos requintes que ele aprendera com Margot. Mas Horcio estava em Ilhus e Virglio
ficou sem ter onde ir. J se acostumara em no estar em casa  noite, e se dirigiu ao cabar para
tomar um usque Ia com Maneca Dantas, o coronel havia chegado com Horcio. Virglio o
convidara.
    - Vamos dar um pulo no cabar?
    Maneca Dantas riu, pilheriou:
    - O senhor quer desviar um pai de famlia do bom caminho, doutor? Tenho esposa e filhos,
no ando nesses lugares...
    Riram os dois, subiram as escadas. Na sala do fundo Juca Badar jogava com Joo Magalhes
e outros amigos. Nhozinho dizia, em tom de segredo, aos amigos que "era um pquer brabo,
cacife to alto ele nunca tinha visto". Virglio e Maneca Dantas foram para a sala de dana, onde
o pianista e o violinista tocavam as msicas em voga. Sentaram-se, pediram usque e Virglio viu
logo Margot que estava numa mesa com Manuel de Oliveira e outros amigos dos Badars. O
jornalista - que no brigava com ningum, afirmando que ele "era um profissional de imprensa e
que, aquilo que escrevia no jornal era a opinio dos Badars e nada tinha que ver com a sua,
particular - eram coisas distintas"  cumprimentou Virglio. O advogado respondeu.
cumprimentando a todos. Margot sorriu para ele, achou-o belo, lembrou-se de outras noites,
apertou o lbio num gesto inicial de desejo. Nhozinho trouxe a garrafa.
    - Esse  do bom... Escocs... S sirvo dele aos fregueses escolhidos. No  para todo mundo...
    - Qual  a proporo de gua? - pilheriou Maneca Dantas.
    Nhozinho jurou que era incapaz de misturar o usque e quanto mais aquele, um usque
realmente... juntava os dedos, levava-os assim at os lbios e soltava sobre eles um beijo estalado,
demonstrando com essas mmicas a bondade do usque Depois quis saber por que o Dr. Virglio
no aparecia h tanto tempo... Ele sentira falta. Virglio resumia os motivos por que deixara de vir
ao cabar:
    - Ocupaes, Nhozinho, ocupaes.
    Nhozinho retirou-se mas Manuel de Oliveira, que vira a garrafa de usque, se aproximou para
perguntar ao Dr. Virglio notcias de outro jornalista que era amigo comum dos dois e que
trabalhava na Bahia, no dirio da oposio.
    - Viu o Andrade por l, doutor? - perguntou aps apertar a mo de Virglio e a de Maneca
Dantas.
    - Jantamos juntos uma vez.
    - E, como vai?
    - Ah! o mesmo de sempre. Bebendo desde que acorda at que deita. Continua com os
mesmos hbitos...  formidvel!
    Manuel de Oliveira lembrou:
    - Ainda escreve os sueltos inteiramente bbedo?
    - Caindo. .
    Maneca Dantas pedia a Nhozinho outro copo, servia o jornalista. Agradecendo a gentileza,
Manuel de Oliveira lhe explicou:
     um colega, coronel. A melhor pena da Bahia... Jornalista est ali, completo. Mas bebe de
fazer medo. Quando acorda, mesmo antes de limpar os dentes, emborca, ou "saboreia", como ele
diz, um copo de cachaa. E continua... Na redaco nunca ningum viu o Andrade com o corpo
bem equilibrado. Mas a cabea, coronel, essa  sempre a mesma... Cada tpico.. . Um primor.. . -
Emborcou o copo, mudou de assunto. - Bom usque..
    Aceitou a nova dose, com o copo cheio despediu-se, ia voltar para sua mesa. Mas antes disse a
Virglio:
    - Tem uma conhecida sua na nossa mesa que est com saudades - olharam para Margot. - Diz
que gostaria de danar uma valsa com o senhor...
    Piscou o olho, foi andando:
    - Quem foi rei, sempre  majestade...
    Virglio riu com o comentrio. No fundo estava sem interesse nenhum. Viera ao cabar para
beber um pouco e conversar, no viera atrs de mulher. Muito menos de uma mulher que
actualmente era amante de Juca Badar, mantida por ele. Demais temia que Margot, com quem
no voltara a falar desde aquela outra noite` nesse mesmo cabar, comeasse com recriminaes.
;No estava interessado nela, para que danar ento, reatar laos partidos? Deu de ombros, bebeu
um trago de usque Mas Maneca Dantas estava interessado. Ele gostaria que a gente do cabar
visse Virglio danando com Margot. Assim saberiam que ela vivia louquinha pelo advogado, que
s estava com Juca porque Virglio a deixara. No haveria mais quem dissesse que Juca a tomara
do outro. Falou:
    - A moa no tira os olhos do senhor, doutor...
    Virglio espiou, Margot sorriu, os olhos presos nele. Maneca Dantas perguntou:
    - Por que no dana uma rodada com ela?
    Ainda assim Virglio refletia: "no valia a pena". Se moveu na cadeira. Margot na outra mesa
pensou que ele ia se levantar para tir-la e se ps de p. Isso o obrigou a decidir-se. No tinha
outro jeito que danar. Era uma valsa lnguida, saram os dois pela sala e logo a gente toda os
olhou, as rameiras comentavam. Da mesa onde estava Margot, um homem quis se levantar.
Houve um princpio de discusso entre ele e Manuel de Oliveira. O jornalista procurava
convence-lo de algo mas o homem, aps ouvi-lo, se desprendeu da mo de Oliveira que o
segurava, e partiu para a sala de jogo.
    A msica da valsa se arrastava no piano velho. Virglio e Margot danavam sem trocar palavra
mas ela ia de olhos cerrados, os lbios apertados.
    Juca Badar chegou da sala de jogo. Atrs dele vinham Joo Magalhes, o homem que o fora
chamar, e os outros parceiros de pquer Da porta que comunicava as duas salas Juca ficou
olhando, as mos metidas no bolso, os olhos cintilando. Quando a msica acabou, os homens
que danavam bateram palmas pedindo bis. Foi nesse momento que Juca Badar atravessou a
sala, tomou Margot por um brao, e a puxou para a mesa. Ela relutou um pouco, Virglio se
adiantou, ia falar, mas Margot impediu que ele dissesse qualquer coisa:
    - No se meta, por favor..
    Virglio ficou um minuto indeciso, olhava Juca que esperava, mas se lembrou de Ester. . . que
lhe importava Margot? - cumprimentou a ex-amante sorrindo:
    - Muito obrigado, Margot - e voltou para sua mesa onde Maneca Dantas estava de p, a mo
no revlver, na expectativa do barulho.
    Juca Badar arrastara Margot para a mesa onde discutiram os dois em voz alta, todo mundo
ouvindo. Manuel de Oliveira procurava intervir, porm Juca Badar o olhou de tal maneira que o
jornalista achou melhor calar-se. A discusso azedou-se entre Juca e Margot, ela quis levantar-se,
ele a sentou violentamente. Nas outras mesas havia um silncio completo, at o pianista espiava.
Juca voltou-se:
    - Por que diabo no toca a merda desse piano? - gritou e o velhote se atirou em cima do piano
e os pares saram danando.
    No demorou, Juca tomou Margot pela mo, arrastou-a consigo. Quando passava em frente 
mesa onde estavam Virglio e Maneca, Juca disse para a mulher que ia quase de rastos:
    - Vou lhe ensinar a respeitar macho, sua puta mal-acostumada... Parece que  a primeira vez
que vive com um homem. .
    Disse para que Virglio ouvisse e o advogado ia se levantando da mesa, tinha perdido a cabea.
Maneca Dantas  que o segurou, viu que ele ia morrer nas mos de Juca se tentasse um gesto.
Juca e Margot saram pela escada, de dentro da sala se ouvia o som das bofetadas que ele dava na
amante. Virglio estava plido. Maneca Dantas lhe explicava que no valia a pena.
    O incidente no passou disso e no outro dia Virglio o havia esquecido quase completamente.
J no pensava no assunto, Margot no lhe interessava. Tinha ido viver com Juca Badar porque
quisera, o plano de Virglio era envi la para a Bahia, dar-lhe dinheiro para uns quantos meses.
Ela preferira se meter com Juca na mesma noite do rompimento, se fazer amante dele, fornecera
ao jornal dos Badars detalhes sobre a vida de Virglio como estudante. Se ela agora apanhava de
Juca, se no podia danar com quem quisesse, era culpa dela, ele, Virglio, nada tinha com isso. E,
de certa maneira, no deixava de dar razo a Juca. Se Margot ainda fosse sua amante ele no
haveria de gostar de v-la danando com o homem que a tivera antes. Por muito menos Virglio,
fizera uma arruaa num cabar da Bahia poucos anos atrs. Encontrava desculpa at mesmo para
o insulto de Juca na sada. O coronel devia estar ciumento e se exaltara. Virglio se encontrava
satisfeito com Maneca Dantas por te-lo obrigado a sentar-se quando ele quase ia perdendo a
cabea e se metendo numa briga por causa de Margot. No pretendia sequer negar o
cumprimento a Juca se este o saudasse na rua. No guardava raiva dele, compreendia o que se
passara, e principalmente no se interessava em brigar com ningum por causa de Margot.
    Mas de boca em boca, nos comentrios da cidade, o incidente crescera. Uns diziam que Juca
arrancara Margot dos braos do Dr. Virglio e a espancara na vista dele. Outros tinham uma
verso mais dramtica. Segundo estes, Juca encontrara Margot aos beijos com o Dr. Virglio e
sacara o revlver. Virglio porm, no lhe dera tempo para atirar, embolara com ele, tinham
lutado pela posse da mulher. Essa verso era geralmente aceita. E, at que os que haviam
assistido ao incidente narravam-no com grandes contradies: segundo uns, Juca sara do cabar
para evitar que o Dr. Virglio tirasse Margot para danar novamente e na passagem pedira
desculpas ao advogado. A maioria, porm, achava o contrrio: que Juca convidara Virglio para
brigar e este se acovardara.
    Apesar de saber de como coisas carentes de toda a importncia eram aumentadas em Ilhus,
Virglio se admirou da seriedade que Horcio concedeu ao incidente. O coronel o mandara, no
dia seguinte, convidar para jantar. Virglio aceitou encantado, procurava mesmo um pretexto para
ir  sua casa e assim estar um instante prximo a Ester, sentindo sua presena, ouvindo sua voz
bem-amada.
    Chegou pouco antes do jantar, na porta se encontrou com Maneca Dantas que fora tambm
convidado. O coronel o abraou e Horcio tambm o apertou nos seus braos quando entraram.
Virglio os encontrou muito graves, imaginou que alguma coisa nova houvesse acontecido pras
bandas de Sequeiro Grande. J ia perguntar que novidades havia, quando a criada anunciou que o
jantar estava na mesa e Virglio se esquecia de tudo porque ia ver Ester. Mas Ester o
cumprimentou friamente, Virglio notou nos seus olhos o vestgio de lgrimas recentes. A
primeira coisa que lhe ocorreu foi que Horcio havia sabido alguma coisa entre ele e Ester e que
o jantar no era mais que uma cilada. Fitou de novo Ester e se deu conta que ela no estava
apenas triste, estava ofendida, zangada com ele. E o coronel Horcio estava amvel, mais amvel
do que nunca. No, no era, com certeza, nada em relao ao caso dele com Ester. Ento, que
diabo seria?
    Horcio e Maneca Dantas gastaram quase toda a conversa do jantar. Virglio se recordava de
outro jantar, na fazenda, quando conhecera Ester. Poucos meses se haviam passado e ela era dele,
ele conhecia todos as segredos daquele corpo amado, tomara dele para si, lhe ensinara os
mistrios mais doces do amor. Era sua mulher, no pensava noutra coisa seno em lev-la
embora para longe daquelas terras de barulhos e mortes. Para o Rio de Janeiro, onde teriam sua
casa, onde viveriam sua vida. No era apenas um sonho. Virglio esperava to-somente ganhar
um pouco mais de dinheiro e a resposta de um amigo que, no Rio, procurava para ele uma
colocao num escritrio de advocacia ou um bom emprego pblico. S Virglio e Ester
conheciam esse segredo, os seus detalhes planejados entre beijos na grande cama que ocupava
quase todo o quarto da alcova. Imaginavam esse dia em que seriam um do outro totalmente, sem
que o amor fosse cortado pelo medo, como o era nessas noites de agora, as carcias perturbadas
pelo receio de que as empregadas desconfiassem de que ele estava na casa. Sonhavam, esse outro
dia quando ela pudesse ir ao lado dele nas ruas, seu brao passado pelo de Virglio, mo na mo,
um do outro para sempre. Enquanto Maneca Dantas e Horcio conversam sobre a safra, o preo
do cacau, as chuvas, o cacau mole que se perdeu Virglio rememora esses momentos na cama,
entre as carcias, em que planejavam a fuga, estudando os detalhes mnimos, terminando tudo em
beijos alegres e demorados que acendiam a carne para o amor at que a madrugada expulsava
Virglio, em passos furtivos, da casa de Horcio.
    Foi arrancado dos seus pensamentos quando, aproveitando um momento em que o dilogo
entre Horcio e Maneca Dantas parara, Ester falou:
    - Disse que o senhor ontem andou fazendo de cavaleiro andante, doutor Virglio? - sorna, mas
seu rosto estava triste.
    - Eu? - fez Virglio sustentando o garfo no ar.
    - Ester t falando  do barulho de ontem no cabar... - disse Horcio. - Eu tambm andei
sabendo.
    - Mas se no houve barulho nenhum...  contou Virglio.
    E explicou o caso: se sentia infinitamente triste na vspera, saudade no sabia de que - e
olhava Ester - e, tendo encontrado o coronel Maneca, este o convidou para irem ao cabar..
    Maneca Dantas olhou, rindo:
    - O senhor me arrastou, doutor. Conte a histria direito. .
    Chegados no cabar, estava bebendo um usque inocente quando veio falar com eles o Manuel
de Oliveira. E na mesa dele estava uma mulher que Virglio havia conhecido na Bahia, nos seus
tempos de estudante. Danaram uma valsa, quando ele pedia o bis, Juca Badar apareceu e
carregou com a mulher. Ele no tinha nenhum interesse pela mulher e nem teria se importado se
Juca no houvesse, ao passar por ele, dito umas palavras desagradveis. Mas, ainda assim, o
coronel Maneca Dantas o impedira de reagir, e Virglio se achava agradecido ao coronel porque
evitara que ele fizesse uma besteira por uma criatura que no lhe interessava absolutamente. Fora
isso, mais nada. Invocava o testemunho de Maneca Dantas. Ester parecia indiferente s
explicaes, disse com uma voz afetada:
    - E que tem demais? Cabar  mesmo para rapaz solteiro, sem responsabilidade de famlia. O
senhor faz bem em se divertir, no tem quem sofra por isso. . . Agora, o compadre Maneca  que
no est direito. . . - e ameaava com o dedo. - Tem esposa e filhos. Vou contar  comadre, hein?
- ameaava sorrindo seu sorriso triste.
    Maneca Dantas pediu, rindo muito, que ela no dissesse nada a dona Auricdia:
    -  ciumenta de fazer medo...
    Horcio encerrava o assunto:
    - Deixe disso, mulher. Todo mundo tem direito de se divertir uma vez que outra, de matar as
mgoas. . .
    Agora Virglio estava mais descansado. J sabia o porque da zanga de Ester, do ar forado de
indiferena, dos vestgios de lgrimas. O que no teria ela sabido atravs dessas incrveis
solteironas da cidade, essas beatas sem o que fazer se no falar da vida alheia? E desejava te-la
nos braos para lhe explicar, em meio a mil carcias, que Margot no representava nada para ele,
que danara com ela quase por acaso. Sentia uma imensa ternura por Ester e mesmo certa
vaidade de sabe-la triste por cimes. Na mesa, a criada serviu o caf.
    Horcio convidou Virglio a passar ao seu gabinete para conversarem um assunto. Maneca
Dantas foi com eles, ster ficou curvada sobre o crochet.
    O gabinete era uma pea pequena onde o grande cofre de ferro era o mvel que mais
chamava a ateno. Virglio sentou-se, Maneca Dantes puxou a cadeira de braos:
    - Essa  mais larga para minhas banhas...
    Horcio ficou de p, fazia um cigarro de palha. Virglio esperava, pensava que se tratasse de
algum detalhe jurdico do processo, sobre o qual Horcio quisesse a sua opinio. O coronel
demorava na fabricao do cigarro, rolando o fumo lentamente na mo calosa, raspando a palha
de milho com um canivete. Por fim falou:
    - Gostei de como o senhor contou o caso a Ester. Se no ela ia ficar assustada, ela lhe estima
muito, doutor. A pobre aqui no tem quase com quem conversar, tem uma educao muito
diferente das outras mulheres daqui. . . Gosta de conversar com o senhor, os dois falam a mesma
lngua...
    Virglio baixou a cabea e Horcio continuou, aps acender o cigarro que terminara de fazer:
    - Mas aqui para ns, doutor, esse negcio de ontem tem seu lado feio. O senhor sabe o que 
que Juca Badar anda dizendo por a?
    - No sei e, pra lhe falar a verdade, coronel, no me interessa. Os Badars no devem gostar
de mim e eu reconheo que tem razo. Sou advogado do senhor e, demais, advogado do partido.
 justo que eles falem mal de mim...
    Horcio ps o p em cima de uma cadeira, estava quase de costas para Virglio:
    - Isso  com o senhor, doutor. Eu no gosto de me meter na vida dos outros. S mesmo
quando  um amigo como o senhor.. .
    - Mas o que  que h? - quis saber Virglio.
    - O senhor no se d conta, doutor, que se o senhor no tomar uma atitude, ningum mais,
me desculpe dizer, vai levar o senhor a srio nessas terras. . .
    - Mas por que?
    - Juca Badar anda dizendo a Deus e ao mundo que arrancou uma mulher dos braos do
senhor, que lhe insultou e o senhor no reagiu. Que o senhor, me desculpe repetir,  um cago.
    Virglio empalideceu mas logo se controlou:
    - Quem assistiu ao incidente sabe que no houve nada disso. Eu j havia parado de danar,
esperava para ver se havia bis. Ainda assim, quando ele pegou no brao de Margot, eu quis
intervir, foi ela quem pediu que eu no me metesse. Depois, quando ele disse aquela bobagem foi
o coronel Maneca quem me segurou..
    Maneca Dantas interveio na conversa pela primeira vez:
    - E claro, doutor. Se eu tivesse deixado o senhor levantar a mo, a essa hora taria todo mundo
voltando do seu enterro. Juca j tava levando a mo ao revlver. E aqui ningum quer que o
senhor morra..
    Horcio disse:
    - Seu doutor, eu vim para essas terras era menino. Vai muitos anos que isso se sucedeu.. . No
sei de ningum que conhea Ilhus melhor que eu. Ningum quer que o senhor morra, o
compadre falou direito, muito menos eu que gosto do senhor e preciso do senhor. Mas tambm
no quero que o senhor fique desmoralizado por aqui, com fama de covarde... Por isso tou lhe
falando.
    Parou como se tivesse feito um longo discurso. Acendeu outro fsforo, ficou com ele na mo,
queimando, olhava com a cabea voltada para o advogado como esperando palavras suas.
    - O que  que o senhor acha que eu devo fazer?
    Horcio jogou no cho o fsforo que lhe queimava o dedo, a ponta do cigarro continuava
apagada, pequena, no lbio grosso:
    - Tenho um cabra a, homem de confiana. Na quinta-feira Juca Badar vai subir para a
fazenda, tou informado. Com cinquenta mil-ris o senhor resolve o assunto. . .
    Virglio no entendia direito:
    - Como?
    Foi Maneca Dantas quem explicou:
    - Por cinquenta mil-ris o homem faz o servio. Quinta-feira espera Juca na estrada, no h
santo que salve ele... E, depois, ningum mais se mete com o senhor. .
    Horcio animava:
    - E no h perigo porque os Badars vo dizer que fui eu quem mandou. Se houver processo
 comigo... Mas, por isso no se preocupe..
    Virglio levantou-se:
    - Mas isso no  coragem, coronel. Mandar um jaguno matar um homem, a sangue frio, isso
no  coragem... Se fosse eu me encontrar com Juca na rua, meter a mo no rosto dele, est certo.
. . Mas mandar um cabra dar um tiro? Pra mim isso no  coragem...
    - Aqui  assim doutor. E se o senhor pensa em fazer carreira aqui, deixe que eu chame o
cabra... Se no, no tem jeito. O senhor pode ser o melhor advogado do mundo, ningum vai
procurar o senhor...
    - E mesmo tem o partido... - disse Maneca Dantas.
    Virglio sentou-se de novo. Refletia. Nunca esperava por aquilo. Sabia que Horcio tinha
razo. Naquela terra mandar matar era coragem, fazia um homem respeitado. Sabia tambm que
no havia nenhuma trampa naquilo tudo. Se houvesse algum barulho com a justia a culpa seria
lanada em cima de Horcio. Mas apesar disso tudo, ele no via motivo para mandar assassinar
Juca Badar. Horcio falava:
    - Vou lhe dizer uma coisa, doutor, porque sou seu amigo. De qualquer maneira eu vou
mandar liquidar Juca Badar. J tava disposto a isso, ele matou quatro homens meus. . . -
emendou -. . . isso , seus homens mataram, mas aqui  como se ele tivesse matado. Tocou fogo
numa plantao de Firmo e atacou a casa de Braz. T fazendo estrepolias demais,  melhor
acabar de uma vez. Pra semana vou mandar derrubar o comeo da mata, Juca Badar no vai
assistir...
    Parou, mais uma vez acendeu o fsforo, pitou a ponta de cigarro. Olhou Virglio, sua voz era
pesada como socos:
    - S quero fazer um favor ao senhor. O senhor d a ordem ao cabra, e todo mundo vai saber,
mesmo que eu responda jri, que foi vosmec quem mandou liquidar Juca Badar. E ningum se
mete mais aqui com o senhor, nem com mulher sua... Vo lhe respeitar...
    Maneca Dantas bateu no ombro de Virglio, para ele era a coisa mais simples do mundo:
    - No custa nada dizer cinco palavras...
    Horcio concluiu:
    - Gosto do senhor, doutor,  um homem de saber. Mas aqui nessas terras, o saber s no
adianta pra ningum, seu doutor. . .
    Virglio baixou a cabea. O coronel ia mandar matar Juca, mas queria que fosse ele quem
desse a ordem ao jaguno, assim ele entraria para o rol dos homens valentes de Ilhus.. Pensou
em Ester na outra sala, fazendo croch, roda de cimes. Sonhava viver com ela, partir para
outras terras, uma terra civilizada, onde a vida humana valesse alguma coisa. Ir para longe dali,
daquelas matas, daqueles povoados, daquela cidade brbara, daquela sala onde os dois coronis
lhe aconselhavam para seu bem - para seu bem que ele mandasse matar um homem.. Fugir com
Ester e seriam outras as manhs de cada dia, mais belas as tardes, as noites sem outros queixumes
que os ais de amor. Noutras terras distantes...
   A voz de Horcio voltava a atravessar o gabinete:
   - Se resolva, doutor...

                                                4

    As chuvas longas do inverno eram pesadas, a gua cantava nos telhados, escorria pelos vidros
da janela. O vento do mar sacudia as rvores do quintal derrubando as folhas e os frutos verdes.
Ester fechou os olhos e viu a folha voando, rodando loucamente no ar, os pingos de chuva se
acumulando sobre ela, fazendo-a pesada, derrubando-a no cho. Essa viso lhe deu frio e ainda
mais sono e ela se apertou contra o amante, as pernas enfiadas por entre as dele, a cabea no seu
peito largo. Virglio beijou os cabelos formosos da mulher, depois cobriu mansamente com os
lbios os olhos de plpebras cerradas. Ester estendeu o brao nu, cingiu a cintura do amante. O
sono vinha chegando, cada vez mais pesado, o corpo cansado da violncia da posse recm-
terminada. Virglio tentou conversar ainda, contar-lhe casos, a voz apressada e nervosa. Queria
que ela no dormisse, que lhe fizesse companhia. Era meia-noite e a chuva no parava, cada vez
mais forte, com ela vinha o sono que amolecia o corpo de Ester. Virglio falava, relatava-lhe casos
acontecidos com ele quando estudante na Bahia. Falou mesmo em outras mulheres que haviam
passado em sua vida para ver se assim ela despertava, reagia contra o sono. Ester respondia por
monosslabos, terminou por virar de barriga para baixo no colcho, o rosto escondido no
travesseiro. Ainda murmurou:
    - Conte, amor...
    Mas ele logo viu que ela estava dormindo e ento sentiu todo o vazio das palavras que dizia,
frases sobre a vida na Faculdade. Vazias, totalmente vazias de sentido e de interesse. As gotas de
chuva escorriam pelo vidro da janela, Virglio pensou que eram como lgrimas. Devia ser bom
poder chorar, deixar que o sofrimento sasse pelos olhos, escorresse pelo rosto... Era assim que
Ester fazia. Quando soubera que ele danara com Margot no cabar, ela deixara que as lgrimas
corressem pelo rosto, e depois lhe fora muito fcil escutar as explicaes de Virglio, acreditar
nelas. Muita gente era assim, se consolava com as lgrimas. Mas Virglio no sabia chorar. Nem
mesmo quando recebera na rua a notcia de que o pai morrera no serto, de repente. E queria ao
pai com loucura, sabia do sacrifcio que custava ao velho mant-lo nos estudos, sabia do orgulho
que o pai sentia por ele. Nem nesse dia chorara. Ficara com um n na garganta, parado na rua,
onde o conhecido lhe entregara a carta da tia com a notcia. Um n na garganta mas nenhuma
lgrima nos olhos secos, terrivelmente secos, to secos que ardiam. Nenhuma lgrima... Pelos
vidros da janela escorrem as lgrimas da chuva, uma atrs da outra. Virglio pensou que a noite
chorava pelos mortos todos daquela terra. Eram muitos, s mesmo um temporal de chuva pesada
para atender a tanta morte violenta! Que fazia ele naquela terra, por que viera para ali? Agora era
tarde, havia Ester, s iria embora com ela. Quando viera, a ambio enchia-lhe o peito, via rios de
dinheiro, uma cadeira no parlamento, um futuro poltico, ele mane)ando toda essa zona frtil do
cacau. Nos primeiros tempos s pensou nisso e tudo ia bem, tudo como ele desejara: ganhava
dinheiro, os coronis confiavam nele, tinha xito como advogado, e a questo poltica marchava
bem, o governo estadual se afastava cada vez mais do federal e era certo, para quem tivesse viso,
que no tinha possibilidades de se manter no poder nas prximas eleies. Ou talvez mesmo
casse antes. Havia, na Bahia, quem falasse em interveno federal no Estado. Os seus chefes
estavam no Rio tramando negociaes, haviam sido recebidos pelo Presidente da Repblica, a
situao se esclarecia cada vez mais, havia grandes possibilidades de que ele fosse candidato a
deputado nas eleies do ano seguinte, e, se houvesse a mudana poltica, no restavam dvidas
quanto  sua eleio...
    Mas aparecera Ester e tudo aquilo deixou de ter importncia. S ela importava seu co o seus
olhos, sua voz, seus desejos, seu carinho por ele. Afinal podia tambm fazer carreira desde o Rio,
este havia sido seu pensamento inicial quando se formara em Direito. Se arranjasse um lugar num
escritrio de advocacia de boa clientela, no tardaria a ir para diante, aqueles tempos em Tabocas
e Ilhus de muito lhe haviam servido. Aprendera mais naquele ano e oito meses que nos cinco de
Faculdade. Costumavam dizer que "advogado de Ilhus" podia advogar em qualquer lugar do
mundo e era verdade. Ali todas as sutilezas da profisso se faziam necessrias, o conhecimento
completo das leis e da maneira de burlar as leis. Em qualquer parte Virglio teria, sem dvida,
grandes facilidades para triunfar, no era em vo que, em Ilhus, o consideravam j um dos
melhores advogados do foro. E claro que no seria to fcil e to rpido quanto ali, onde j tinha
nome feito e carreira poltica iniciada.. Rpido e fcil... Virglio demorou nas duas palavras que
pensara. Rpido, podia ser. Fcil no era... Seria fcil, por acaso, ter que mandar matar homens
para se fazer respeitado? Para poder subir no conceito de todos, poder fazer carreira poltica?
No era fcil... Pelo menos para ele, Virglio, educado noutra terra, noutros costumes, com outros
sentimentos. Para os coronis dali, para os advogados que haviam envelhecido naquela terra
tambm, para eles era fcil, para Horcio, para os Badars, para Maneca Dantas, para o Dr.
Genaro com toda sua cultura pernstica e sua seriedade de homem que no frequentava casa de
mulher da vida. Mandavam matar como mandavam podar uma roa, ou tirar uma certido de
idade no cartrio. Sim para eles era fcil e Virglio nunca havia se demorado em considerar o
estranho desse fato. S agora olhava com outros olhos para estes homens rudes das fazendas,
esses advogados manhosos da cidade e dos povoados, que calmamente, mandavam cabras
esperar inimigos na estrada, por trs de uma rvore. Sua ambio, primeiro, o amor de Ester e o
desejo de partir com ela depois, fizeram com que ele nunca se lembrasse de refletir sobre o
terrvel daqueles dramas que eram o quotidiano daquela terra. Fora preciso que ele se visse
obrigado a ter que mandar, ele tambm, matar um homem, para sentir a desgraa daquilo tudo, o
terrvel daqueles fatos, o quanto aquela terra pesava sobre os homens. Os trabalhadores nas roas
tinham o visgo do cacau mole preso aos ps, virava uma casca grossa que nenhuma gua lavava
jamais. E eles todos, trabalhadores, jagunos, coronis, advogados, mdicos, comerciantes e
exportadores, tinham o visgo do cacau preso na alma, l dentro, no mais profundo do corao.
No havia educao, cultura e sentimento que o lavassem. Cacau era dinheiro, era poder, era a
vida toda, estava dentro deles, no apenas plantado sobre a terra negra e poderosa de seiva.
Nascia dentro de cada um, lanava sobre cada corao uma sombra m, apagava os sentimentos
bons. Virglio no estava com dio nem de Horcio nem de Maneca Dantas, muito menos do
negro que sorria quando ele lhe ordenara tocaiar Juca Badar nessa noite de quinta-feira que
tanto custa a passar. Tinha dio era do cacau... Se revoltava porque se sentia dominado, porque
no tivera foras para dizer no e deixar que Horcio sozinho fosse responsvel pela morte de
Juca. No sabia mesmo como aquela terra, aqueles costumes, tudo que nascia junto com o cacau,
se haviam apossado dele. Uma vez em Tabocas esbofeteara Margot e foi quando se deu conta de
que havia outro Virglio que ele no conhecia, no era o mesmo dos bancos acadmicos gentil e
amvel, ambicioso, mas risonho, tendo pena das desgraas alheias, sensvel ao sofrimento. Hoje
era um homem rude, em que se diferenciava de Horcio? Era igual a ele, os sentimentos eram os
mesmos. Quando conhecera Ester, pensava que ia salv-la de um monstro, de um ser abjecto e
torpe. Mas que diferena havia? Eram os dois assassinos, mandantes de capangas, viviam os dois
em funo do cacau, do ouro dos frutos dos cacaueiros.
    A esta hora - pensa Virglio - Juca j ter recebido o tiro e ser apenas um cadver a mais nas
estradas do cacau, no ser, como os outros, enterrado junto a uma rvore, uma cruz tosca
lembrando o acontecimento. Juca  fazendeiro importante, o corpo vir para Ilhus, ser
enterrado com grande acompanhamento, Dr. Genaro deitar discurso no cemitrio, comparar
Juca com figuras histricas. Talvez o prprio Virglio v ao enterro, no  um fato novo nessas
terras que o assassino acompanhe o caixo da vtima. De alguns contam que at pegaram na ala
do caixo, o ar triste, a roupa negra de cerimnia. No, ele no ir ao enterro de Juca, como
poder fitar o rosto de dona Olga? Juca no era um bom marido, vivia metido com mulheres,
jogando pelos cabars, mas ainda assim dona Olga h de chorar e de sofrer. Como fit-la na hora
do enterro? No, o que ele tinha a fazer era ir embora, viajar para longe, onde nada lhe recordasse
Ilhus, o cacau, as mortes. Onde nada lhe recordasse aquela noite na casa de Ester, no gabinete
do coronel, quando Virglio disse que chamasse o cabra. Por que dissera sim, se no porque
estava irremediavelmente ligado quela terra, o desejo de levar Ester para longe no era mais que
um sonho, que se adiava sempre? Ligado quela terra, esperando, ele tambm, plantar roa de
cacau, esperando no fundo que Horcio morresse naqueles barulhos de Sequeiro Grande e ele
pudesse casar m Ester. S agora tambm se d conta de que esse foi um desejo que esteve
sempre no seu corao, que esperou cada dia a notcia da morte do coronel, derrubado por uma
bala de um homem dos Badars... Enquanto planejava um emprego no Rio, ganhar mais dinheiro
para partir, enquanto encontrava argumentos para demorar a fuga com Ester, estava apenas
esperando aquilo que considerava fatal: que os Badars mandassem matar Horcio e assim
terminar com o problema. Certa vez pensara nisso e procurou depois esquecer esse momento.
Pensara que se acontecesse Horcio morrer ele aconselharia a Ester a entrar num acordo com os
Badars para a diviso da mata de Sequeiro Grande e a terminao da luta. Naquela tarde
enganara a si mesmo dizendo que pensava no fato como um acontecimento provvel que no
podia faltar nos seus clculos de advogado da famlia. Mas agora, na cama, olhando as lgrimas da
chuva que deslizavam na janela, ele confessa que no tem feito nesses meses outra coisa que
esperar a notcia da morte de Horcio, um tiro no peito, um cabra que foge... Sim, nada mais lhe
resta que esta perspectiva. Agora no pode mais fugir daquela terra, agora est definitivamente
ligado a ela, ligado por um cadver, por Juca Badar que ele mandou matar. . . Agora  esperar
que, mais dia menos dia, chegue a vez do tiro de Horcio, do enterro dele. E ento ter Ester e
ter as propriedades e a mata de Sequeiro Grande tambm. Ser rico e respeitado chefe poltico,
deputado, senador, o que quiser. Falaro mal dele nas ruas de Ilhus mas o cumprimentaro
servilmente? se curvaro diante dele. No havia outro jeito... No adiantava pensar em fugir, em
ir para longe, em recomear a vida. Para onde quer que fosse levaria consigo a viso de Juca
Badar caindo do cavalo, a mo tapando a ferida, viso que Virglio v refletida no vidro da janela
onde a gua corre. V atravs de seus olhos, secos, sem lgrimas, pensa que seco est seu corao
tambm, coberto pela sombra do cacau.
    No adianta mais pensar em fugir, agora seus ps esto presos ao visgo daquela terra, visgo de
cacau mole, visgo de sangue tambm. Nunca mais ser possvel sonhar outra vida diferente.
Agora ele era tambm um grapina, definitivamente um grapina. "No  mais possvel sonhar,
Ester."
    Seus olhos secos, suas mos tremulas, seu corao dodo. Ester ressona na noite fresca de
chuva. Nessa noite de quinta-feira, na estrada de Ferradas, um homem derrubou Juca Badar do
seu cavalo. Virglio se abraa  mulher. ster semi-adormecida sorri:
    - Agora no, amor.. .
    E a angstia aumenta, ele veste a roupa quase correndo, sente uma necessidade de deixar que
a chuva caia sobre ele sobre sua cabea ardente, lave suas mos sujas de sangue, lave seu corao
manchado. Se esquece de descer em passos cuidadosos para no acordar as empregadas. E sai
pelo quintal, no leito da estrada de ferro arranca o chapu e deixa que a chuva escorra sobre o seu
rosto, como se fossem as lgrimas que ele no chorou.

                                                5

   Mas no havia motivo nem para tamanha angstia de Virglio, nem para a alegria que Dr. Jess
pensava descobrir no rosto de Horcio que pousava naquela noite em sua casa em Tabocas. O
coronel, desde que os barulhos de Sequeiro Grande haviam comeado, desistira de viajar  noite,
pelas estradas, apesar dos homens que o acompanhavam. Como no pudera seguir para a fazenda
 tarde, alguns negcios o haviam retido em Tabocas, deixou para sair na manh seguinte e se
divertiu no fim da tarde assistindo s consultas do Dr. Jess. Ficara no consultrio do medico que
atendia aos enfermos. E, como quase todos eles eram conhecidos e eleitores seus, Horcio no
estava perdendo tempo. Tinha uma frase para cada um, perguntava pelos negcios, pela vida,
pela famlia. Sabia ser amvel quando queria, e naquele dia se sentia particularmente alegre, alegria
que aumentava  proporo que a tarde caa. Da janela do consultrio, ele vira Juca Badar, de
botas e esporas, andando pelas ruas de Tabocas, saindo da loja de ferragens de Azevedo. Sorriu
satisfeito, demorou olhando a figura nervosa do inimigo. A esta hora o cabra que ele mandara
estaria andando para a tocaia no caminho de Ferradas. Custara ao Dr. Virglio decidir. Horcio
gostava do advogado e estava certo de que lhe prestava um verdadeiro favor ao lhe dar a fama,
sem os perigos, da liquidao de Juca Badar. Saiu da janela para cumprimentar a mulher de
Slvio Mozinha, dona de uma pequena propriedade para os lados de Palestina, um dos braos
fortes de Horcio naquela zona. A mulher vinha em busca do Dr. Jess, havia baixado da roa
nesse dia, trazendo o marido que se consumia de febre. Paravam na casinha que possuam do
outro lado do rio. A mulher estava alarmada com o estado do marido. Fora preciso traze-lo numa
rede, Slvio no aguentara montar.
    Horcio acompanhou o Dr. Jess, ajudou a suspender o doente na cama enquanto o mdico
examinava. Ofereceu seus prstimos  mulher, perguntou se ela no precisava de dinheiro. Dr.
Jess sabia que Horcio era amvel com seus eleitores, com seus amigos, mas achava que nesse
dia ele estava exagerando. Pois se o coronel at no quis sair, ficou ajudando a mulher a por o
urinol para o doente, a mudar-lhe a roupa pegajosa de suor, a lhe dar remdios que haviam
mandado buscar na farmcia! Ao sair, Dr. Jess puxou o coronel para um lado, lhe avisou:
    -  um caso perdido. . .
    - No me diga. .
    O mdico no tinha esperana:
    - Essa febre se no se atalha logo, no adianta. Ele no passa de hoje.. E o senhor deve vir
comigo e tomar um banho, lavar as mos com lcool. Essa febre no brinca para pegar...
    Mas Horcio rira e se demorara na casa de Slvio at a hora do jantar, prometendo voltar
depois. E s antes de sentar  mesa  que lavou as mos, rindo dos receios do Dr. Jess, dizendo
que a febre o respeitava. Dr. Jess se demorou em explicaes cientficas, aquela febre
desconhecida era uma das suas preocupaes. Matava em poucos dias, no havia remdio para
ela. Mas nada alterava a alegria de Horcio nessa noite. To alegre estava que voltou  casa de
Slvio para ajudar ao doente. E foi ele quem veio correndo chamar o Dr. Jess na hora em que o
homem entrou em agonia. No caminho avisou ao padre. Quando chegaram Slvio j estava
morto, a mulher chorava pelos cantos. Horcio se lembrou que quela hora Juca Badar j estaria
tambm morto, estirado na estrada, os olhos abertos e fixos como os de Slvio. Ofereceu  viva
pagar as despesas do enterro e ajudou a mudar a roupa do morto.
    Mas a verdade  que Horcio se alegrava sem motivo e Virglio sofria tambm sem motivo. O
motivo dessa alegria e desse sofrimento, Juca Badar, cavalgava para a fazenda, na estrada tinha
ficado o cadver do homem que fora esper-lo na tocaia. E, dobrado no burro que montava e
que era levado pela rdea por Virglio, ia Antnio Vtor ferido, que salvara, pela segunda vez, a
vida do seu patro. Desta vez por acaso. Quando j o cabra na tocaia preparava a sua repetio
para o tiro, o ouvido atento aos passos da cavalhada que se aproximava, os olhos fitos no
cavaleiro que vinha na frente e em quem ele reconhecera Juca Badar, quando o homem ia levar
a repetio ao ombro para firmar a pontaria, Antnio Vtor percebera um rumor levssimo ao
lado da estrada, e, pensando que fosse alguma paca ou algum tatu, dirigiu o burro para dentro do
roado, o revlver na mo para levar a caa morta de presente para Don'Ana. Viu o cabra
levantando a arma. Atirou imediatamente, mas errou. O homem se voltou ento para ele, e
acertou o tiro na perna de Antnio Vtor que s no o recebeu no peito porque estava saltando
do burro. Com o rudo dos tiros, Juca e Viriato se aproximaram e o cabra no teve tempo de
fugir. Antes de mat-lo e antes mesmo de atender a Antnio Vtor, Juca apertou o homem com
perguntas:
    - Diga quem foi e eu lhe deixo ir em paz...
   O cabra confessou:
   - Foi Dr. Virglio mais o coronel Horcio...
   Quando ele j se afastava, Viriato suspendeu a repetio, o claro do tiro iluminou a noite, o
homem caiu para a frente. Juca, que estava amarrando a perna de Antnio Vtor com um trapo
arrancado da sua prpria camisa de seda, ao ouvir o tiro, se levantou:
   - No disse que ele podia ir em paz? - gritou irritado.
   Viriato se desculpou:
   - E um de menos, patro...
   - Eu devia lhe ensinar a me obedecer. Quando eu digo uma coisa  para ela ser feita. Palavra
de Juca Badar no volta atrs.
   Viriato baixou a cabea sem responder. Andaram at o homem, ele acabava de morrer. Juca
fez uma careta de aborrecimento:
   - Venha ajudar - disse a Viriato.
   Puseram Antnio Vtor em cima do burro, Viriato tomou da rdea, seguiram a passo. Assim
chegaram  fazenda, onde as placas de querosene ainda acesas revelavam a inquietao de Sinh
que esperava o irmo muito mais cedo. Saram todos para o terreiro, vieram jagunos e
trabalhadores, ajudaram Antnio Vtor a desmontar. Havia uma confuso de perguntas, de gente
que se apertava para atender ao ferido. O prprio Sinh Badar pegou nos ombros de Antnio
Vtor para lev-lo para dentro. Deitaram-no sobre um banco. Don'Ana gritou por Raimunda
pedindo lcool e algodo. Ao ouvir o nome da mulata, Antnio Vtor voltou a cabea. E somente
ele e Don'Ana notaram que as mos de Raimunda tremiam quando ela entregou o pacote de
algodo e a garrafa de lcool. Ficou depois ajudando Don'Ana nos curativos (a bala apenas
rasgara a carne, sem atingir nenhum osso) e suas mos rudes e pesadas se tornaram delicadas e
ternas, tambm elas eram suaves mos de mulher. Para Antnio Vtor eram muito mais doces,
ternas e suaves, que as mos leves e finas de Don'Ana Badar.

                                                  6

    Na manh de sol claro e brando, a mulata Raimunda entrou na casa dos trabalhadores. Trazia
uma garrafa de leite, trazia po que Don'Ana mandava para Antnio Vtor. A casa estava vazia,
os trabalhadores andavam pelas roas colhendo cacau. Antnio Vtor dormia um sono inquieto
de febre. Raimunda parou ao lado da cama, contemplou o homem que dormia. A perna amarrada
de curativo saa de baixo da colcha velha, mostrando o p enorme, coberto de visgo de cacau que
havia secado. Nessa tarde, ele no a esperaria na beira do rio para ajud-la a levantar a lata d'gua.
Raimunda sente medo. Ser que ele vai morrer? Sinh Badar disse que a ferida  sem
importncia, que, com trs ou quatro dias, Antnio Vtor estar de p pronto para outra. Mas,
ainda assim, Raimunda tem medo e, se o negro Jeremias no tivesse morrido, ela se atreveria a
atravessar a mata e ir em busca de um remdio do feiticeiro. Aquele remdio de farmcia, que
est ao lado do jirau do doente e que ela tem que lhe dar agora, no merece a confiana de
Raimunda. Ela sabe uma orao contra febre e mordida de cobra que sua me lhe ensinou na
cozinha da casa-grande. Junta os joelhos no cho e reza, antes de acordar Antnio Vtor para lhe
dar o remdio:

   "Febre maldita, trs vezes te enterro nas profundezas da terra. A primeira em nome do Padre;
a segunda em nome do Filho; a terceira do Espirito Santo; com as graas da Virgem Maria e a de
Todos os Santos. Te esconjuro, febre maldita e mando que tu volte pras profundezas da terra
deixando meu..."

     Segundo a negra velha Risoleta ao chegar a era preciso dizer o parentesco do doente com a
pessoa que pedia: "meu irmo", "meu marido", "meu pai", "meu patro. Raimunda ficou um
instante indecisa. Talvez se no fosse to grave e se ele no dormisse, talvez a mulata Raimunda
no continuasse a orao:

   ". . . deixando meu homem curado de todos os males, amm".

    Acordou Antnio Vtor. Seu rosto estava novamente zangado, seus modos bruscos:
    - E hora do remdio. .
    Segurou a cabea dele sob seu brao rolio. Antnio Vtor engoliu a colherada da medicao,
olhava Raimunda com os olhos febris. A mulata andou para aquilo que era chamado de fogo:
trs pedras em meio das quais estavam umas brasas apagadas e uns pedaos de madeira meio
queimados. Em cima, uma lata com um pouco de gua. Jogou a gua fora, derramou o leite na
lata, acendeu o fogo. Antnio Vtor a acompanhava com os olhos. No sabia como comear.
Raimunda acocorou-se ao lado do fogo, esperando que o leite fervesse. Antnio Vtor se decidiu
e chamou:
    - Raimunda!
    Ela virou a cabea, olhando.
    - Vem c.
    Veio de m vontade, com passos pequenos, demorados.
    - Sente aqui - pediu ele fazendo lugar no jirau.
    - No.
    Antnio Vtor olhou para a mulata, reuniu foras, perguntou:
    - Tu quer casar comigo?
    Ela ficou mais zangada ainda. Fechou o rosto, as mos pegavam nas pontas da saia, olhava o
cho de barro batido. No respondeu, correu para o leite que fervia:
    - Quase derrama.
    Antnio Vtor se derreou na cama, cansado do esforo. Ela agora fervia gua para o caf,
servia numa caneca, molhou o po para ele no ter trabalho. Depois lavou a caneca, apagou o
fogo:
    - Na hora do almoo eu volto.
    Antnio Vtor no dizia nada, s a olhava. Antes de sair, ela parou de novo ante ele, os olhos
novamente no cho, novamente as mos ocupadas com a saia, o rosto zangado, zangada a voz
tambm:
    - Se padrinho Sinh deixar, eu quero, sim. . .
    E desapareceu pela porta, Antnio Vtor sentiu a febre aumentar.

                                                7

    Juca Badar acabara de combinar com Sinh os ltimos detalhes da derrubada da mata. Na
segunda-feira comeariam. J haviam sido escolhidos os homens, os que iam derrubar a floresta,
iniciar as queimadas, e os que iam garantir, com suas repeties, o trabalho dos outros.
    - Segunda-feira me toco pra mata. . .
    Sinh estava sentado na sua alta cadeira austraca. Juca ainda tinha o que dizer, Sinh
esperava:
    - Bom caboclo esse Antnio Vtor. . .
    - E boa coisa... - assentiu Sinh.
    Juca riu:
    - Essa gente  engraada. Fui l conversar com ele. E a segunda vez que ele me tira de um
apuro... Primeiro foi em Tabocas, tu lembra?
    - Me lembro...
    - Ontem, de novo. Fui l perguntar o que ele queria. Disse que pensava em lhe dar aquele
pedao de terra que restou da queimada do ano passado e que no foi plantado ainda. Nos lados
do Repartimento. Terra boa, ali d uma roa grande. Sabe o que ele disse?
    - Que foi?
    Juca riu de novo:
    - Disse que s queria uma coisa. Que tu deixasse ele casar com Raimunda. Ora, j se viu...
Tem cada uma... Vou dar terra ao desgraado e ele prefere essa bruxa horrorosa. . . Eu prometi
que tu ia consentir...
    Sinh Badar no fez objeces:
    - E quando ele casar fica com a terra tambm. Quando tu for em Ilhus de ordem a Genaro
pra registrar no cartrio. E um mulato bom... E Raimunda tambm tem direito, prometi a nosso
pai que no deixaria ela deserdada quando ela fosse casar. Dou meu consentimento.
    Ia levantar a voz chamando Raimunda e Don'Ana para dar a notcia quando um gesto de Juca
o fez parar.
    - E que eu tenho outro pedido de casamento a fazer. . .
    - Outro? Tu agora virou Santo Antnio dos trabalhadores?
    - Dessa vez no  trabalhador, no. . .
    - E quem ?
    Juca procurava uma maneira de entrar no assunto:
    - E engraado... Raimunda e Don'Ana so da mesma idade, mamaram as duas nos peitos da
negra Risoleta... Cresceram juntas, era bom que casassem juntas..
    - Don'Ana? - Sinh Badar apertou os olhos, passou a mo na barba.
    - E o capito Joo Magalhes. Me falou agora em Ilhus :. . Parece um homem direito. . .
    Sinh Badar fechou os olhos. Quando os reabriu, falou:
    - J tava vendo que ia dar em coisa... Bem que vi Don'Ana toda assanhada no lado do capito.
Aqui e n procisso. . .
    - Que tu acha?
    Sinh refletia:'
    - Ningum conhece ele direito... Diz que  no sei quanta coisa no Rio, que faz e acontece,
mas ningum conhece ele direito. Tu que sabe?
    - No sei mais que tu: Mas acho que no tem nada. Aqui tudo  de novo, Sinh, tu bem sabe.
Aqui tudo comea e depois  que se vai medir o homem. Pra trs, quem sabe o que ficou? O que
t pra frente  que vale. E o capito me. parece um homem capaz de se jogar nessa vida com
coragem. . .
    - Pode ser. . .
    - Mediu as terras sem ter registro do ttulo dele, eu sei que foi pelo dinheiro, no foi por
amizade. Mas Don'Ana ele no quer pelo dinheiro,  por amizade. Eu conheo as pessoas to
bem como conheo as terras... Ele t querendo casar, pode ser que no tenha um vintm, seja
limpo, e v comear. Mas vai com coragem,  melhor que outro que queira e descansar. . .
    Sinh refletia, os olhos semicerrados, as mos alisando a barba negra. Juca continuou:
    - Tem uma coisa, Sinh. Tu s tem essa filha, eu no tenho filho nenhum, a no ser na rua,
filho que no leva meu nome. Olga no serve pra parir, o mdico j disse. Um dia desse eu fico
derrubado com um tiro, tu sabe que vai ser assim. Inimigo me sobra... No vou chegar no fim
desses barulhos... E, depois, quando tu tiver velho, qual  o Badar que vai colher cacau, que vai
eleger o intendente de Ilhus? Qual ?
    Sinh no respondia, Juca completou:
    - Ele  um homem como a gente. . . Quem sabe se no  s um jogador? Talvez que seja, j
me disseram. E isso tudo  um jogo, jogo com barulho no fim, a gente precisa de um homem
assim... Um que possa tomar meu lugar quando me liquidarem.. .
    Andou pela sala, pegou do rebenque que estava sobre um banco, batia nas botas:
    - Tu podia casar ela com um doutor, que adiantava? Ia comer os lucros do cacau, nunca mais
plantava raa, nunca mais derrubava mata. Ia gozar pelo mundo o que nunca gozou. O capito j
fez isso tudo, agora quer  plantar roa. o isso  que acho bom. . .
    Raimunda entrou na sala para varre-la, um gesto de Sinh a expulsou. Juca narrava:
    - Disse a ele: s tem uma coisa, capito. Quem casar com Don'Ana tem que levar o nome
dela.  ao contrrio de todo mundo que o homem d o nome  mulher. Quem casar com
Don'Ana tem que virar um Badar...
    - E ele que disse?
    - Primeiro no gostou, no. Disse que os Magalhes tinham feito e acontecido. Depois,
quando viu que no tinha jeito, disse que sim.
    Sinh Badar gritou para dentro:
    - Don'Ana! Raimunda. Venham c!
    Chegaram as duas. Don'Ana parecia desconfiada do que conversavam seu pai e seu tio.
Raimunda trazia a vassoura na mo, pensava que a chamavam para varrer a sala. E foi a ela que
Sinh se dirigiu primeiro:
    - Antnio Vtor quer casar com voc... Eu disse que sim. Dou as terras que to por trs das
roas do Repartimento de dote. Tu quer?
    Raimunda no vinha para onde olhar:
    - Se padrinho acha bom...
    - Ento v se preparando pro casamento. Vai ser logo pra no dar tempo de se perder antes...
Pode ir pra dentro.
    Raimunda saiu. Sinh chamou Don'Ana para mais perto da sua cadeira.
    - Mandaram pedir tambm tua mo, minha filha. Juca acha bom, eu no sei que achar... Foi
esse capito que teve aqui. . . Que tu acha?
    Don'Ana estava igual a Raimunda na frente de Antnio Vtor. Os olhos no cho, as mos na
saia, sem jeito para falar:
    - Foi o capito Joo Magalhes?
    - Esse mesmo. Tu gosta dele?
    - Gosto, sim, pai.
    Sinh Badar cofiou a barba lentamente:
    - Pegue a Bblia, vamos ver o que ela diz..
    Ento Don'Ana tirou os olhos do cho, as mos da saia, sua voz era forte e decidida.
    - Diga o que disser, meu pai, eu s me caso com um homem no mundo:  com o capito.
Mesmo que seja sem sua bno...
    Disse e se jogou aos ps do pai, abraando suas pernas.

                                               8

    Dr. Jess largou a representao no meio, os amadores do Grupo Taboquense ficaram sem
seu director que era tambm o ponto. Isso estragou um pouco o espetculo j que alguns artistas
no sabiam perfeitamente as suas partes, declamavam com a ajuda do ponto. O que no teve
grande importncia, porque a populao de Tabocas pouco se demorou a comentar a
representao de "Vampiros Sociais", inteiramente entregue que ficou  comoo da notcia
trazida pelo homem que viera buscar o Dr. Jess: Horcio estava doente, derrubado pela febre.
Dr. Jess abandonara o espetculo pelo meio, reunira na maleta medicamentos vrios e montara
em seguida. O cabra o acompanhou, mas a notcia ficou, correu pelas filas de espectadores de
boca em boca. E, no outro dia, quando s onze horas Ester desembarcou do trem e, na estao,
sem almoar sequer, montou no cavalo que a esperava, cercada pelos cabras que haviam vindo
busc-la, j toda Tabocas sabia que Horcio pegara a febre quando atendia a Slvio que morrera
fazia trs dias. A viva de Slvio iniciava uma novena pelo restabelecimento de Horcio "um
homem to bom", dizia. Virglio acompanhara Ester at Tabocas, indiferente aos comentrios,
mas no foi para a fazenda de Horcio nesse dia. Subiria se o coronel piorasse. Agora ele tambm
usava revlver, desde que soubera que Juca Badar escapara da tocaia. Tabocas vivia na espera de
cada portador que chegava da fazenda em busca de remdios. O consultrio do Dr. Jess estava
fechado e sua esposa avisava aos clientes que o "doutor s voltaria quando o caso do coronel
Horcio tivesse se decidido". Frase que era traduzida pelos moradores como um aviso de que Dr.
Jess s voltaria acompanhando o cadver de Horcio, pois ningum escapava daquela febre.
Citavam casos, eram inmeros, trabalhadores e coronis. doutores e comerciantes. Circulavam
mais uma vez, entre as beatas, aquelas histrias do diabo preso numa garrafa saindo um dia para
levar consigo a alma de Horcio. Diziam que Frei Bento j viajara de Ferradas para a fazenda,
levando a extrema-uno para Horcio, pronto para confess-lo e absolve-lo dos pecados.
    Mas Horcio no morreu. Sete dias depois a febre comeou a diminuir at cessar
completamente. Mais que as medicaes do Dr. Jess, talvez o tenha salvo o seu corpo forte, de
homem sem vcios e sem enfermidades, de rgos perfeitos. E, mal a febre comeou a abandon-
lo, ele ordenou que seus homens iniciassem a derrubada da mata de Sequeiro Grande. Virglio foi
chamado  fazenda, o coronel queria consult-lo sobre detalhes jurdicos. Viera antes uma vez, o
coronel delirava, sua febre cheia de vises de cacau, matas se derrubando, roas que eram
plantadas. Dava ordens aos gritos, plantava e colhia cacau no seu delrio. Ester no abandonava a
cama do enfermo, estava magra, era de uma dedicao sem limites. Quando Virglio chegara, da
primeira vez, ela apenas lhe perguntou se sabia notcias do filho que ficara em Ilhus, ele no
conseguiu quase v-la s. E quando a viu e a beijou, foi por um momento, quando ela voltava da
cozinha para o quarto com uma bacia de gua quente. Pouco se falavam e Virglio sofrera como
se tivesse sendo trado. Mas tambm ele tinha os olhos cobertos por certa inquietao, se sentia
culpado da doena de Horcio, da sua morte que encontrava inevitvel, como se o coronel
houvesse adoecido devido aos seus desejos. Compreendia que Ester sentia a mesma coisa, mas,
ainda assim, aquilo lhe doa como uma traio.
    Quando Horcio, j fora do perigo; o mandou chamar, ele procurou se mostrar triste como
Ester, tinha a fisionomia cansada e abatida. No quarto onde, sobre os alvos lenis, o coronel
estava vestido com o seu camisolo, Ester se destacava, sentada na cama, uma mo de Horcio
entre as suas. Horcio nunca se sentira to feliz como no fim dessa febre, que lhe provara a
dedicao da esposa. E isso o fazia ativo, dando ordens no s aos trabalhadores como a Maneca
Dantas e a Braz que, naquele dia, o haviam vindo visitar. Virglio entrou no quarto, abraou o
coronel por cima da cama, apertou friamente a mo de Ester, abraou Maneca Dantas, deu os
parabns a Jess "pelo seu milagre". Mas Horcio riu:
    - Abaixo de Deus quem me salvou foi essa aqui, seu doutor - mostrava Ester ao seu lado.
    Depois se desculpava com o Dr. Jess.
    -  claro que o compadre fez tudo, remdio, tratamento, o diabo. Mas se no fosse ela que
no dormiu esse tempo todo, eu nem sei...
    Ester levantou-se, saiu do quarto. Virglio, sem o notar, ocupou o lugar que ela deixara vago
na cama. Sentou-se sobre o calor que restara da amante e uma sbita raiva de Horcio tomou
conta dele. No morrera... Virglio deixou por um momento que os seus mais remotos e
escondidos pensamentos viessem at seu corao. No morrera... Ah! se ele pudesse mandar
mat-lo...
    Durante alguns minutos nem prestou ateno ao que conversavam, todo entregue aos seus
pensamentos. Foi preciso uma pergunta de Maneca Dantas para cham-lo  conversa:
    - Que acha, doutor?
    Encontrou Ester, depois para os lados da barcaa. Ela se abraou nele, soluava:
    - Tu no achas que eu devia fazer assim? No podia ser de outro modo.
    Se comoveu, acariciou o corpo amado por cima dos vestidos. Beijou-lhe os olhos, as faces,
interrompeu alarmado:
    - Tu ests com febre!
    Ela disse que no, era cansao. Beijou-o muito, pediu-lhe que ficasse naquela noite, ela
conseguiria ir ao quarto dele nas suas idas e vindas pela casa, atendendo ao doente. Ele prometeu,
comovido e saudoso das carcias dela, s a deixou quando viram o grupo de trabalhadores que
vinha pela estrada.
    Mas, na hora do jantar, Ester j no suportou estar ali sentada, comendo. Se queixou de
arrepios de frio, saiu s pressas para vomitar. Virglio voltou-se muito plido para o Dr. Jess:
    - Ela pegou a febre.
    O mdico se levantou, andou para dentro, Ester estava trancada na latrina. Virglio se levantou
tambm, pouco se importava com Maneca Dantas e com Braz. Ficou ao lado do mdico no
corredor. Ester abriu a porta, seus olhos ardiam, Virglio pegou no brao dela.
    - Ests sentindo alguma coisa?
    Ela sorriu meigamente, apertou de leve a mo dele:
    - No  nada, no.. . S que no aguento em p. Vou deitar um pouco. Depois volto...
    Ainda deu uma ordem a Felcia, entrou para o quarto onde Virglio dormira naquela noite
distante da sua primeira visita  fazenda, deitou na cama, ele ficou olhando do corredor. Dr. Jess
entrou tambm, pediu licena, fechou a porta do quarto. Em frente, Horcio queria saber que
movimento era aquele. Virglio entrou no quarto do coronel anunciou com voz entrecortada:
    - Ela pegou a febre tambm...
    Quis dizer mais alguma coisa e no pode, ficou olhando Horcio. O coronel arregalou os
olhos, a boca semi-aberta, tambm ele queria dizer alguma coisa e tambm ele no podia. Estava
como um homem que rolasse solto no ar e no visse nada em que se pegar. Virglio teve vontade
de abra-lo, de se lastimar com ele, de chorarem os dois juntos, dois desgraados. . .

                                                9

   Os comentrios eram unnimes em Ilhus: os Badars levavam evidente vantagem nos
barulhos pela posse de Sequeiro Grande. E no eram s os comentrios das velhas beatas, nas
sacristias das igrejas, que o afirmavam. Os entendidos, nos botequins, at os advogados no foro,
estavam de acordo que os irmos Badars tinham a partida quase ganha, para o que concorrera
em muito a enfermidade de Horcio. O processo estava parado no foro, atravancado com
peties opostas pelo Dr. Genaro e reconhecidas pelo juiz. E Juca Badar havia entrado pela
mata e abrira clareiras na zona que limitava com a fazenda Sant'Ana, iniciando as queimadas.
   E verdade que tiroteios se sucediam, que o coronel Maneca Dantas por uma arte e arde, Braz,
Firmo, e Z da Ribeira e os demais pequenos lavradores da vizinhana, por outra parte, faziam o
possvel para dificultar o trabalho dos homens dos Badars. Maneca Dantas armou uma tocaia
para os trabalhadores que iam derrubar um pedao da mata, que resultou num tiroteio grande.
Braz invadiu com alguns homens o acampamento na beira da mata, numa noite em que Juca no
estava. Mas, apesar disso, o trabalho prosseguia, os Badars se estabeleciam na mata.
   E revidavam com violncia os ataques da gente de Horcio. Enquanto Juca acompanhava e
guardava os trabalhadores, Teodoro das Baranas atacava. Apareceu uma noite na roa de Jos
da Ribeira, incendiou o depsito de cacau seco botando a perder duzentas e cinquenta arrobas de
cacau j vendido, incendiou a casa-grande, matou um trabalhador que deu o alarme, iniciou um
incndio nas plantaes de mandioca, dificilmente dominado depois por Z da Ribeira.
   Em Ilhus j se dizia que Teodoro das Baranas, depois que incendiara o cartrio de
Venncio, tomara amor aos incndios. Para a "Folha de Ilhus" ele passou a ser exclusivamente o
"incendirio". O Dr. Rui escreveu um clebre artigo em que comparava Teodoro a Nero,
cantando depois do incndio de Roma. Jos da Ribeira e seus trabalhadores eram comparados
aos "primeiros cristos", vtimas da loucura criminosa e sanguinria do novo Nero, "mais
monstruoso ainda que o degenerado imperador romano". De todos os artigos publicados durante
os barulhos de Sequeiro Grande, este foi que obteve maior sucesso, chegou a ser transcrito pelo
dirio da oposio na Bahia sob o ttulo de "Os crimes dos governistas em Ilhus". Foi iniciado
um processo contra Teodoro.
   Mas, o que em definitivo tornou os comentrios favorveis aos Badars foi o fato de Horcio
no ter podido, mesmo quando melhorou, iniciar a derruba da mata do lado em que esta limitava
com sua fazenda. Havia quem atribusse a pouca energia de Horcio  doena de Ester, mas,
fosse como fosse, a verdade  que os trabalhadores e os jagunos enviados pelo coronel haviam
voltado uma e duas vezes sem conseguir se estabelecer na mata e iniciar a abertura das clareiras
para as queimadas. Desta vez fora o prprio Sinh Badar quem chefiara os homens que haviam
acometido por duas noites seguidas, contra o acampamento chefiado por Jarde. Os trabalhadores
de Horcio terminaram por abandonar a empresa. Apenas Braz, com alguns homens seus, abria
uma pequena clareira nos seus limites com a mata e iniciava uma queimada, mas coisa reduzida,
infinitamente menor que as queimadas j feitas pelos Badars.
    Ainda assim havia quem apostasse em Horcio. Estes baseavam-se principalmente na maior
fortuna do coronel, homem de muito dinheiro no Banco, capaz de sustentar a luta por muito
tempo. No s a derruba e o plantio da mata comiam dinheiro, como tambm, e mais que tudo,
o comiam os jagunos em armas. Sem esquecer que Sinh Badar se preparava para casar a filha
e a queria casar com todo luxo, mandava vir uma multido de coisas do Rio de Janeiro, estava
reformando por completo sua casa em Ilhus, acrescentando toda uma ala onde o novo casal ia
residir, pintando de novo tambm a casa-grande da fazenda. Trabalhavam costureiras,
trabalhavam mulheres que faziam rendas, o casamento da filha de um coronel era um
acontecimento. A moa tinha que levar roupa para muitos anos, roupa de cama que serviria
depois para filhos e netos. Colchas, lenis e cobertores, fronhas e toalhas de mesa, ricamente
bordadas. Portadores foram ao serto para comprar as rendas mais finas. O dinheiro saa fcil,
fosse para pagar jagunos encarregados de matar, fosse para pagar costureiras e sapateiros que
vestiam e calavam a noiva. Em Ilhus se falava nesse casamento quase tanto como nos barulhos
de Sequeiro Grande. Joo Magalhes deixara a cidade, andava pela fazenda ajudando Juca na
derruba da mata, de quando em vez baixava a Ilhus, formava sua rodinha no cabar, ia juntando
dinheiro no pquer Na fazenda no tinha despesa, fazia economias.
    Porm vrias pessoas sabiam que o dinheiro da safra deste ano, Sinh Badar j o havia gasto
quase todo. Maximiliano contava aos ntimos que o coronel j propusera mesmo vender
adiantado, por preos bastante mais baixos, a safra do ano seguinte. Enquanto que Horcio no
vendera sequer metade do seu cacau j colhido nesta safra. Ainda assim eram poucas as pessoas
que apostavam em Horcio. A maioria era pelos Badars, no viam possibilidade deles perderem,
e por isso mandavam fazer roupa nova para comparecer ao casamento de Don'Ana. As beatas e
as mulheres casadas, se reuniram pelas tardes na casa de Juca Badar, onde Olga exibia a riqueza
dos vestidos chegados do Rio, das anguas de cambraia bordadas, das camisas de dormir que
eram um sonho. Mostrava os espartilhos elegantssimos, as rendas finas vindas do Cear. As
bocas se abriam em "ohs" de admirao. Havia coisas que Ilhus nunca tinha visto,
num requinte que afirmava o poder da famlia Badar.
    E, quando Sinh atravessava as ruas estreitas da cidade, o rosto melanclico emoldurado na
barba negra, os comerciantes se dobravam em cumprimentos e o mostravam aos caixeiros-
viajantes chegados da Bahia ou do Rio de Janeiro
    -  o dono da terra... Sinh Badar.

                                                10

   Ester morreu numa manh clara de sol, quando os sinos repicavam na cidade, convidando os
habitantes para uma missa festiva. A doena havia-lhe comido quase toda a beleza, o cabelo cara,
era um fantasma da formosa mulher que fora antes, os olhos saltando no rosto magro, certa de
que ia morrer e desejando viver. Na fazenda, nos primeiros dias da febre, teve delrios horrveis,
encharcava os lenis de suor, falava palavras soltas, certa vez se abraou a Horcio gritando que
uma cobra estava enrolada no seu pescoo e a ia estrangular. Maneca Dantas, que estivera uns
dias na fazenda de Horcio e que tinha grandes suspeitas acerca das relaes entre Virglio e
Ester, tremia de medo que ela falasse no advogado durante as noites de febre. Mas, ela no
parecia ver nada mais que as cobras nos charcos da mata, silenciosas e traioeiras, prontas para o
bote em cima de uma r inocente. E gritava e sofria, afligia todos os assistentes, a mulata Felcia
chorava.
    Dr. Jess, quando viu que a febre no cedia, aconselhou que Ester fosse transportada para
Ilhus. Foi uma cena triste quando a rede saiu da fazenda no ombro dos trabalhadores. Dr. Jess
disse a Virglio, quando montava:
    - At j parece enterro... Coitada da comadre...
   Horcio acompanhou a esposa. Iam calados os trs, Virglio no tinha palavras desde que ela
adoecera. Andava mudo pelos cantos da casa-grande, todos os dias encontrava um pretexto para
no descer para Tabocas. Tambm ningum reparava nele, ia uma confuso pela casa, cabras que
partiam montados, em busca de remdios, negras que ferviam bacias de gua, Horcio que dava
ordens sobre as entradas na mata e que corria para a cama onde Ester delirava.
    Quando a foram transportar para a rede, ela teve um momento de lucidez, tomou da mo de
Horcio, como se ele fosse dono dos destinos do mundo, e rogou:
    - No deixe que eu morra...
    Virglio saiu desesperado para o terreiro, o olhar dela fora para ele, era um olhar suplicante,
um desejo doido de viver. Viu naquele olhar de um segundo todo o sonho de outra vida noutra
terra, livres os dois no seu amor. Agora ele no sentia dio de ningum, s daquela terra que a
matava, que a prendia ali para sempre. Mais que dio, tinha medo. Ningum se libertava daquela
terra, ela prendia todos os que queriam fugir.. . Amarrava Ester com as cadeias da morte,
amarrava a ele tambm, nunca mais o largaria. . . Andou por dentro das roas at que gritaram
por ele, era hora de montar. Na frente ia a rede coberta por um lenol. Eles marchavam atrs,
uma viagem terrivelmente longa. Pararam em Ferradas, a febre aumentava, Ester agora gritava
que no queria morrer.. .
    Chegaram a Tabocas no princpio da noite, a casa do Dr. Jess se encheu de visitas. Virglio
no dormiu toda a noite, rolou na sua cama de solteiro na qual no se deitava havia muito
tempo... Lembrava as noites com Ester, as carcias sem fim, os corpos vibrando no amor, noites
de paixo na casa de Ilhus. E a viu partir no outro dia num vago especial, deitada numa cama
improvisada, Horcio sentado de um lado, Dr. Jess quase dormindo do outro. O mdico tinha
uma fisionomia cansada e abatida, os olhos fundos na cara gorda. Ester olhou Virglio e ele sentiu
que ela se despedia. A curiosidade enchera a estao e, quando ele saiu do vago e abriram alas
dando-lhe passagem, os comentrios o seguiram rua a fora.
    No outro dia no resistiu, foi para Ilhus. Bebia nos botequins, quando voltava da casa de
Horcio, numa visita que ele demorava o mais que podia. No tinha cabea para acompanhar os
processos que patrocinava na foro. Andava sonolento e irritado, se sentia s, sem um amigo.
Maneca Dantas, que se apegara a ele, fazia-lhe falta. Gostaria de conversar com algum, de
desabafar, de contar tudo, o que sucedera e o que haviam sonhado, o que era belo - a vida noutra
terra, os dois entregues ao seu amor - e tambm, o que era miservel - o desejo de que Horcio
morresse de um tiro para bem deles. Pensava por vezes em ir embora, mas sabia que jamais iria,
que estava ligado quela terra em definitivo. E a nica coisa que o arrancava da sua sonolncia
eram as conversas sobre os barulhos de Sequeiro Grande. Como que aquelas conversas o ligavam
mais a Ester, por causa da mata de Sequeiro Grande eles se haviam conhecido e amado. Horcio
por mais que sofresse com a doena da esposa, no descuidava um momento dos negcios. Dava
ordens, fazia com que os lavradores e os capatazes descessem a Ilhus para conversarem com ele.
Maneca Dantas veio uma vez, trouxe dona Auricdia para ajudar na casa, para tomar conta da
criana. Virglio se demorava em dilogos com os coronis sobre as possibilidades politicas sobre
como conduzir o processo no foro, sobre os artigos de "A Folha de Ilhus. Horcio j lhe falara
na sua candidatura a deputado. E, durante a doena de Ester, o advogado terminara por estimar
Horcio, sentia-se ligado a ele, agradecido pelo coronel  que parecia incapaz de sentir e de sofrer
- estar sofrendo tambm, de todos os esforos que ele fazia para salvar Ester: juntas mdicas,
promessas  Igreja, missas mandadas rezar.
    Somente uma vez Virglio conseguiu falar a ss com Ester. E ela parecia esperar
exclusivamente por isto para morrer. Foi na vspera do falecimento. Aproveitando Horcio ter
sado, e dona Auricdia estar cochilando na sala, ele entrou no quarto para substituir Dr. Jess que
no se aguentava de cansao. Ester dormia, seu rosto banhado de suor. Escaldava de febre,
Virglio pousou a mo na sua testa. Depois tirou o leno limpou-lhe o suor. E ela se moveu na
cama, gemeu, terminou por acordar. Demorou a reconhece-lo e a ver que estavam ss. Quando o
compreendeu, tirou de sob o lenol a mo descarnada, tomou a mo dele e a ps sobre o seio.
Depois sorriu, fez um esforo e disse:
    - Que pena eu morrer...
    - Voc no vai...
    Fez um esforo enorme:
    -. . . morrer no...
    Ela sorriu de novo, era o sorriso mais triste do mundo:
    - Deixa eu te ver...
    Virglio ajoelhou-se nos ps da cama, a cabea sobre a dela, beijou-lhe no rosto, nos olhos, na
boca queimando de febre. E deixou que as lgrimas viessem e molhassem as mos dela, lgrimas
mornas descendo sobre o rosto. Foram minutos sem palavras, a mo febril nos cabelos dele, a
boca amargurada beijando o rosto que a febre desfigurara.
    O rudo de dona Auricdia, que despertava, o fez levantar-se, mas antes ela o beijou se
despedindo. Ele saiu para chorar l fora onde ningum o visse. Dona Auricdia entrou no quarto,
Ester parecia muito melhor.
    "Era a visita da sade", disse dona Auricdia no dia seguinte quando ela morreu. Era a
despedida do amor, somente Virglio sabia.
    Veio muita gente para o enterro. De Tabocas chegou um trem especial, veio gente de
Ferradas, Maneca Dantas, os lavradores de junto da mata de Sequeiro Grande, vieram amigos do
Banco-da-Vitria, toda Ilhus compareceu. No caixo negro, o rosto da morta recuperara alguma
beleza e Virglio a viu como na vspera, sorrindo, feliz de ser amado
e de amar.
    O pai de Ester chorava, Horcio recebia os psames vestido de negro, dona Auricdia fazia
guarda junto ao cadver. O caixo saiu pelo fim da tarde, o crepsculo alcanou o enterro no
caminho do cemitrio. Dr. Jess disse umas palavras, o cnego Freitas encomendou o corpo, os
assistentes procuravam descobrir a dor no rosto plido de Virglio.
    Maneca Dantas se desculpou de no aceitar quando Virglio o chamou para jantarem juntos:
tinha que fazer companhia a Horcio nessa primeira noite de nojo. Virglio andou s pelas ruas,
bebeu num botequim onde sentiu a curiosidade que o cercava, andou pelo cais, demorou na
ponte onde um navio era descarregado, trocou umas palavras com um homem de colete azul que
estava bbedo, procurava onde ir, algum com quem falar longamente, algum sobre cujo peito
pudesse chorar todo o pranto que lhe enchia o corao. E terminou indo bater em casa de
Margot que j dormia e que o recebeu surpresa. Mas quando o viu to triste e desgraado, seu
corao se abrandou e o acolheu no seu seio com o mesmo carinho maternal com que o acolhera
naquela outra noite, na Bahia, quando ele soubera que seu pai morrera no serto. . .

                                                11

    E passaram as chuvas do inverno e chegaram os dias quentes do vero. As flores do cacau
comearam a nascer nos troncos e nos galhos, na florao da nova safra. Grandes levas de
trabalhadores, que agora no tinham roa para colher nem cacau para secar, foram empregadas
na derruba da mata de Sequeiro Grande pelos Badars e por Horcio. Porque Horcio, aps a
morte de Ester se entregara por completo  luta pela posse da mata. E ele tambm entrara pela
floresta, repelira ataques dos cabras dos Badars, abrira clareiras, fizera enormes queimadas.
Progrediram de um e de outro lado da mata, numa corrida para ver quem chegava mais cedo. Os
barulhos haviam parado um pouco, os entendidos diziam que eles recomeariam quando Horcio
e os Badars se encontrassem nas margens do rio que dividia a mata. Horcio tinha em Virglio o
mais eficiente colaborador. No s o processo marchava, devagar  verdade, obrigado pelo
bombardeamento de peties com que o advogado brindava diariamente o juiz, como a pea de
acusao que ele escrevera, como advogado de Z da Ribeira, contra Teodoro das Baranas, era
uma obra-prima jurdica. Ao demais, Virglio estudava o registro de propriedade da mata feito por
Sinh Badar, e descobria nele grandes deficincias legais. A medio, por exemplo, era
incompleta, no determinava os limites verdadeiros da mata, era uma coisa vaga e imprecisa.
Virglio fez uma longa exposio ao juiz que foi juntada ao processo de Horcio.
    E terminaram os dias clidos do vero e voltaram as chuvas longas do inverno, amadurecendo
os frutos dos cacaueiros, iluminando de ouro as roas fechadas de sombra. Terminados os meses
do paradeiro, os caixeiros-viajantes encheram os caminhos de Tabocas, Ferradas, Palestina e
Mutuns, cortavam o mar no rumo de Ilhus. Vinham emigrantes tambm, levas e levas nas
terceiras classes dos navios superlotados, chegavam srios que subiam para a mata com a mala de
mascate amarrada nas costas. Muitos dos troncos carbonizados pelas queimadas na mata de
Sequeiro Grande floresciam novamente em brotos verdes, alegrando as clareiras. Novas estradas
j existiam, com as chuvas nasciam flores em torno das cruzes plantadas no cho no inverno
passado. Nesse ano a mata de Sequeiro Grande diminura de quase metade. Estava cercada de
clareiras e queimadas, vivia seu ltimo inverno. Pelas manhs de chuva, os trabalhadores
passavam, as foices nos ombros, seu canto triste ia morrer no mistrio da mata:

                                   "O cacau  boa lavra...
                                  J chegou a nova safra..."

                                               12

   E na entrada do inverno Don'Ana casou-se com o capito Joo Magalhes. Juca e Olga eram
padrinhos do noivo, Dr. Genaro e a esposa do Dr. Pedro Mata eram os da noiva. O cnego
Freitas quando abenoou o casal, ligou tambm "para a vida e para a morte" a Antnio Vtor e
Raimunda. Antnio Vtor calava umas botinas negras que o incomodavam muitssimo.
Raimunda tinha o rosto zangado de sempre. E,  noite, por mais que Don'Ana lhes dissesse que
eles no deviam trabalhar naquele dia, ela ficou na cozinha ajudando e ele serviu bebida aos
convidados capengando um pouco devido s botinas novas.
   Foi uma festa que fez poca em Ilhus. Don'Ana estava linda no seu vestido branco, o grande
vu da viagem, as flores de laranjeiras, a aliana larga de ouro. Joo Magalhes, metido num
fraque muito elegante, arrancava exclamaes de admirao das mocinhas casadoiras. Sinh
Badar presidia a festa, um pouco triste, acompanhando com o olhar a filha que ia de um lado
para outro, atendendo aos convidados.
   No quarto dos noivos, ante a cama repleta de presentes, desfilavam os convidados. Havia
aparelhos de ch, bibels, talheres, jogos de roupas, um revlver Colt 38, cano longo, de ao
cromado com cabo de marfim, uma obra-prima, presente de Teodoro ao capito Joo Magalhes.
Teodoro bebia champanha, fazia pilhrias com o capito sobre a maciez do colcho. Os
convidados saam do extasiamento no quarto para a sala de baile, onde a banda de msica, em
fardamento completo, tocava valsas e polcas, de quando em quando um maxixe.
   Na hora que os recm-casados foram se recolher, pela madrugada, Juca Badar segurou a
sobrinha e o amigo, recomendou-lhes rindo:
   - Quero um menino, hein Um Badar de lei!
   A lua-de-mel, passada na fazenda, foi bruscamente interrompida pela notcia do assassinato de
Juca, em Ilhus. Depois do casamento ele subira para a fazenda com os sobrinhos, se dirigira
logo para dentro da mata com uma turma de homens. Voltara  cidade para passar o sbado e o
domingo, tinha saudades de Margot.
   No domingo fora almoar com um mdico recm-chegado a Ilhus que trouxera uma carta de
apresentao para Juca, de um amigo da Bahia. O mdico morava na penso de um srio, numa
rua central. A antiga sala de visitas havia sido transformada em refeitrio e Juca e o mdico
ocupavam a primeira mesa da sala, ao lado da porta da entrada. As costas de Juca Badar davam
exactamente para a rua. O cabra encostou o revlver na porta e deu um nico tiro. Juca Badar
foi caindo lentamente em cima da mesa, o mdico estendeu os braos para segur-lo, mas ele de
sbito se levantou, com uma mo se amparava na porta, com a outra sustentava o revlver. O
cabra corria rua a fora, pelo passeio, mas os tiros o alcanaram, foram trs, ele se abateu como
um fardo. Juca Badar escorregou pela porta, o revlver saltou-lhe da mo ao bater nas pedras do
calamento. Se passara tudo numa rapidez de minutos, os hspedes corriam para Juca, na rua se
juntava gente em torno ao cabra cado.
    Juca Badar morreu trs dias depois, cercado pela famlia, tendo antes suportado com
estoicismo a operao que o mdico tentara para extrair a bala. Faltavam todos os recursos em
Ilhus para uma operao semelhante. Nem clorofrmio havia. Juca Badar sorriu enquanto
durou a operao. O mdico novo fez tudo para salv-lo, Sinh lhe havia dito:
    - Se salvar meu irmo, pode pedir quanto quiser.
    Mas no adiantou, como no adiantaram os outros mdicos de Ilhus, nem Dr. Pedro que
veio de Tabocas. Antes de morrer, Juca chamou Sinh em particular, pediu que ele desse um
dinheiro a Margot. Depois falou com o capito e Don'Ana, agora o quarto estava cheio de gente:
    - Quero um menino, hein, no se esqueam! Um Badar! - e pediu a Don'Ana alisando sua
mo: - Ponha meu nome...
    Olga fazia um berreiro escandaloso, mas Juca no ligou importncia, morreu tranquilamente.
Apenas lamentou nas suas ltimas palavras, no poder ver a mata de Sequeiro Grande plantada
de cacau.
    Depois do de Ester, no houvera em Ilhus enterro com tamanho acompanhamento.
Tambm para ele viera um trem especial de Tabocas, Antnio Vtor voltara a calar as botinas
rangedeiras, chorava como um menino. Manuel Oliveira escrevera um necrolgio cheio de
adjectivos no "O Comrcio", Dr. Genaro botou discurso na beira da sepultura, discurso violento
contra Horcio. Teodoro das Baranas jurava vinganas. Quando desceram o caixo  sepultura,
Don'Ana jogou um ramalhete de flores, Sinh atirou a primeira p de terra.
    A noite, na casa triste, Sinh andava de um lado para outro. Imaginava como se vingar. Sabia
que de nada adiantava mandar derrubar cabras de Horcio, os lavradores que com ele se haviam
associado, s adiantava mandar acabar com o coronel. S uma vida poderia pagar a vida de Juca,
e era a de Horcio da Silveira. Decidiu que o mandaria matar fosse como fosse. Teve uma
conversa com Teodoro e com o capito,  dual Don'Ana assistiu. Dr. Genaro e o delegado
achavam que Horcio devia ser processado. O cabra que matara Juca era um Jaguno de Horcio,
toda gente sabia que trabalhava na sua fazenda. Mas Sinh faz um gesto violento com a mo no
era caso para processo. No s no ficava fcil provar a responsabilidade de Horcio j que o
cabra morrera, como Sinh Badar no se sentiria vingado com ver Horcio no banco dos rus.
Don'Ana era da mesma opinio e o capito concordou tambm. ele estava um pouco assustado,
no sabia como tudo aquilo ia terminar. Teodoro das Baranas subiu no dia seguinte para tratar
do assunto.
    Mas, matar Horcio, no era tarefa fcil. O coronel sabia que, tanto as estradas como a cidade
de Ilhus, eram lugares perigosos para ele. E no saia quase nunca da fazenda. Quando vinha a
Ferradas ou a Tabocas, uma comitiva de muitos homens o rodeava, cabras de pontaria certeira,
quase sempre Braz vinha a seu lado. A Ilhus no voltou durante meses, Virglio era quem subia 
fazenda para informar ao coronel sobre a marcha dos processos. Porque, com o correr dos dias,
Dr. Genaro convencera Sinh de processar Horcio. Sinh veio a concordar, tinha agora as suas
razes. O delegado fez um inqurito, se transportou a Tabocas, arrolou uma srie de testemunhas
que afirmavam que o cabra que assassinara Juca era trabalhador da fazenda de Horcio. E um
homem do cais, que usava um anelo falso no dedo, no teve dvidas em relatar ao delegado a
conversa que mantivera na vspera do crime, na venda de um espanhol, com o assassino. este
tinha bebido muito e o de anelo falso puxou pela sua lngua. O homem estava cheio de dinheiro,
exibia uma nota de cem mil-ris, narrara em segredo que ia "fazer um trabalho de importncia a
mando do coronel Horcio". Esta era a testemunha mais importante contra Horcio. O
promotor aceitou a denncia, Sinh Badar pressionava sobre o juiz, tudo que Virglio pode
conseguir foi que Horcio no sofresse priso preventiva. O juiz se desculpava perante Sinh
Badar: "quem se atreveria a ir prender Horcio na sua fazenda? Para bem do respeito que a
justia devia merecer era melhor que Horcio s fosse preso nos dias do jri. Virglio prometera
que Horcio compareceria ao julgamento".
    Dr. Genaro tinha grandes esperanas de conseguir um corpo de jurados que condenasse o
coronel. Os Badars estavam por cima na politica, era possvel at a pena mxima. Mas Sinh
tinha esperana era de liquidar com o coronel antes dele entrar em jri. Ou, no ltimo caso, como
dissera a Joo Magalhes, no prprio dia do jri. Por isso admitira o processo.
    Horcio parecia no se preocupar um minuto sequer com aquele processo. Queria notcias era
do outro, do que ele fazia correr contra Sinh e Teodoro pela propriedade da mata de Sequeiro
Grande. No meio de todos esses processos os advogados enriqueciam, se insultavam nas
peties, preparavam os discursos para o jri.
    Apesar de todas as dificuldades por duas vezes, a vida de Horcio correu perigo. Primeiro foi
um homem de Teodoro que conseguiu chegar at uma goiabeira perto da casagrande do coronel.
Esperou a vrias horas at que Horcio apareceu na varanda e sentando-se num banco, comeou
a cortar cana para uma besta que possua, muito mansa. O tiro pegou no animal, Horcio, saiu
correndo atrs do cabra mas no o alcanou mais. Noutra ocasio foi um velho que apareceu na
fazenda dos Badars se oferecendo a Sinh para liquidar Horcio. No queria pagamento, tudo
que queria era uma arma. Tinha contas a ajustar com o coronel, informou. Sinh mandou que lhe
dessem uma repetio. O velho foi morto quando tentava se aproximar da casa-grande de
Horcio numa noite de lua. Algum lembrou que ele era o pai de Joaquim, que fora dono de uma
roa que hoje pertencia a Horcio.
    Diante dessas ameaas, Horcio reforou a guarda da fazenda, saa raramente, mas, nem por
isso seus homens deixaram de abrir clareiras na mata de Sequeiro Grande. No tardaria, e se
encontrariam com os homens dos Badars que vinham pelo outro lado. Cada vez era menos
espessa a floresta, as mudas de cacau que deviam ser plantadas na mata enchiam armazns numa
e noutra fazenda. Quando acontecia cabras de Horcio se encontrarem com cabras dos Badars
havia tiroteio na certa, corria sangue nas estradas.

                                               13

    E, quando j os homens na mata ouviam o rudo dos machados dos adversrios no outro lado
do rio, Ilhus despertou numa manh com a notcia sensacional que o telgrafo trouxera: o
governo Federal decretara a interveno no Estado da Bahia. As tropas do exrcito haviam
ocupado a cidade, o governador renunciara, o chefe da oposio, que chegou do Rio num vaso
de guerra, tomara posse como interventor. Horcio agora era governo, Sinh Badar estava na
oposio. O telegrama do novo interventor demitia o prefeito de Ilhus, nomeava o Dr. Jess
para o posto. No primeiro navio vindo da Bahia, chegaram o novo juiz e o novo promotor e,
com eles, a nomeao de Braz para delegado do municpio. O antigo juiz fora designado para
uma pequena cidade do serto, mas no aceitou e pediu renncia do cargo. Murmuravam que ele
j estava rico e no precisava mais da magistratura para viver. A "Folha de Ilhus publicou um
nmero especial, a primeira pgina em duas cores.
    Foi s ento que Horcio apareceu em Ilhus, atendendo a um telegrama do interventor que o
convidava a ir a Bahia para conferenciarem. Recebeu os cumprimentos dos amigos e dos
eleitores, Virglio embarcou com ele, uma multido veio traze-los ao cais. A bordo, Horcio disse
ao advogado:
    - Pode-se considerar deputado federal, doutor...
    Sinh Badar tambm veio a Ilhus. Conversou  noite com Dr. Genaro, com o ex-juiz, com
o capito Joo Magalhes. Ordenou a seus homens que apressassem a derruba da mata. Voltou
no outro dia, Teodoro das Baranas o esperava na fazenda Sant'Ana

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    O telegrama de Braz arrancou Horcio das conversas polticas com o interventor, dos braos
das mulheres nos cabars da Bahia, dos aperitivos com polticos nos bares mais chiques, e o
trouxe de volta no primeiro navio. Os homens dos Badars no s haviam cado sobre os
trabalhadores de Horcio que derrubavam a mata, fazendo uma verdadeira carnificina, como
haviam incendiado uma quantidade de roas de cacau. Durante toda aquela luta as roas de cacau
haviam sido respeitadas, como se os adversrios obedecessem a um tcito compromisso. O fogo
devorava cartrios, plantaes de milho e mandioca. armazns com cacau seco, matavam-se
homens mo se respeitavam os cacaueiros.
    Porm Sinh Badar sabia que estava jogando sua ltima cartada. A mudana da situao
poltica roubara seus melhores trunfos. Uma prova disso era a desagradvel surpresa que tivera ao
ir vender a safra vindoura, por adiantado, a "Zude, Irmo oz Cia." estes se mostraram
desinteressados falaram em dificuldades de dinheiro, propuseram finalmente comprar o cacau
mas com uma garantia hipotecria. Sinh se enfurecera: pedir uma hipoteca de roas a ele, Sinh
Badar! Maximiliano temera que o coronel o agredisse, de to violento que ficara. Mas se recusou
a comprar o cacau j que Sinh no queria dar as garantias pedidas. "Eram ordens", dizia. E
Sinh Badar teve que vender o cacau  casa exportadora de uns suos, por preos miserveis.
Diante disso tudo, deu carta branca a Teodoro para agir como quisesse em relao  mata.
Teodoro, ento, pegara fogo nas roas de Firmo, de Jarde, e mesmo em algumas de Horcio. O
incndio durara dias, o vento o propagava, as cobras fugiam silvando.
    No cais de Ilhus os amigos de Horcio apertavam a sua mo, lamentavam as barbaridades
dos Badars. Horcio no dizia nada. Procurava Braz entre os presentes, foi com ele que
conversou longamente na sala da delegacia. Prometera ao interventor que tudo seria feito
legalmente. Da os jagunos que assaltaram a fazenda dos Badars, e cercaram a casa-grande,
aparecerem nos jornais que noticiaram o fato transformados em "soldados da polcia que
procuravam capturar o incendirio Teodoro das Baranas, que segundo constava, estava acoitado
na fazenda Sant'Ana".
    O cerco da casa-grande dos Badars foi o fim da luta pela posse das terras de Sequeiro
Grande. Teodoro quis se entregar para assim tirar o pretexto legal de que Horcio se valia. Sinh
no admitiu, fez com que ele embarcasse escondido para Ilhus, onde amigos o meteram num
navio que saa para o Rio de` Janeiro. Depois se veio a saber que Teodoro fixara residncia em
Vitria do Esprito-Santo, com uma casa de comrcio. Talvez Horcio tenha sabido da fuga de
Teodoro. Mas, se o soube, nada disse, continuava a cercar a casa-grande da fazenda Sant'Ana
como se nela Teodoro estivesse escondido. A mata de Sequeiro Grande estava derrubada, agora
as queimadas se confundiam com as roas incendiadas, no havia limites entre elas. No existiam
mais nem onas nem macacos, no mais assombraes tambm. Os trabalhadores haviam
encontrado os ossos de Jeremias e os haviam enterrado. Em cima plantaram uma cruz.
    Sinh Badar resistiu, com seus cabras, quatro dias e quatro noites. E s quando ele caiu
ferido e foi, por ordem de Don'Ana, conduzido para Ilhus,  que Horcio pode se aproximar da
casa-grande. Sinh descera pela manh numa rede levado nos ombros dos homens, e,  noite, o
capito Joo Magalhes fez com que Olga e Don'Ana montassem e viajassem tambm. Raimunda
ia com elas, cinco jagunos as acompanhavam. Devia naquela noite dormir na fazenda de
Teodoro, no dia seguinte alcanar o trem para Ilhus.
    Joo Magalhes, com os homens que lhe restavam, se entrincheirou na beira do rio. Antnio
Vtor, ao seu lado, de quando em vez suspendia a repetio e disparava. O capito, olhos
acostumados  luz da cidade, no distinguia nada nas trevas daquela noite sem lua. Sobre quem o
mulato atirava? Mas o tiro que respondia provava que Antnio Vtor tinha razo, os olhos do
mulato estavam habituados  escurido das roas, via perfeitamente dentro da noite os homens
que se aproximavam.
    Foram, por fim, cercados, tiveram que recuar para a estrada, a maioria caiu na mo dos cabras
de Horcio. Recuaram Joo Magalhes e seis homens, cada vez para mais longe, cada vez um
nmero menor de cabras, at que foram quatro somente. Ento Antnio Vtor desapareceu,
quando voltou trazia um burro selado:
    - Seu capito, monte e v embora. Aqui no h mais o que fazer.
    Era verdade. Os cabras de Horcio, com Braz  frente, entravam no terreiro da casa-grande
dos Badars. Joo Magalhes perguntou:
    - E vocs
    - Ns vai a p guardando vosmec...
    No mesmo momento que eles partiram, Braz entrava na varanda da casa deserta. Havia um
silencio completo na noite sem lua. Os cabras de Horcio estavam reunidos no terreiro, prontos
para entrar na casa. Um deles, obedecendo a uma ordem, riscou um fsforo para acender um
fif. O tiro veio de dentro da casa, raspou na luz, no matou o homem por um milagre. Os
outros se atiraram no cho, foram entrando de rastros na casa. De dentro algum atirava,
procurando visar Horcio no meio dos capangas, Braz avisou o coronel:
    - E mais de um...
    Entraram na casa, as armas na mo, os olhos atentos, procurando. Iam ,com dio, queriam
fazer a estes ltimos defensores mais ainda do que haviam feito aos que caram na beira do rio e
na estrada e dos quais haviam arrancado os olhos e os beios, as orelhas e os ovos. Correram a
casa toda sem encontrar ningum. Os tiros haviam cessado, Braz comentou:
    - Terminou a munio. . .
    Braz ia na frente, dois cabras a seu lado, Horcio vinha logo atrs. S restava o sto. Foram
subindo a escada estreita, Braz abriu a porta com um pontap. Don'Ana Badar atirou, um cabra
caiu. E como era a ltima bala que lhe restava, ela jogou o revlver para o lado de Horcio e disse
com desprezo:
    - Agora mande me matar, assassino...
    E deu um passo  frente. Braz abria a boca num espanto. Ele tinha visto quando ela passara
com Olga e Raimunda, guardada por uns poucos homens, fugindo. Ele deixara que a comitiva
passasse ao alcance das balas, sem atirar. Como diabo tinha voltado? Don'Ana deu outro passo 
frente, seu voltou encheu a pequena porta do sto.
    Horcio saiu para um lado da escada:
    - V embora, moa... Eu no mato mulher..
    Don'Ana baixou a escada, atravessou a sala, olhou a leo-gravura, uma bala quebrara o vidro,
rasgara o peito da moa que bailava. Saiu para o terreiro, os homens a fitavam mudos. um
murmurou:
    - Diabo de mulher corajosa!
    Don'Ana tomou um dos cavalos que estavam arreados, olhou mais uma vez a casa-grande,
montou, esporeou o animal e partiu na noite sem lua e sem estrelas. S ento, depois do seu
vulto ter se perdido na estrada, Horcio levantou o brao e a voz, deu uma ordem, os homens
puseram fogo na casa-grande dos Badars.

                                                15

   O Dr. Genaro, que era amigo de frases brilhantes, costumava dizer, anos depois, quando se
mudara para a Bahia onde podia educar melhor os filhos, ao se referir aos barulhos de Sequeiro
Grande:
   - Toda aquela tragdia terminou numa comdia...
   Ele queria se referir ao julgamento de Horcio pelo jri de Ilhus. Pouco antes o juiz lavrara
sentena no processo movido por Horcio em defesa dos seus direitos de propriedade das terras
de Sequeiro Grande. A sentena reconhecia os direitos do coronel Horcio da Silveira e dos seus
associados e entregava Teodoro das Baranas  promotoria pblica para ser processado pelo
incndio do cartrio de Venncio em Tabocas. Tambm Sinh Badar e o capito Magalhes
eram acusados por haverem registrado um ttulo ilegal de propriedade. Esse novo processo no
seguiu adiante porque Horcio, a conselho de Virglio, no se interessou por ele. A famlia Badar
economicamente estava mal, devendo dinheiro aos exportadores, com duas safras sacrificadas, as
suas fazendas no haviam aumentado nesse ano de barulho. Ao contrrio, no s a casa-grande,
as barcaas e as estufas estavam destrudas como as mudas de cacaueiro tinham sido queimadas,
algumas roas sofreram grandes danos. Os Badars levariam muitos anos a reconstruir uma parte
daquilo que fora a sua grande fortuna. J no eram adversrios para Horcio.
    E o jri foi apenas um consagrao do coronel. Ele se entregou  priso na vspera do
julgamento. A melhor sala da Prefeitura Municipal, que era onde funcionavam tambm o foro e a
cadeia, foi transformada em dormitrio. Braz dispensou os soldados, ele mesmo fazia companhia
a Horcio. Os amigos encheram a sala, o coronel conversava, mandava vir usque, foi uma farra a
noite toda.
    O jri se iniciou no outro dia s nove horas da manh, durou at as trs da madrugada do dia
seguinte. Os Badars haviam feito vir da Bahia um advogado de muito renome, Dr. Fausto
Aguiar para, com Dr. Genaro, servir de ajudante da promotoria. O novo promotor, toda gente
sabia, ia fazer uma acusao muito deficiente, era correligionrio poltico de Horcio.
  O Juiz entrou na sala, acompanhado do promotor, dos escrives e dos meirinhos, vestia a toga
negra, sentou-se na alta cadeira sobre a qual uma imagem de Cristo crucificado vertia sangue de
um vermelho escuro. Ao lado do juiz sentou-se o promotor, puseram cadeiras para o Dr. Genaro
e o Dr. Fausto, ajudantes de promotoria. Na tribuna da defesa se encontravam Virglio e Dr. Rui.
O juiz pronunciou as palavras regulamentares, a sesso do jri estava aberta. Uma multido
invadiu a sala sobrava gente pelos corredores. Um menino, que anos depois iria escrever as
histrias dessa terra, foi chamado por um meirinho para sacar da urna o nome dos cidados que
iriam constituir o conselho de sentena. Sacou um carto, o juiz leu o nome, um homem se
levantou, atravessou a sala, tomou assento numa das sete cadeiras reservadas aos jurados. Mais
outro carto saiu da urna. O juiz leu:
    - Manuel Dantas.
    O coronel Maneca Dantas se levantou, mas nem chegou a andar. A voz do Dr. Genaro
atravessou a sala:
    - Recuso...
    - Recusado pelo rgo de acusao... - anunciou o juiz.
    Maneca Dantas sentou-se, o menino continuava a tirar os cartes. De vez em vez um nome
era recusado, ora pela promotoria, ora pela defesa, por fim o conselho de jurados ficou
constitudo. Entre os assistentes se trocavam comentrios:
    - Absolvido por unanimidade.. .
    - No sei no... H dois votos duvidosos... - ciciavam nomes.
    - Talvez trs - disse outro. - Jos Faria no  muito de Horcio, no... Pode votar contra...
    - Ontem Dr. Rui estava em casa dele. Vota pela absolvio.
    - Vai haver apelao. . .
    - Unanimidade na certa, que apelao que nada
    As apostas eram sobre a possibilidade ou no de apelao. O Supremo Tribunal do Estado
respondia ainda ao governo derrubado. Se houvesse apelao talvez Horcio fosse condenado ou,
pelo menos, enviado a novo jri. A maioria dos assistentes, porm, achava que o coronel seria
absolvido por unanimidade no havendo, por consequncia lugar para a apelao. Os jurados
prestaram juramento de "julgar com justia, de acordo com as provas e a sua conscincia" e se
sentaram. O menino que tirara os cartes da urna deixou o estrado do juiz e veio se sentar por
detrs da tribuna de defesa. E desse lugar assistiu a todo o julgamento, escutando de olhos acesos
os debates. Mesmo pela madrugada, quando alguns assistentes cochilavam nos bancos, o menino
seguia nervoso o desenrolar do espetculo.
    Os comentrios pararam de sbito e um silencio se elevou na sala porque o juiz ordenava ao
delegado que fizesse entrar o ru. Braz saiu para logo voltar acompanhando o coronel Horcio da
Silveira. Dois soldados o ladeavam. Horcio vestia um fraque negro, o cabelo penteado para trs,
o rosto srio, quase compungido. Parou em frente ao juiz, o silencio era pesado, os assistentes se
dobraram para a frente. O juiz perguntou:
    - Seu nome?
    - Horcio da Silveira, coronel da Guarda Nacional.
    - Profisso?
    - Agricultor.
    - Idade?
    - Cinquenta e dois anos.
    - Residncia?
    - Fazenda Bom Nome, no municpio de Ilhus.
    - Sabe do que  acusado?
    A voz do coronel era clara e forte:
    - Sim.
    - Tem alguma coisa a aduzir em sua defesa?
    - Os meus advogados o faro. . .
    - Tem advogados? Quais?
    - O Dr. Virglio Cabral e o Dr. Rui Fonseca.
    O juiz apontou o pequeno banco dos rus:
    - Pode sentar-se.
    Mas Horcio se manteve de p. Braz compreendeu retirou o banco humilhante, trouxe uma
cadeira. Ainda assim Horcio no se sentou. Foi uma sensao pela sala. Dr. Rui peticionou ao
juiz para que concedesse ao acusado o direito de assistir ao julgamento de p e no sentado
naquele simblico banco dos criminosos. O juiz concedeu e de todos os cantos da sala se podia
ver a figura gigantesca do coronel, as mos cruzadas sobre o peito, os olhos fitos no juiz. O
menino se levantara para v-lo melhor e o encontrou soberbo jamais o esqueceria.
    O escrivo lia o processo. A leitura durou trs longas horas, os depoimentos das testemunhas
desfilando um a um. De quando em vez os advogados tomavam notas em papis. Ao lado do Dr.
Genaro se elevava uma pilha de livros gordos de direito. Quando terminou a leitura do processo
era uma da tarde e o juiz suspendeu a sesso por uma hora para o almoo. O conselho de jurados
ficou na sala, sem poder se avistar com ningum, o almoo para eles veio do hotel, pago pela
Prefeitura. Apenas para Camilo Gis veio de casa, j que ele sofria do estmago e tinha uma dieta
especial.
    O menino que assistia ao jri, sara pela mo do pai, mas j estava na porta da sala quando o
meirinho badalou a grande sineta chamando os advogados e os escrives. Novamente Horcio
entrou e se postou de p ante o juiz. Foi dada a palavra ao representante da promotoria pblica.
Como se esperava, no foi uma grande acusao. O promotor falou meia hora, deixou inmeras
sadas para os advogados de defesa. Mas, como de hbito, terminou pedindo a pena mxima, que
eram trinta anos de priso. Dr. Genaro, ocupou a tribuna da promotoria depois dele. Falou
durante duas horas misturando citaes lidas nos livros, algumas em francs, outras em italiano,
com o exame demorado das declaraes das testemunhas que provavam, segundo ele de modo
indiscutvel, que o assassino era um cabra a servio de Horcio. Fez cavalo de batalha das
declaraes do homem de anelo falso que conversara com o assassino na vspera do crime.
Historiou os barulhos de Sequeiro Grande, terminou dizendo que se "o mandante no fosse
condenado, a justia em terras de Ilhus no seria seno a mais trgica das farsas". Citou umas
frases em latim e se sentou. Pelos assistentes, que pouco haviam entendido daquela confuso de
lnguas citadas pelo Dr. Genaro, ia uma admirao pela cultura do advogado. No discutiam a sua
posio: estimavam-no como alguma coisa de valor que pertencia a Ilhus.
    Teve a palavra o Dr. Fausto e as cabeas se adiantaram curiosas. Esse advogado vinha
precedido da fama de grande orador, defesas suas ficaram clebres na Bahia. Verdade que o
povo de Ilhus teria preferido escut-lo numa defesa que numa acusao. Constava que Sinh
Badar o contratara por quinze contos de ris. Dr. Fausto no falou longamente, se guardava
para a rplica. Foi um discurso sonoro, dito com uma voz cortada de emoo. Falava na esposa
sem marido, no irmo sem irmo, fez o elogio de Juca Badar, cavaleiro andante da terra do
cacau". Sua voz ora subia, ora baixava, se enchia de dio ao falar de Horcio, "jaguno que se
tornou chefe de jagunos", se enchia de delicadeza ao falar de Olga "a pobre esposa
inconsolvel". Fez um apelo final aos sentimentos nobres de justia do conselho de jurados E
com o seu discurso a sesso foi suspensa para o jantar.
    A noite a assistncia foi muito maior e o menino teve dificuldades para ocupar o seu lugar. Os
empregados no comrcio, que no haviam podido vir de manh e  tarde, lotavam agora at as
escadas da prefeitura. Toda gente queria ouvir os discursos dos advogados da defesa. Primeiro
falou Virglio e o seu discurso respondia ao Dr. Genaro. Esmagou as testemunhas. Provou a
fraqueza do processo todo e fez sensao quando, ao se referir ao homem de anelo falso, que
era a pedra angular da acusao, revelou que se tratava apenas de um ladro, de nome Fernando,
chegado a Ilhus h alguns anos onde se transformara num malandro de meios de vida
desconhecidos. Esta "testemunha to cara  acusao" se encontrava naquele momento nos
crceres de Ilhus, preso por vagabundagem e arruaas. Que valor podia ter a palavra de um
homem destes? Um ladro, um vagabundo, um mentiroso. Dr. Virglio leu declaraes que ele
colhera do espanhol, dono da venda onde o cabra estivera conversando com o homem do anelo
falso. O espanhol dizia que o de anelo falso sempre tivera fama de mentiroso, gostava de contar
histrias, de inventar casos, e o espanhol desconfiava que fora ele o responsvel pelo
desaparecimento, em duas ocasies do dinheiro para troco, guardado na gaveta do balco da
venda. Que valor legal, testemunhal, podia ter a palavra de um tipo desta ordem? O Dr. Virglio
relanceava os olhos desde o juiz, passando pelo conselho de sentena, at aos assistentes. Narrou
ele tambm, a seu modo, os barulhos de Sequeiro Grande. Lembrou o outro processo, pela posse
das terras, perdido pelos Badars. Lembrou o incndio do cartrio de Venncio. Pediu justia ao
fim de duas horas e sentou-se. Dr. Rui respondeu ao Dr. Fausto. Sua voz poderosa, um pouco
tremula devido  bebida, ressoou na sala. Tremeu, chorou, se emocionou, acusou, defendeu, fez a
gente chorar, fez a gente rir, foi violento com o Dr. Fausto que "ousara cuspir palavras
mesquinhas sobre a personalidade sem mcula desse Bayard de Ilhus que era o coronel Horcio
da Silveira". Excepto os advogados e o menino, ningum sabia quem era Bayard, mas todos
acharam a imagem muito bonita. Horcio, de e os braos sobre o peito, no demonstrava
nenhum cansao. Por vezes sorria, quando as ironias do Dr. Rui contra o Dr. Fausto eram mais
ferinas e venenosas. E vieram as rplicas, falaram todos mais uma vez, repetindo o que j haviam
dito. De novo, apareceu apenas um depoimento trazido pelo Dr. Genaro para contrapor ao do
espanhol, dono da venda citado pelo Dr. Virglio. Dr. Genaro tambm conversara com um
conhecido do homem do anelo falso, um outro frequentador da venda, um de colete azul. Este
dissera que o de anelo falso "era uma boa pessoa, se bem no parecesse". Suas histrias podiam
parecer inventadas mas muitas delas tinham acontecido mesmo. E o Dr. Genaro clamou contra a
"misria da polcia local que metera no crcere um inocente s porque depusera no processo".
Dr. Fausto fez seu grande discurso. Procurou tremer a voz mais que Dr. Rui, conseguiu que
alguns assistentes chorassem tambm, deu o mximo que pode. Dr. Virglio falou dez minutos
somente sobre o homem do anelo falso. Dr. Rui encerrou os discursos fazendo imagens entre a
justia e a esttua de Cristo que pendia sobre a cabea do juiz. Terminou com uma grande frase,
que estudara dois dias antes.

 "Ao absolver o coronel Horcio da Silveira provareis, senhores do conselho de sentena, a
todo o mundo civilizado; cujos olhos esto voltados para esta sala, que em Ilhus no existe
apenas o cacau, a terra frtil e o dinheiro, provareis que em Ilhus existe a Justia, me de
todas as virtudes de um povo!"
    Apesar do exagero de todo o mundo voltado para aquela sala de jri em Ilhus, ou talvez por
isso mesmo, a frase arrancou palmas que o juiz fez calar por intermdio do meirinho que sacudia
a sineta. O conselho de sentena se retirou da sala para julgar da culpabilidade ou da inocncia do
ru. Horcio foi retirado tambm, ficou no corredor conversando com seus advogados. Quinze
minutos depois os jurados voltaram  sala, Braz chegou para conduzir Horcio. Este acabara de
receber a notcia pelo Dr. Virglio:
    - Unanimidade
    O juiz leu a sentena absolvendo o coronel Horcio da Silveira por unanimidade de votos.
Alguns assistentes comearam a se retirar. Outros abraavam Horcio e os advogados. Braz
lavrou a ordem de liberdade, Horcio saiu entre os amigos que o iam acompanhar  casa.
  O pai do menino tomou o filho pelo brao, viu que ele estava cansado, suspendeu-o no ombro.
Os olhos do menino ainda olharam Horcio que saa.
    - De que foi que gostou mais? - perguntou-lhe o pai.
    O menino sorriu levemente, confessou:
    - De tudo, de tudo, gostei mais foi do homem de anelo falso, o que sabe histrias. .
    Dr. Rui que passava perto ouviu, acariciou a cabea loira do menino. Depois desceu as
escadas correndo, para alcanar Horcio que saa pela porta principal da Prefeitura penetrando na
manh clara que se elevava no mar sobre a cidade de Ilhus.

                                          O Progresso

                                                1

    Meses depois, num princpio de tarde, inesperadamente o coronel Horcio de Silveira
desmontou de um cavalo na porta da casa-grande de Maneca Dantas. Dona Auricdia apareceu
arrastando as banhas, muito solcita, querendo saber se o coronel j havia almoado. Horcio
disse que sim, tinha o rosto cerrado, os olhos pequenos, a boca repuxada num gesto duro. Um
trabalhador foi chamar Maneca Dantas que andava pelas roas, dona Auricdia ficou fazendo sala.
Falava quase sozinha, Horcio apenas soltava um "sim" ou um "no" quando ela parava. Dona
Auricdia contava histrias dos filhos, louvava a inteligncia do mais velho, o que se chamava Rui.
Por fim Maneca Dantas chegou, abraou o coronel, ficaram conversando. Dona Auricdia se
retirou para providenciar uma "merenda".
    Ento Horcio levantou-se, olhou pela janela as roas de cacau. Maneca Dantas esperava.
Sucederam-se os minutos em silencio. Horcio tinha o olhar perdido na estrada que passava nas
imediaes da casa. De repente se voltou e falou:
    - Andei arrumando umas coisas no palacete de Ilhus. Umas coisas de Ester...
    Maneca Dantas sentiu o corao bater mais apressado. Horcio o olhava com seus olhos
baos, quase sem expresso. S a boca estava cortada com um trao duro.
    - Encontrei umas cartas...
    Completou com a mesma voz em surdina:
    - Era amante do doutor Virglio. . .
    Disse, e voltou a olhar atravs do vidro da janela. Maneca Dantas se levantou, botou a mo no
ombro do compadre:
    - Eu sabia, faz tempo. Ms, nessas coisas, no vale a pena a gente se meter. . . E a pobre da
comadre pagou com juros morrendo daquela maneira...
    Horcio deixou a janela, sentou num banco da sala. Olhava o cho. Parecia recordar fatos
antigos, momentos bons, lembranas felizes:
    -  engraado... Primeiro, eu sabia que ela no gostava de mim. Vivia chorando pelos cantos
dizia que era medo das cobras. Na cama se encolhia quando eu tocava nela... Me dava raiva mas
eu no dizia nada, a culpa era minha mesmo, eu fui casar com mulher moa e educada...
    Balanou a cabea, olhando Maneca Dantas. Este ouvia em silencio, o rosto descansando nas
mos, sem um gesto.
    - De repente ela mudou, ficou boa, eu cheguei a acreditar que ela tava gostando de mim.
Antes eu me metia na mata, me metia em barulhos, era s pelo dinheiro, um pouco pelo menino.
Mas depois fiz tudo, era por ela, tava certo que ela gostava de mim...
    Estendeu o dedo:
    - Tu no te imagina, compadre, o que eu senti quando ela morreu. Tava ali dando ordens aos
homens mas tava pensando em me matar. E s no dei um tiro na cabea por causa do menino,
filho meu e dela, filho do tempo ruim,  verdade, mas tudo tinha passado, ela ficara carinhosa e
boa. Seno tinha me matado quando ela morreu...
    Riu para dentro seu riso amedrontador:
    - E dizer que tudo era pelo outro, pelo doutorzinho. Tava boa e carinhosa, era por ele. Eu
comia os restos, era as sobras. . .
    Dona Auricdia entrava na sala, chamava para a merenda. A mesa atestada de doces, de
queijos, de frutas. Comeram ouvindo o papaguear de dona Auricdia que puxava pelo filho mais
velho, obrigando a criana a responder a perguntas histricas, a ler corrido para o padrinho ouvir,
a recitar uns versos.
    Depois voltaram para a sala de visitas e Horcio no falou mais. Sentou-se numa cadeira,
escutava sem ateno. Maneca Dantas encheu o tempo com conversas sobre a safra, sobre o
preo do cacau, sobre as mudas plantadas na terra de Sequeiro Grande. Dona Auricdia se
desconsolava porque o compadre no ia ficar para jantar. J havia mandado pegar uns frangos
para preparar um molho pardo que "era uma especialidade.
    - No posso, comadre...
    Assim correra a tarde. Horcio mascava uma ponta apagada de cigarro que enegrecera ao
contacto com a saliva. Maneca Dantas falava, sabia que sua conversa no tinha interesse mas no
conseguia outras palavras, tinha a cabea oca. Sabia apenas que Horcio no queria estar sozinho.
Outra vez, num dia j distante, fora Virglio quem estivera assim, com medo de ficar sozinho.
Maneca Dantas parou de falar, se lembrando.
    E veio o crepsculo, os trabalhadores retornavam das roas. Horcio se levantou, mais uma
vez olhava pela janela a estrada que o crepsculo cobria de tristeza. Foi l dentro, se despediu de
dona Auricdia, deu uma prata ao afilhado. Maneca Dantas saiu com ele para o terreiro onde o
cavalo o esperava. Quando ps o p no estribo, Horcio voltou-se, avisou a Maneca:
    - Vou mandar liquidar ele...

                                                2

   Maneca Dantas tinha vontade de arrancar os cabelos. "Doutorzinho teimoso!" J gastara
todos os argumentos para convence lo de no ir a Ferradas nessa noite e Virglio estava ali
empacado naquela idia de ir, de ir por cima de tudo, empacado que nem um jumento que  o
bicho mais burro do mundo. E isso que no havia duas opinies em Ilhus: Dr. Virglio era um
homem inteligente
   Maneca Dantas nem sabia mesmo por que gostava tanto do doutor... Mesmo quando tivera
certeza de que ele era amante da comadre, que botava os cornos no compadre Horcio, nem
ento deixara de estim-lo, apesar de que Horcio era quase venerado por Maneca, devia ao
coronel muito do que possua. Horcio lhe dera a mo quando ele estava mal, lhe ajudara a subir
na vida. Pois nem quando descobriu que o Dr. Virglio dormia com Ester, nem assim Maneca
Dantas tomou raiva dele. Passou dias de agonia, no medo de Horcio descobrir tudo, de tomar
uma vingana terrvel contra Ester e Virglio. Quando a comadre morrera, a sua tristeza estava
misturada com uma certa alegria, fora uma morte triste, sem dvida: porm seria pior, muito pior,
se Horcio descobrisse tudo e ela morresse ainda mais tragicamente. Como morreria, Maneca
Dantas no sabia. Mas imaginava, apesar de sua imaginao no ser grande, coisas horrorosas.
Ester posta num quarto com cobras, como numa histria que o jornal publicara certa vez.
Quando a febre a levou, Maneca Dantas sentiu muito, mas respirou aliviado: o caso estava
resolvido. E no  que agora, tantos meses passados, Horcio havia de descobrir cartas de amor,
e de, com toda razo querer matar o advogado?... Tambm Maneca Dantas no sabe por que
diabo essa gente que engana marido, com tanto perigo, ainda se d o luxo de escrever cartinhas
de amor. Coisa de idiota. . . Ele de quando em vez tinha uma amante,  claro que nunca mulheres
casadas. Era uma que outra rapariga bonita que enchia o olho de Maneca Dantas e ele lhe
montava casa. Ia l, dormia, comia e bebia, mas escrever carta, nunca... As vezes recebia uma ou
outra... Eram quase sempre pedidos de dinheiro, mais ou menos urgentes. Pedidos de dinheiro
que vinham misturados com beijos e frases carinhosas. O Coronel Maneca Dantas rasgava logo
as cartas, antes que o olfato fino de dona Auricdia sentisse o cheiro impuro de perfume barato
que sempre as impregnava... Pedidos de dinheiro, nada mais...
    Maneca Dantas se lembra dessas cartas enquanto Virglio na sala de jantar serve uma pinga
nos clices. Destrua todas? A verdade  que uma carta ele nunca destrura e a levava na carteira,
at hoje, escondida entre papis. Era um perigo dirio que corria: imaginem se dona Auricdia
descobrisse! O mundo vinha abaixo, com certeza. Maneca Dantas, apesar de estar s na sala, olha
em redor, se certifica de que ningum o espia, abre a carteira e saca, de entre contratos de venda
de cacau, uma carta garatujada com uma letra feia, cheia de borres e de erros de ortografia. Fora
Doralice, uma pequena que ele tivera na Bahia, certa vez que se demorara dois meses na capital
fazendo um tratamento na vista. Conhecera-a num cabar, viveram juntos aqueles meses, de
todas as mulheres que ele tivera ela fora a nica que lhe escrevera uma carta sem pedir dinheiro,
do princpio ao fim. Por isso ele a guardara, apesar de Doralice ser apenas uma recordao vaga e
distante, ainda assim doce recordao. Ouve os passos de Virglio, mete a carta no bolso. O
advogado entrou, os clices e a garrafa se equilibrando numa bandeja.
    Maneca Dantas bebe a cachaa, volta a bater na pobre histria que fora o mximo que sua
imaginao conseguira: "que ouvira um boato de que Sinh Badar ia mandar tocaiar Dr. Virglio
nessa noite, no caminho de Ferradas, para se vingar da morte de Juca". Virglio ri:
    - Mas isso  idiota, Maneca... Totalmente idiota. E logo no caminho de Ferradas, uma estrada
do coronel Horcio... Se h um lugar seguro  o caminho de Ferradas... E eu no vou deixar meu
cliente esperando. Alm de que,  um eleitor...
    O que lhe parecia cmico era a idia de uma tocaia contra ele no caminho de Ferradas, feita
por gente dos Badars:
    - E no caminho de Ferradas, nas barbas de Horcio?
    Manecas Dantas se levantou:
    - O senhor quer ir por cima de tudo?
    - Vou, no tenha dvida...
    Ento Maneca Dantas perguntou:
    - E se fosse o prprio compadre quem quisesse...
    - O coronel Horcio?
    - Ele descobriu tudo.. - Maneca Dantas olhava para o lado, no queria ver o rosto do
advogado.
    - Descobriu o que?
    - Os negcios de vosmec mais a comadre.. Tambm essa mania de carta... Ele foi remexer
nas coisas dela.. - olhava para o lado, a cabea baixa, parecia o culpado de tudo, no tinha
coragem de fitar o rosto de Virglio.
    Mas este no sentia nenhuma vergonha do acontecido. Fez Maneca Dantas sentar-se ao seu
lado e lhe contou tudo. As cartas? Sim, escrevia cartas, recebia dela tambm, era uma maneira de
estarem prximos naqueles dias em que no podiam se ver, no podiam estar juntos, entregues
um ao outro. . Narrou todo o romance, disse da sua felicidade, dos projectos de fuga, das noites
de amor. Falou palavras apaixonadas, lembrou a morte dela. Sim, ele tinha compreendido o
desespero de Horcio naquele dia em que ela morrera e por isso se ligara a ele, no havia ido
embora, ficara ali para fazer-lhe companhia.
    - Era uma maneira de estar perto de Ester, compreende?
    O coronel no compreendia direito, mas essas coisas de amor so sempre assim... Virglio fala
sem parar. Por que no ia embora? Por que queria estar ali, perto de Horcio, ajudando o coronel
nos negcios? Ali tudo lhe lembrava ster a morte dela o prendera ali para sempre. Os outros era
o cacau que prendia, a ambio de dinheiro. Ele estava preso pelo cacau tambm, mas no por
intermdio do dinheiro. Estava preso pela lembrana dela, o corpo que estava no cemitrio, a sua
presena que estava em toda parte, no palacete de Ilhus, na casa do Dr. Jess, ali em Tabocas, na
fazenda, e em Horcio, principalmente em Horcio. . . Virglio no tinha ambies, gastava o
dinheiro como um louco, tudo o que ganhava, nunca quisera comprar roa de cacau, queria
apenas estar perto dela e ela estava ali naqueles povoados e naquelas fazendas, cada vez que uma
r gritava na boca de uma cobra ele a tinha nos braos novamente, como naquela primeira vez na
casa-grande da fazenda.
    - Compreende, Maneca?
    E ri melanclico, e diz que Maneca Dantas no pode compreende-lo. So quem teve um amor
doido na vida, um amor desgraado, poder entender o que ele est dizendo. Maneca Dantas no
encontra nada melhor que mostrar-lhe a carta de Doralice, nica maneira de expressar sua
solidariedade.
    Virglio a l, as palavras umedecem os olhos de Maneca
Dantas:

                                          "Saudaes"

    Meu querido Maneca estimo que esta mal traada linha v Li encontrar gozando perfeita sade.
Maneca vosse foi muito ingrato para mim no escreveu a sua sempre esquecida Doralice que est
a sua espera. Maneca eu mando Li perguntar quando vosse vem para eu li esperar no caes de
desembarque. Maneca todas as noites quando eu vou dormir sonho com vosse. De todos nossos
passeio que ns dava eu vosse, Editi e a Danda cantando o maxixe de nome Dei Meu Corao.
Maneca vosse t em Ilhus no v pra rua das putas para no vim fraco. Tumara que vosse j
chegue que  para ns goz. Meu filinho quando  que eu tenho a sorte de goz u seu belo
corpo???!!! Mas no tem nada u que  seu est guardado. Maneca escreva para mim quanto mais
breve milhor. Maneca vosse meadisculpe os erro nada mais, aceiti muito beijo da sua preta
DORALICE. Nada mais. Olhe u endereo 98 rua 2 de Julho. Adeus da sua ESQUECIDA
DORALICE".
    Quando terminou de ler, Virglio perguntou:
    - Era bonita?
    - Era uma boneca... - a voz de Maneca Dantas est trmula. Ficaram sem assunto, Virglio
olhando o coronel que guardava a carta no meio dos papis que enchiam a carteira. At ele, um
coronel de Ilhus, tinha a sua histria de amor... Virglio serve mais cachaa. Maneca Dantas volta
a insistir:
    - Eu gosto do senhor, doutor, eu lhe peo que no v. Tome um navio, v para a Bahia, o
senhor  um moo inteligente, em qualquer parte faz carreira...
    Mas Virglio diz que no. No deixar de ir a Ferradas nessa noite. Morrer no lhe importa, o
triste  viver sem Ester. O coronel compreende? Que lhe importa viver? Se sentia sujo, metido
naquele visgo de cacau at o pescoo. . . Quando Ester era viva, restava a esperana de ir embora
com ela. . . Agora, nada mais importa... Maneca Dantas lhe oferece tudo o que pode oferecer:
    - Se e for mulher, Doutor, eu lhe dou, se o senhor quiser, o endereo novo de Doralice... 
uma beleza, o senhor vai esquecer...
    Virglio agradece:
    - Voc  um homem bom, Maneca Dantas. . .  curioso como vocs podem fazer tantas
desgraas e, apesar disso, serem homens bons. . .
   Concluiu de um modo definitivo:
   - Vou hoje a Ferradas... Se tiver tempo morrerei como manda a lei daqui, a lei do cacau,
levando um comigo. . . No  assim mesmo?
   E, pela noite Maneca Dantas o viu partir montado, sozinho, rumo de Ferradas, seu riso triste.
Comentou para si mesmo:
   - To moo, coitado!
   Na estrada, Virglio ouve a voz que canta sobre os barulhos de Sequeiro Grande:

                                 "Eu vou contar uma histria
                                 Uma histria de espantar. . ."


    Uma histria de espantar, a histria daquelas terras, a histria daquele amor. Uma r grita na
boca de uma cobra. Uma vez Virglio sonhara um sonho romntico: aparecera  noite, num
cavalo preto, na varanda da casa-grande. Seria a enorme lua amarela no cu, sobre os cacaueiros e
sobre a mata. Ester o esperaria medrosa e tmida, afoita porm no seu medo e na sua timidez, ele
nem pararia o cavalo. Tomaria dela pela cintura e a poria na garupa, partiriam por entre as roas
de cacau, cortariam as estradas, os povoados e as cidades, cortariam no seu cavalo negro o mar
dos transatlnticos e dos cargueiros, iriam no seu galope para outras terras distantes. Silva a
cobra, grita a r assassinada. Ester vai na garupa do cavalo, de onde veio ela? Virglio solta a
rdea, deixa que o cavalo corra. O vento corta seu rosto. Ester vai segura na sua cintura. Uma
histria de espantar. Iro para o fim do mundo, os ps livres do visgo de cacau mole que os
prende ali... esse cavalo tem asas, iro para muito longe das cobras, das rs assassinadas, para
muito longe das roas de cacau, dos homens mortos na estrada, das cruzes iluminadas por velas
nas noites de saudade. Pelos ares vai o cavalo negro sobre as roas, sobre as matas, sobre as
queimadas e clareiras. Ester vai com Virglio, gemero de amor na noite de luar. Vo pelos ares, 
desenfreado o galope do cavalo. . . O luar envolve a noite, chega uma msica de longe. Um
homem canta:

                                 "Eu j contei uma histria,
                                 Uma histria de espantar. .."

    E como uma marcha nupcial. Nunca ningum saber que o ltimo verso daquela histria seria
escrito nessa noite, na estrada de Ferradas. Que importa a morte, um tiro no peito, uma cruz na
estrada, uma vela acendida por Maneca Dantas, se Ester vai com ele na garupa do seu cavalo
negro para outras terras que no sejam essas terras do cacau? A msica o acompanha como uma
marcha nupcial. Uma histria de espantar.

                                                3

   A cidade de Ilhus despertou emocionada. As ruas estavam atapetadas de flores, bandeiras
pendiam das janelas dos sobrados, os sinos repicavam festivos na manh alegre. A multido se
encaminhava para o cais, enchia a ponte de desembarque. Vinham os colgios: as moas do
Ginsio Nossa Senhora da Vitria que era o colgio das freiras, recm-terminado e que dominava
a cidade do alto do morro, os meninos e meninas dos colgios particulares, os mais pobres do
Grupo Escolar. Vinham todos nos uniformes de festa, as moas do colgio das freiras traziam
uma fita azul sobre os vestidos brancos, smbolo de congregaes religiosas. A Banda de Msica
passou tambm, no vistoso uniforme vermelho e negro, tocando marchas na manh
movimentada. Braz comandava os soldados de polcia que levavam os fuzis ao ombro. Na ponte
se apertavam os homens mais importantes da cidade, envergando os fraques negros das grandes
ocasies. Dr. Jess, actual prefeito de Ilhus, suava sob o colarinho duro, recordando as frases do
discurso que ia pronunciar dentro em pouco e que levara dois dias decorando. Sinh Badar veio
tambm, com a filha e o genro, o coronel coxeava um pouco da perna direita, a que fora ferida
no assalto  casa-grande. No porto, governistas e oposicionistas se confundiam, misturados entre
padres e freiras. At Frei Bento descera de Ferradas, conversava com as freiras na sua lngua
atrapalhada. O comrcio fechara nesse dia, a multido se espalhava pelo cais.
    A venda do espanhol, que era perto da ponte, estava cheia de gente. O de anelo falso, que
perdoara generosamente ao espanhol as suas informaes  polcia, dizia ao de colete azul:
    - Ora um Bispo... E o que  um Bispo para se fazer tanto barulho? Uma vez eu conheci um
Arcebispo no Sul. Sabe o que parece? Parece uma lagosta cozida...
    O de colete azul no discutia. Podia ser verdade, quem sabe? Nesse dia chegava o primeiro
Bispo de Ilhus. Um recente decreto papal promovera a parquia de Ilhus a diocese. Um
cnego da Paraba fora sagrado Bispo. Os jornais da Bahia diziam que era um homem de grandes
virtudes e grande saber. Para Ilhus era o Bispo, era a importncia adquirida pela cidade, era o
progresso. Apesar da falta de religiosidade que, segundo o cnego Freitas, caracterizava essa terra,
Ilhus estava orgulhosa de possuir um Bispo e se preparava para receb-lo regiamente.
    Gente veio correndo pela praia, j se avistava o navio perto da pedra do Rapa. Pelas ruas
estreitas passavam homens e mulheres apressados, a caminho do porto. As beatas levavam xales
negros na cabea, no podiam sequer falar de to nervosas. As moas e os rapazes aproveitavam
para namorar. At prostitutas tinham vindo, mas olhavam de longe, so haviam juntado em um
grupo alegre por detrs das barracas de venda de peixe. Passavam padres, os habitantes da cidade
se perguntavam de onde haviam sado tantos. Chegaram, dos povoados do interior, os vigrios de
Itapira e de Barra do Rio de Contas, haviam feito uma viagem difcil para vir cumprimentar o
Bispo.
    Um grande tapete se estendia na ponta de desembarque, era o tapete da escadaria nobre da
Prefeitura. Sobre ele o Bispo pisaria.
    O navio comeou a cruzar a barra, vinha embandeirado, apitou longamente. Foguetes
espoucaram no ar, na ilha do Pontal. Os soldados disparavam seus fuzis, num arremedo de salva.
Os padres, o Prefeito, os coronis e as freiras, os comerciantes ricos tambm se adiantaram pela
ponte. O navio atracou entre vivas, os foguetes subiam, explodiam por cima da cidade. Os sinos
badalavam, o Bispo desceu, era um homenzinho baixo e gordo. Dr. Jess iniciou seu discurso de
boas-vindas.
    A multido acompanhou o Bispo at  casa do cnego Freitas, onde houve um almoo
ntimo, as pessoas gradas apenas. A tarde rezou-se bno solene na Catedral de So Jorge.
Maneca Dantas levou os filhos, o que se chamava Rui declamou uns versos saudando o "pai
espiritual". O prelado louvou a precoce inteligncia da criana. Sinh Badar tambm visitou o
Bispo, pediu sua bno para o neto que ia nascer.
    A noite houve fogos de artifcio, enquanto na Prefeitura se celebrava o grande banquete que a
cidade de Ilhus oferecia ao seu primeiro Bispo. O novo promotor falou em nome do povo, o
Bispo agradeceu em breves palavras, dizendo de sua satisfao em se encontrar entre os
grapinas. Logo depois do banquete, o bispo se retirou, estava cansado. Mas a festa se prolongou,
e, por volta das duas da madrugada, Dr. Rui saiu inteiramente bbedo. Ia tropeando pela rua,
no encontrava ningum, no cais deparou com o homem do anelo falso e,  falta de outro, lhe
explicou a sua teoria:
    - Em roa de cacau, nessas terras, meu filho, nasce at Bispo, nasce estrada de ferro, nasce
assassino, caxixe, palacete, cabar, colgio nasce teatro nasce at cobra .. Essa terra d tudo
enquanto der cacau...
    O que no concordava com o artigo que o Dr. Rui publicara nesse dia em "A Folha de
Ilhus". Alis, pela primeira vez, o pensamento de "A Folha de Ilhus" coincidia com o de "o
Comrcio". Exaltavam ambos o progresso do municpio e da cidade, ressaltavam a importncia
da vinda do Bispo faziam ambos profecias sobre o futuro esplendoroso reservado a Ilhus.
Manuel de Oliveira escrevia: "A elevao a diocese no  seno um ato de reconhecimento ao
progresso vertiginoso de Ilhus, conquistado pelos grandes homens que sacrificaram tudo ao
bem da ptria:' E Dr. Rui concordava no outro jornal: "Ilhus, bero de tantos filhos
trabalhadores, de tantos homens de inteligncia e de carcter que abriam clareiras de civilizao
na terra negra e brbara do cacau." Era a primeira vez que os dois jornais estavam de acordo.
   O entanto, se equilibrando no cais, Dr. Rui repetia, aos berros, ao homem do anelo falso:
   - Tudo  o cacau, meu filho... Nasce at Bispo em p de cacaueiro. . . at Bispo. .
   Para o do anelo falso nada era impossvel no mundo:
   - E da, quem sabe?

                                               4

    E, aps as eleies que levaram o Dr. Jess Freitas  Cmara Federal como deputado do
governo ("que ir fazer l essa cavalgadura?", perguntara o Dr. Rui aos conhecidos), e que
transformara o interventor em governador constitucional do Estado, um decreto criou o
municpio de Itabuna, desmembrando-o do de Ilhus. A sede do novo municpio era o ex-arraial
de Tabocas, agora cidade de Itabuna. Uma ponte sobre o rio ligava os dois lados da jovem
cidade.
    Horcio, que tinha elegido Maneca Dantas para Prefeito de Ilhus na vaga de Jess, elegeu
para Prefeito de Itabuna o seu Azevedo, aquele mesmo da loja de ferragens que fora homem
devotado dos Badars e por eles se arruinara. Seu Azevedo no sabia estar por baixo em poltica
e entrara em acordo com Horcio. Seus eleitores haviam votado para Dr. Jess na chapa de
deputados, seu Azevedo em troca ganhou a nova Prefeitura.
    No dia da posse armaram com flores e folhas de coqueiro um arco-de-triunfo na Praa da
Matriz. Num recorde de tempo havia sido construdo um prdio moderno para a Prefeitura. De
Ilhus chegara um trem especial trazendo Horcio, o Bispo, Maneca Dantas, o juiz, o promotor,
fazendeiros e comerciantes, senhoras e moas. Toda a gente importante daquela que passou a ser
a "cidade vizinha". Na estao, os habitantes da Itabuna se empurravam para apertar a mo de
Horcio.
    A posse do primeiro Prefeito foi solene. Seu Azevedo ao prestar juramento, jurou tambm, no
discurso que pronunciou, eterna fidelidade poltica ao Governador do Estado e ao coronel
Horcio da Silveira, "benfeitor da zona cacaueira". Horcio o olhava com seus olhos midos.
Algum murmurou ao lado do coronel, se referindo  pouca fidelidade de seu Azevedo aos
partidos:
    - Quem no te conhece que te compre, cavalo velho...
    Mas Horcio acrescentou:
    - Ele vai andar com a rdea curta..
    A tarde houve quermesse na praa, leilo de prendas, retreta. A noite o grande baile no salo
principal da Prefeitura. As moas e os rapazes danavam. O Bispo no achou conveniente ficar
no salo de danas, foi para outra sala, onde estavam servindo o buffet. Doces finos
encomendados s irms Pereiras, "verdadeiras artistas", segundo Maneca Dantas que era
conhecedor. E toda classe de bebidas desde champanha at cachaa. Em torno ao Bispo se
formou uma roda, Horcio, Maneca Dantas, seu Azevedo, o juiz, Braz, vrios outros. Encheram-
se as taas mais finas com o mais fino champanha. Algum brindou pelo Bispo, depois o
promotor de Ilhus, que queria agradar a Horcio, levantou sua taa para brindar pelo coronel.
Fez um breve discurso exaltando a figura de Horcio. Terminou lamentando inocentemente que
"no estivessem ali ao lado do coronel Horcio da Silveira, nesta hora do seu grande triunfo de
cidado, nem a sua dedicada esposa, a sempre recordada dona Ester, vtima abnegada do seu
devotamento e amor ao esposo, nem aquele inesquecvel cidado que tanto trabalhara pelo
progresso do novel municpio de Itabuna, Dr. Virglio Cabral, que morrera nas mos de
mesquinhos inimigos polticos!" O orador afirmou que isso se dera nos tempos, prximos e j to
distantes, em que todavia a civilizao no alcanara essas terras, quando Itabuna ainda era
Tabocas. "Hoje esses fatos, disse, so apenas recordaes tristes e lamentveis:'
   Suspendeu a taa brindando. Horcio estendeu a mo, levantou sua taa tambm, bateu com
ela na do promotor bebendo em lembrana de Ester e de Virglio. Quando os clices se
encontraram, sonoridades claras e pequenas se elevaram no ar.
   - Cristal bacarat... - disse Horcio ao Bispo que estava a seu lado.
   E sorriu um sorriso cheio de doura e de satisfao.

                                                       5

   Cinco anos demoravam os cacaueiros a dar os primeiros frutos. Mas aqueles que foram
plantados sobre a terra de Sequeiro Grande enfloraram no fim do terceiro ano e produziram no
quarto. Mesmo os agrnomos que haviam estudado nas faculdades, mesmo os mais velhos
fazendeiros que entendiam de cacau como ningum, se espantavam do tamanho dos cocos de
cacau produzidos, to precocemente, por aquelas roas.
    Nasciam frutos enormes, as rvores carregadas desde os troncos at os mais altos galhos,
cocos de tamanho nunca visto antes, a melhor terra do mundo para o plantio do cacau, aquela
terra adubada com sangue.

                                                                              Montevidu, agosto de 1942.




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